Darcy chegou em casa ainda atordoado pelos acontecimentos recentes, sem entender a reação que tivera. Durante o jantar, compartilhou com Charlotte os acontecimentos do dia e pediu seu ponto de vista. A jovem demonstrou sua compreensão, afirmando que sabia como o irmão sempre fora bastante apegado à mãe e que o ocorrido de anos atrás fora realmente muito perturbador.

— Era de se esperar que você ficasse paralisado e imerso em seus próprios pensamentos à medida que as memórias voltavam à sua mente. Mas, meu irmão, você sabe que precisa se desculpar com a atendente da casa de chá, não?

Darcy suspirou. Charlotte estava certa e ele pensava igual. Afirmou que estava disposto a voltar ao estabelecimento no dia seguinte para se desculpar com a funcionária que havia lhe atendido, pois se culpava por não ter se esforçado mais para responder-lhe decentemente. Após tomar a decisão e perguntar à irmã sobre as tarefas que ela realizou durante o dia no jornal, objetivando pensar em outras coisas, finalizou a refeição e se despediu para dormir.

No dia seguinte, Darcy acordou antes que os primeiros raios de sol iluminassem o céu. Caminhou até a janela, de onde podia ver o jardim da casa onde morava, e percebeu como sentia saudade de aproveitar o início dos dias de verão do lado de fora de casa. Sentiu-se impelido a visitar alguma praça ou parque da cidade, como costumava fazer em Londres.

Darcy considerava tais locais como uma ponte entre o interior e a cidade grande, pois era possível estar, num mesmo lugar, entre grandes obras arquitetônicas e extensos jardins. Após tomar um rápido café da manhã, se dirigiu à praça mais perto do jornal.

Darcy caminhava em direção ao centro da praça à medida que observava a beleza do lugar, tentando se lembrar dos nomes das árvores que ali se encontravam. As com flores amarelas obviamente eram, ele pensou, ipês amarelos. Após certa dificuldade para lembrar das demais, reconheceu também as jerivás e as araucárias antes de finalmente chegar a seu destino, onde havia diversos bancos espalhados, mas poucos ocupados. Seu olhar foi atraído para um banco específico, onde se encontrava uma moça vestida de vermelho sentada só. Pela distância e por ela se encontrar de perfil, não foi capaz de reconhecê-la, mas sentia que a moça não lhe era estranha.

A poucos metros dele, havia um garoto vendendo pães para serem dados aos pombos. Darcy comprou uma unidade e então resolveu se aproximar da senhorita que ele imaginava conhecer, ainda não sabendo se a abordaria ou se apenas se sentaria no banco ao lado do que ela estava, uma vez que não tinha certeza de sua identidade. Estava a cerca de dez metros dela quando a viu tirar a boina vermelha que usava sobre seus cabelos soltos e inclinar seu rosto em direção ao sol com os olhos fechados, curvando seus lábios em um leve sorriso. Ela parecia deliciar-se com o calor que emanava do céu.

A respiração de Darcy falhou ao notar como ela era bela. O sol parecia beijá-la, e seus cabelos brilhavam pelo contato com os raios que tornavam-no quase loiro, ao menos parte dele. Ela suspirou e Darcy teve a impressão de que ela era possivelmente a mais encantadora senhorita que já havia visto.

A moça despertou-se de seu transe ao notar sua aproximação, virando-se diretamente para olhá-lo. Sua expressão rapidamente tornou-se carrancuda e ela desviou o olhar, encarando o horizonte a sua frente. E então ele se lembrou dela: era a funcionária da casa de chá.

Ele não sabia dizer se era sorte ou azar de se encantar pela mulher com quem havia sido tão rude no dia anterior, mas sabia que agora ao menos tinha um motivo para se aproximar dela. Sentou-se a seu lado e percebeu que ela seguia sem encará-lo.

— Bom dia, senhorita. Não nos conhecemos? — Darcy tentou iniciar uma conversa, embora não soubesse exatamente o que dizer ou como.

— Acredito que não, o senhor está enganado. Se me der licença, preciso ir. — Ela pegou sua boina, seu jornal e sua bolsa, que estavam no banco no lado oposto ao que Darcy se encontrava, indicando que se levantaria, mas ele segurou gentilmente seu braço, impedindo-a.

— Ontem no início da noite visitei a casa de chá e, se minha memória não me falha drasticamente, foi você quem me atendeu, não? — Ele percebeu que ela revirou seus olhos, mas continuou sem fitá-lo.

— Ah, sim. Acredito que possivelmente eu já tenha visto o senhor anteriormente na casa de chá. — Ela disse, e Darcy se esforçou para não rir de sua indiferença forçada, já que estava claro por seus modos que ela não possuía uma boa opinião dele, embora suas palavras não o demonstrassem.

— Eu gostaria de me desculpar. Não estava em meu melhor momento e sei que fui bastante indelicado.

— Indelicado! — Ela disse ironicamente, desta vez se levantando realmente. — Pedido de desculpas feito. Agora preciso ir.

Ela começou a se afastar e Darcy se levantou, disposto a tentar conversar com ela novamente. Não sabia o porquê, mas não gostaria que ela pensasse que seu comportamento do dia anterior era sua forma habitual de tratar os demais. Por algum motivo desconhecido e insano, ele se importava com maneira que aquela desconhecida o enxergava.

— Senhorita! — ele a chamou. Ela parou de caminhar e se virou, com a expressão séria.

— Sim? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas. E então Darcy percebeu que não sabia o que dizer. Nunca fora bom em iniciar conversas com pessoas que não conhecia, quem dirá formular um pedido de desculpas que expressassem seu arrependimento. Ficou em silêncio por mais tempo do que deveria enquanto a moça seguia encarando-o, com um olhar irônico e questionador.

— Acredito que, em nome da civilidade... — Darcy disse as mesmas palavras que ela usou no dia anterior e sorriu discretamente, sem tirar os olhos dos dela. Após uma breve pausa, ficou novamente sério e continuou — … a senhorita poderia me conceder seu perdão. Eu gostaria de explicar o que houve.

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Elisabeta escutou as palavras daquele homem e sua primeira reação foi tentar pensar em uma resposta atravessada para dirigir-lhe. Estaria ele, justamente ele, sugerindo que os modos dela não eram civilizados? Mas então ela viu-o sorrir em meio a sua frase e um brilho surgiu em seu olhos, e percebeu que ele havia parafraseado propositalmente suas palavras, provavelmente com o intuito de apaziguar as coisas entre eles.

Ela não se conteve e abriu um pequeno sorriso após constatar que ele parecia sincero em seu pedido de desculpas, mas acuado sem saber como agir. Ela não sabia o porquê de se encontrar propensa a conceder seu perdão a ele. Possivelmente porque aquele estranho que revelara ter um olhar amigável, de um modo ainda mais estranho, era a única pessoa, além de Clarisse, com quem ela já havia trocado mais de meia dúzia de palavras desde que chegara a São Paulo. Ou talvez era porque ela realmente pensava que ele se comportara de maneira estranha em sua visita à casa de chá, o que a fez sentir-se momentaneamente preocupada.

— Hmmm... Não sei se sou capaz de perdoar uma pessoa que, com o próprio orgulho, mortificou o meu. — Ela disse, sorrindo, mas de forma zombeteira. Sentiu-se instigada a conceder suas desculpas sem deixar de caçoar dele.

Ele estudou seu rosto e entendeu seu jogo, sorrindo de volta. Elisabeta concluiu que, além de bastante bonito, ele era também charmoso. Ele estendeu a mão, oferecendo a ela o pão que havia comprado para alimentar os pombos. Era um claro convite para ela se sentar novamente. Elisabeta vacilou, perguntando-se se não seria muito impróprio ou perigoso sentar-se ao lado de um cavalheiro desconhecido. Olhou ao redor, notando a presença de algumas pessoas, e decidiu que não poderia haver nada de mal no ato, uma vez que estavam em local público. Finalmente, ela pegou o pão que ele oferecia. Após se acomodarem novamente no banco, disse:

— Então o senhor afirma que há uma explicação para seu comportamento de ontem? — Ela não pôde deixar de expressar sua curiosidade. No dia anterior ela não conseguiu discernir a expressão dele. Ora parecia arrogância, que fora confirmada por suas palavras; ora parecia que ele estava alheio aos acontecimentos.

— Sim. — ele respondeu e suspirou, seu olhar tornando-se distante — Eu não havia percebido até entrar na casa de chá, mas aquele foi o último local que visitei com minha mãe quando voltei a morar no Brasil antes de ela falecer. Não sei explicar, mas de repente fiquei sem reação, e em meio a isso tudo, eu não soube como agir com você. Por isso peço perdão, não foi proposital. — Ele terminou de falar e a fitou fixamente. Ela observou as emoções que passaram por seu rosto à medida que ele falava, identificando um misto de tristeza, preocupação e expectativa.

Elisabeta se sentiu comovida por sua breve história. Gostaria de poder confortá-lo de alguma maneira.

— Sinto muito, tanto pelo acontecido ontem, que deve ter sido um momento sufocante, quanto pela morte de sua mãe. De verdade. — Ela partiu o pão que tinha em mãos, e estendeu a ele uma parte. Os dois começaram a alimentar os pombos em meio à conversa.

— Sim. Obrigado. — ele se virou para observá-la — Mas… já passou, pude colocar meus pensamentos e sentimentos em ordem novamente. Então a senhorita realmente é capaz de me conceder seu perdão? — Ele sorriu, e Elisabeta se sentiu aliviada.

— Sim, mas… tenho uma condição! — Ela exclamou, sem evitar um sorriso travesso.

— Oh, céus. Aparentemente a senhorita é bastante exigente, não? — Ele riu. — Qual seria a condição?

— Fiquei curiosa e gostaria que o senhor falasse mais sobre algo específico. O senhor mencionou que voltou a morar no Brasil. Por acaso viveu fora daqui? — ela o encarava com uma expressão que indicava encantamento.

— Sim. Morei pouco tempo no Brasil, passei a maior parte da minha vida na Inglaterra, onde nasci.

Elisabeta não pôde deixar de encará-lo admirada. Um inglês! Elisabeta admirava imensamente a produção cultural advinda daquele país. E era verdade que tinha vontade de conhecer muitos lugares — praticamente qualquer um —, mas aqueles que compunham a Grã-Bretanha em especial, tanto por conhecer o idioma, por já ter lido a biografia de diversos ingleses notórios que influenciaram a história mundial, e também pelas descrições dos livros em relação ao local que, ela supunha, se igualavam à sua terra natal por conta das colinas, montanhas e formações rochosas, mas se diferenciavam pelo clima.

Elisabeta compartilhou com ele seus pensamentos, e perguntou-lhe o que pensava ele do país onde nasceu.

— Amo aquele lugar, especialmente Pemberley, onde cresci. Há muito verde nas redondezas, com muitos lagos e um céu azul sem igual no verão. — ele olhou ao redor, e então prosseguiu — Sou também apaixonado pela cidade, tanto São Paulo quanto Londres, Paris e outras que pude visitar, pois cada uma é fascinante a sua maneira, mas confesso que às vezes sinto falta do campo.

Ela sentiu certo conforto por ele pensar exatamente como ela.

— Somos exatamente iguais neste sentido, senhor. Estou há pouco tempo aqui, e confesso que a cada dia São Paulo me surpreende mais. Me sinto maravilhada pela diversidade da cidade grande, mas se eu pudesse juntar a grandiosidade daqui à do Vale do Café, eu o faria.

Elisabeta sentiu os olhos dele em seu rosto, e se virou para encará-lo.

— Vale do Café? A senhorita vem de lá? — Ele perguntou.

— Sim. Conhece o local?

— Meu pai mora lá, ele está encarregado da construção da ferrovia. Fiquei por algumas semanas na cidade, mas logo retornei a São Paulo. Fiquei aqui para lidar com outras questões pertinentes aos negócios da família. O Vale é um lugar maravilhoso e único, como nenhum que já conheci. Tenho vontade de explorá-lo melhor quando puder voltar.

Elisabeta arregalou os olhos, surpreendida pela coincidência, e então assentiu.

— Ah, você deve mesmo. É como o topo do mundo. — Então ele também conhecia os encantos do Vale do Café. Isso fazia com que ela se sentisse mais à vontade para conversar com ele, por saber que tinham em comum o carinho por sua pequena cidade. Ela encarou o horizonte, pensativa. Sabia da construção da ferrovia, que se iniciara no ano anterior. Elisabeta imaginou que sairia do Vale do Café em direção a seus sonhos de trem, mas fora surpreendida pela oportunidade de participar do processo seletivo no jornal antes das obras finalizarem.

Era bastante peculiar que aquele homem com quem ela conversava e desenvolvia um certo tipo de amizade tinha participação na maior obra de do Vale do Café. Ele pareceu notar que ela começou a divagar e indagou-lhe:

— Posso perguntar-lhe o que traz a senhorita a São Paulo?

— Antes de responder sua pergunta… Eu acredito que estamos conversando há tempo demais para seguirmos com tanta formalidade, não? Sinta-se a vontade para usar "você". Aliás, qual seu nome?

— Por favor, me chame de você também. Meu nome é Darcy Williamson. E a senhori-... me desculpe. Força do hábito. — ele riu. — e você?

— Elisabeta Benedito. — ele a olhou com dúvida e reconhecimento no olhar, como se conhecesse seu nome de algum lugar. Ela imaginou que alguém do Vale já tivesse mencionado sua família para ele, e então ela prosseguiu. — Quanto a sua pergunta, vou responder. Desde que era criança sou apaixonada por jornais; desde que meu pai me apresentou histórias, relatos e pensamentos de pessoas que mudaram o mundo. Pessoas que buscaram o próprio lugar no mundo e utilizavam o jornal para se comunicar com os demais, para contar sua trajetória e informar sobre questões importantes. Sobre estes e outros temas, passei grande parte da minha vida escrevendo, produzindo diversos tipos de textos — Ela pegou o jornal que estava a seu lado e colocou-o em seu colo novamente, encarando-o. — E então surgiu uma vaga de colunista para um jornal daqui, e eu senti que era minha chance de começar a viver o que sempre quis viver, de trabalhar com algo que sou apaixonada. Enviei o que já havia escrito e passei na primeira etapa do processo seletivo. Dentro de três semanas precisarei fazer testes de francês e inglês; no primeiro idioma possuo fluência, mas no segundo, não mais pela falta de prática. — Ela suspirou, olhando distraída para as árvores da praça. — Também precisarei fazer um teste de datilografia, mas jamais toquei numa máquina de escrever. Vim a São Paulo para trabalhar e conseguir dinheiro para pagar pelas aulas, antes dos testes. Sei que não terei tempo o suficiente para treinar, mas… melhor que nada, não? Inclusive, hoje saí cedo de casa para comprar um jornal e procurar por anúncio de tutores, mas está bastante difícil encontrar.

Ela finalmente o encarou e percebeu que ele tinha um olhar surpreso, suas sobrancelhas levemente arqueadas. Ela acharia sua expressão engraçada, se não fosse estranha.

— Darcy? Tudo bem com você? — Ela indagou, sem compreender sua reação ao que ela havia lhe contado. De repente ele se levantou e abriu um sorriso confiante, estendendo-lhe a mão.

— Elisabeta Benedito… eu acredito que sei exatamente como ajudá-la. — Ela estremeceu, sentindo que o sorriso dele, aliado a seu olhar penetrante, alcançava todas as partes do seu corpo.

Elisabeta sequer suspeitava onde ele planejava levá-la, mas não pensou duas vezes antes de segurar sua mão.