Head up in the Clouds
5 Paper Towns, Paper Nights
Notas iniciais
Cheguei em casa por volta das oito horas da noite. Entrei e fechei a porta com o maior cuidado possível e caminhei na ponta do pé para não chamar a atenção do meu pai.
– Como foram os estudos? – perguntou ele me fazendo levar um susto e quase gritar.
Ele estava sentado no sofá em frente a televisão e assistindo um jogo de futebol que nenhum dos times tinha pontuando em quarenta minutos de jogo.
– Foi ótimo. – disse me recuperando do susto.
Ele concordou com a cabeça e eu continuei andando em direção ao quarto quando ele falou novamente.
– E como foi à conversa com sua diretora?
Ele me pegou de surpresa.
– O...o que? – disse gaguejando.
– A conversa que você teve ontem com sua diretora. – disse ele se levantando.
– Foi normal. — disse. – Nada demais.
– Então não tem nada haver com as notas baixas que você esta tirando? – disse ele se aproximando mais ainda de mim.
– Pai. De novo com isso? – disse me afastando dele e indo para a cozinha. Ele me seguiu.
– De novo isso? – repete ele. –quantas vezes nos tivemos essa conversa?
– Muitas vezes? Basicamente em todo final de bimestre você e eu discutimos pela mesma coisa.
– Você acha que eu não tenho razão?
– Eu posso discordar? – pergunto me arrependendo na hora do que eu disse.
– O.K. se é assim que você quer...
– PAI! – o interrompo. – Eu só quero que o senhor me deixe respirar! Desde que a mamãe morreu você ficou obcecado em mim e em me fazer tirar notas boas pra poder conseguir entrar em uma boa faculdade e tem um bom futuro e eu amo isso em você de verdade, mas eu estou sufocado com isso há muito tempo. – pauso por um tempo para analisar seu rosto. – Eu só estou pedindo que, por favor, me deixe aproveitar esses últimos dias que eu tenho com os meus amigos. Eu vou recuperar essas notas, o senhor pode ter certeza disso. Eu vou passar os finais de semana estudando e fazer oque for possível, eu prometo.
Para de falar e ele não diz nada e nem reage a nada, fica apenas de cabeça baixa analisando o chão.
Ele ergue a cabeça e diz:
– Tudo bem. – ele levanta os braços. – Você parece ter certeza do que quer fazer e eu aprecio isso. É difícil deixar você crescer e sabendo que daqui a alguns meses você vai estar longe daqui só vai piorar tudo. – diz ele levando as mãos os olhos como se estivesse enxugando alguma lagrima, mas não a nenhuma. – Acho que agora é a melhor hora de começar a me costumar.
– Pai, eu não vou embora pra sempre O.K.? Eu vou te ligar todos os dias se eu puder. Eu não vou lhe abandonar, nunca irei.
Ele começa a chorar, do mesmo jeito que eu choro quando brigamos e fazemos as pazes.
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Depois de tomar um banho quente e passar quase meia hora debaixo do chuveiro eu vou ate a cozinha onde meu pai estava terminando de fazer o jantar.
Eu já estava arrumando um lugar para mim a mesa quando a campainha toca.
– Eu atendo. – digo ao meu pai, mas ele nem deu nenhum sinal de que ele iria abrir.
Abro a porta e para minha surpresa era Marvin.
– O que você esta fazendo aqui? – perguntou assustado.
– Surpresa? – diz ele de um jeito sarcástico.
– Como você sabia que eu moro aqui? – o afastei da porta e fomos para frente.
– Eu falei com o Felipe e ele me mandou seu endereço. – diz. – Não vai me convidar pra entrar?
– Não. — Respondo.
– Nossa, se eu fosse uma pessoa sentimental talvez eu estivesse magoado agora, mas não estou. – diz ele. – Eu não queria entrar mesmo, vim te chamar pra gente dar uma volta?
– Não posso. Vou jantar com meu pai agora.
– Não pode dizer que você tem outro lugar pra ir? – pergunta ele.
– Claro que não. – digo revirando os olhos. – Meu pai não iria deixar.
Ouço a porta abrir atrás de mim e era ele.
– Allan, não vai apresentar seu amigo?- diz ele se aproximando de nos.
– Prazer em conhecê-lo Sr. Martins. Me chamo Marvin. – diz ele tão educadamente que por um momento ele fosse mesmo educado.
– Já ouvi falar de você. – dispara o meu pai.
– Espero que tenha sido com boas palavras. – diz Marvin rindo.
– Você não quer entrar e jantar conosco? – sugere meu pai.
– Eu iria adorar Senhor, mas eu vim aqui porque uns amigos nossos vão se encontrar agora e eu vim buscas o Allan.
– Mas eu já disse que eu não poderia ir. – fala antes que ele possa ouvir do meu pai, mas ele caba me surpreendendo.
– Mas é claro que você pode ir. – diz ele me fazendo arregalar os olhos. – É sempre bom se divertir com os amigos.
Ai eu começo a entender o porquê de toda essa gentileza, e claro, me aproveito dela.
– Então eu vou pegar meu casaco.
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Estávamos no carro dele a mais de cinco minutos e ele não me disse onde iriamos.
– Tem um Subway aqui perto, podemos parar se você quiser. – disse ele.
– Tudo bem. – respondi.
Paramos e pedimos dois Frango Teriyakici e dois Refrigerantes. Ele pagou por mim e continuou dirigindo até chegar a um ponto da cidade que eu nunca tinha visto.
– Onde estamos? – perguntei.
– Você vai adorar esse lugar. – disse ele sem responder minha pergunta. – Eu costumava vir aqui quando eu era menor.
Ele parou o carro e disse para sair.
E realmente era lindo. Olhei ao redor e vi que estávamos no fim de uma rua totalmente silenciosa e pouco iluminada, mas a vista que tinha para a acidade era maravilhosa.
– Realmente é lindo – Eu disse me afastando do carro.
– Se eu fosse você iria com calma. – disse ele apontando para a gente. – Parece que o governo não se preocupa tanto assim com os moradores.
Estávamos à beira de um encostamento que dava o fim da rua. Dava para ver a cidade inteira de lá.
– Como você descobriu esse lugar? — perguntou ainda admirando a vista e todas as luzes da cidade vista de lá.
– Minha mãe morava nessa rua antes de ir morar com meu pai. Eu costumava vir aqui com ela pra rir todo mundo lá de baixo.
– Como? – pergunto.
– você já leu Cidades De Papel?
– Já.
– Então, não é só a Margo que tem o privilegio de ter sua própria cidade de papel. Eu também tenho, mas a minha já esta doente há muitos anos e ninguém se preocupa em encontrar uma cura. – diz ele olhando para mim. – Eu costumo vir aqui sempre pra ver como ela tenta se salvar todas as noites.
– você vem aqui todo dia? – perguntei.
– Não, eu só disse isso pra dar ênfase. – disse ele sorrindo. – você lembra-se daquela mulher que fomos visitar?
– lembro. – disse.
– Ela é minha mãe.
Ele ficou um tempo encarando a vista e eu tomando coragem de perguntar.
– você não disse que foram seus pais que te transferiram? – perguntei um pouco confuso.
– Foi o meu pai e minha madrasta. – explicou ele. – Meu pai me largou a minha mãe quando ela descobriu que tinha ELA.
– ELA? –perguntei.
– Esclerose lateral amiotrófica. Meio complicada, mas os médicos chamam de ELA. – disse ele. – por sorte ela ainda consegue mover o corpo da cintura para cima, mas os médicos disseram ela pode perder os movimentos a qualquer momento. Ou pior.
– O Quanto pior?- perguntei me aproximando ele.
– ELA é uma doença que ainda não tem cura.
Ele não precisou dizer muito para entender que ela não conseguiria sobrevier por mais tempo.
Nos estávamos sentados no capô do carro em silencio por mais de seis minutos, apenas olhando para a cidade.
Coloquei minha esquerda em cima da mão direita dele que estava em cima do capô. Ele apertou minha mão e olhou diretamente para os meus olhos. Eu fiz o mesmo.
Nós encaramos por alguns segundos enquanto ele se aproximava de mim.
Nossos braços ficaram colados e sua cabeça estava perto do meu ombro. Senti sua respiração ficando cada vez mais pesada e seu coração acelerando rapidamente.
Me virei, fazendo nossos narizes se tocarem causando um leve arrepio em nos dois. Ele se aproximou mais ainda fazendo nossos lábios se tocarem. E ele me beijou.
Um beijo intenso e carregado de dor. Eu sabia que naquele momento aquilo não era só um beijo para ele. Ele estava colando para fora todas as suas preocupações e todos os seus medos e confiando-os em mim.
Nosso beijo terminou e os seus lábios se separaram do meu, mas ele continuou de frente a mim – de um modo que eu poderia iniciar outro beijo. –, mas ele não me beijou. Ele voltou a se sentar no capô e colocou sua cabeça em meus ombros.
Ficamos por algumas horas deitados no carro sem palavras, sem olhares, e sem preocupações. Apenas nos dois no topo da cidade que estava morrendo a cada noite, mas que nos dava força para continuarmos de cabeça erguida e no caminho certo.
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