Heart Challenges
36 Um fato sobre nós.
Notas iniciais
TONY
— Não seja tão exigente com ele.— Bucky diz, se sentando ao meu lado.
— Não pedi pra ele vir. Veio porque quis, e agora vai ficar reclamando no meu ouvido?— Digo, com raiva.
— Tony, ele tá arriscando a própria vida para te ajudar. Para ajudar o Steve. Você sabe que isso tem tudo pra acabar com nossos corpos em uma vala qualquer. E o corpo do Loki vai estar junto. Dá um desconto.
— Eu sei. Eu sei.
— Então tenta pegar leve com ele. É o Loki. Não o conheço bem pessoalmente, mas Steve já me falou dele.
Ele tem razão. Estou o culpando por estar assustado com tudo isso. Ele não precisava estar aqui, mas está. Por mim, e pelo Steve. Mas não pode estar calado? Oxi.
— Eu tô com medo, Bucky.— Digo, finalmente colocando isso pra fora.— Estou com medo de perder o Steve. De perder você. Não quero te perder de novo, Bucky. Estou com medo de me perder. Estou com medo de morrer. E estou com medo de falhar na única coisa que meu pai me deixou encarregado. E tudo isso está me sufocando, Bucky. Está me esmagando. Eu nunca vivi algo assim. Uma aventura louca desse jeito. Já fiz muitas loucuras, mas nunca assim. Minha mãe precisa de mim, e eu preciso dela, e... De vocês dois. — Digo e coloco minha tigela já vazia ao meu lado e deito minha cabeça em seu ombro.
— Eu sei, Tony. Sei que está com medo de tudo isso. É normal. Eu também estou. Mas como você disse antes de entrarmos no elevador: Nós vamos salvar o Steve, e depois vamos destruir o Projeto Júpiter, e esses chips malditos.
—E fazer sexo a três.— Digo com sorriso.
—É.— Ele sorri.— Sexo a três.
—Um sexo a três tão bom que vou gozar tudo o que estou guardando esse tempo todo. — Bucky dá uma risada alta e então me olha.
— Acha que o Steve vai aprovar tudo isso?— Ele pergunta, ficando meio inseguro.
— Ele te ama. E acho que me ama. Então acho que vai sim. Na pior das hipóteses ele fica só com você.— Respondo.
[...]
— Foi uma ótima ideia comprar as coisas. Roupas, barracas, escova e pasta de dentes. Você sabe!— Bucky diz, se deitando ao meu lado na barraca.
— Foi sua ideia comprar as coisas. Você quem disse que iríamos precisar.— Digo, olhando seus olhos.
Ligamos uma lanterna para clarear o quarto até irmos dormir.
— Você teve a ideia de pegar o dinheiro.— Ele diz e então sorrio.
—É. Eu sou um gênio.—Digo e ambos rimos.
É bom estar com ele. Só não é perfeito por estarmos sem meu Ste. Mas logo teremos ele. Logo tudo será perfeito.
Eu espero.
— Sabe, quando eu estava cuidando de você no meu escritório não pude deixar de lembrar de quando você bateu a cabeça na Rússia.— Digo.
— Você cuidou de mim, não foi?!
—É. Eu mentiria se dissesse que não fiquei preocupado. Quando eu te vi bater a cabeça... Eu cheguei em você antes mesmo de Steve. Você tinha acabado de afundar quando te peguei. E sabe, naquele instante, eu não te odiava mais. Eu não sei o por quê, mas eu não te via mais como uma ameaça.
— Eu passei um mês me perguntando se havia sido real. Se você vir tão preocupado em minha direção e me pegado daquele jeito havia sido real.
— Depois que voltamos de lá foi quando tudo começou a dar errado.
— Nunca falamos sobre aquele beijo. Eu não contei para o Steve sobre aquilo. Na época não significou nada para mim. Eu amava o Steve. E ele precisava de mim.
— Mas isso significa que você não sentia nada por mim?
— Tony, só fui ver que sentia algo a mais por você quando pensei que poderia te perder. Enquanto estávamos em Berlim. Steve ainda estava bem. Eu poderia ter saído dali com ele e dado um jeito de salva-lo. Mas de repente vi que não teria sentido sem você. Eu também te queria ao meu lado.
— Eu jurei que te mataria se te visse outra vez. Mas quando te vi, eu não queria te matar. Eu queria te abraçar, te colocar dentro de uma caixinha e te levar pra minha casa.
O olho e ficamos um bom tempo em silêncio. Um silêncio agradável e reconfortante.
— Me conta algo sobre você.— Peço, quebrando o silêncio.
— Seu detetive já não te disse tudo sobre mim?— Ele pergunta.
— Do mesmo jeito que as revistas disseram tudo sobre mim.— Levanto uma sobrancelha e ele continua me encarando.— Tá bom. Eu primeiro. Vamos falar sobre minha sexualidade. Eu sou bissexual assumido desde os quinze anos. Mas eu já pegava garoto desde os onze. Eu me lembro da primeira vez que beijei um garoto em público. Eu devia ter treze ou quatorze. Eu tava em uma festa da escola, e então uns garotos que ficavam no pé do Steve viram e começaram a me zuar. Não foi um dia legal.
— Sinto muito, Tony.
— Não. Não sinta. Não foi legal porque meu pai me deixou um mês de castigo porque eu quase estourei o saco do filha da puta com o chute que dei. Ele teve que fazer cirurgia, e meu pai bancou tudo. Claro que dinheiro não era problema pro meu pai. O problema era os jornais. Meu pai não ligava se eu transava com garotos ou garotas. Eu só não podia aparecer com uma DST em casa.
— Seu pai foi uma boa pessoa. Eu gostava dele, mesmo não o conhecendo tanto assim.— Ele diz.
— Você nunca falou sobre sua família.—Digo.
— Eu nunca falei nada sobre mim com você. Eu te odiava.— Ele diz rindo.
—É mesmo.— Digo e começo a rir.
— Quer me dizer agora?
— Você não vai querer saber.
— Como pode ter tanta certeza?
— Eu tenho.
— Fala logo. Eu falei sobre mim. Vai.
— Okay. Por onde começo? Eu cresci só com meu pai e minha irmã. Amélia é mais nova dois anos. Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Meu pai não foi o melhor do mundo. Na verdade ele era um desgraçado. Ele só sabia beber, e batia muito em mim, e na Amélia. Um dia, quando eu tinha oito anos eu estava procurando ele na rua, quando o encontrei, ele tava espancando um garoto. O pobrezinho não devia ter mais de dezesseis anos. Do lado estava um outro garoto, também muito ferido, e ele chorava. Quando ele deu um soluço, pedindo pro meu pai parar, ele olhou para o garoto e deu um chute na boca dele. Eu vi os dentes voando longe, ouvi o som lá mandíbula se quebrando, e vi o sangue escorrer, então meu pai gritou, chamando ele de viado e bicha, e mandando ele calar a boca. O outro garoto poderia ter corrido. Ele se levantou, e eu jurei que ele correria, mas ele não correu. Ele se jogou na frente do garoto com a mandíbula quebrada e o chute que meu pai daria na cabeça dele acertou em cheio o peito do garoto. Ouvimos o barulho da Polícia, e então eu puxei meu pai. Tínhamos que sair dali. Ele não podia ir pra cadeia. Se ele fosse preso Amélia e eu estaríamos perdidos. Eu tirei ele dali.— Bucky fecha os olhos com força, tentando conter as lágrimas, acaricio seu rosto, limpando as poucas que escapam.
—O que aconteceu depois?— Pegunto, não conseguindo conter minha curiosidade.
— No dia seguinte eu tentei descobrir algo. Queria saber o que aconteceu com os garotos. Então vi um casal falando sobre o assunto. Um dos garotos tinha sobrevivido, mas estava em coma, o outro teve uma costela perfurando o pulmão, mas ia sobreviver. Eu nunca esqueci a forma como o segundo garoto se colocou na frente do outro. Como ele estava disposto a sofrer ou até morrer pelo outro. Na época achei que era idiotice, mas depois vi que era outra coisa. Amor. Quando eu tinha dezesseis anos conheci um garoto, e me apaixonei. Mas eu tinha tanto medo do que meu pai ia fazer comigo. Foi então que eu e ele tivemos a ideia de começar a seduzir caras de empresas para descobrir informações e vendermos. Aquilo dava grana, e logo eu pude sair de casa e ficar com ele. Levei Amélia comigo. Tudo ia bem. Estávamos ganhando uma bela grana, e estávamos livres do meu pai. Foi aí que tudo desmoronou. Louiz me traiu. Eu peguei ele no flagra com uma ex vítima dele. E não era uma transa. Ele tava tendo um caso sério. Brigamos, e brigamos feio. Falamos demais na frente do cara e ele nos denunciou. Eu fui acusado de ser cúmplice, então peguei menos tempo que o Louiz. A última vez que soube dele, tinha sido transferido para uma prisão em Minessota.
— Bucky, não sei o que dizer.
— Então não diga. Você é péssimo com palavras.— Ele diz e rimos juntos.
— Você é corajoso. Muito.—Digo, passando meu dedo em seu pescoço, e com isso me lembro de algo.
—O que foi?— Bucky pergunta quando me levanto em um pulo e começo a procurar por algo dentro da minha mochila, até que acho a caixinha preta.
Me sento, olhando para ele e então Bucky se senta também e me encara, de forma curiosa.
— Eu achei isso no antigo apartamento do Steve quando fui arrumar a bagunça que ele tinha feito. Lembro de ver vocês com eles no pescoço. Bom... Eu ia jogar fora, mas então mudei de ideia, e guardei.— Digo e abro a caixa, revelando as duas correntinhas finas com os pingentes com símbolos de bandas presos a elas.
— Não acredito.— Bucky diz, e posso ver o brilho em seus olhos.
Pego a corrente com o símbolo do Queen e coloco em seu pescoço. Bucky parece hipnotizado por ela. Como se aquilo fosse capaz de lhe mostrar uma outra vida, onde tudo era mais fácil.
Olho para a corrente de Steve. Me lembro tão nitidamente dela em seu pescoço.
— Deveria usar ela. Só até acharmos ele.
— Tem certeza? Isso é meio que a aliança de vocês.
—É a única coisa que você tem dele. Usa.— Bucky diz e então coloco a corrente em meu pescoço.
[...]
Não sei quantas horas são agora.
Bucky tentou ficar acordado comigo, no entanto ele acabou dormindo.
Fiquei até mais tranquilo quando ele pegou no sono. Bucky não dormia a dias. Não direito. Não conto as vezes que ele ficou inconsciente de forma forçada como uma noite de sono.
Olho para ele.
Bucky está só com uma cueca cinza, deitado de bruços. Eu tentei cobrir ele umas quatro vezes, contudo ele sempre joga o cobertor para o lado, mesmo estando muito frio.
Nesse exato momento ele está com sua nada discreta bunda empinada para cima. Sua respiração é calma, e ele tem um ronco leve. É até calmante o som.
Tem horas que começo a chorar, com medo de que eu não consiga. De que eu também perca Steve, ou que já o tenha perdido. Respiro de forma calma pela boca para não acordar Bucky, e quando vejo que estou começando a ficar desesperado seguro sua mão, ou o abraço.
Em todas as vezes ele retribui meu aperto em sua mão, ou os abraços, sem acordar. De forma automática, mas muito reconfortante.
Eu não consigo dormir. Não sem saber como Steve está. Não sem saber se ele ao menos ainda está vivo.
Bucky disse que se eles o tivessem já teriam dado um jeito de entrar em contato com nós dois.
Eu não tenho tanta certeza. Eles não nos procuraram quando pegaram Bucky.
Olho para a faixa enrolada em seu quadril. Ela está um pouco suja de sangue, e suada. A última vez que trocamos os curativos do Bucky foi quando paramos na loja de conveniências em um posto.
Mexo na mochila de Bucky, atrás da caixinha de primeiros socorros (cheia de coisas de primeiros socorros, claro) que compramos no caminho.
Com cuidado começo a tirar a faixa dele, levantando seu corpo levemente. Bucky dá um leve gemido de dor e se vira de lado, mas não acorda.
Nessa posição posso ver a duas cicatrizes, que ainda estão bem vermelhas. Isso deve estar doendo pra caralho, mesmo com os analgésicos que dou para ele a cada duas horas.
Pego a pomada para queimadura que comprei e começo a passar com delicadeza. Depois enrolo outra faixa, limpa, nele com cuidado para não acorda-lo.
Um barulho alto invade a barraca, me fazendo dar um pulo, e meu coração falhar uma batida. Bucky acorda, se sentando na cama assustado.
Demoro um pouco para perceber que é meu celular o causador de tamanha euforia.
Bucky me olha de forma assustada.
— Você já deveria ter se livrado disso. Podem rastrear ele.— Bucky diz.
— Não vou jogar fora até conseguir falar com o Steve.
Pego meu celular e vejo que é o número de Steve, e então meu coração falha mais uma batida.
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