Heartbeats
5 A rush of blood to the head
Chegamos à casa da Chuck algum tempo depois de termos abandonado Jenny naquele celeiro, novamente nos sentamos na cozinha para conversar sobre ' o que estava acontecendo e o que aconteceria depois'.
As garotas pareciam extremamente cansadas enquanto Téo andava de um lado para outro, ele não aguentou, vendo que não havia mais unhas para roer, parou perto dos armarinhos e nos perguntou:
- E agora?
Abaixei a cabeça e dei uma meia-olhada em direção à Jane, Téo era um problema só dela.
- Nós esperamos ela receber a mensagem.
Pergunta óbvia, respostas óbvias.
-Não, eu digo, o que vocês vão fazer?
Nos entreolhamos, nós nunca havíamos planejado bem o que faríamos depois de encontra-las nem nada do tipo, pelo menos não eu porque até onde parecia Jane tinha as ideais perfeitas do quê e o quê fazer com elas. Infelizmente enquanto Jane estava tentando responder Téo, o celular de Chuck começou a tocar e todos tivemos que ficar quietos pois aparentemente era algo do trabalho dela, ao terminar a ligação ela nos avisou:
- Me chamaram para fazer a cobertura fotográfica naquela fazenda lá.
Até aquele momento nem fazia ideia da profissão de Chuck ou de qualquer coisa sobre ela.
- Cuidado com o que você vai dizer ein.
Avisou Jane com um certo tom de brincadeira que Chuck levou a sério, ela começou a se levantar e pareceu ir para o quarto se trocar entretanto voltou no meio do caminho parando na soleira da porta da cozinha para nos dizer:
- Enquanto eu estiver lá por favor descansem bem ok? Vocês precisam comer, dormir e descansar, quando eu voltar a gente resolve o que vai fazer.
Jane lhe assentiu com um sorriso cansado:
- Não se preocupe, só faça seu trabalho e preste atenção nas coisas por nós.
Chuck concordou e cerca de quinze minutos depois saiu com o carro para o local do incêndio, pouco tempo depois de sua partida Jane resolveu ir dormir no quarto de dela e junto com Téo decidi que seria melhor se enterrássemos os galões no quintal.
Podia ver como ele estava preocupado com tudo que se passava a seu redor, ele mal conseguia cavar a terra direito:
- Téo, está tudo bem com você? Digo, fisicamente?
- Sim, só estou meio fora de órbita.
Ele me respondeu sem parar de fazer errado o que estava fazendo. Sempre pensei em Téo como um problema restrito a Jane, nunca fui contra ela traze-lo conosco o que é verdade porém não me agradava a ideia de envolver ele tanto nos acontecimentos da forma que ele estava envolvido.
- Você pode conversar comigo se quiser.
Ele soltou a pá e me olhou enquanto questionava:
- Como você aguenta?
- Aguento o que exatamente?
Agora eu havia abandonado minha pá e notado que enquanto imaginava o que estava se passando, cavei espaço para todos os galões.
- Tudo isso, toda essa coisa idiota de vingança, de atear fogo naquela garota, e o gato da Jane e tudo isso...
Ele se interrompeu vendo que eu já estava colocando os galões no buraco e veio me ajudar.
- A coisa Téo é que para você, não faz sentido, nada disso faz e isso é maravilhoso.
- Como assim?
- Aquele garota do celeiro, foi minha primeira namorada.
Ele ficou boquiaberto e parou tudo que estava fazendo para ouvir a história.
- Sério, ela foi meu primeiro amor ou algo que o valia, nunca gostei tanto de uma garota quanto gostei dela, ela pisou muito em mim, demorou para me dar uma chance e quando deu, me fez de idiota o tempo todo e por fim matou todos os meus amigos.
- Você nunca vai namorar minha prima ok?
Eu ri, estávamos quase acabando.
- Mas vocês não conseguem perdoar? Ou deixar essas coisas para a polícia resolver?
A última pá de terra cobriu o buraco mal feito de Téo, foi quando eu resolvi conversar melhor com ele.
- Elas são inteligentes demais Téo, elas mexeram com coisas muito sérias, você conhece a história toda?
Nos sentamos na varanda, no mesmo lugar onde conversei de verdade com a Chuck pela primeira vez.
- Bom, elas mataram umas 13 pessoas, certo?
- Errado, elas mataram muito mais do que foi noticiado, pelo menos mais umas 9 crianças da instituição que eram órfãs e viraram apenas números, depois algumas pessoas que atrapalharam na fuga delas sem falar que colocaram a minha família sob ameaça, atiraram na minha mãe.
Téo se impressionou com tudo que eu disse, parecia que até aquele momento ele não fazia ideia do quão sérios eram nossos motivos entretanto, ele continuou fazendo as perguntas erradas.
- Espera, você tem uma família, onde eles estão?
Tantas coisas para perguntar ele tinha mesmo que perguntar da minha família? A única família de verdade que eu tinha era a Jane:
- Minha família está dormindo no quarto da sua prima.
Ele me olhou franzindo o cenho e me contrariando:
- Mas você teve uma mãe, você acabou de dizer.
- Téo, ninguém quer um filho delinquente que põe todo mundo em perigo.
As perguntas pararam, reclamei um pouco de sono e me levantei para ir dormir no mesmo quarto que havia dormido antes, pude ouvir um pouco antes de dormir o som dos passos dele para lá e para cá no andar de baixo, o som da tv se ligando e depois de um certo tempo o noticiário da noite confirmando algo que tenho certeza que faria Jane sorrir.
"Hoje às 18 horas o corpo de bombeiros recebeu uma denúncia informando sobre um grande incêndio na antiga fazenda à beira da BR na entrada da cidade, os peritos afirmam que o incêndio foi criminoso, nenhuma vítima foi encontrada."
Pude ouvir o som de Téo correndo as escadas e parando ao lado da porta, me sentei na cama fingindo ter acordado com barulho que ele ao chegar na porta:
- Alguma novidade?
- Chuck me mandou uma mensagem, ela está vindo.
Isso me deu uma razão para ficar acordado, Téo me fez o acompanhar até sala de estar me falando que deveríamos esperar por sua prima pois ela poderia ter mais informações do que as divulgadas.
Ficamos sentados no sofá assistindo um filme épico qualquer quando quase duas horas depois pudemos ouvir Chuck estacionando o carro em frente a casa, não nos levantamos para dar qualquer tipo de recepção quando ela entrou, estávamos cansados demais para fazer qualquer coisa. Chuck entrou pela porta aparentando estar tão exausta quanto nós, jogou a bolsa no canto ao lado da porta e sentou-se ao meu lado:
- Dan vai acordar a Jane, preciso contar uma coisa para vocês três.
Me levantei e subi as escadas, enquanto me aproximava do quarto onde Jane dormia pude ver a porta entreaberta, olhei pela fresta que a porta formava e lhe perguntei:
- Você chegou a dormir?
Jane estava sentada na cama olhando para o chão.
- Não.
Ela continuava encarando o assoalho, entrei no quarto e me sentei ao lado dela.
- Dan o que nós estamos fazendo?
- Achei que você soubesse e tivesse esquecido de me contar.
De repente ela decidiu me olhar.
- Eu não tenho certeza de nada.
- Estou te seguindo nas decisões e parece que sei lá, as vezes você me deixa de fora, por que isso?
Sinceramente, não aguentava mais apenas seguir o plano incrível que existia só na mente dela.
- Ela era sua ex-namorada, sei lá, pareceu algo lógico.
- Sério? É a sua melhor desculpa?
Como ela podia usar aquela desculpa idiota? Eu odiava as gêmeas tanto quanto ela, era ridículo.
- Você ainda gosta dela, o que você queria que eu fizesse?
Mais idiotice, tive que tomar um tempo e respirar fundo antes de responder outra vez.
- Isso é besteira, acabei de atear fogo nela.
- Não, você sabe que não é.
Ela me olhou seriamente, como se o que ela estivesse me dizendo fosse tão obvio que se tornava invisível à minha própria visão do que estava acontecendo.
- Pare com isso, é desculpa sua.
Jane bufou e se jogou para trás na cama que estava sentada, continuando:
- Se você não gosta dela, por que não matou ela de primeira lá no apartamento? Por que não ateou fogo no celeiro?
Me levantei, estava cansando daquilo.
- Você fala como se fosse tudo ... eu estava esperando por você Jane.
- Ok, então tudo isso é o meu plano ideia e você é meu capacho?
Ela se sentou novamente ao perguntar, capacho? Essa discussão não tinha sentido.
- Eu não sou capacho de ninguém.
E não era mesmo.
- Então pare de agir como um.
Como eu poderia parar de agir como algo que eu não estava agindo?
- Ok, como?
- Pode começar parando de me perguntar as coisas e fazer por você mesmo.
- Tudo bem, chega disso, é pra você descer e ir falar com a Chuck.
Deixei o quarto bobo depois de ouvir tantos absurdos, até hoje quando me lembro dessa conversa tento imaginar o que estava se passando pela cabeça de Jane.
Quando cheguei à sala encontrei Chuck e Teo sentados no sofá me esperando, a ultima coisa que queria era que os dois tivessem ouvido minha conversa com Jane no andar de cima, esperamos mais um pouco até a Jane resolver dar o ar da graça e quando ela chegou Chuck finalmente começou a nos contar o que havia acontecido no local do incêndio.
- Eu cheguei lá quando eles ainda estavam tentando apagar o fogo, todo o celeiro queimou, vocês não tem noção, a coisa virou pó.
Pude sentir meus nervos à flor da pele, teria Sam abandonado a irmã para morrer queimada lá assim? Nosso 'aviso' fora em vão?
- Porém conversei com as pessoas certas e eles me contaram que uma garota foi registrada no hospital vizinho com queimaduras de 2º e 3º grau, coisa feia mesmo, acho que vocês deviam dar uma olhada provavelmente é ela.
Jane permaneceu calada e pensativa enquanto e depois que Chuck terminou de nos contar o que sabia, Teo não tinha noção alguma do que iria fazer entretanto eu já tinha em mente um plano só meu, não muito um plano mas algo que eu gostaria de ter feito há muito tempo.
- Chuck qual o nome do hospital que ela foi internada?
Todos os olhares se viraram para mim.
- St. John fica à alguns minutos daqui.
- Ótimo, me dê a chave do carro, quero ver ela.
Eles pareceram ainda mais surpresos com a minha decisão, parece que Jane estava certa, eu estava sendo o capacho.
- O que você vai fazer?
Perguntou Chuck com aquele tom repreensivo que já havia usado antes, não entedia porque ela continuava nos ajudando se não iria ganhar nada com isso.
- Eu vou conversar com ela.
- Eu vou com você.
Jane se levantou e se pôs ao meu lado.
- Você tem certeza?
Eu lhe perguntei.
- Sim.
Teo assim como ela já se apressou em garantir um lugar ao meu lado.
- Eu também vou, quero ajudar vocês.
- Teo dessa vez vai ser só nós dois.
E assim que Chuck entregou a chave do carro nós saímos em silêncio, não disse à ninguém o que pretendia fazer quando visse ela.
Já estava ficando tarde quando pegamos a estrada, não conseguia pensar no que dizer à ela depois da nossa conversa estranha à menos de uma hora atrás. Só sabia de uma coisa e por isso a disse:
- Eu vou entrar no hospital sozinho.
Ela me olhou espantada.
- Por que?
"Quero matar ela sozinho" pensei ao invés de responder.
- Quero perguntar umas coisas à ela, às sós.
Depois de algum tempo ela me respondeu um 'entendo' quase mudo enquanto adormecia com o rosto apoiado na janela.
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