No momento em que escutou seu nome, Darcy sentiu as batidas do seu coração desacelerarem.

Era a voz de Elisabeta, sem dúvidas.

Ele se virou e a viu atrás de si, com um olhar surpreso e fixo nele. Ele não pensou que seria tão fácil encontrá-la. O Vale do Café era um lugar pequeno e com poucos habitantes, mas ele havia chegado há pouco e ainda nem havia se dirigido à fazenda de seu pai, que estava esperando-o para o almoço. Ele saiu de São Paulo naquela manhã, poucos dias depois de descobrir que Elisabeta havia ido embora, após deixar resolvidas algumas questões do jornal que demandavam sua atenção. Havia passado na casa de chá apenas por curiosidade, uma vez que Elisabeta havia contado a ele que era uma filial da existente em São Paulo.

Ele procurou as palavras certas. Havia ensaiado tantas vezes aquele reencontro, mas ele não soube o que dizer.

— Elisabeta Benedito, você está atrasada. — Darcy ouviu soar uma voz feminina a alguns metros.

Com muito custo, Darcy desviou seu olhar de Elisabeta para ver quem era a pessoa que se dirigia a ela, e então ele percebeu que foi alguma das cinco moças que estavam sentadas ao redor de uma mesa próxima, cujas cores de seus vestidos criavam uma espécie de arco-íris.

Vermelho, laranja, verde, azul, rosa e branco.

Só podiam ser as irmãs Benedito e Ema.

Darcy sorriu involuntariamente, mas de forma sincera. Elisabeta já havia contado a ele diversas histórias sobre todas e cada uma delas e ele sentia um desejo genuíno de conhecê-las. Ele as observou e foi capaz de distingui-las.

Mariana certamente era a que se vestia de cor laranja e o olhava de forma curiosa com um leve sorriso nos lábios — era esperado dela, afinal era extremamente interessada em tudo que era desconhecido e novo.

A seu lado estava Cecília, de verde. Ela o analisava, possivelmente tentando decifrar quem ele era e o porquê de estar no Vale, como se fosse um mistério a ser desvendado.

A moça de azul era a mesma que estava com Elisabeta no cortiço. Naquele dia ele estava muito atordoado para identificá-la, mas devia ser Jane. Por sua expressão, ela também havia reconhecido ele e, embora Darcy não soubesse o que exatamente ela sabia sobre tudo que aconteceu, seu olhar era livre de julgamentos, indicando a personalidade amável e compreensível que Elisabeta tanto admirava na irmã.

Lídia seria a mais fácil de reconhecer, mesmo se ele não soubesse de sua preferência por rosa ou se não tivesse visto sua foto. Ela era a única das irmãs que sorria abertamente e fitava-o de maneira interessada enquanto se abanava com um leque. Ela era, de acordo com Elisabeta, a mais espevitada e, apesar da pouca idade, namoradeira.

Por fim, ao lado de Lídia estava a moça que ele supunha que era Ema, vestida de branco. Foi ela quem se levantou e se dirigiu até os dois, cessando o silêncio.

— Ora, Elisabeta, então você conhece o sr. Darcy Williamson e não me disse nada? — Ema sorriu e estendeu a mão para ele, que a apertou. — Muito prazer, Ema Cavalcante.

— Ema, como você conhece Darcy? — Elisabeta se virou para Darcy e perguntou a ele o mesmo, confusa: — Você conhece Ema?

Darcy franziu suas sobrancelhas.

— Me perdoe, srta. Ema, mas não me recordo de termos nos conhecido. — Darcy respondeu.

Ema alargou seu sorriso, como quem sabia de um segredo que os demais não.

— Não fomos oficialmente apresentados, mas visitei seu pai há algumas semanas. Meu avô e eu fomos até a fazenda dele para convidá-lo para um baile que organizei. Infelizmente ele não compareceu, alegando estar muito velho para estes eventos. É uma pena, pois ele é um homem muito simpático. Ele nos mostrou fotos da família.

— Ah, claro! As famosas fotos dos Williamson. É um prazer conhecê-la também, Ema. — Ele olhou para Elisabeta. — Elisa me falou muito de você.

Ema passou a olhar de um para o outro, e parecia tentar identificar qual relação existente entre os dois.

— Nós nos conhecemos em São Paulo. — Elisabeta esclareceu, interpretando a pergunta silenciosa de sua amiga. — Foi ele quem me ajudou com meu inglês.

Neste momento, todas as Benedito se levantaram e se uniram ao trio. Elisabeta, pela primeira vez desde que Darcy a conheceu, se ruborizou ao ter sobre si cinco pares de olhos curiosos.

— Você teve aulas com um lorde da Inglaterra, filho do Sr. Williamson, responsável pela ferrovia e sócio de Julieta? — Lídia disse e riu. — Mamacita vai desmaiar ao saber disso! E como a culpa será sua, sr. Darcy, você deveria estar lá para segurá-la.

— Lídia! — Elisabeta ralhou. — Não seja inconveniente.

— Ué, da última vez, quando Jane contou que ia se casar com Camilo, mamacita caiu em cima de mim. — Lídia massageou os próprios braços, com uma expressão angustiada no rosto.

— Lídia, certamente a reação de nossa mãe ao receber notícias inesperadas não interessa ao sr. Williamson. — Mariana argumentou.

— Concordo. E acho que estamos sendo indelicadas, pois ainda não o conhecemos. — Cecília disse.

— Me desculpem, é verdade. — Elisabeta deu apontou para cada uma de suas irmãs. — Darcy, estas são Mariana, Cecília, Jane e Lídia.

Darcy apertou a mão de cada uma das irmãs. Ele havia se esquecido que não tinham sido apresentados até então, pois ele sentia que já as conhecia.

— Sr. Darcy, poderemos contar com sua presença no casamento de Jane e na festa? Um convite foi enviado para a residência de sua família, e espero que você convença seu pai e sua irmã a irem também. Seria uma honra, não é Jane?

Jane, que até então não havia falado nada, sorriu levemente.

— É claro. Camilo e eu ficaríamos muito felizes com sua presença. Ele fala muito bem de você.

Darcy se virou para Elisabeta, tentando identificar nela algo que indicasse o que ela queria que ele respondesse. Ele não sabia qual a situação dos dois, mas não iria ao casamento se ela se sentisse desconfortável com a presença dele. Mas a única coisa que ele conseguiu captar em seu olhar, que estava fixo no dele, era um brilho de... expectativa?

Seria possível?

— Eu adoraria. — Darcy respondeu, e exatamente após este momento Elisabeta sorriu ligeiramente e virou seu rosto para tentar escondê-lo. Seu sorriso foi breve e aparentemente imperceptível para os demais. Entretanto, Darcy viu.

E, céus, como aquele pequeno gesto teve um efeito sobre seu coração, que errou uma, duas e três batidas. Ele não costumava gostar tanto de festas, mas daria tudo para dançar com Elisabeta uma valsa.

— Você irá adorar os quitutes.

— E as danças!

— Ah, como eu adoro dançar.

— Danças são ótimas, mas eu prefiro um bom livro.

— Festa é uma interação social, um livro não.

— São passatempos diferentes.

— Acho que deveríamos ensaiar novamente.

As quatro irmãs Benedito e Ema continuaram conversando animadamente, mas Darcy e Elisabeta escutavam sem realmente prestar atenção, alheios a qualquer coisa além da presença um do outro. Ela interrompeu o momento e se encaminhou para o balcão da casa de chá.

— Dona Ágatha, bom dia! — Ela disse, sorrindo. — Você possui algum guardanapo e uma caneta por aqui?

— Tenho, um momento. — Ágatha pegou os objetos no interior de seu balcão e entregou a Elisabeta.

— Qual o endereço da casa de chá em São Paulo mesmo? Me esqueci. — ela indagou.

Ágatha respondeu e Elisabeta escreveu no guardanapo. Quando terminou, voltou para o lugar onde estava, ao lado das irmãs, e entregou a Darcy o papel.

— O buffet que será preparado para o casamento é realmente maravilhoso, tenho certeza que você vai gostar. Na casa de chá de São Paulo, no endereço que anotei, servem o mesmo que aqui. — Elisabeta contou.

Darcy estava confuso. Ele sabia onde ficava a casa de chá, afinal estivera no lugar diversas vezes e inclusive já havia experimentado diversos itens do menu. Foi apenas quando ele olhou para o pedaço de papel em sua mão que entendeu o que Elisabeta estava fazendo. Não era um endereço, mas um bilhete.

Eu gostaria de conversar com você.

Você aceita? Se sim, me encontre no morro da ferrovia às 16h.

Elisabeta o fitava atentamente, tentando identificar sua confirmação por meio de algum gesto. Assim, ele respondeu:

— Eu adoraria conhecer o lugar. — Elisabeta assentiu e se virou para participar da conversa das demais.

Ele se despediu e se foi, ansioso desde já pelo encontro de mais tarde.

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— Tornado, eu estou muito ansiosa.

Não, ansiosa era pouco para o estado de nervos que Elisabeta se encontrava.

Ela estava aflita.

— Darcy deve chegar a qualquer momento. E o que vai acontecer? Na casa de chá ele foi bastante simpático, mas e se foi por educação? E se desde aquele dia eu sou apenas uma conhecida para ele?

Elisabeta interrompeu sua conversa com seu cavalo ao escutar Darcy se aproximar. Ele vinha caminhando, usando uma camisa branca, com o paletó pendurado em seu braço e um colete bege. Ah... será que ele não entendia que ele não podia ser atraente daquela maneira quando os dois estavam prestes a ter uma conversa importante? Sua beleza era um destabilizador de racionalidade — e ela já estava começando a se irritar consigo mesma pelo fato de que toda vez — toda, sem exceção — que o via reparava em sua beleza.

— Elisabeta.

— Darcy. — Elisabeta sussurrou.

Após um breve silêncio carregado por troca de olhares, Darcy disse:

— Então imagino que este seja Tornado? — Darcy se aproximou do animal.

— Sim, meu cavalo alado!

— Ei, rapaz. — Darcy acariciou o cavalo. — Você tem uma reputação e tanto. Em São Paulo todo mundo que ouviu falar de você só escutou elogios.

Elisabeta observou os dois e sorriu ao ver como Darcy, assim como ela, estava conversando naturalmente com Tornado. O cavalo levou sua cabeça em direção a ele, requisitando carinho em seu rosto.

— Tornado, você não deveria aceitar o carinho de estranhos com tanta facilidade. Quem vê nem pensa que sentiu minha falta. — Elisabeta cruzou os braços, forjando uma expressão indignada.

— Disso eu duvido muito. — Darcy disse e a olhou.

Elisabeta sentiu um forte calafrio percorrer seu corpo. Até o momento estavam apenas conversando trivialidades, mas o que ele acabara de dizer foi um elogio a ela?

— Está com frio? — Darcy estenteu a ela seu paletó.

Ela não estava, mas vestiu o paletó assim mesmo, em parte porque não saberia explicar o motivo de haver tremido se não estava sentindo frio... e em parte porque sabia que a peça de roupa tinha o cheiro dele.

— Muito obrigada.

Darcy assentiu e os dois não falaram mais nada por diversos segundos. Pela primeira vez desde que se conheceram, o silêncio foi desconfortável. Por fim, Darcy disse:

— Elisa, antes de qualquer coisa, eu preciso pedir seu perdão. Eu sei que mentiras são injustificáveis e você tinha todo o direito de saber sobre o jornal, afinal envolvia seu maior sonho, sua futura profissão, o motivo de você estar em uma cidade até então desconhecida e a nossa relação. Eu não te contei e me ofereci para ajudar você com boas intenções, porém isso não justifica. Eu entendo se você se negar, mas eu queria que você soubesse que me arrependo do que fiz. E se eu p... — Elisabeta tocou seu braço, confortando-o.

— Darcy, está tudo bem. — Elisabeta pausou, procurando as palavras que queria dizer. — Eu entendo suas motivações e sei que você não quis me enganar propositalmente. Eu precisei de um tempo para compreender tudo isso, mas, de minha parte, não ha mais ressentimentos. — Ela deu um sorriso fraco. — Naquele dia eu também fui muito dura com você, disse coisas nas quais eu não acredito e me exaltei mais do que deveria, por isso também preciso pedir o seu perdão. Não foi minha intenção te insultar daquela maneira. Eu te conheço o suficiente para saber da sua honra e dignidade.

Darcy suspirou e, num ímpeto, abraçou-a.

— Ah, Elisa. Muito obrigado, você não sabe meu alívio de resolvermos tudo.

Elisabeta recostou sua cabeça no ombro de Darcy. Era como voltar para casa, mas ao contrário de quando havia chegado ao Vale há alguns dias, ela sentia o peso que havia em seu coração se aliviando aos poucos. À medida que eles foram se separando, Elisabeta deu um tapinha no braço de Darcy.

— Nunca mais ouse mentir para mim, Darcy Williamson. Em hipótese alguma.

Darcy fez uma cruz com seus dedos indicadores e os beijou de ambos os lados.

— Nunca. Você não mentiria para mim em nenhuma circunstância, e eu jamais voltarei a fazer isso.

"Ops!", Elisabeta pensou.

Ela já havia mentido para ele. Ou, melhor, não foi necessariamente uma mentira, mas uma omissão... o que era praticamente a mesma coisa, não?

Darcy pareceu notar que ela havia se calado e questionou:

— Está tudo bem?

— Tenho algo a confessar. Eu menti, embora foi algo pequeno, indiferente, insignificante e... — Elisabeta olhou para os lados como uma criança que procura um lugar para fugir quando está aprontando. — Você tem razão: sem mentiras.

Darcy a encarava com as sobrancelhas franzidas.

— Quando você mentiu? Estou curioso.

Ela havia caído em sua própria armadilha. Havia feito Darcy prometer nunca mais mentir e ele, num discurso inocente que valorizava os princípios honestos dela, estava fazendo-a confessar algo que a mortificava. Mas ao mesmo tempo ela queria contar a ele. De alguma forma, isso faria ele se sentir especial, não?

— Muito bem. Você é um bom professor... — Elisabeta começou e Darcy levantou uma sobrancelha. — ... E você é inglês. Nada melhor que um inglês para dar aulas de inglês.

Darcy semicerrou seus olhos.

— Sim? — Ele indagou.

— Pois bem, quando você se ofereceu para me ajudar, nós combinamos que seria até eu encontrar um tutor profissional, que estava difícil encontrar em anúncios. — Ela esboçou um sorriso tímido, mas travesso. — Mas rapidamente eu encontrei um. E não te contei que havia encontrado. Simplesmente joguei o anúncio fora. Eu realmente queria ter aulas com um nativo. Era isso.

À medida que Elisabeta falava, os olhos de Darcy brilhavam mais e seu sorriso se alargava. Ele pegou sua mão e beijou-a.

— Esta deve ser a melhor mentira que já escutei na minha vida.

Os dois riram e mudaram de assunto, caminhando pelo morro à medida que conversavam. Darcy perguntou a Elisabeta sobre a entrevista, e ela perguntou a ele sobre sobre o jornal. Quando o tema acabou um silêncio se fez presente, e novamente era desconfortável, como se ambos soubessem que haviam mais questões a serem resolvidas entre eles.

Elisabeta não sabia se deviam resolvê-las imediatamente, pois ela e Darcy haviam acabado de se entender novamente e qualquer passo em falso abalaria o que quer que fosse que eles estavam apenas começando a reestruturar. Por isso, ela se surpreendeu quando Darcy perguntou, de repende:

— E como ficamos?

Elisabeta demorou um bom tempo para responder, simplesmente por que não sabia a resposta.

— Darcy... — Elisabeta começou a dizer, tentando organizar seus pensamentos em palavras. — Eu não sei. Eu acho que tudo entre nós aconteceu muito rápido, desde nossa amizade até... — Ela olhou para seus lábios, se lembrando dos beijos, e corou. — Bom, até o que aconteceu das últimas vezes que nos vimos. Eu acho que ainda há tanto sobre mim para contar a você, e imagino que o mesmo aconteça com você. Eu sinceramente não tenho uma resposta.

Elisabeta temeu magoá-lo com sua sinceridade. Ela adorava ficar a seu lado, mas ainda precisava esclarecer muitas dúvidas que tinha em sua mente e em seu coração. Não podia dar a ele certezas que ela mesmo não tinha.

Ele ficou de frente para ela.

— Eu acho, Elisabeta Benedito, que você tem razão. E acho também que não há motivos para ter pressa. — Ele segurou suas mãos. — Contanto, é claro, que você reserve para mim uma dança no casamento de Jane.

Para este pedido, ela tinha certeza da resposta.

— Então espero que você dance bem, sr. Darcy, pois serei seu par até fim da festa.

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E Darcy, que nunca foi muito religioso, rezou para que algum dia ela dissesse novamente as mesmas palavras, mas trocando "festa" por "vida".