Haven't we met?
16 Capítulo 16
Elisabeta nunca fora dada a generalizações, mas a pessoa que disse que homens são os pacientes mais manhosos estava correta. Se Darcy servia como parâmetro para as pessoas do mesmo gênero que ele — e Elisabeta simplesmente não conseguia pensar em outra pessoa que poderia representar melhor os homens —, então esta constatação era verdadeira.
No dia seguinte a visita à praia, Elisabeta acordou antes e se virou na cama para ficar de frente para Darcy. Ela planejava acordá-lo com um beijo, pois aquela era uma oportunidade única que ela não poderia perder. Havia dormido tão bem e suspeitava que isso se devia ao fato de que ele estava a seu lado, transmitindo uma sensação de serenidade.
No entanto, ao tocar seu rosto para acariciá-lo, Elisabeta notou que Darcy estava muito quente e sua respiração mais era densa que normalmente. Ela concluiu que ele devia estar com febre e provavelmente tinha contraído um resfriado por causa da chuva que haviam pegado.
— Ei, dorminhoco. — Elisabeta disse e beijou a testa de Darcy quando notou que ele se remexeu ao escutar sua voz. — Você não está bem, não é?
Darcy abriu os olhos aos poucos e balançou a cabeça negativamente.
— Meu corpo está muito pesado e minha cabeça está doendo demais.
Elisabeta se levantou parcialmente e ficou apoiada em um de seus cotovelos.
— Por que você não me acordou durante a noite? — Ela questionou, e sua preocupação transpareceu em sua voz.
— Eu só percebi que estou assim agora há pouco. Não me lembro de como passei a noite. Além disso, como eu poderia acordar minha bela adormecida? — Ele deu um sorriso fraco.
Elisabeta também sorriu e, antes que pudesse dizer algo, Darcy se esforçou para levantar, mas não conseguiu. Por fim, se recostou na cabeceira.
— O que você está fazendo? — Ela se sentou de frente para ele.
— Preciso te levar pra casa. Se continuarmos aqui, você vai pegar meu resfriado.
— O senhor não vai a lugar nenhum. Vou procurar uma compressa para fazer em você e depois decidimos como ir para São Paulo. E pode ficar tranquilo: meu pai me ensinou a tomar banhos frios, pois faz bem para os pulmões. Sou resistente a chuvas e resfriados como ninguém.
Darcy abriu a boca para protestar, mas Elisabeta calou-o com um selinho, se levantou da cama e caminhou para o banheiro, onde trocou de roupa. Quando voltou para o quarto, percebeu que ele havia adormecido sentado.
— Você acha melhor chamar um médico? — Sua voz era baixa, mas ele abriu os olhos num sobressalto.
— Acho que não. Só preciso descansar um pouco mais.
Elisabeta assentiu.
— Vou ver o que posso fazer e já volto.
Ela já estava abrindo a porta do quarto quando ele disse:
— Quando você voltar, vai cuidar de mim com toda a ternura e carinho que eu mereço? Vai ser minha enfermeira particular? — ele tentou soar sério.
Elisabeta riu.
— Vou pensar no caso.
E então ela se foi, pensando no quanto amava o fato de que ele sempre conseguia fazê-la rir. Era verdade que adorava tudo em relação a Darcy, mas seu coração se transbordava quando algum momento com ele culminava em sorrisos e risos. Ela pressentia que os dois sempre seriam o casal mais feliz do mundo.
Quando voltou para o quarto, Elisabeta trazia consigo uma bandeja com chá e café da manhã, além de uma vasilha com água fria.
Ela pegou uma toalha que estava na gaveta da cômoda do quarto e banhou-a para fazer uma compressa na testa de Darcy. Embora ele não quisesse, aceitou se alimentar um pouco quando Elisabeta insistiu que era importante para ele não ficar débil. Poucos minutos depois, ele já estava com um aspecto um pouco melhor e sua febre havia diminuído. Darcy, então, quis tomar um banho e Elisabeta aproveitou o tempo para trocar os lençóis e fronhas da cama. Após sair do banheiro, Darcy começou a tremer pela diferença de temperatura da água da banheira e do clima que ainda estava nublado.
Assim, ele voltou para debaixo dos cobertores e adormeceu de imediato. Elisabeta se sentou ao lado dele, fazendo cafuné em sua cabeça com uma mão e lendo um livro com a outra. Quase meia hora depois, Darcy acordou e ela só percebeu quando escutou sua voz:
— Você sabia que na faculdade eu fiz algumas aulas de medicina?
— É mesmo?
Ela não sabia disso. Havia tantas coisas sobre ele que ainda precisaria descobrir. Ela se sentiu radiante ao constatar que teria uma vida inteira para conhecer cada um de seus pensamentos, vivências e traços de personalidade.
— Eu aprendi como um paciente deve ser tratado. — Ele a olhou e sua expressão se tornou inocente, quase angelical. — Se você quiser, eu te ensino para que você possa cuidar de mim.
Elisabeta sorriu, percebendo o jogo dele.
— Hmmm, não sei se é necessário. Meu pai costuma ler livros de medicina por conta própria, pois é um interesse dele. Então ele já me ensinou bastante sobre isso, sabe? Acredito que já sei o suficiente. — Ela deu de ombros.
— Ah, mas eu sei mais. Meu conhecimento é avançadíssimo. As técnicas que aprendi ainda não chegaram ao Brasil. — ele soou confiante.
— Quais técnicas?
— Está cientificamente comprovado que um tratamento de resfriado que envolve beijos e abraços apresenta maior eficácia.
— Interessante. Vou pensar nos prós e contras deste método e então analisar se devo aplicá-lo. — Ela respondeu.
Darcy a encarou, sério:
— Não existem contras. Mas, caso você queira que o paciente apresente uma melhoria significativa no seu estado de saúde em tempo recorde, há outra coisa que pode ser feita.
Elisabeta tinha certeza que seu rosto logo iria começar a doer, pois era difícil não sorrir o tempo todo.
— O quê? — Ela perguntou.
— Quando o tempo está chuvoso como hoje, a saúde do paciente pode regredir drasticamente, a não ser… — Ele fez uma pausa dramática. Por fim, continuou: — A não ser que a enfermeira e o paciente fiquem bem quietinhos debaixo do cobertor, pois ela irá ajudar na recuperação com o calor de seu corpo. Antes do fim do dia, o paciente estará completamente curado.
Calor de seu corpo. Isso ela tinha em excesso. Se ganhasse uma moeda cada vez que sentia uma onda de calor percorrer seu corpo quando estava com Darcy, Elisabeta seria mais rica que…
Bom, ela não sabia. Mas ela seria muito rica.
— Só no fim do dia? — Elisabeta protestou, mas fechou seu livro e o colocou no criado. — E se eu me esforçar muito?
Ela se levantou, deu a volta no quarto e se sentou de frente para ele na cama.
— Nesse caso, muito antes do fim do dia. — ele assegurou.
Elisabeta se inclinou e depositou uma série de beijos na bochecha dele, e então disse:
— Eu acho que você está usando seu resfriado para se aproveitar de mim. — Ela disse, divertida.
— Eu? — ele perguntou, indignado. Quando ela assentiu, ele negou: — Meu único compromisso é com a medicina. Nada além disso.
Elisabeta arqueou as sobrancelhas, pensativa.
— Então eu acho que para mim é conveniente aceitar sua resposta. — Elisabeta disse. Darcy sorriu e começou a se afastar na cama para dar espaço para ela, mas ela tocou seu braço e continuou: — Mas…
— Ah, sempre tem um “mas”. Se algum dia eu tiver influência política neste país, farei questão de banir a palavra “mas” do dicionário.
— Porém… — Elisabeta enfatizou a palavra, rindo. — Eu acho que deveríamos tentar ir pra São Paulo, sua recuperação será melhor em casa. E será mais fácil encontrar um médico, caso seja necessário. Eu vi um telefone lá em baixo. Por quê não ligamos para Charlotte e pedimos para alguém vir nos buscar?
Darcy se sentou.
— Acho que não precisa. Estou bem, consigo dirigir.
— Você ainda está febril. Eu me sentiria melhor se outra pessoa dirigisse, meu amor.
Ao escutar estas últimas palavras, Darcy se aproximou dela, roubou um beijo rápido e acariciou seu rosto.
— Tudo bem, então. Mas só se você prometer que vai me deixar te ensinar a dirigir quando eu estiver recuperado.
Elisabeta se empolgou com a ideia.
— Eu adoraria! Obrigada. — Ela devolveu-lhe o beijo.
Após o telefonema de Elisabeta, Charlotte mandou um carro para buscá-los com dois motoristas para que um deles se encarregasse de dirigir o automóvel de Darcy. Cerca de duas horas depois, eles chegaram a casa dos Williamson, em São Paulo.
Charlotte os recepcionou e Elisabeta se admirou com a gentileza da moça. Elas já tinham se visto antes na entrevista de emprego, mas fora um encontro profissional. Agora, Charlotte a tratava como uma amiga próxima e Elisabeta se sentia extremamente grata pela receptividade. Ela pensava que era impossível não se apaixonar por aquela família. Apesar de Darcy já ter revelado que muitas pessoas o consideravam orgulhoso, Elisabeta não conseguia ver nele, em sua irmã ou em seu pai nada além de amabilidade, e se sentia sortuda por ser tão querida por eles. Ela se surpreendeu pela pontada que sentiu em seu peito ao pensar que não conheceria a mãe de Darcy, que certamente fora uma mulher excepcional.
Charlotte falou sobre sua vontade de fazer uma visita prolongada ao Vale do Café, e Elisabeta disse que seria um prazer acompanhá-la e levá-la para conhecer as partes mais bonitas da cidade. Quando terminou de falar, Elisabeta percebeu que Darcy, que havia se sentado num sofá da sala de estar, estava tremendo de frio.
Assim, o acompanhou até seu quarto, que era bastante amplo e com cores neutras. Elisabeta se encantou ao observar o local, pois refletia exatamente a personalidade de Darcy. Por isso, o ambiente fazia-a se sentir confortável, bem como tudo relacionado a ele. Ela tinha vontade de explorar toda a casa, mas deixaria para outra ocasião.
Quando Darcy se deitou, Elisabeta sugeriu que ele tomasse um pouco de laudano. O remédio o deixou bastante sonolento e, enquanto Darcy dormia, Elisabeta e Charlotte aproveitaram para se conhecerem mais. Ao fim do dia, Darcy estava visivelmente melhor: já havia recuperado a vivacidade em suas expressões e inclusive jantou com Charlotte e Elisabeta.
Quando terminou sua sobremesa, Elisabeta disse:
— Bom, preciso ir embora. Preciso organizar minhas coisas no cortiço antes do meu primeiro dia de trabalho amanhã.
— Você vai embora? — Darcy perguntou, incrédulo.
— Sim. Você já está bem melhor e…
Darcy a interrompeu:
— Melhor? — Ele balançou a cabeça negativamente. — Eu estou péssimo. Muito pior, na verdade.
Elisabeta sorriu. Ele estava tentando convencê-la a ficar. Ah, se ele soubesse o quanto seria difícil dizer “não”.
Darcy se virou para Charlotte e perguntou:
— Você não acha que eu tive uma recaída? Estou me sentindo bastante fraco. — Darcy suspirou com pesar e encarou seu prato vazio ao dizer: — Acho que precisarei de ajuda para ir até meu quarto, no andar de cima.
Um contentamento surgiu no olhar de Elisabeta quando ela disse:
— Ajuda? Hmmm, tenho certeza de um de seus lacaios irá se prontificar a fazer isso, afinal… — Elisabeta estudou o corpo de Darcy e inconscientemente lambeu seus lábios. — Afinal, você é bastante grande. E pesado.
Darcy se remexeu em sua cadeira.
— Um lacaio? — Ele pigarreou. — Bom, não estou tão mal assim. Eu acho que uma pessoa com menos força conseguiria me ajudar. — Ele lançou um olhar sugestivo a Elisabeta.
Charlotte reprimiu um sorriso, pois era bastante óbvio que Darcy estava muito melhor que antes e que não tivera recaída alguma. Ele emanava força e bem-estar. Mas, Elisabeta percebeu, os dois eram verdadeiros cúmplices, pois Charlotte ajudou Darcy em sua mentira:
— Sim, Elisa. Ele não está tão ruim assim, mas definitivamente precisa de cuidados. — Charlotte se inclinou para frente para analisá-lo melhor e disse: — Olha quantas olheiras! Darcy, você está com uma aparência péssima.
Elisabeta se divertiu quando Darcy fez uma careta em direção a sua irmã. Ele esperava que ela o ajudasse, não o insultasse. Após perceber que atingiu seu objetivo de provocá-lo, Charlotte se levantou e disse:
— Se vocês me dão licença, vou dormir. Amanhã o dia será longo, pois receberei os novos colunistas. Elisa, se de manhã você estiver por aqui, será um prazer irmos juntas para o jornal. — Charlotte deu uma piscadela para Darcy e se despediu.
Elisabeta ficou em silêncio por alguns segundos, ponderando. Sua mãe teria um ataque de nervos se soubesse que uma de suas filhas dormiu na casa do namorado, pois era extremamente inapropriado e contra as convenções.
Mas Elisabeta nunca gostou de regras.
E naquela noite ela se sentia tentada a quebrar algumas regras. Não todas, é claro — ao menos, nenhuma que ela nunca havia quebrado antes.
E Darcy tinha adoecido: não seria nada gentil de sua parte deixá-lo sozinho nesta situação. Ela decidiu esquecer por um momento que ele não aparentava estar doente (e provavelmente nem estava mais). Ele parecia estar ótimo, e ela nunca vira um brilho tão intenso em seu olhar quanto o que ele tinha agora. Mas estes eram apenas detalhes. De qualquer maneira, Darcy esteve doente naquele dia. E isso já devia ser motivo suficiente para ela precisar ficar ao seu lado.
Com a decisão tomada, Elisabeta se levantou e caminhou até Darcy, que se virou para que ela se sentasse em seu colo. Ele colocou uma de suas mãos em sua cintura, e a outra ficou acariciando seu queixo.
— Então acho que preciso ficar para cuidar de você. — Ela murmurou.
Darcy sorriu, feliz.
— Eu tenho certeza.
E então Elisabeta descobriu como era maravilhoso aplicar cada um dos métodos de tratamento que ele havia sugerido mais cedo.
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