Hate to see your heart break
3 Capítulo 3
– Olly – disse Hector entrando na sala e colocando os braços ao meu redor.
– Filha... – disse meu pai finalmente percebendo a minha presença.
– Olly? – Klaus me chamou.
Apenas deixei Hector me abraçar.
– Eu cuido dela – Hector disse, lentamente ele me levou até o meu quarto e fechou a porta.
Eu fiquei parada de pé no meio do quarto olhando para o chão, chorando. Lentamente, fui descendo até o chão em posição fetal
– Olly... respira... – disse Hector segurando meus ombros. – Está tudo bem. Eles só estão discutindo.
Comecei a respirar lentamente.
– Klaus e meu pai estão brigando. Eles sempre brigam. E um dia, um deles vai ficar cansado disso e vai embora para sempre e nunca mais voltar... Como a minha mãe – eu disse em meio às lagrimas
– Nenhum deles nunca vai te deixar Olly! Nenhum deles é como a sua mãe!
– Você está certo.... Eu sou como a minha mãe – eu disse. – Eu sou louca como ela – eu gritei empurrando Hector.
– Olly, você não é louca... Você é completamente normal – Hector disse me colocando de pé.
– Eu acabei de ter um ataque de pânico no meio da sala de estar – eu disse. Meu corpo tremia enquanto eu falava.
– Olly... – Hector me abraçou.
Quando eu era criança, depois que minha mãe saiu de casa, eu tinha muitos ataques de pânico. E meu maior medo sempre foi que eu acabasse como ela. Louca e abandonando todos que a amavam.
Hector me levou até a minha cama e deitou-se ao lado.
– Você não é louca Olly – ele disse.
– Eu não quero ser como ela... eu não quero que Klaus e meu pai se odeiem... – eu disse me recuperando ao poucos.
– Nada disso vai acontecer Olly. – ele disse dando um beijo no topo da minha cabeça. – Você relaxar agora.
Hector ficou comigo até eu parasse de chorar e voltasse a respirar normalmente. Eu acabei caindo no sono e quando acordei no meio da noite, Hector não estava mais lá.
Eu acordei com o som do meu despertador invadindo minha cabeça. Eu me sentia um pouco tonta e com dor de cabeça enquanto tentava me sentar na cama.
Tudo que aconteceu na noite anterior passou como um flash back na minha cabeça. Ao lembrar que eu tive um ataque de pânico, me joguei na cama de novo e respirei fundo.
Meu nome é Olly, eu tenho 17 anos, eu sou boa em vídeo games, eu não sei dirigir... Eu... não... sou... como... a... minha... mãe.
Sai da cama e fui andando de fininho até a cozinha. Fiquei meio escondida atrás da porta, vendo meu pai na cozinha tomando café e lendo o jornal.
– Bom dia Olly – ele disse sem tirar os olhos do jornal.
– Oi – eu disse entrando na cozinha.
– Como você se sente?
– Bem.
– Olly, se você quiser, eu posso marcar uma consul...
– Eu estou bem pai. Eu não preciso ver nenhum médico.
– Quando foi a última vez?
– No inicio do ano, quando Klaus me levou para dar um volta no quarteirão e eu deixei o carro morrer umas 50 vezes. – eu respondi. – Eu juro.
Apenas dois ataques de pânico no ano, esse era um número promissor, se você me perguntar.
– Seu irmão passou a noite na casa do Hector – ele comentou.
– Depois eu falo com ele.
– Você não precisa ir para a escola hoje, se você não quiser.
– Eu preciso ir. Tenho que entregar um trabalho hoje. – eu menti. A ideia de não ir para a escola naquele dia me agradava, mas eu sabia que meu pai iria encarar isso como uma recaída.
Comecei a sair da cozinha e ouvi meu pai dizer:
– Ela não era... louca. Sua mãe.
Continuei andando e fui até o banheiro.
Minha mãe tinha transtorno bipolar. Eu acho que tinha 5 anos quando isso começou. No começo era “calmo” de certo modo. Os episódios eram discretos, mas meu irmão e eu podíamos ver que tinha alguma coisa errada com ela.
Durante uma semana, ela se sentia a melhor e maior pessoa do mundo. Nos levava para sair, comíamos besteira tudo dia. Mas ela também não conseguia ficar quieta. Ela era incapaz de sentar-se ao nosso lado para assistir um filme. Ela preferia organizar o armário da cozinha ou correr pelo quarteirão.
E depois, na semana seguinte, ela queria ficar na cama. Se achava uma inútil e toda vez que alguma coisa dava errada, ela se culpava miseravelmente
Com o passar do tempo, isso foi piorando. Muito. Uma vez ela estava fazendo o jantar e acabou iniciando um incêndio na cozinha. Até que ela se envolveu em um acidente de carro quando eu tinha 6 anos. Klaus e eu estávamos com ela.
Meu pai internou ela por 6 meses em um hospital psiquiátrico. Ele não tinha escolha. Ela estava instável demais, e era um perigo para si mesma e para o resto da família.
Esse tempo longe dela foi complicado, mas eu sempre ia visita-la e ela ficava falando sobre todas as coisas legais que iriamos fazer quando ela voltasse para casa.
No dia que ela recebeu alta do hospital psiquiátrico, Klaus e eu fomos com meu pai busca-la.
Mas ela não estava mais lá. Ela tinha ido embora. Sem falar com ninguém.
E nunca mais voltou.
Minha mãe me abandonou no dia no meu aniversario de 7 anos.
Ao sair de casa, eu passei na casa de Hector para falar com Klaus mas a mãe de Hector disse que eles já tinham saído. Tentei ligar para Klaus, mas ele não atendeu o celular.
Tentei fazer o meu melhor para parecer normal na escola e parece que funcionou, porque ninguém comentou nada sobre mim.
Mick e eu estávamos dentro de um gigante tanque vazio. Era nossa vez de fazer a limpeza do tanque das focas. Comentei com Mick sobre Oscar, e perguntei o que ele achava que “Você faz falta lá” queria dizer.
– Já pensou que poderia simplesmente significar que você faz falta no abrigo, sem nenhuma mensagem subliminar? – Mick disse, parado ao meu lado, esfregando o vidro do tanque.
– Sim – eu disse. Ele me deu um olhar descrédulo – Estou falando sério, eu considerei essa possibilidade.
– Hipoteticamente, você pode estar certa, talvez ele sinta sua falta, e isso ainda assim, pode significar nada.
– Eu sei... eu sei...
Ficamos em silêncio esfregando o vidro por alguns minutos, presos em nossos pensamentos.
– Meu avô gosta de você – ele comentou.
– Claro que gosta. Sou adorável – eu respondi.
– Cala a boca Olly – ele disse jogando um pano molhado em mim. – Estou falando sério.
– Eu também.
– Enfim – ele disse revirando os olhos. – ele quer jogar tênis semana que vem.
– Eu não sei jogar tênis. E sinceramente, não acho que seu avô consiga segurar nada mais pesado do que um cigarro ou um garfo... muito menos uma raquete.
– Você não precisa jogar. Só tem que ficar lá sentada sorrindo e torcendo por mim. E por incrível que pareça, meu avô consegue sim segurar uma raquete. Sabia que todo anos eu e meus primos fazemos um bolão? Sobre qual mês do ano ele provavelmente vai morrer?
– Que horror Mick!
– Tudo bem, já perdemos por 5 anos seguidos. Ele é tão filho da puta, que deve continuar vivo de proposito, só para ter o prazer de nós ver perder dinheiro. Tenho certeza que ele se alimenta dos nossos olhares de decepção.
Ouvimos alguém bater no vidro do tanque e vimos Charlie acenando para nós.
– Oi Mick! Oi Olly! – ele disse sorrindo para nós. Charlie tinha o cabelo cor de chocolate e os olhos castanho-escuros brilhantes.
– Oi Charlie! – disse Mick acenando de volta. Eu apenas acenei sem dizer nada.
– Vamos receber um bebê foca mais tarde – Charlie disse. – Por que não passam para vê-lo depois?
Charlie estava no terceiro ano da faculdade de biologia e ia se especializar em biologia marinha. Ele fazia o estagio obrigatório da faculdade no aquário.
– Um bebê foca?! – Mick repetiu animado. – Nós vamos sim, certo Olly?
– Sim, claro – eu disse.
– Ok então, até mais tarde – Charlie disse se afastando.
Mick voltou a trabalhar. Sorrindo e com o rosto vermelho.
– Ai meu Deus... Você está me traindo, bicha? – eu disse para Mick;
– O que?
– É tão obvio que você gosta dele – eu disse encarando Mick.
– Eu não... gosto dele!
– Gosta sim!
– Eu acho ele bonitinho.
– “Eu acho ele bonitinho” – eu disse imitando-o.
– Olly, você não tem que procurar mensagens subliminares nas frases do Oscar? Ou stalkear ele?
– Vocês seriam um casal tão bonitinho. Você e Charlie.
– Fica quieta Olly. Isso não vai acontecer. Primeiro, eu nem sei se Charlie é gay, ou se gosta de mim. Segundo, se meu avô descobrisse isso, eu estaria completamente ferrado. Então vamos para de falar sobre isso, assim que não crio esperanças e nem quebro a cara depois.
Eu queria falar para Mick sobre como Charlie olhava para ele e que era claro que Charlie era gay também. Será que meu “gaydar” era melhor do que o de Mick? Mick não estava mais reconhecendo um dos seus? Mas eu não podia argumentar sobre o avô dele. Eu não podia dizer que ele nunca descobriria sobre Charlie e Mick, porque eu não podia garantir isso.
– Mick? – eu o chamei.
– O que? – ele perguntou um pouco irritado.
– Posso participar do bolão com seus primos esse ano? – eu perguntei.
Eu não tinha conseguido falar com Klaus o dia inteiro, então eu esperava que ele estivesse em casa quando eu chegasse. Eu odiava quando ele fazia isso, ficar fugindo de mim, como se tivesse feito alguma coisa errada.
Ao chegar em casa, ouvi musica alta tocando no jardim dos fundos e fui direto para lá. Klaus estava com alguns amigos bebendo cerveja e ouvindo musica.
Não podia ser chamado de “festa” porque tinha poucas pessoas, todos amigos de Klaus da faculdade.
– Oi Olly – disseram Leo e Sam, os gêmeos que estudavam com Klaus.
– Ei – eu disse.
– Irmãzinha – disse Klaus me abraçando por trás e me tirando do chão.
– Klaus! O que é isso?
– Uma comemoração discreta – ele respondeu me devolvendo ao chão.
– E o que estamos comemorando?
– A apresentação do meu projeto foi um sucesso.
– O pai sabe disso?
– Pode ficar calma, ele sabe.
– Ok então...
– Não precisa se preocupar, vai lá dentro, troca de roupa e vem ficar aqui com a gente.
– Tudo bem – eu disse entrando em casa.
Fui direto para o banheiro tomar banho ( não sem antes verificar três vezes se eu tinha trancado a porta). Como estava uma noite quente, vesti um shorts azul com uma camisa de botão branca sem mangas.
Ao sair do meu quarto, fui para a cozinha comer alguma coisa antes de voltar para o jardim dos fundos. No caminho, encontrei uma pessoa na sala.
Era Max, o amigo de Klaus que o tinham trazido no dia da briga. Ele estava parado no meio da sala analisando a estante. Na sala de estar da minha casa tinha uma grande estante de madeira e chegava ao teto e cobria quase uma parede inteira. Cheia de livros, vídeo-games, CDs e DVDs.
Klaus e eu nunca fizemos esse tipo de divisão “Esse livro é meu” ou “ Esse jogo é meu” . Tudo que estava na estante era “nosso”
– Vocês têm uns jogos bem legais aqui – comentou Max olhando para mim. – Olimpia, certo?
– Olly – eu disse.
– Olly, certo – ele repetiu. Ele usava uma calça jeans gasta com uma xadrez vermelha.
– Por que não está lá fora? – perguntei.
– Prefiro ambientes calmos.
– Oh... entendi. Você prefere ficar dentro da casa, bisbilhotando a sala de estar dos outros.
Max riu e passou a mão pelo cabelo.
– Sim... é isso mesmo. – ele respondeu.
– É... eu entendo...
Então seguiu-se aquele silêncio constrangedor.
– Eeeei Olly! – disse Hector irrompendo dentro da sala de estar, direto na minha direção, bagunçando meu cabelo.
– Que droga Hector! – eu disse o empurrado.
– Ei – Hector disse para Max.
– Ei – Max respondeu.
– Não vão comemorar com a gente lá fora? – Hector perguntou.
Max e eu trocamos um olhar que dizia : Eu vou se você for.
– Vamos Olly, você precisa se animar um pouco depois de ontem – disse Hector me puxando para fora.
Peguei uma cadeira reclinável e a levei para um canto e fiquei aproveitando a musica e observando as pessoas.
– O que aconteceu ontem? – Max perguntou surgindo do meu lado.
Levei um susto, de onde ele veio? Eu tinha acabado de olhar naquela direção e não tinha ninguém ali! E de repente, bum! Max.
– O que?
– Hector disse que você precisava se animar depois do que aconteceu ontem. – Ele estava apoiado na cerca de madeira olhando na minha direção.
– Oh... isso.. – eu disse desviando o olhar de Max.
– Quer saber, não é da minha conta – Max disse. – Sou muito sem-noção as vezes.
– Tudo bem... sem problemas.
– Hum.. ninguém da engenharia civil foi atrás do seu irmão até agora, o que quer dizer que a paz voltou ao reino animal dos engenheiros – Max disse.
– Fico muito feliz em saber disso.
“Not afraid” começou a tocar e eu cantei junto baixinho. Eu tinha essa mania de começar a cantar junto toda vez que uma musica que eu gostava a tocar perto de mim. Já perdi a conta de quantas vezes fiz Klaus passar vergonha por causa disso.
– Você gosta de Eminem? — Max perguntou.
–Gosto. Por que?
– Sei lá... você tem cara de quem curte Taylor Swift.
– O que faz pensar isso?
– Meninas bonitinhas e delicadas como você sempre gostam de Taylor Swift.
– Você tem noção que você me conheceu essa semana, certo? – eu o lembrei. – Eu acredite, eu estou longe de ser delicada. – eu disse, ignorando a parte do “bonitinha”
– Você está certa, não é justo de julgar agora. Vou te conhecer melhor, e depois vou te julgar.
– É o mínimo que eu exijo. Obrigada.
Eu adorava de Taylor Swift. Só eu sabia quantas vezes eu já tinha dançado Shake it off com Mick no meu quarto. Mas é claro que eu não contaria isso para Max.
– Arctic Monkeys – eu disse para ele.
– O que tem eles?
– Você tem cara de quem curte Arctic Monkeys.
– O que faz pensar isso?
– Garotos descolados, de camisa xadrez, ray-ban e vans sempre gostam de Arctic Monkeys...
–Ok... Em minha defesa... Todo mundo devia gostar dele, eles são muito foda – Max disse.
E quase uma hora depois, Max e eu ainda estávamos conversando, sobre musica, livros, vídeo-games, era engraçado e estranho conversar com ele, porque o assunto nunca acabava.
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