Heartbeats
2 Run rabbit, run!
Meu nome é Daniel, trabalho em um bar mal frequentado à alguns quilômetros da cidade pequena onde hoje eu moro, acabei de completar vinte e dois anos e sou um sobrevivente só que não daquele jeito encorajador. Essa história não é minha, começa muito antes do que pretendo lhes contar e não vou deixar todos os detalhes claros, ela não gostaria que eu fizesse isso.
Resolvi começar pela noite em que, pode se dizer que depois de anos à procura finalmente encontramos o pote de ouro no fim do arco-íris.
Parei o carro em frente ao prédio da Jane naquela noite, geralmente eu o paro no estacionamento já que costumava morar ali à algum tempo atrás, só que naquela noite tinha certeza que não podia perder nenhum minuto achando uma vaga perfeita no estacionamento. Entrei no prédio, dei meu 'Oi' tradicional ao porteiro que me sorriu e olhou para o relógio, eram três da manhã, o hall velho do edifício parecia mais encardido do que da última vez que o vi, tentei parecer menos desesperado enquanto saia do campo de vista do porteiro e assim que o fiz comecei a subir as escadas do prédio correndo, quanto mais perto eu chegava, mais asfixiado me sentia, odeio elevadores mais do que tudo na vida e mesmo tendo que subir três andares até o apartamento 211, pegar o elevador estava fora de cogitação.
Chegando ao corredor pude recuperar meu folego, busquei a chave do apartamento em meu bolso mas não a encontrei creio que esqueci no bolso da jaqueta que ficou no bar, nunca vou saber o que aconteceu com as chaves. Caminhei devagar, parte pois não queria ser notado, parte porque precisava recuperar as forças. Quando parei na frente da porta certa e toquei a campainha ouvi elevador barulhento do outro lado do corredor se abrir.
Téo saiu lentamente e assim que me viu, veio correndo na minha direção:
— O que aconteceu Dan? Não faz barulho, não é pra ninguém saber que eu estou aqui fora.
Ele parecia cansado, meio despenteado, usava uma jaqueta velha e dava pra notar as manchas de óleo na camiseta branca e na calça jeans surrada, ele precisava dormir e isso era evidente, deve ter ficado trabalhando na oficina até altas horas, pensei um pouco antes de pedir alguma coisa para ele, mas tempos desesperados pedem medidas desesperadas:
- Cara, é sério, eu preciso falar com ela e estou sem a chave e o celular...
- Espera, eu tenho uma chave. Ele mexeu na carteira, de algum canto tirou uma pequena chave dourada e a estendeu pra mim.
- Por que você tem uma chave?
Eu cuido do gato quando ela viaja com você, fica com a chave, depois eu falo com ela.
Téo era o menino prestativo que morava com o pai ao lado do apartamento da Jane, era um bom rapaz, fazia tudo para ajudar o pai, estudava e à noite trabalhava em uma oficina, era alto, magrelo, moreno, com os olhos castanho.
- Obrigado.
- Obrigado nada, você nem me viu hoje, isso tudo é uma alucinação sua.
Disse ele rindo, o conheço à mais ou menos três anos, época em que eu e a Jane nos mudamos para cá, dissemos à todos que somos irmãos de pais diferentes, Jane de cara se deu muito bem com ele e comecei a lembrar o porquê na enquanto entrava no apartamento, mas não era hora de pensar sobre aquilo.
Jane dormia no sofá da sua amada “sala-cozinha”, na televisão algum filme de época dramático estava passando, não acendi a luz pois a tevê por si só iluminava fracamente a sala, sentei no espaço entre a retangular mesa de centro e o sofá, eu precisava acorda-la e contar o mais rápido possível tudo que tinha acontecido:
- Jane acorda, nós precisamos conversar.
Falei em alto e bom som entretanto não obtive nenhuma resposta, ela continuava a dormir, foi então que comecei a insistir.
-Jane, acorda logo, preciso te contar uma coisa.
Não estava muito próximo à ela, mesmo assim, a vi abrir os olhos:
- Fala.
Disse ela tentando me ver melhor.
- Hoje por volta das 23:30, eu vi a Samanta e a Jenny entrando no bar que eu trabalho, elas estavam acompanhadas de algumas pessoas, eu passei as últimas horas seguindo elas, estão hospedadas em um hotel podre que fica um pouco antes de entrar na cidade, elas não demoraram no bar, passaram só pra pegar alguma droga com os traficantes que ficam por lá.
Ela se sentou no sofá e esfregou os olhos com as mãos,parecia confusa com o excesso de informação e se tudo isso não tivesse sido tão real, eu mesmo diria que era um sonho.
- Elas estão sozinhas no hotel e eu acho que devíamos ir pra lá enquanto é cedo e fazer o que nós temos que fazer e nos livrar disso.
-Você tá certo, eu vou pegar as armas.
Me levantei, sentei no sofá e fechei meus olhos enquanto ouvia os passos dela indo para o quarto buscar as armas que guardávamos para essa ocasião, na verdade era ela guardava, não fazia ideia de onde ficavam. Quando retornou usava a mesma roupa de antes, camiseta branca, calça jeans, tênis e a jaqueta jeans manchada de vermelho, seu cabelo ruivo estava desbotando pra um laranja quase loiro, foram presos em um rabo de cavalo muito alto, ela pegou um revolver.
- Esse é seu.
Disse passando uma das armas para mim.
- Isso é tudo surreal Dan.
Disse ela incrédula olhando as armas na mesa. Me dei conta de como estava ficando frio, era uma longa viagem até chegarmos ao nosso destino.
- Tem algum casaco meu aqui?
-Não, acho que você levou tudo quando se mudou pra casa da Léia, será que o Téo não empresta?
- Ele mal chegou de sei lá onde, parecia que não dormia há séculos.
Téo vivia saindo de madrugada, ninguém sabia muito bem onde ele ia, ninguém sabia o que ele fazia, ele ficava por aí no meio da noite depois que seu turno na oficina acabava.
- Mas eu ouvi barulho de tevê, meu quarto é do lado do dele e ele tem insônia, então...
Ela pegou o celular, em menos de dois minutos ele apareceu na janela, veio pela saída de incêndio e trazia nos braços um dos sobretudos pretos de seu pai.
- Olha eu sei que não é esteticamente bonito mas esquenta...AQUILO É UMA ARMA?
Acho que quando nos mudamos, acabamos por nos acomodar às circunstâncias, então explicar para um garoto de 16 anos quem seus vizinhos são de verdade, seria muito trabalhoso, mas Jane nem me deixou pensar em algo para dizer pra ele (o que era bem comum) e saiu adiantando:
- Téo, existem umas coisas que você não sabe e é melhor você continuar sem saber.
Ele nos olhou desconfiado, confiava bastante nela era uma das poucas amigas que ele tinha não podia se dar ao luxo de perder ela, resolveu ignorar tudo e voltar enquanto ia para a janela por onde entrou disse.
- Pode ficar com esse sobretudo meu pai tem um monte, eu vou para casa, mas... espera....tem um carro estranho ali fora.
Olhei para Jane, ela também achou estranho, ninguém estaciona do lado de fora porque o estacionamento é realmente grande, eu mesmo podia contar nos dedos de uma mão as vezes que estacionei ali fora e Téo conhece muito bem meu carro para que ele pudesse ser o estranho. Nos aproximamos da janela, quando olhei para baixo pude ver o carro que segui a noite toda, mesma placa, estacionado à uma pequena distância do meu.
- Merda, é o carro delas. Jane se inclinou no espaço que havia entre eu e o Téo para ver, virou pra mim doida de raiva e gritou:
-QUE DROGA DAN.
Tampei a boca dela pois ouvi um barulho familiar, Téo também nos olhava assustado, sussurrei para eles “quietos”, era o barulho do elevador. Olhei bem sério para os dois e desviei o olhar para a saída de incêndio sugerindo que fossemos embora o mais rápido possível, tinha certeza que eram elas, os dois entenderam a mensagem, Jane pegou a caixa devagar e começamos a descer, primeiro ela, depois Téo e por ultimo eu que fechei a janela, era um caminho longo até lá embaixo, Téo não fez nenhuma pergunta, nem sequer o ouvi bufar de raiva, outra coisa comum.
Dois lances de escada para baixo ouvi um estrondo, estou quase certo que arrombaram a porta, aceleramos o passo, Jane parecia tranquila, quase se divertindo. Em alguns minutos acabamos de descer as escadas:
- Precisamos sair daqui.
Disse Téo assim que sentiu que falar não lhe traria problemas e quanto ao que disse, estava certo, era impensável sair correndo, Jane começou a vasculhar sua jaqueta, felizmente eu tinha feito pelo menos uma coisa certa aquele dia, deixando o carro do lado de fora.
- Vem comigo.
Eles me seguiram, em pouco tempo já estávamos prontos para partir, a verdade é que não sabíamos para onde ir, não podia ir para casa da Léia pois podia deixar ela em perigo, fiquei com uma raiva tão grande que me levantei e peguei o canivete do porta malas, voltei e abri a porta para avisar o que pretendia fazer.
- Téo, assume o carro, me encontra em 10 minutos na fonte.
Ele não questionou, ligou o carro e pegou meu lugar na direção enquanto Jane no banco do carona não conseguia decidir se gritava comigo ou se me puxava de volta. Olhei para a janela da meu antigo apartamento, as luzes estavam acesas ainda era um sinal de que eu ainda tinha algum tempo. Me apressei ao furar os dois pneus da frente, olhei para a janela outra vez enquanto furava o terceiro pneu e pude notar as luzes apagadas, comecei a correr para a praça onde ficava a fonte que eu tinha dito ao Téo, foi então que eu ouvi, uma voz familiar.
- CORRE COELHINHO, CORRE.
Não olhei para trás, sabia que era a Jenny, ouvi o bater de portas vindo do carro delas e corri ainda mais rápido do que pude, ri por dentro pensando em como elas mal sabiam a surpresa que teriam daqui a pouco, não ouvi mais barulho nenhum delas e logo que cheguei na fonte meu carro estava lá, entrei rápido no banco de trás.
- VAI, VAI, VAI, VAI PRA LONGE DAQUI.
Me deitei no banco de trás, Téo arrancou com o carro em alta velocidade pegando um caminho qualquer, enquanto Jane se virava furiosa para mim.
- MAS QUE MERDA TODA FOI ESSA??
- Eu estava furando os pneus do carro delas.
Me sentei, ela me olhava como se eu fosse um gênio, era um misto de orgulho e surpresa, pois eu jamais teria feito algo assim em outros tempos, comecei a rir.
- É, você não é mais o mesmo babaca de 3 anos atrás.
Ela se virou para a frente e olhou para o Téo, em seguida pela janela. Notei que ele não estava dirigindo só para fugir, ele tinha um destino e pouco antes que eu pudesse perguntar qual era ele começou a explicar.
- Estamos indo para saída sul da cidade, tenho uma prima que mora em uma casa por lá, ela não vai ligar de receber a gente, ela deve estar acordada, liguei para ela e por ela tudo bem.
Meter mais pessoas nessa situação não parecia uma boa ideia, ele notou isso vendo minha expressão pelo retrovisor e continuou.
- Nós não vamos por ela em mais problemas do que ela já tem, te garanto isso.
Eu ri, claro que nós iriamos por ela em mais problemas, éramos o supra-sumo dos problemas e aquele era só o começo deles.
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