Alguém disse uma vez que a imaginação de uma dama é muito rápida: ela pula da admiração para o amor e do amor para o matrimônio num instante.

Darcy pedia aos céus que, se esta era uma regra, Elisabeta não fosse a exceção. Embora ele tivesse certeza que a admiração e o amor que ele sentia por ela eram recíprocos, os dois nunca haviam conversado abertamente sobre casamento. A única vez que Darcy se lembrava de tê-la visto falar sobre o tema foi no dia em que brigaram.

Depois de terem se beijado pela primeira vez, e antes de terem se beijado pela segunda, terceira e… bom, milésima vez.

Desde então, pouco a pouco a vontade de estar com ela vinha crescendo exponencialmente. Darcy acreditava que com Elisabeta o mesmo se passava: quando estavam juntos, não era raro ela proferir palavras como “sempre” quando falava sobre seus sentimentos. A cada dia eles criavam mais planos juntos, tanto para um futuro próximo quanto para um mais distante. Na noite em que dormiram na pousada, Darcy falara ao dono sobre os filhos que ele e Elisabeta teriam, e apesar de que suas palavras não haviam passado de uma brincadeira, vez ou outra ele se surpreendia pensando na família que formariam.

De início, seriam apenas os dois. Eles viajariam, Elisabeta conquistaria o mundo com seu talento e sua vivacidade e ele estaria a seu lado.

Algum tempo depois, viriam os filhos: uma menininha com os olhos de Elisabeta, tão inteligente e forte como ela. Ah, e também um garotinho, que teria o sorriso e a obstinação dela.

Darcy se enternecia só de imaginar o que o futuro reservava para os dois. E era por isso que...

Ele ia pedi-la em casamento. Na noite seguinte.

É claro, se ele conseguisse comprar as alianças. Darcy sempre foi muito organizado e costumava planejar com antecedência o que faria, mas esta ideia havia ocorrido a ele durante a noite, quando ele ficou observando Elisabeta dormindo. Em determinado momento, a claridade da lua invadiu o quarto com mais intensidade, e por isso ele iria se levantar para fechar a cortina, mas foi impedido por Elisabeta que, quando percebeu que ele estava se afastando, apenas se aconchegou ainda mais em seu abraço.

Ele não acreditava que ela havia se acordado, pois tudo aconteceu rapidamente e sua respiração era serena e constante. As pálpebras dela estavam mexendo e ele suspeitou que ela estava sonhando.

Darcy suspeitava que ele também estava sonhando.

Exceto que, diferentemente dela, ele não estava dormindo. Era um sonho vivido.

Quando a claridade do dia se fez presente no quarto, Darcy já tinha adormecido e foi acordado por Elisabeta, que acariciava seu rosto com a ponta de seus dedos.

— Meu amor… — Darcy murmurou e pegou a mão dela para beijá-la. — Dormiu bem?

Elisabeta ofereceu a ele um sorriso provocante ao dizer:

— Não que eu tenha dormido muito, sabe… — Ela o puxou para um beijo, embora não tenha conseguido parar de sorrir. — Mas digamos que a noite foi muito agradável.

— Só agradável? — A expressão de Darcy era divertida. — Eu poderia utilizar adjetivos mais, digamos, precisos para o que passamos.

— Ah, é!? Quais, por exemplo?

— Hmmm… “Avassalador”?

Elisabeta riu alto ao perceber que ele usou uma de suas palavras preferidas.

— Eu acho, Mr. Darcy, que você tem toda a razão do mundo.

E então ele mostrou para ela que, exatamente como aconteceu à noite, uma manhã também podia ser avassaladora.

Duas horas depois, Darcy encontrou Charlotte sentada à mesa do café da manhã. Ele havia descido antes de Elisabeta, que ainda estava se arrumando.

— Bom dia! — Ele disse e se aproximou para beijar sua testa. — Café da manhã inglês?

Charlotte desejou-lhe um bom dia também antes de responder:

— Sim. Acordei com muita vontade de comer bacon e ovos.

Darcy assentiu e se sentou ao lado da irmã, que estendeu o braço para pegar um prato para ele se servir. No entanto, ele recusou:

— Obrigado, não irei comer agora. Vou esperar a Elisa.

Charlotte sorriu com sinceridade em resposta.

— Eu nunca te vi tão feliz, Darcy. Eu adoro a Elisabeta por diversos motivos, mas principalmente porque ela te faz tão bem.

— Eu realmente a amo. — Darcy disse e deu uma pausa. Ele continuou olhando para a frente, embora não tivesse focando em nada, apenas nos próprios pensamentos. — É ela, Charlotte. Elisabeta é a pessoa com quem quero passar o resto dos meus dias. E eu ficaria muito honrado se você me ajudasse a escolher… — Ele disse e pausou para conter o embargo que surgiu de repente em sua voz. Charlotte compreendeu suas palavras e sua emoção, pois respondeu:

— Darcy, isso quer dizer que você está pensando em pedi-la em casamento?

Ele assentiu. Charlotte se levantou da cadeira num ímpeto e abraçou o irmão.

— Isso é maravilhoso, Darcy! — Ela exclamou, e estava começando a parabenizá-lo quando perceberam a presença de mais alguém.

— Eu acho linda a cumplicidade de vocês. — Elisabeta disse ao entrar na sala de jantar, sorrindo. Darcy e Charlotte se viraram para ela no mesmo instante, mas não disseram nada. E então Elisabeta perguntou: — Aconteceu alguma coisa?

— Oi? — Charlotte perguntou, simulando desentendimento.

— Bom dia. — Elisabeta disse e, embora ainda mantinha o sorriso em seu rosto, franziu as sobrancelhas. — Vocês dois estavam tão felizes, pensei que tinham alguma novidade.

— Novidade? — Darcy engoliu em seco.

— É algum assunto de família? Porque eu posso voltar depois. — Elisabeta já estava começando a se virar, mas Darcy disse:

— Não! Espera. — Quando ela parou, ele se aproximou dela e deu-lhe um selinho enquanto acariciava seu rosto. — Bom dia mais uma vez.

— Bom dia, Elisa! — Charlotte disse em um tom mais alto que o habitual e com uma expressão que indicava qualquer coisa, menos naturalidade.

Darcy decidiu que ia dar de presente a ela algumas aulas de teatro, pois ela era uma péssima atriz. Não que ele fosse muito melhor, pois ele tinha certeza que Elisabeta não acreditou numa palavra quando ele disse:

— O assunto era que… sabe… — Ele olhou para a irmã à procura de ajuda, mas ela apenas deu de ombros. — Bom, eu disse a Charlotte que nosso pai está planejando uma viagem para Londres e nos convidou para ir também. Ela sente muita falta da Inglaterra e está feliz de poder voltar para uma visita.

Darcy sabia que aquilo não era a verdade, mas também não era necessariamente uma mentira. Lorde Williamson realmente tinha planos de realizar uma viagem à sua terra natal, mas não era o tópico da conversa dos dois e definitivamente não era um assunto que geraria a reação que tiveram.

Elisabeta semicerrou seus olhos, indecisa sobre se acreditava ou não nele.

— Entendi. — Ela disse e se sentou à mesa para tomar o café da manhã, sendo seguida pelos demais. — E quando será esta viagem?

— Ainda não está decidido. Vou ligar para ele mais tarde para me inteirar dos planos. Mas, Charlotte… — Quando ela levantou o rosto para encará-lo, ele continuou: — Nossa tia pediu para levarmos algumas lembranças do Brasil, não é mesmo?

Charlotte não entendeu de imediato a intenção dele e quase começou a negar, por isso ele observou Elisabeta pelo canto do olho e, quando percebeu que ela não estava prestando atenção, ele arqueou as sobrancelhas para a irmã.

— Ah, sim! Artesanato, não é? Eu acho que hoje tem uma feirinha no centro da cidade. Podemos ir comprar.

— É mesmo! Eu ainda não conheço essa feira. Acho que vou acompanhá-los, pois quero comprar para minha mãe também. — Elisabeta disse.

— Você vai? — Darcy tentou esconder o desespero em sua voz. — Eu achei que você ficaria aqui.

— Por quê? — Elisabeta perguntou com naturalidade, cortando em pedaços pequenos as frutas em seu prato.

Boa pergunta. Qual motivo teria Darcy para sair com Charlotte até uma feira no centro da cidade enquanto sua namorada ficava na casa? Ah, ele precisaria participar das aulas de teatro junto com a irmã.

— Ué…

Darcy começou a falar mesmo sem ter uma resposta, e Elisabeta o encarou. Seus lábios estavam franzidos e Darcy percebeu que ela estava tentando não rir, o que o fez ter certeza de que ela sabia que ele estava escondendo algo.

Este seria o momento perfeito para uma resposta mágica se materializar na sua frente. Ele olhou para Charlotte, mas ela estava fingindo prestar atenção nas próprias unhas. O par de olhos que Darcy mais amava continuavam encarando-o e, céus, ele queria fazer uma surpresa para ela.

Quando ele estava prestes a começar a falar qualquer coisa que viesse à sua mente, Mercedes apareceu na porta. Se Darcy ainda não tinha um anjo da guarda, ela acabava de ocupar o cargo.

— Mercedes, é claro! — Darcy disse e se levantou para caminhar até ela, que era muito mais que uma empregada para os Williamson, mas uma amiga e uma das pessoas mais queridas para ele.

As três mulheres se viraram para ele com curiosidade no olhar.

— Ela gostaria de passar um tempo com você, Elisa. Não é, Mercedes? Nossa rotina tem sido tão corrida ultimamente.

— É verdade, eu havia dito isso a Darcy uns dias atrás. — Mercedes sorriu e colocou uma mão no ombro de Darcy. — Eu estava organizando essa semana os álbuns de fotografias, acho que a senhorita iria gostar. Achei um da época que a família viveu aqui no Brasil pela primeira vez.

— Eu adoraria se você me mostrasse estas fotos, Mercedes. — O sorriso de Elisabeta chegou até seus olhos. Ela se levantou e disse: — Te encontro na sala daqui a alguns minutos? Vou apenas buscar um casaco, estou com um pouco de frio. — Ela se aproximou de Darcy e deu um beijo em seu rosto, desejando a ele e Charlotte um bom passeio.

Darcy respirou aliviado: ainda conseguiria surpreender Elisabeta com seu pedido. Quando ele escutou os passos da namorada se afastando no corredor, ele aproveitou para combinar os detalhes com a irmã.

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O comportamento de Darcy durante o café da manhã havia sido, no mínimo, curioso. O que deixou Elisabeta, no mínimo, desconfiada. Ela tinha certeza que ele e Charlotte estavam estavam escondendo algo.

No entanto, ela não se sentia chateada por isso. Os dois eram muito amigos e Elisabeta admirava muito proximidade dos irmãos, pois lembrava muito a que as Benedito tinham entre si. E se Darcy e Charlotte tinham algum segredo, ela respeitava a ponto de não questioná-los sobre isso. Elisabeta sabia que entre Darcy e ela havia uma cumplicidade especial, e que ele não mentiria deliberadamente para ela — não mais, ou pelo menos não desde a primeira (e única) briga que tiveram, que havia ensinado muito aos dois: a principal lição fora que um era incompleto sem o outro.

Talvez o assunto no café da manhã que os irmãos haviam tentado esconder era algo relacionado a Charlotte, que possivelmente havia pedido que ele a levasse ao centro de São Paulo. Embora gostasse muito da companhia dos dois, Elisabeta se alegrou pela possibilidade de passar a manhã com Mercedes, pois ela adorava fotografias ou qualquer outro tipo de registro que tornam determinados momentos intactos e inesquecíveis.

Ela ficou aliviada pela alegria que sentiu porque, sendo sincera consigo mesma, ela ficou inquieta quando Darcy falou sobre a viagem dos Williamson à Inglaterra. Ela não sabia muitos detalhes sobre isso, mas quando ele mencionou que este havia sido o motivo de Charlotte estar tão feliz (mesmo que ela acreditasse que havia algo mais nesta história), Elisabeta sentiu seu coração pesar um pouquinho.

Não porque ela tinha o sonho de viajar também e conhecer Pemberley, mas porque a ideia de se separar de Darcy, nem que seja por um período tão curto quanto uma viagem, era dolorosa demais. Mesmo se o convite de viagem se estendesse a ela, Elisabeta não tinha certeza se poderia ir, porque ela ainda estava começando no trabalho. Assim, ela não poderia deixar suas responsabilidades para trás de repente, sem um planejamento. Além do mais, o trabalho no jornal vinha sendo uma experiência incrível que a fazia se conectar ainda mais consigo mesma, se conhecendo melhor por meio de seus textos. Ela ainda estava no início de sua carreira e havia muito a percorrer, e precisaria pensar bem antes de decidir viajar.

Assim, ela se encontrou com Mercedes minutos depois de ter saído da sala de jantar, e agora elas estavam se divertindo ao ver os álbuns de fotografias com algumas lembranças da família. Mercedes contou sobre Lady Williamson e se emocionou ao falar sobre como ela era especial e amorosa, arrancando de Elisabeta também algumas lágrimas.

Em determinado momento, uma ajudante de Mercedes foi chamá-la, pois havia acontecido um acidente na cozinha — nada grave, ela assegurou. Quando ficou sozinha, Elisabeta olhou pela janela para se certificar que o tempo fechado não havia se transformado em chuva. Ao constatar que, na verdade, o sol estava começando a aparecer, ela resolveu se dirigir ao jardim da mansão.

Aquele lugar era maravilhoso. Havia um lago no centro e ao redor diversos tipos de flores em meio a ipês e jacarandás. Elisabeta se sentou num banco e começou a olhar os outros álbuns que ainda não havia visto.

Algumas fotos eram formais, com Darcy sério. Ela sorriu, pois a expressão dele fazia-a se lembrar da primeira vez em que se viram, na casa de chá. Outras fotos eram mais pessoais, pois haviam sido tiradas em situações caseiras: numa delas, embora Charlotte não aparentava ter mais que 3 anos, a moça parecia engajada numa conversa séria e importante com Darcy, que apenas sorria de lado. Lady Williamson estava na maioria das fotos, sempre sorrindo ou abraçando os filhos ou o marido, e por isso Elisabeta percebeu que eles também eram uma família feliz, exatamente como os Benedito.

Ao terminar de olhar cada um dos registros, Elisabeta notou, debaixo dos demais, um álbum diferente, cuja capa era azul marinho. Ela o pegou e percebeu que no canto inferior estava escrito “D.W.” em letras douradas.

Darcy Williamson. Aquele álbum era dele?

As fotos não eram de pessoas específicas, mas principalmente de paisagens de diversos lugares diferentes: do mar, de construções, monumentos famosos, de ruas vazias que transmitiam paz, de ruas lotadas que transmitiam agitação. Provavelmente eram de viagens de quando ele já era adulto, pois não pareciam muito antigas. A sensibilidade em cada uma tocou Elisabeta, que sentia como se pudesse enxergar pelos olhos dele.

Uma das seções possuía fotos de um porto. Elisabeta conferiu o lado de trás, onde estava escrito “Port of Dover”. Uma fotografia em especial chamou a atenção dela, pois havia sido tirada no pôr-do-sol e era possível ver apenas a sombra de um navio, tão pequeno em meio ao oceano e ao céu laranja.

Isso fez Elisabeta se lembrar de um sonho que tivera quando era criança, em que ela era a comandante de um navio que navegava sobre um lindo mar azul e que a levaria em direção a seus sonhos. Desde aquela noite, Elisabeta costumava associar seu futuro a navios. Ela ainda não havia estado em um, mas era comum os momentos em que ela simplesmente fechava seus olhos e se imaginava cruzando o oceano em direção a seu próprio lugar no mundo. A imagem era sempre a mesma, como se fosse um objetivo: ela ficava na parte dianteira da embarcação observando a imensidão a sua frente.

Elisabeta fechou os olhos, com certa nostalgia de quando ela cavalgava pelo Vale do Café apenas para planejar suas conquistas. Nestes momentos, a cena do sonho no navio inevitavelmente se formava em sua mente.

Assim, Elisabeta sentiu vontade de imaginar novamente. Só que ela não conseguiu. Ao menos não da mesma maneira, porque, pela primeira vez, ela não se viu sozinha no navio. Elisabeta sorriu ao se dar conta que, ao lado dela, havia alguém mais. Não qualquer alguém, é claro: Darcy.

E então ela descobriu que, mais que os navios, mais que as viagens e mais que qualquer outra coisa, Darcy era seu sonho.

Foi uma ideia — ou uma decisão? — repentina, pois a vontade de dar um passo adiante com Darcy a atingiu com uma intensidade tão forte quando o amor que ela sentia por ele. Ela simplesmente não pôde deixar de se perguntar:

E se ela o pedisse em casamento?