Head up in the Clouds
7 Becoming You
Tínhamos acabado de deixar o Felipe na casa dele e estávamos parados dentro do carro em frente a minha casa.
Estávamos em silencio, mas eu sabia exatamente no que ele estava pensando e me machucava não poder fazer nada para mudar isso.
– Acha que seria perigoso eu entrar com você? – ele perguntou quebrando o silencio e se virando para me olhar.
– Considerando o estado que o meu pai pode estar eu aconselho que você desista. – rimos juntos.
– Então, nos vemos mis tarde?
– Tudo bem. – respondi e abri a porta.
Ele me puxou pelo braço e me beijou.
– Boa sorte. — ele disse se afastando.
– O que isso é? – perguntei.
– Como? – ele perguntou confuso.
– Nos dois. O que somos? – perguntei esperando ansiosamente por uma resposta.
– Nós somos nós. – e me deu outro beijo. – Nos vemos depois.
Sai do carro e caminhei até a entrada, ele ainda estava lá me esperando entrar.
###
Entrei e na hora que ouvi o trinco da porta soube que o meu pequeno conto de fadas tinha acabado ali. Eu estava disposto a enfrentar as reclamações e começar novamente uma discursão com meu pai, só que dessa vez às oito horas da manha.
Ele estava na cozinha tirando a mesa do café da manha.
– Bom dia. – disse ele.
– Bom dia, pai. – respondi um pouco inseguro.
– Se divertiu? – ele perguntou ainda sem olhar para mim.
– Sem reclamações? – falei me arrependendo instantaneamente do que disse.
Ele finalmente me olhou e disse:
– Você já é adulto. Sabe das consequências. – ele disse.
– Pai... – falei tentando chamar a atenção dele.
– Eu às vezes não entendo você. – ele disse colocando os pratos um pouco forte demais na pia. – Você reclama que eu me meto demais na sua vida e que precisa de “mais confiança” de mim, então, eu lhe dou essa confiança deixando você passar a noite inteira fora sem saber com quem, o que e porque você estava fora.
– Eu só quero que você seja pai nessas horas. – falei e ele continuou.
– O.K. Onde você estava?
– Na praia.
– Com quem?
– Felipe, Laura, Marcela e Marvin.
– Fazendo o que?
– Passando a noite lá.
– Por quê?
– Porque a mãe do Marvin morreu.
Ele permaneceu um tempo calado. Com certeza não esperava essa resposta.
– Eu não sabia. – ele disse com um tom mais baixo.
– Nem eu. – respondi tentando ajudar. – Ele contou depois.
– Por que ele não ficou com a família? – ele perguntou confuso.
– Ele só tem o pai dele e a madrasta e eles não são muito íntimos. – respondi. – Ele disse que preferia ficar comigo... Com a gente quero dizer. – tentei contornar.
– Tudo bem. – ele disse se sentando. – Um dia a gente teria que ter essa conversa.
– Que conversa? – perguntei, agora eu estando confuso.
– Acho que foi aos seus dez ou onze anos que eu comecei a perceber que você era “diferente” das outras crianças. Mais diferente ainda dos outros garotos da sua idade.
– Pai... – falei o interrompendo.
– Não. Eu preciso falar. –ele disse, e continuou. – Às vezes eu ficava observando você brincar sozinho, você sempre preferiu brincar sozinho, mas depois dos dez anos você mudou completamente. — ele parou um pouco e prosseguiu. – Você deixou os brinquedos de lado, começou a ler livros cada vez mais velhos para sua idade, deixou a escola de futebol, as aulas de judô e começou a fazer crochê porque era uma paixão da sua mãe.
– Para minha defesa eu abandonei o futebol e o judô porque eu não fazia ideia de nada daquilo. – ele riu. – E eu não acredito que fiz crochê.
– Não por muito tempo. – ele riu mais uma vez. – Seu avô me fez tirar você no segundo dia de aula, ele sempre se preocupava com o que as pessoas iram pensar do seu neto sendo o único garoto fazendo crochê.
– E o senhor? – ele me encarou.
– Eu nunca me preocupei com isso. Na minha cabeça você fazia aquilo para se sentir mais próximo da sua mãe. E era verdade.
– Eu sempre me lembro dela quando estou aqui na cozinha. – eu disse olhando pela cozinha toda ate alcançar de volta o olhar do meu pai. – Eu nunca tive a chance de falar com ela sobre mim.
– Mas você tinha a mim. – ele disse se levantando.
– Não era a mesma coisa. – eu disse.
– Mas eu sou o seu pai! – ele falou um pouco alto. – Mesmo eu não sabendo como lidar com isso eu iria ficar do seu lado, eu iria fazer de tudo para você se sentir bem! Não importa o que aconteça, mesmo que seja a pior coisa que você poderia fazer, eu sempre vou ficar do seu lado. Seja uma coisa boa a ruim esse é o meu trabalho de ser pai, eu vou estar do seu lado sempre.
Pela primeira vez em anos eu abracei o meu pai e não quis mais soltar. Ele continuou me abraçando e eu não tinha a intenção de solta-lo nunca mais.
– Porque ele não entrou? – ele me soltou e voltou a lavar os pratos.
– Você acha que ele correria o risco de sair decapitado daqui? – disse sorrindo.
– Pelo menos eu vou ter alguém pra falar de carros. Aquele deve ter custado uma fortuna. – ele disse baixo.
– Disso eu não posso te dar certeza. – disse.
– Por quê? – ele me encarou. – Vocês pareciam muito bem naquele carro.
– Você estava me espionando?
– Não... Talvez eu tenha visto sem querer e cabei ficando. – ele riu.
– Eu perguntei a ele o que nos éramos e ele respondeu com um: Nós somos nós. – repeti. – O que ele quis dizer com isso?
– É melhor você perguntar alguma amiga que saiba sobre isso. Não é meu trabalho de pai.
– Eu vou subir e terminar um trabalho. – disse quase subindo os degraus quando ele falou novamente.
– Espera. – ele veio ate mim.
– Você já decidiu o que vai fazer nos eu aniversario?
– Eu pensei que tinha deixado bem claro que não queria fazer nada.
– Mas você vai fazes dezoito anos! Tem que comemorar.
– Depois eu decido O.K? – ele me encarou.
– Está certo. – ele voltou para a cozinha.
###
Subi ate o meu quarto e chamei Marvin no Skype. Falamos sobre a noite anterior, sobre como foi a minha conversa com o meu pai, e sobre o meu aniversario que ele insistiu em fazer uma festa.
Passamos o resto do dia e da tarde conversando ate que ele disse que precisava ir o enterro da mãe, disse que eu poderia ir com ele, mas ele preferiu ir sozinho.
À noite eu e meu pai fizemos uma coisa que não fazíamos há anos juntos: NADA.
Ficamos a noite toda na frente da televisão comendo pipoca e vendo fotos e vídeos nossos antigos. Relembrando momentos inesquecíveis e criando novos.
Fale com o autor