Haven't we met?
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Quando Elisabeta disse seu nome, Darcy teve a impressão de que já o ouvira. Ele analisou seu rosto novamente, tentando buscá-lo em sua memória, que costumava ser bastante precisa. Talvez já a tivesse visto em sua breve estadia no Vale do Café e por algum motivo alguém a mencionou, mas ele teve certeza que foi na casa de chá onde a vira pela primeira vez. Era espantoso para ele como, apesar de ter passado menos de meia hora na companhia daquela dama, ele jurava que já era especialista na senhorita Benedito. Ele percebeu que não era o tempo nem a oportunidade que determinavam a intimidade, mas apenas a disposição. E era por isso que, cada vez que ela se movimentava, ele sentia a necessidade de reparar algo diferente nela, fosse algum aspecto de sua aparência ou de suas expressões.
Por esta razão, ele estava certo de que se lembraria caso já tivesse visto aqueles olhos verdes antes; olhos estes que, ele podia apostar, brilhariam cada vez que ela mencionasse uma de suas paixões, como aconteceu quando falaram sobre São Paulo e o Vale do Café. Ele não teria se esquecido de seus cabelos, que tinham tons de castanho degradê e voavam pelo contato mais suave do vento, fazendo-a colocar os fios rebeldes atrás das orelhas vez ou outra instintivamente. Ele tinha certeza que se recordaria dela, principalmente se já tivesse visto seu sorriso. Seu sorriso era belíssimo. Era alegre, verdadeiro e nada contido — exceto quando ela tencionava provocar, como quando brincou com ele em relação a seu perdão.
Todas estas constatações vieram tão instantaneamente à sua cabeça que ele não teve tempo de seguir tentando vasculhar suas lembranças para saber como conhecia o nome Elisabeta Benedito antes que a moça seguisse falando. E então ela lhe contou o motivo de ter se mudado para São Paulo e de repente tudo fez sentido, não poderia haver outra explicação: ele lera os textos que ela enviou para a vaga de colunista.
O envolvimento de Darcy com o jornal era estratégico. Sua família havia fundado diversos empreendimentos ao longo das últimas décadas, desde que seu pai percebeu que o futuro estava nos negócios e reconheceu a consequente decadência da aristocracia, da qual faziam parte. Ele incentivou Darcy a ter cadeiras relacionadas a empreendedorismo, administração e economia na universidade, de modo que conseguiram consolidar as empresas da família na Europa e, recentemente, também no Brasil, atraindo diversos sócios e também executivos para ocuparem cargos gerenciais e administrativos. Com o envelhecimento de seu pai, Darcy assumiu as responsabilidades das companhias, se ocupando das decisões que visavam expandi-las e solidificá-las.
Assim, o jornal era seu foco recente: passou o último ano estudando e implementando o projeto de lançar uma edição no Brasil de um jornal do qual já era sócio na Inglaterra. Atualmente, se encarregava de designar profissionais de sua confiança para consolidar o negócio no Brasil e garantir que a estrutura fosse viável e produtiva, sem que os valores prezados pela família fossem negligenciados.
Em meio a todo esse processo, sua irmã Charlotte demonstrou interesse de fazer parte do empreendimento, por se identificar com o ramo. Sua preferência fora uma área relacionada a recursos humanos e Darcy, que sentiu-se orgulhoso da irmã, aceitou de bom grado que ela se encarregasse do Departamento de Gestão de Pessoas. Dava a ela todo o apoio que podia e a auxiliava em todas as questões que a irmã ainda não havia adquirido expertise.
Darcy acreditava na importância na diversidade dentro dos meios de comunicação, que eram a forma como os mais diferentes públicos tinham acesso às informações relevantes sobre o que acontecia ao redor do mundo. Assim, um dos preceitos do jornal era que seus textos fossem assinados por variadas pessoas, independentemente de seu gênero, cor ou classe social. Era a forma que encontrava de evitar negligenciar ou excluir perspectivas diferentes. Era primordial, portanto, que o quadro de funcionários fosse amplo.
Por isso, abriu e divulgou vagas para colunistas inexperientes, para que fosse possível captar pessoas de origens distintas. Sabia que os conhecimentos técnicos exigidos poderiam impossibilitar a diversidade tão ampla que gostaria, mas até que o jornal se consolidasse e fosse possível perpetuar uma cultura de investimento na profissionalização de jornalistas sem experiência, era necessário, por ora, que os contratados tivessem conhecimentos de datilografia, inglês e francês, permitindo que a adaptação e integração dos jornalistas às edições internacionais fosse possível.
E ele, junto a Charlotte, lera os textos de todos os candidatos às vagas de colunista, analisando a desenvoltura dos interessados no desenvolvimento de textos jornalísticos. E ele conseguia se recordar, após Elisabeta mencionar que enviou seus escritos, de ter lido e se admirar com seu posicionamento tão moderno sobre o mundo.
Seu encantamento por ela fazia-o querer oferecer um posto no jornal mesmo se ela não tivesse todos os conhecimentos exigidos, mas ele considerava injusto com seu talento, pois sabia, ainda mais agora depois de conhecê-la, de sua obstinação. Ele tinha certeza que ela chegaria longe em sua vida profissional e seria capaz de alcançar os sonhos que almejava.
Ele acreditava em seu potencial, e essa era parte do motivo pelo qual gostaria de ajudá-la a desenvolver suas habilidades em inglês e datilografia. A outra parte era que gostaria de ter um motivo para passar mais tempo a seu lado, ele pensava quando ela segurou sua mão, levantando-se.
— Aceita dar uma volta no parque? — Ele ofereceu seu braço para ela apoiar-se, que prontamente aceitou. — Você sabe que minha família está envolvida na construção da ferrovia, mas temos empresas em outras áreas também, que inclusive são o motivo pelo qual vivo em São Paulo.
Elisabeta recolocou sua boina após acomodar o próprio braço no de Darcy, e começaram a caminhar juntos.
— Ah, então o senhor Darcy Williamson é um empresário renomado e importante? E eu que achei que ele não passava de um arrogante cujo único objetivo de vida é destratar jovens indefesas em casas de chá. — Ela riu, dando-lhe um leve tapa no braço em que se apoiava. Uma onda de satisfação atingiu Darcy ao perceber que ela se encontrava à vontade para provocá-lo livremente, inclusive com toques inocentes.
— Exatamente, senhorita Elisabeta Benedito. E é por isso que eu gostaria de ajudá-la a desenvolver suas habilidades. — Ele disse, ainda sem se decidir como contar-lhe sobre seu envolvimento no processo seletivo no qual ela participava. — Afinal, não é todo dia que você conhece um empresário renomado e importante que, além de ter como habilidade destratar jovens indefesas em casas de chá, tem o inglês como língua nativa e teve uma disciplina de didática na universidade. — Eles riram juntos e, Darcy pensou, era como se estivessem em sintonia. Ele parou de andar, ficando de frente para ela. — Enquanto você continua sua busca por algum tutor experiente, eu posso treinar inglês com você e te emprestar minha máquina de escrever.
Ela o encarou indecisa, com o cenho franzido.
— Eu me sinto lisonjeada por sua oferta, mas… por que você gostaria de me ajudar? Imagino que sua rotina seja muito atarefada, não? Com tanto trabalho e… — ela parou de falar de repente, e uma expressão preocupada surgiu em seu rosto. — Por acaso você possui um relógio de bolso? Eu perdi completamente a noção do horário; tenho que trabalhar.
Ele consultou seu relógio e informou-lhe que horas eram.
— Ah, meu Deus. Preciso ir agora, já estou bastante atrasada para o trabalho. Podemos continuar nossa conversa em outra ocasião? — ela disse e começou a caminhar apressadamente.
— Elisabeta, espere. — ela se virou para ele, que se aproximou dela novamente — Posso acompanhá-la?
— Sim. — Ela não demorou mais que um segundo para responder, e esticou seu braço para encaixá-lo no de Darcy novamente. Enquanto caminhavam, continuaram com o diálogo.
— Você acha que poderia me ajudar com o inglês? — ele assentiu, e antes que pudesse responder, ela continuou — Mas preciso ser sincera com você. Acredito que em cada personalidade há uma tendência para algum mau em particular, isto é, um defeito natural que nem mesmo a melhor educação é capaz de superar. E o meu é o orgulho.
— Você se considera uma mulher orgulhosa? — Ele questionou, se identificando com ela mais uma vez.
— Não um orgulho arrogante ou vaidoso, acredito. Mas tenho certa dificuldade em receber algo gratuitamente. Para mim, receber ajuda nem sempre é fácil, pois gosto do contentamento de saber de que meus feitos são fruto dos meus próprios esforços e atitudes. E quando recebo algo, me sinto na obrigação de dar alguma contrapartida. — Ela suspirou. — Você entende o que digo?
— Sim.
— De verdade? Porque algumas de minhas irmãs, minha mãe e minha melhor amiga me dizem que é “desfeita” eu preferir conseguir algo por mim mesma, ou quando recuso ajuda dos demais.
Darcy de repente se encontrou numa encruzilhada. Chegou à conclusão, naquele momento, de que não poderia contar a ela sobre sua posição dentro do jornal. Como poderia lhe dizer que era sua irmã quem se encarregava do processo seletivo do qual ela estava participando? E mais, que havia lido seus textos e que, se quisesse, recomendaria sua contratação a Charlotte? Seria uma forma de ferir o orgulho de Elisabeta, que ela considerava seu maior defeito incurável. Poderia fazê-la desacreditar no próprio talento caso realmente fosse aceita no jornal, culminando, possivelmente, na sua desistência da vaga se ela acreditasse que ele, seu mais novo amigo, pôde ter alguma influência na aprovação de seus textos e testes. Além disso tudo, ele estava seguro que ela acharia mais prudente não vê-lo por um tempo, se soubesse que ele havia fundado o jornal.
Sabia que, para evitar toda esta questão, seria sensato afastar-se dela durante o período do processo seletivo, explicando-lhe o motivo. No entanto, afastar-se era uma possibilidade que não lhe agradava. Desde o primeiro olhar naquela manhã não havia um sentido seu que não houvesse se encantado pela moça — e desejava genuinamente ajudá-la, já que ela possuía dificuldade de encontrar tutores.
— Elisabeta, eu acredito que seu defeito é mais nobre do que você imagina. — Darcy disse, incapaz de desenvolver o assunto por se encontrar perdido em pensamentos e dúvidas em relação ao que fazer.
— Então, eu preciso pensar sobre sua proposta. Será que não há algo que eu possa fazer por você em troca? Não precisamos pensar agora. Podemos nos encontrar amanhã na praça novamente para seguirmos conversando?
Darcy assentiu e eles pararam de caminhar. Elisabeta, que segurava seu antebraço como apoio para andar, soltou-se e no mesmo momento a mão dela foi em direção à dele. Sua respiração tornou-se mais lenta quando ele observou suas mãos entrelaçadas. Para entender o que significava aquele gesto, ele buscou seu rosto para identificar alguma resposta e percebeu que os olhos verdes da moça se encontravam fixos no seu.
Ele, então, reparou que estavam em frente à casa de chá, onde, no dia anterior, havia emergido nele sensações turbulentas. Ele sorriu em agradecimento pelo gesto de conforto enquanto sentia uma emoção nova surgir em seu peito, oposta à que sentira quando esteve ali pela primeira vez. Ela sorriu de volta em despedida, e se virou para entrar no estabelecimento.
Enquanto Darcy observava Elisabeta distanciar-se, ele teve uma certeza apenas: aquela era uma mulher especial.
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