Dias depois do ocorrido, Darcy ainda se sentia péssimo, e parecia ficar pior com o passar do tempo. No dia em que aconteceriam as entrevistas no jornal, além da angústia que vinha sentindo recentemente, ele também estava ansioso, pois sabia que aquele seria um dia importante para Elisa.

Elisa.

Ah, como ele sentia sua falta.

Sentia falta do seu sorriso, do seu olhar, do seu senso de humor, dos seus lábios. Definitivamente, dos seus lábios. Como era possível sentir tanta falta do gosto de algo que ele experimentou tão poucas vezes? Bom, na verdade... eles se beijaram diversas vezes. E ele daria tudo para voltar no tempo para consertar o erro que havia cometido só para que pudesse tê-la a seu lado novamente.

— Darcy. — Charlotte, que estava sentada a seu lado na mesa de café da manhã, estalou um dedo em frente a seu rosto para chamar sua atenção. — Você está sério e pensativo desta maneira há dias. Por que não me diz o que está acontecendo?

Ela estava certa. Ele vinha evitando suas perguntas acerca de seu estado, em parte porque não poderia contar a ela sobre Elisabeta — ao menos, não antes do fim do processo seletivo —, e em parte porque não queria preocupá-la.

— Não é nada demais. Eu não posso te dizer exatamente o que está acontecendo, mas...

— Você está apaixonado.

Ele se surpreendeu com sua percepção.

— Como você sabe?

Charlotte se levantou e abraçou-o por trás da cadeira.

— Você desapareceu todas as noites durante as últimas semanas, chegava em casa com um enorme sorriso no rosto e agora praticamente não sai de casa e não troca mais que duas palavras comigo. Ou você está apaixonado, ou com alguma enfermidade que causou uma mudança repentina de humor. — Charlotte deu um beijo em sua bochecha e se sentou outra vez.

Darcy suspirou. Não havia motivos para negar.

— Ah, minha irmã... eu nunca pensei que me sentiria desta maneira. Mas você tem razão.

— E o que aconteceu entre vocês que te deixou assim?

— Você é a única pessoa com quem tenho vontade de me abrir. Queria poder te contar todos os detalhes, mas, por enquanto, preciso manter um segredo. — Ele pensou em se calar. Cogitou mudar de assunto, mas de repente sentiu-se inclinado a falar sobre o que vinha guardando em seu peito há vários dias. — A questão é que eu cometi um erro, acabamos discutindo e, no final das contas, o que havia entre nós terminou antes mesmo antes começar.

— Seu erro foi tão grave assim? Injustificável?

— Eu não contei a ela algo muito importante. E ela tinha o direito de saber.

— Você tinha motivos para fazer isso? — Ela questionou.

— Eu imaginei que sim, mas percebo que eram insuficientes.

— E você acha que ela não será capaz de perdoá-lo?

Darcy deu de ombros.

— Não sei. Desejo isso com todas as minhas forças.

Charlotte segurou as mãos de Darcy.

— Vocês não se falaram desde esta discussão, certo? — Quando ele assentiu, ela continuou: — Por que você não a procura para conversarem novamente, mas desta vez com a cabeça fria?

— Acho que não é uma boa ideia, Charlotte. — As palavras de Elisabeta se reviraram em sua mente. — A questão é que ela possui um poder inegável de me desestabilizar, de me ferir até. Acredito que ela não corresponde meus sentimentos.

Charlotte franziu o cenho, desconfiada.

— Como isso é possível? Vocês aparentemente nem se desgrudaram no último mês. Você disse a ela que a ama?

— Eu não contei a ela. Ao menos, não com palavras.

— E mesmo assim ela negou sentir algo por você?

Darcy engoliu em seco. Não queria se lembrar de determinados detalhes, e ao mesmo tempo era impossível esquecê-los.

— Eu a escutei dizendo a uma moça que havia apenas amizade entre nós, e nada mais que isso.

— Ela nunca deu indício de que sentia algo mais? – Charlotte persistiu.

— Bom... – Darcy sorriu pela primeira vez em dias. — Algumas vezes eu já a surpreendi me olhando de uma maneira bastante carinhosa; tanto que nesses momentos eu precisava me segurar para não dizer a ela tudo que sentia. Quando nos beijamos, eu tive a impressão de que para ela aquilo foi tão especial quanto para mim.

Ele analisou o rosto pensativo de Charlotte, esperando sua perspectiva sobre o que ele havia dito. Sua irmã caçula, tão jovem e angelical, certamente era muito mais inteligente que ele quando se tratava de amor. Darcy nunca imaginou que estaria conversando com ela — ou com qualquer pessoa — sobre seus próprios sentimentos. Mas ali estava ele, abrindo seu coração. De certa forma, estava aliviado por fazer isso.

— Darcy, quanta ingenuidade a sua. É bem possível que ela não queria revelar os próprios sentimentos por não saber se são correspondidos, e por isso falou que era apenas amizade. Talvez ela estava esperando você dizer primeiro. Ou então ela ainda não sabe o que sente. Ou, quem sabe, ela tem medo do sentimento. Você sabe que o amor pode machucar na mesma intensidade que pode nos fazer feliz. — Charlotte afirmou.

Ela já havia tido uma decepção amorosa antes, embora já havia superado o rapaz que havia partido seu coração. Darcy segurou suas mãos em um gesto de cumplicidade e companheirismo. Ela sorriu para ele, indicando que estava bem. Por fim, terminou seu discurso:

— Meu irmão, podem haver tantos motivos para que ela tenha dito aquilo. Vocês discutiram, estavam exasperados e decepcionados um com o outro pelo que aconteceu, que você não pode me contar. Mas vocês precisam conversar para que resolvam tudo e deixem claro o que sentem e o que pensam.

Será que Charlotte estava certa? Darcy já havia considerado a ideia de procurar Elisabeta, mas as últimas palavras que ela havia dito aquele dia no cortiço ecoavam em sua mente e então ele desistia. No entanto, o que sua irmã dissera o fez pensar na situação sob outra perspectiva. Seria possível que havia alguma justificativa para Elisabeta ter negado a possibilidade de se casar com ele? Talvez por ainda ser cedo demais para pensar numa união formal. Talvez porque ela nunca havia estado em um relacionamento antes e nem mesmo havia beijado outra pessoa além dele, de modo que todas estas questões amorosas eram novidade para ela.

Era realmente possível, então, que ela tinha apenas medo dos sentimentos que provavelmente sentia pela primeira vez. Por outro lado, talvez ela nem mesmo sabia, por ora, distinguir o amor que se sentia por um amigo do amor romântico.

O tempo que passaram juntos haviam feito Darcy acreditar, devido à conexão que faiscava entre eles, que seus sentimentos eram correspondidos — se não na mesma intensidade, ao menos de alguma maneira especial. E as últimas palavras proferidas por ela, que haviam-no ferido como jamais alguém havia conseguido antes, foram ditas depois de uma exaustiva discussão ocasionada pelo erro dele. Será que ele poderia ter alguma esperança de que foram faladas impulsivamente?

Ele estava criando esperanças que poderiam ser provadas infundadas a qualquer momento. Talvez realmente não havia mais chance para os dois. Mas e se não fosse assim?

Ele decidiu, por fim, seguir o conselho de Charlotte. Procuraria Elisabeta e tentaria ao menos entender o que ela sentia e suas motivações. Se ele realmente não era correspondido, ao menos sua situação não poderia piorar — não devia ser possível se sentir pior do que nos últimos dias. A saudade que sentia dela, aliada à mágoa que não se desprendia de seu peito, eram sufocantes.

No entanto, se Elisabeta indicasse que gostava dele o suficiente para que o sentimento se transformasse em algo mais profundo no futuro, ele não desistiria dela. Não desistiria porque, se fizesse isso, corria o risco de colocar em jogo sua própria existência.

Darcy se levantou e abraçou Charlotte, agradecendo-a por ser tão maravilhosa e brilhante. Teve vontade de sair pela porta naquele exato momento para ir atrás de Elisabeta, mas decidiu esperar até o fim do processo seletivo para não perturbá-la com outras questões, pois ela precisaria se concentrar para fazer as provas.

Na noite seguinte, ele foi informado por seu mordomo que um cocheiro havia entregado uma máquina de escrever junto a um bilhete, que dizia:

“Muito obrigada por tudo.

Jamais esquecerei.

E. B.”

Darcy sorriu ao lê-lo. As palavras pareciam uma despedida. Entretanto, se dependesse dele, nunca mais haveriam despedidas para os dois.

Um dia depois, ele foi atrás de Elisabeta no cortiço, mas foi informado por seu vizinho que ela não havia renovado o aluguel, pois iria voltar para sua cidade natal.

Se ela estava no Vale do Café, então era para lá que Darcy iria.

~~~~~~

Elisabeta pegou seu diário pelo que devia ser a décima vez naquela manhã e releu as palavras que havia escrito alguns minutos atrás.

Arrependimento — s.m.

Pesar sincero por algum ato ou omissão que se tenha praticado; compunção, contrição.

Aplicação numa frase: eu espero que o arrependimento que sinto pelas palavras ditas a Darcy doam mais em mim do que doeram nele ao escutá-las.

Contradição — s.f.

Incoerência entre afirmações atuais e anteriores, entre palavras e ações; antinomia, discrepância, incongruência.

Aplicação num contexto: ainda me sinto magoada com Darcy, mas ao mesmo tempo tenho vontade de abraçá-lo fortemente e nunca mais soltá-lo.

Saudade — s.f.

Sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente, distante ou extinta, ou à ausência de coisas, prazeres e emoções experimentadas e já passadas, consideradas bens positivos e desejáveis; sodade, soidade.

Aplicação numa frase: se eu fosse um sentimento, seria saudade.

Elisabeta parou de ler ao escutar passos se aproximando de seu quarto. Lídia abriu sua porta e, sem entrar, disse:

— Elisa, estamos indo para a casa de chá encontrar Ema para escolhermos os deliciosíssimos quitutes que serão servidos na festa de Jane. Vamos? Por favorzinho! Você passou tempo demais neste quarto desde que chegou. — Lídia convidou.

Elisabeta percebeu que havia mais uma contradição digna de nota: ela queria passar um tempo ao lado das irmãs, mas também queria ficar sozinha. Pensou bem e finalmente respondeu:

— Podem ir na frente. Eu vou com Tornado e encontro vocês lá daqui a pouco. — Lídia assentiu e se foi.

A festa de noivado de Jane e Camilo aconteceria dentro de poucos dias, mas Elisabeta havia decidido voltar para sua casa antes do evento. Ela não havia se decidido ainda se continuaria morando em São Paulo se não conseguisse o emprego no jornal, mas quis voltar para casa ao menos temporariamente. Ela imaginou que, ao lado de sua família, ela se sentiria melhor, embora não tivesse contado a ninguém sobre tudo que lhe acontecera.

Jane sabia que algo se passava entre ela e Darcy, mas não a pressionou para saber o que era. Seu pai, no primeiro momento que a viu, também desconfiou que algo havia acontecido, porém Elisabeta desconversou, dizendo apenas que São Paulo havia sido uma experiência e tanto, mas cansativa.

Mas Elisabeta havia se enganado ao pensar que se sentiria melhor no Vale.

Pois, se era possível, ela se sentia ainda pior. À medida que os dias passavam, ela compreendia cada vez mais o que Darcy havia feito. E se culpava cada vez mais por ter sido tão dura com ele. Ela supeitava que o havia magoado com suas palavras ásperas e desprovidas de significado real para ela. Ela gostava dele. Muito. Não sabia como pôde chegar a dizer palavras que duvidassem de sua caráter, pois ele era possivelmente a pessoa mais maravilhosa que ela já havia conhecido.

Ela se perguntou se deveria procurá-lo, mas, para ser sincera consigo mesma, tinha medo. Medo de diversas coisas: de se magoar outra vez; de magoá-lo outra vez; de não conseguirem, mesmo se tentassem, reaver a amizade que tinham; de que, quando se encontrassem, ele se sentisse indiferente a ela.

No entanto, ela decidiu que precisaria passar por cima de seus temores ao menos para fazer o que era certo: pedir perdão a ele. Ela devia ter tomado esta decisão antes de voltar para o Vale, mas naqueles dias ainda não estava pensando com clareza. Por isso, se fosse preciso, iria para São Paulo para vê-lo nem que fosse pela última vez. Precisava dizer a ele que, por parte dela, não havia mais ressentimentos. Por fim, ela expressaria seu arrependimento pelo que dissera.

Mas, é claro, Elisabeta faria isso apenas se ele concordasse. Não teria coragem de aparecer subitamente em sua casa. Por isso, ela pegou o envelope da primeira carta do jornal que havia recebido no mês anterior e anotou o endereço em outro, na parte reservada para o destinatário. Se ela enviasse uma carta ao jornal, dirigida a Darcy, provavelmente ele receberia. Ela pegou uma folha em branco e escreveu uma nota, perguntando se poderiam se encontrar para conversarem quando ela estivesse em São Paulo.

Logo depois, saiu de casa e montou em Tornado em direção aos correios. Depois de depositar a carta para que fosse remetida, se dirigiu à casa de chá para encontrar suas irmãs. Ao entrar no estabelecimento, no entanto, seus olhos se desviaram instantaneamente para o homem que estava em frente ao balcão conversando com Ágatha. Ele não precisou se virar para que ela soubesse quem era.

Elisabeta sentiu sua pulsação acelerar ao vê-lo ali, no Vale do Café. Sem nem perceber que suas irmãs estavam observando-a, ela se dirigiu até Darcy e disse seu nome.