Heartbeats
4 Lake of Fire
"Where do bad folks go when they die?
They don't go to heaven where the angels fly
Go down to the lake of fire and fry"
Lake of Fire-Nirvana
Enquanto Téo subia pelas escadas dentro do prédio, eu subia pelas exteriores, usadas como saída de incêndio, hora ou outra olhava para ver se Jane e Chuck permaneciam dentro do carro, Jane implorou durante todo o caminho para que fosse no lugar dele, claramente, ninguém pareceu notar, ela desistiu de ser ignorada. Não gosto de fazer isso com ela, mas qualquer movimento em falso poderia botar tudo a perder.
Alcançando a janela certa, vi Téo já do lado de dentro, caminhando, procurando entre a bagunça que elas deixaram, elas. Constatando que não havia ninguém na casa, ele me chamou para dentro. Entrei devagar e deixei a janela aberta como Jane havia pedido, tudo estava no chão, todas as coisas foram reviradas, felizmente não tinha nada que podia nos entregar, nada.
- Elas detonaram o lugar, vou olhar no banheiro.
Disse Téo olhando perplexo para a bagunça na sala-cozinha de Jane.
"MERDA" ouvi Téo xingar alto no banheiro, corri, chegando na porta pude entender a razão da raiva dele, enforcaram o gato da Jane no chuveiro, no espelho deixaram escrito com batom "Olha coelhinho" com várias setas que apontavam para um lugar em cima da pia onde havia uma carta delas.
Peguei a carta e quase abri na hora porém a coloquei no bolso e fui ajudar Téo a tirar o gato da forca e a coloca-lo em uma caixa, corri para o quarto da Jane, peguei algumas roupas que podiam ser uteis pra ela, quando voltei encontrei Téo sentado no sofá da sala:
- Tem alguma coisa que você queira pegar na sua casa Téo? Você pode ficar se você quiser.
- Eu quero ir com vocês, mas vou pegar umas roupas sim.
Esperei enquanto arrumava a mala, em alguns minutos comecei a pensar, em como as coisas estavam indo, na forma como estavam péssimas. Nós precisávamos fazer alguma coisa, tinha de falar sozinho com a Jane. Em poucos minutos Téo voltou e interrompeu meus pensamentos, ele carregava consigo uma mochila.
- Você tem certeza?
Perguntei, ele pareceu ter duvida na hora de responder, mas tinha certeza, me pergunto como era a relação dele com a Jane, eles não namorariam, ele é muito novo, mas viviam conversando.
Os dois tem insônia, quando eu morava no apartamento ainda, vivia ouvindo eles conversando pela janela, já que o quarto de um ficava ao lado do quarto do outro. Será que valia se arriscar assim ou ele não tinha noção do que tinha se metido? Ninguém tinha noção, nem eu.
Saímos do apartamento depois de fechar e trancar as portas, seria o sinal de que recebemos a mensagem, começamos a descer a escada, não acabamos de descer o quarto degrau quando ouvi o barulho do elevador parando no andar em que estávamos, ignorei e desci mais um degrau o que me impediu de continuar foi o que ouvi junto com a porta do elevador se abrindo.
Ouvi um assobio, de algo que eu ouvi à muito tempo, uma musica, uma musica de um desenho infantil, conhecia a melodia, imediatamente eu soube que era a Jenny que havia acabado de sair do elevador, subi as escadas de volta para espiar e confirmar a suspeita, era ela mesmo, pacientemente entrando no apartamento com uma cópia da chave, não podia perder essa oportunidade.
Téo notou que eu não estava descendo e voltou pra me perguntar algo mas não o permiti formar uma sentença:
- Fala pra Jenny subir com as armas pela escada de incêndio.
- Mas...
-Só vai.
Téo começou a correr escada abaixo enquanto eu voltava para o corredor, caminhei o mais silenciosamente possível, a vizinhança não era quieta, haviam várias casas com crianças fazendo barulho então passei disfarçado, cheguei a porta ainda aberta e entrei como se ainda morasse lá e tivesse chegado às 3 da manhã.
Nenhum sinal dela na sala, tranquei a porta e guardei a chave. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, ela não podia ser tão burra assim, voltar sozinha no dia seguinte, ela queria alguma coisa.
- É você coelhinho?
Parece que eu não era tão silencioso como eu pensava.
- Sou eu, por que você me chama assim? Para com essa merda.
-Você foge como um coelhinho, o que mais eu posso fazer?
Disse ela do quarto de Jane.
Quando voltou para a sala segurava um porta-retratos, ela olhava nos meus olhos quase chorando, depois de tantos anos fantasiando em matar ela, nunca pude imaginar que ela me olharia assim quando me visse outra vez, não achei também que ela me veria outra vez.
- Eu sinto muito Daniel.
Ela sentia muito, que amor de pessoa ela, ela sentia muito, engraçado também ela viver se fazendo e falar sério dessa vez.
- Eu também, eu sinto MUITO.
- PARA!
Ela deixou cair o porta-retrato no chão, deu mais uma olhada na foto nele que ele continha, eu pude ver também era uma de Jane e seus dois irmãos de coração, ela tapou os ouvidos com as mãos e começou a chorar.
- VOCÊ VAI CHORAR JENNIFER? VOCÊ VAI MESMO CHORAR? POR QUE VOCÊ VAI CHORAR JENNY? VOCÊ OUVE ELES GRITANDO NA SUA CABEÇA ?
Ela começou a chorar tanto que se jogou no chão, vi pela janela o topo da cabeça da Jane avançando ao subir a escada. Me agachei perto dela e passei as mãos em seus cabelos, nem ela e a irmã tiveram a capacidade de mudar nada, continuavam fisicamente intactas às gêmeas da minha memória, calmamente a disse:
- Mas tudo bem meu amor, porque agora, nós vamos passar um tempo juntos, como nos velhos tempos.
Jenny levantou os olhos para mim quando eu sorri, ainda chorando ela começou a se arrastar pela casa tentando fugir de mim, pude ouvir a janela abrindo atrás de nós se abrir e o andar lento de Jane entrando na sala, Jenny continuava a se arrastar, eu tinha perdido a cabeça.
- Ué, você tá fugindo de mim coelhinha? Vem aqui.
Ela se levantou, quando tentei segura-la me mordeu e saiu correu para a porta, mesmo sabendo que estava trancada. Ela tinha escutado tudo, ela me ouviu voltar, ela assobiou de propósito, ela ouviu a porta bater, ela esperou por nós, por que ela esperou por nós?
- EU SINTO MUITO.
- Você não sente nada.
Jane chegou na minha frente, muito mais preparada do que eu, segurando uma das nossas armas:
- Você vai com a gente pela escada de incêndio, nós vamos conversar em um lugar quieto.
Jenny começou a chorar mais ainda, correu para mim e me abraçou. Como ela podia recorrer à mim como alguém que fosse protege-la ?E mais importante como esse tipo de ação ainda podia ter efeito sobre mim, eu empurrei ela pra longe de mim.
- Jennifer você não vai mais encostar em mim.
Jane ainda apontava a arma para Jenny só que de uma forma que se ela atirasse, nós dois seriamos feridos, ao notar o que estava fazendo começou a apontar a arma para a cabeça da Jennifer, falando:
- Olha, você vai engolir esse choro todo ou eu vou atirar em você e se você acha que eu não vou atirar em você é muita burrice da sua parte. Daniel, pegue a caixa de remédios.
Peguei a caixa e esperei mais instruções, não era louco de discordar dela nesse momento. Ela me mandou amarrar as mãos da Jennifer e dar dois comprimidos dos calmantes fortes que ela tomava para que Jenny apagasse, em nenhum momento Jane tirou a arma da mira da cabeça da refém.
Seguindo as ordens dela coloquei o sobretudo do pai de Téo nas costas da Jenny, passei meu braço ao redor dela trazendo na minha mão direita um canivete. Me pergunto até hoje quantas possibilidades Jane analisou para saber exatamente como agiríamos em casos de emergência. Descemos as escadas que ficavam no interior do prédio, apesar de ser dia, ninguém entrou no nosso caminho ou sequer nos notou andando por ali, cada ocupado com a própria vida barulhenta.
Em alguns minutos chegamos ao carro, os remédios estavam fazendo efeito, Jennifer parecia sonolenta quando a colocamos no banco de trás, Téo e Chuck pareciam não acreditar na situação e olhavam para nós como se fossemos os assassinos, Jane se virou para a Chuck e disse:
- Dirija, preciso pensar pra onde ir.
Chuck dirigiu, por quase meia hora, Jane olhava pela janela concentrada, tinha parado de apontar a arma para a Jennifer quando viu que ela estava dormindo, ela cutucou Téo e se inclinou para falar alguma coisa que ele repetiu para Chuck fazendo a dar meia-volta com o carro e dirigir por estradas que eu não me lembrava bem aonde levavam mas que também não me eram tão estranhas, demorou mais uma hora para chegarmos até um lugar completamente abandonado, uma grande fazenda se desfazendo pelo efeito do tempo , mesmo andando inúmeras vezes pelos limites da cidade nunca havia notado essa casa antes de hoje.
Não entramos na fazenda em si, colocamos Jenny deitada onde costumava ser o celeiro, encostamos a porta e começamos a conversar, Teo foi o primeiro a trazer a tona o assunto que nós havíamos evitado até agora:
- O que vocês vão fazer com ela?
Ele nos disse apreensivo, buscando algum suporte no olhar de Chuck, deixei Jane responder, ela tinha muita mais certeza das coisas do que eu:
- Não vamos matar ninguém agora.
- Vocês não podem fazer isso, entreguem ela pra polícia.
Chuck pronunciou aquelas palavras olhando para mim, não sei ao certo o que ela esperava de mim, acho que acreditava de alguma forma que eu fosse o elo mais fraco.
- Nós vamos matar as duas só que não vai ser hoje.
Olhei para ela de volta com o máximo de seriedade que pude, senti um alivio vindo de Jane, ela estava ao meu lado espiando Jenny por uma fresta na porta.
- Olha, vocês podem ir embora se quiserem, fico feliz por poder contar com o seu sigilo até agora e sinceramente esperamos poder contar com ele ainda.
Disse embora não quisesse que eles fossem, preferia que eles ficassem porém existem certas coisas na vida que precisamos enfrentar sozinhos, comigo e com Jane talvez fosse isso, algo que precisássemos enfrentar sozinhos.
- Nós vamos embora.
Chuck pegou Téo pela mão, nos lançou um daqueles 'últimos olhares' e o guiou até o carro, Jane abandonou a sentinela que fazia em frente a porta do celeiro e foi atrás deles, conversou um pouco com Chuck que à distância não parecia mais tão preocupada com a situação, alguns minutos elas se abraçaram e Chuck entrou no meu carro deixando nós dois sozinhos.
- O que você disse para a Chuck?
Tive que perguntar a Jane enquanto ela se aproximava de mim.
- Eu falei pra ela o que nós vamos fazer e expliquei a situação.
- Hm, claro e você pode me dizer o que nós vamos fazer?
- O próximo passo é falar com ela e pegar informações úteis.
A menção da palavra informação me fez lembrar o bilhete que havia no meu bolso, então sorri e a disse:
-Tenho algo que talvez seja do nosso interesse.
Enquanto ela me olhou curiosa lhe entreguei o bilhete que as gêmeas haviam deixado em nosso apartamento, faziam quase 2 horas que Jenny estava dormindo:
- Leia em voz alta Jane, esperei para ler com você.
- "Meus amores, não sabemos se vocês estão juntos ou não por aqui porém aposto que ainda não perderam o contato então, você que estiver lendo nós gostaríamos de convida-los para tomar um chá conosco em um pequeno café na Rua Dorsia nº 403 às 17 horas na sexta-feira. Beijos de Sam e Jenny. P.S. : Cuidei daquele gato assassino de vocês."
-Que aconteceu com o gato?
- Elas enforcaram.
Jane parecia estar furiosa e até acho que ela ia me falar alguma coisa relevante quando nós começamos a ouvir o barulho dos passos de Jenny no feno do celeiro.
- Onde eu estou?
Não me contive e com o maior sarcasmo possível soltei:
- À um passo do paraíso meu amor.
Pudemos ouvir ela correndo cada vez mais rápido para a porta do celeiro.
- O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI? CADÊ A MINHA IRMÃ?
Fiz um sinal para Jane ficar quieta.
- CADÊ VOCÊS? ALGUÉM ME AJUDE.
Jenny gritava por socorro enquanto esmurrava a porta para tentar sair e Jane começou a gritar de volta.
- EU NÃO SEI MUITO DA VADIA DA SUA IRMÃ, MAS ADIVINHA SÓ? ELA MATOU A PORRA DO MEU GATO, ENTÃO TALVEZ, SÓ TALVEZ EU ENFORQUE ELA COM SOBROU DA CAUDA DELE. EU ATÉ IA CONVERSAR COM VOCÊ, MAS NÃO VAI SER POSSÍVEL, PORQUE VOCÊ MATOU O MEU GATO, VOU TER QUE SER MEIO OBVIA COM VOCÊS.
Com essas palavras Jenny ficou quieta por algum tempo acho que estava tentando processar o que estava acontecendo.
- O que vocês querem?
- Queremos mandar um recado para a sua irmã.
Mais silêncio, Jenny nunca foi do tipo pensativa porém nesta noite ela parecia tentar interpretar cada vírgula do que nós a dizíamos:
- Qual recado?
- Diga a ela, que nós vamos nos encontrar naquele chá com vocês e que é melhor vocês não tentarem armar nada contra nós.
A olhei perplexo, era só isso? Ela avisar que nós íamos tomar uma droga de um chá com elas? Isso era burrice, cochichei no ouvido de Jane:
- Vamos só atirar nela e deixar ela aqui pra morrer.
- Não, eu vou te explicar tudo agora, pegue a corda na minha mochila e amarre muito bem aqui na porta ok? Quero um nó cego.
Enquanto eu amarrava a porta do celeiro, Jane se afastava lentamente para a lateral do celeiro e conversava com Jenny.
- Jenny você está me ouvindo atentamente?
- S-s-sim.
O medo era quase implícito na voz dela.
- O-o-ok, vem para o lado esquerdo do celeiro para me ouvir melhor, daqui a pouco vou jogar o seu celular aí dentro e você vai ligar para sua querida irmã e avisar à ela duas coisas.
Disse Jane enquanto ria da gagueira.
- O que?
- A primeira coisa é transmitir o recado que eu te passei, você lembra?
- Que nós não devíamos tentar nada contra vocês?
Jane bateu palmas em sinal de aprovação à 'boa memória' de Jenny.
- Muito bom a segunda coisa é que você está em um lugar fechado e sentindo cheiro de queimado ao norte da cidade.
Terminei de trancar a porta e fui atrás de Jane, fiquei confuso à principio e me distraí pois enquanto ela falava pude ver na entrada da fazenda o carro de Chuck estacionando do lado de fora e segundos depois ela e Téo segurando galões enormes.
- Mas eu não estou sentido cheiro de queimado.
- Não ainda.
Jenny voltou a gritar e esmurrar a porta, ao ouvir essa reação Jane sorriu e me puxou pelo braço para irmos de encontro à eles, me aproximando disse a Chuck:
- Achei que tinham ido embora.
Chuck me passou o galão que segurava.
- Nós só tínhamos ido buscar combustível para vocês.
- Vamos apostar uma corrida Téo ?
Ele saiu abriu o galão que segurava e saiu correndo em resposta, corremos em círculos ao redor da casa principal da fazenda de modo que o fogo se espalharia ali primeiro, enquanto isso Jenny gritava até perder sua voz implorando para sair do celeiro, Chuck e Jane andavam calmamente ao redor do celeiro deixando cair uma quantidade muito maior de gasolina do que eu e Téo enquanto corríamos ao redor da casa.
Ao terminar de cercar a casa, Téo e eu fomos até o portão fazer uma trilha até o começo da nossa armadilha.
- Por que vocês voltaram?
Perguntei à ele, foi tão estranho eles voltarem assim.
- Parece que a Jane é muito convincente, Chuck não me contou cara só sei que saímos daqui e nos dividimos para comprar essas coisas em postos diferentes e aqui estamos.
Acreditei, era bem a cara da Jane me aparecer com um elemento surpresa, corri até ela enquanto Téo terminava com a gasolina. Quando consegui ver Jane outra vez ela estava acabando de passar o celular pela fresta na porta do celeiro e já começando a correr com Chuck na minha direção.
- O Téo acabou?
- Só falta acender — Lhe respondi.
- Então corre.
Gritou Chuck chacoalhando a chave do carro para nós.
Entramos todos no carro quando Jane reparou que eu ainda estava lá.
- Ei Dan, a honra é sua, ela era sua ex.
Ela me passou uma caixa de fósforos.
Ao descer do carro pude ver melhor a fazenda, passamos as últimas horas ali e eu nem havia notado que aquele lugar algum tempo atrás foi lindo, passei um bom tempo olhando e pensando em como um dia aquele lugar carregou a felicidade de várias pessoas e diversas coisas sentimentais demais para serem mencionadas por serem quase enjoativas.
Comecei a me perguntar sobre como para Jenny queimar até morte se sua irmã chegasse a tempo, o mais estranho é que imaginando isso acabei por me lembrar de quando ela me trancou no elevador na noite do tiroteio e me disse "Eu volto logo". Risquei o fósforo e sai correndo, quando entrei no carro pude ver o fogo seguindo o caminho que fizemos em direção ao celeiro.
- Vamos sair daqui antes de pegarmos fogo também.
Disse eu, uma vez que notei todos olhando para o caminho que o fogo seguia, transformando toda a extensão da antiga fazendo em um imenso lago de fogo.
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