Tínhamos acabado de deixar o Felipe na casa dele e estávamos parados dentro do carro em frente a minha casa.

Estávamos em silencio, mas eu sabia exatamente no que ele estava pensando e me machucava não poder fazer nada para mudar isso.

– Acha que seria perigoso eu entrar com você? – ele perguntou quebrando o silencio e se virando para me olhar.

– Considerando o estado que o meu pai pode estar eu aconselho que você desista. – rimos juntos.

– Então, nos vemos mis tarde?

– Tudo bem. – respondi e abri a porta.

Ele me puxou pelo braço e me beijou.

– Boa sorte. — ele disse se afastando.

– O que isso é? – perguntei.

– Como? – ele perguntou confuso.

– Nos dois. O que somos? – perguntei esperando ansiosamente por uma resposta.

– Nós somos nós. – e me deu outro beijo. – Nos vemos depois.

Sai do carro e caminhei até a entrada, ele ainda estava lá me esperando entrar.

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Entrei e na hora que ouvi o trinco da porta soube que o meu pequeno conto de fadas tinha acabado ali. Eu estava disposto a enfrentar as reclamações e começar novamente uma discursão com meu pai, só que dessa vez às oito horas da manha.

Ele estava na cozinha tirando a mesa do café da manha.

– Bom dia. – disse ele.

– Bom dia, pai. – respondi um pouco inseguro.

– Se divertiu? – ele perguntou ainda sem olhar para mim.

– Sem reclamações? – falei me arrependendo instantaneamente do que disse.

Ele finalmente me olhou e disse:

– Você já é adulto. Sabe das consequências. – ele disse.

– Pai... – falei tentando chamar a atenção dele.

– Eu às vezes não entendo você. – ele disse colocando os pratos um pouco forte demais na pia. – Você reclama que eu me meto demais na sua vida e que precisa de “mais confiança” de mim, então, eu lhe dou essa confiança deixando você passar a noite inteira fora sem saber com quem, o que e porque você estava fora.

– Eu só quero que você seja pai nessas horas. – falei e ele continuou.

– O.K. Onde você estava?

– Na praia.

– Com quem?

– Felipe, Laura, Marcela e Marvin.

– Fazendo o que?

– Passando a noite lá.

– Por quê?

– Porque a mãe do Marvin morreu.

Ele permaneceu um tempo calado. Com certeza não esperava essa resposta.

– Eu não sabia. – ele disse com um tom mais baixo.

– Nem eu. – respondi tentando ajudar. – Ele contou depois.

– Por que ele não ficou com a família? – ele perguntou confuso.

– Ele só tem o pai dele e a madrasta e eles não são muito íntimos. – respondi. – Ele disse que preferia ficar comigo... Com a gente quero dizer. – tentei contornar.

– Tudo bem. – ele disse se sentando. – Um dia a gente teria que ter essa conversa.

– Que conversa? – perguntei, agora eu estando confuso.

– Acho que foi aos seus dez ou onze anos que eu comecei a perceber que você era “diferente” das outras crianças. Mais diferente ainda dos outros garotos da sua idade.

– Pai... – falei o interrompendo.

– Não. Eu preciso falar. –ele disse, e continuou. – Às vezes eu ficava observando você brincar sozinho, você sempre preferiu brincar sozinho, mas depois dos dez anos você mudou completamente. — ele parou um pouco e prosseguiu. – Você deixou os brinquedos de lado, começou a ler livros cada vez mais velhos para sua idade, deixou a escola de futebol, as aulas de judô e começou a fazer crochê porque era uma paixão da sua mãe.

– Para minha defesa eu abandonei o futebol e o judô porque eu não fazia ideia de nada daquilo. – ele riu. – E eu não acredito que fiz crochê.

– Não por muito tempo. – ele riu mais uma vez. – Seu avô me fez tirar você no segundo dia de aula, ele sempre se preocupava com o que as pessoas iram pensar do seu neto sendo o único garoto fazendo crochê.

– E o senhor? – ele me encarou.

– Eu nunca me preocupei com isso. Na minha cabeça você fazia aquilo para se sentir mais próximo da sua mãe. E era verdade.

– Eu sempre me lembro dela quando estou aqui na cozinha. – eu disse olhando pela cozinha toda ate alcançar de volta o olhar do meu pai. – Eu nunca tive a chance de falar com ela sobre mim.

– Mas você tinha a mim. – ele disse se levantando.

– Não era a mesma coisa. – eu disse.

– Mas eu sou o seu pai! – ele falou um pouco alto. – Mesmo eu não sabendo como lidar com isso eu iria ficar do seu lado, eu iria fazer de tudo para você se sentir bem! Não importa o que aconteça, mesmo que seja a pior coisa que você poderia fazer, eu sempre vou ficar do seu lado. Seja uma coisa boa a ruim esse é o meu trabalho de ser pai, eu vou estar do seu lado sempre.

Pela primeira vez em anos eu abracei o meu pai e não quis mais soltar. Ele continuou me abraçando e eu não tinha a intenção de solta-lo nunca mais.

– Porque ele não entrou? – ele me soltou e voltou a lavar os pratos.

– Você acha que ele correria o risco de sair decapitado daqui? – disse sorrindo.

– Pelo menos eu vou ter alguém pra falar de carros. Aquele deve ter custado uma fortuna. – ele disse baixo.

– Disso eu não posso te dar certeza. – disse.

– Por quê? – ele me encarou. – Vocês pareciam muito bem naquele carro.

– Você estava me espionando?

– Não... Talvez eu tenha visto sem querer e cabei ficando. – ele riu.

– Eu perguntei a ele o que nos éramos e ele respondeu com um: Nós somos nós. – repeti. – O que ele quis dizer com isso?

– É melhor você perguntar alguma amiga que saiba sobre isso. Não é meu trabalho de pai.

– Eu vou subir e terminar um trabalho. – disse quase subindo os degraus quando ele falou novamente.

– Espera. – ele veio ate mim.

– Você já decidiu o que vai fazer nos eu aniversario?

– Eu pensei que tinha deixado bem claro que não queria fazer nada.

– Mas você vai fazes dezoito anos! Tem que comemorar.

– Depois eu decido O.K? – ele me encarou.

– Está certo. – ele voltou para a cozinha.

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Subi ate o meu quarto e chamei Marvin no Skype. Falamos sobre a noite anterior, sobre como foi a minha conversa com o meu pai, e sobre o meu aniversario que ele insistiu em fazer uma festa.

Passamos o resto do dia e da tarde conversando ate que ele disse que precisava ir o enterro da mãe, disse que eu poderia ir com ele, mas ele preferiu ir sozinho.

À noite eu e meu pai fizemos uma coisa que não fazíamos há anos juntos: NADA.

Ficamos a noite toda na frente da televisão comendo pipoca e vendo fotos e vídeos nossos antigos. Relembrando momentos inesquecíveis e criando novos.

Notas finais
- Relembrando que os capítulos não terão dia exato para serem postados podendo ter um ou dois capítulos na semana. - Lembrem-se: Um comentário sempre ajuda a manter uma boa historia interessante :D