Hate Everything About You

9 Perda - Parte I - Dissonância


Notas iniciais
1- Inccubus - O íncubo geralmente aparece em sonhos que a vítima está sentindo prazer. Ele toma a forma mais atraente para a vítima, atraindo-a para si com seu magnetismo, sugando a energia sexual de sua parceira. Indefesa diante da situação, a vítima desse ser oferece involuntariamente sua energia, como forma de retribuição, durante os atos cometidos. Ao acordar se sente fragilizada e cansada. Forma masculina de succubus.
2-N'uma... Iqista... n'uma... - "Não... por favor... não..." Em élfico.
*'Ksher! - Maligno
* Amin delotha lle - Eu te odeio.
* Utinu em lokirim - Uma expressão cujo significado é "pessoa desonesta"
* Ndengina... iqista... - Me mate... por favor...

~

E se você corre o risco de perder mais do que você imagina: alguém querido, a sanidade, a vida... há muito a se perder, mas muitas vezes, quando paramos para pensar nisso, pode ser um pouco tarde demais...
E se sua mente e seu coração entram em dissonância? Seus sentidos e seus sentimentos? Sua crença e as evidências à sua volta?

Quarfein sentiu os raios de Sol lhe tocando a pele, mas não se importou. Estava cansado, mas ainda assim, não deixara passar despercebido um leve movimento das pálpebras do elfo.

– Amaess?– Disse, aproximando seu rosto do rosto do garoto. O outro jovem hesitou por alguns instantes — ainda estava vivo? Havia alguém chamando-o pelo nome, então não podia ser Quarfein... disso tinha certeza — o outro o tratava como se fosse uma propriedade, logo, sabia que ele nunca o chamaria pelo nome.

Ainda assim, seus pulsos doíam por causa do corte, então estava vivo, certo? Abriu os olhos devagar, se encolhendo ao se deparar com o drow.

– Essa é a última vez que eu lhe deixo sozinho, seu imbecil. – Disse o rapaz. O outro se encolheu, vendo o olhar de raiva nas orbes rubis. – No que você estava pensando?! – Gritou, erguendo o elfo pelos ombros. – Por acaso queria morrer?! – Disse, diante de um par de olhos arregalados de medo.

– Sim, eu queria... – Respondeu o garoto, em um tom de voz quase inaudível. A tristeza e a melancolia estavam tão nítidas na voz do elfo que Quarfein sentiu algo dentro de si quase esmagando-o. – É melhor... do que ser mantido vivo como um brinquedo...

Silêncio. O drow parou por alguns instantes, observando a expressão de tristeza no rosto do outro. Os fios dourados caiam melancolicamente sobre o rosto cabisbaixo do elfo, ao passo que um par de lágrimas escorreram pelo rosto delicado do mesmo.

– Então, você tentou se matar para fugir de mim? – Disse Quarfein, tentando não se deixar abalar por aquela visão.

– Eu prefiro qualquer coisa a ser tocado por você novamente! – Falou, com raiva pelo fato de que Quarfein sequer o deixara morrer em paz. O drow recuou, se irritando com aquelas palavras.

– Mesmo? – Disse. – Por que eu conheço muitas pessoas que pagariam um bom dinheiro —

–...!– Amaess desviou o olhar. As lágrimas ainda mais abundantes. – Por que não me deixou morrer?!

Quarfein hesitou.

– Do que — O drow foi interrompido.

– Você já tem o que queria. Eu não tenho a menor vontade de continuar vivendo. Não pode ao menos me deixar morrer? – Disse o mais jovem, com lágrimas nos olhos. Quarfein sentiu seu peito ser tomado por uma dor lacerante.

– Não! Não era isso o que eu queria! – Disse, soltando o outro sobre a cama. Não queria que outro desejasse a morte — não depois de certo tempo — queria que Amaess desistisse de se sacrificar tanto para proteger Claitae, o que não apenas abalava suas convicções, mas também o fazia, até certo ponto, sentir inveja da pequena — se fosse ele no lugar de Claitae e qualquer pessoa da sua família no lugar de Amaess, ele teria sido deixado para trás para morrer. Ninguém se importaria em tentar defendê-lo, por que era assim que funcionava o mundo em que vivia: cada um por si, e a possibilidade de perder o favor de Lolth contra todos.

– Não? Mas você gosta, não gosta? – Falou o elfo, tirando Quarfein de seus pensamentos. Os olhos azuis, outrora com um olhar inocente que ainda carregavam um brilho de esperança, agora tomados por um olhar de melancolia e dor. – Gosta de me ver sofrendo. De me fazer sentir dor. Você mesmo disse.

– E-eu... – Quarfein se viu sem ter o que dizer. O que o outro dissera era de fato verdade, mas... aquele olhar... aquele olhar tão triste e melancólico... e ao mesmo tempo tão amedrontado... por que se via desarmado por aquele olhar? Não havia nada que pudesse dizer. Não sabia mais o que sentia. Por que se sentia tão confuso? Por que aquele garoto abalava tanto suas crenças e convicções?

Era demais para sua cabeça. Normalmente deixaria o garoto preso ao pé da cama e sairia em busca de uma distração, mas agora... agora a irmã do jovem havia roubado a chave da coleira.

Olhou o corpo nu e frágil sobre a cama, observando as lágrimas escorrerem dos olhos do elfo. Tão belo, tão indefeso... tão atraente... não podia se conter — precisava tê-lo. Mas ao mesmo tempo... por que não sabia o que estava sentindo? Por que tudo o que sabia a respeito do que sentia era a ânsia por ter o outro em seus braços?

Era isso. Era disso que precisava — fazer com que Amaess engolisse aquela mania de desafiá-lo, de contrariá-lo — ou ao menos fazer com que ele desistisse do acordo. Em sua mente, bastaria aquilo para que aquela estranha sensação sumisse.

– Eu não lhe devo respostas ou satisfações. Nada para ser mais exato. – Disse o drow, ainda que estivesse tendo que lutar contra a hesitação e se esforçar para que sua voz não vacilasse. Amaess estremeceu, tentando se afastar, mas Quarfein o puxou pelo braço, pressionando o ferimento feito um dia atrás. – Eu não sei se a perda de sangue ontem afetou a sua memória, mas eu não vejo problema nenhum em refrescá-la para que você lembre seu lugar. – Falou, envolvendo a cintura do outro e pressionando o corpo frágil do mesmo contra o seu. O elfo tentou afastá-lo, mas era inútil — a diferença de tamanho podia ser pequena, mas não podia-se dizer o mesmo da diferença de força. Amaess percebeu e afastou o rosto, fechando os olhos com força. Seu corpo tremia, enquanto as mãos do drow impiedosamente desciam para seus quadris. Quarfein ignorou e mordeu o pescoço do elfo com força, deixando os caninos ligeiramente mais afiados que o normal deslizarem pela pele alva de Amaess. O garoto tentava manter a calma e raciocinar — adiantaria gritar por ajuda? Ajuda de quem? Existia alguém em quem podia confiar?

– Pode gritar se quiser... – Sussurrou o drow em seus ouvidos, enquanto suas unhas deslizavam pelas costas do elfo. – Quem sabe não apareça um bom samaritano, que te leve para o quarto e te drogue a ponto de você mal conseguir se equilibrar? – Falou, se referindo ao acontecimento da noite anterior.

– Não... – Murmurou o garoto, se lembrando do que acontecera. Quarfein deu um sorriso de escárnio, soltando o corpo do garoto e se levantando para pegar a bolsa. O garoto tentou se afastar, mas o drow rapidamente o empurrou de volta contra a cama, agarrando-lhe por alguns fios de cabelo. Amaess apenas teve tempo de fechar os olhos antes de sentir sua cabeça colidindo com a cabeceira da cama.

– E quem sabe seja alguém menos possessivo, que não se importe em dividir você com um ou dois bêbados...– Zombou Quarfein. O elfo tampou os ouvidos, tentando não ouvir e evitar se lembrar da noite anterior ou do dia em que o outro lhe levara para comer em uma taberna. O drow pegou um par de algemas, agarrando um dos pulsos do garoto e fechando o aro de metal em torno do mesmo. – Oras, vamos, não cubra seus ouvidos... a verdade de que você não tem para onde ir dói tanto assim?– Disse, terminando de algemar Amaess. Um soluço deixou os lábios do garoto.

– Pare! – Exclamou, vendo o outro devorar-lhe com o olhar. Quarfein deu um sorriso oblíquo, secando uma das lágrimas que escorriam pelos olhos grandes e arregalados de medo do elfo. Seus olhos percorreram o corpo frágil e exposto com luxúria... ainda que houvesse mais do que malícia e crueldade naquele olhar, quaisquer outro sentimento que não fosse a raiva estava sendo sufocado com firmeza, de forma que aquele olhar fizesse Amaess tremer, apertando os olhos quando a mão do drow deslizou por seu tronco. Aquela pele tão macia, tão branca...

– Por que eu pararia?– Disse o drow, descendo suas mãos para as coxas do garoto. Se esforçava para resistir a vontade de cortá-lo ou açoitá-lo, devido à perda de sangue que o elfo havia sofrido anteriormente, ainda que sentisse ainda mais vontade de fazê-lo quando Amaess se retorcia, tentando fugir de seu toque. – Você é tão indisciplinado. Parece até que gosta de ser punido. – Falou, rindo. Lágrimas escorreram pelos olhos de Amaess.

– Por favor... tudo o que você já fez... não é o suficiente?! Por favor me deixe em paz! – Implorou, pouco antes de um tapa atingi-lo no rosto. Amaess estremeceu, olhando de forma suplicante para seu agressor.

– Se o que eu fiz é o suficiente ou não, isso sou eu quem determina. Você se submeteu a mim para que eu deixasse sua irmã viver, lembra? – Disse, puxando os cabelos do elfo para trás — como o garoto havia tido a audácia de olhar em seus olhos?! O drow pegou um alicate, segurando-o em frente aos olhos do garoto. – Vamos começar com isso, o que acha? – Disse. Amaess fechou os olhos, tremendo.

– Não... aaah! – Um gemido de dor deixou os lábios de Amaess quando o alicate se fechou em torno de um de seus mamilos. O drow não esperou para começar a girar o alicate em círculos, fazendo o garoto gemer. Deixou sua mão livre deslizar pelo outro botão rosado, em uma sincronia que bombardeava os sentidos de Amaess com uma mistura de dor e prazer... porém, psicologicamente, não havia prazer nenhum. –P-pare... – Implorou o elfo, em vão. Quarfein deu um sorriso ambíguo, tirando o cinto.

– Está me pedindo para que tenha pena de você? – Disse, atingindo o garoto no tronco. Um grito de dor deixou os lábios de Amaess. – Por que eu perdoaria sua indisciplina? Eu já não deixei claro que você me pertence?! – Exclamou, continuando a atingir o garoto a despeito de suas súplicas para que parasse. – Você se submeteu a minha vontade para que eu não matasse sua irmã, lembra?! Você é meu, e não tem o direito de fugir, ainda que se matando! – Disse, descontando em forma de dor física a raiva que sentia do susto que o outro o fizera passar na noite anterior.

Só parou quando o couro começou a fazer arranhões, ainda que superficiais, na pele do elfo — não queria arriscar que um sangramento, após a noite anterior, ameaçasse a vida do garoto. Amaess tremia, soluçando. Os hematomas que o outro deixara usando o cinto ardiam, e todo o seu corpo doía. Seus pulsos estavam roxos devido à luta contra as algemas, e seu peito subia e descia em meio à respiração ofegante. Quarfein tornou a pegar o alicate, novamente voltando a atenção para o peito do garoto.

– Não... – Suplicou Amaess, tremendo. Ainda assim, os abusos não parariam tão cedo.

~*~

Claitae observava a cidade de Spes ficando para trás à medida que a carruagem andava. Ao seu lado, Peter segurava sua mão, procurando tranqüilizá-la.

– Ele vai vir atrás de nós, Clai... eu deixei a chave com minha tia, e ela sabe onde minha mãe mora... seu irmão vai estar com você de novo em um dia ou — A elfa o interrompeu.

– Não é do plano falhar que eu tenho medo, Pete... – Disse.

– É do que, então? – Falou o garoto.

– É do que aquele monstro pode fazer com meu irmão... – Respondeu a pequena.

– Ele não vai fazer nada pior do que já fez antes de tentarmos — Peter novamente se viu interrompido.

– Eu não estou falando do que ele pode fazer enquanto não levamos adiante nosso plano. Eu estou falando do que ele pode fazer se o plano der errado. – Disse a garota, com os olhos lacrimejando.

O silêncio imperou por um bom tempo até que Peter tomasse coragem de falar.

– O plano não vai dar errado. –Disse.

– Como pode ter tanta certeza? – Perguntou a elfa.

– Eu não tenho. Mas eu preciso acreditar que o plano não vai dar errado... porque ele não pode dar errado.

~*~

Quarfein observou, em uma confusa mistura de satisfação e receio, Amaess ofegar sobre a cama, com os pulsos feridos pela luta contra as algemas. Alguns hematomas e ferimentos superficiais estavam espalhados pela pele alva de seu corpo, que tremia. O drow se debruçou sobre o garoto.

– Eu vou precisar te lembrar mais à respeito do seu lugar? Ou você já aprendeu qual é ele? – Perguntou o rapaz, segurando o rosto do outro virado para o seu. Amaess desviou o olhar enquanto as mãos de seu algoz deslizavam pela sua bochecha, deixando-se molhar pelas lágrimas do elfo.

– E-eu... já aprendi... m-meu... lugar... – Falou, quase em um murmúrio.

– Mesmo? – Disse o drow, lambendo um dos mamilos do garoto. Um gemido, que mais soou como um lamento, deixou os lábios de Amaess.

– S-sim... – Falou o jovem, gemendo quando Quarfein mordeu o botão rosado em torno do qual sua língua outrora circulava. O drow ergueu o rosto.

– Então, vire-se. Fique de costas para mim, com a cabeça apoiada na cama. – Disse, se levantando.

– M-mas... eu... – O elfo tentou dizer, mas o drow o interrompeu.

– Vire-se. – Ordenou. Encurralado, Amaess obedeceu.

As mãos do drow percorreram o peito do garoto, que estremeceu quando o rapaz se debruçou sobre seu corpo. Podia sentir a respiração do drow em sua orelha, enquanto este distribuía beijos e mordidas em seu pescoço.

Quarfein amava o aroma que os cabelos do elfo exalavam, e adorava a pele macia do pescoço do mesmo, mas isso era algo que jamais diria ao garoto. Ou ao menos pretendia não dizer. Amaess estremeceu quando as mordidas do outro desceram para seu ombro. Qualquer pessoa que não estivesse dentro da mente do drow diria que não havia afeto, e sim que ele estava apenas reafirmando seu domínio quando beijava o pescoço de Amaess, mas não era apenas isso — havia sim, afeto... um afeto proveniente de um sentimento contra o qual Quarfein se debatia da mesma forma que um peixe dentro de uma rede, um sentimento que o drow não apenas temia e desconhecia, mas também se recusava a aceitar — um sentimento contra o qual lutava de forma até mesmo auto-destrutiva.
Amaess tentou, em vão, abafar um gemido de prazer quando Quarfein mordera o ponto de encontro entre seu pescoço e seu ombro. Seus lábios se abriram contra sua vontade, e a expressão em seu rosto misturava diferentes emoções — tristeza, prazer, angústia... o garoto abaixou um pouco os quadris.

– O que foi? – Falou o drow, descendo as mãos para a virilha do elfo. Amaess deixou escapar um soluço. Uma das mãos do drow parou na região da virilha, mas a outra percorreu toda a extensão das coxas esguias do garoto. – Levante mais o seu quadril. – Falou, se lembrando de que o outro o fizera sentir-se desesperado pela primeira vez na vida, e decidindo descontar ainda mais o que passara.

– P-por favor... não... – Suplicou Amaess, uma vez que ter de ficar daquele jeito já lhe era demasiadamente humilhante. O drow o atingiu com um forte tapa nas nádegas, que deixou sua mão nitidamente marcada. O garoto deixou escapar um gemido de dor, afundando o rosto entre as mãos e apertando o travesseiro — aquilo era degradante demais, mas o elfo sabia que Quarfein podia fazer as coisas ficarem ainda piores.

– Achei que tivesse deixado claro que você devia me obedecer sem contestar. – Falou o drow, deixando a mão descer pelas coxas do garoto. – Esse é o preço por tentar fugir de mim, ainda que morrendo.

Amaess sentia seus olhos ardendo de tanto chorar. Raiva, vergonha, medo, dor e tristeza o dragavam para um labirinto de sofrimento, do qual a saída ficava cada vez mais difícil achar.

– Por favor... – Implorou, soluçando.

– Obedeça. Quer que eu volte a lhe bater? – Ameaçou Quarfein. O elfo se viu forçado a obedecer, sentindo o rosto queimar de vermelhidão em meio à vergonha que sentia. Ouviu o som do zíper sendo aberto, e sabia o que vinha a seguir.

­- O que eu fiz para passar por isso?O garoto achava apenas ter pensado as palavras, quando na verdade as murmurou, fazendo Quarfein hesitar por alguns instantes. Por fim, o rapaz decidiu que a dor psicológica já seria o bastante, preparando o garoto para o que estava prestes a fazer até com certo cuidado, ao passo que o mais jovem temia proferir qualquer palavra — o outro já o havia torturado muito, e agora Amaess já não suportava mais nada — de forma que, quando o drow o penetrou, tudo o que fez foi morder os lábios e apertar o travesseiro, deixando escapar um gemido de dor.

O elfo fechou os olhos, apertando cada vez mais a fronha à medida que o drow se movimentava. Não sabia dizer se Quarfein possuía um fôlego inesgotável ou se aquele tormento parecia não ter fim, mas se sentia ainda pior por saber que não era apenas dor que estava sentindo — se amaldiçoava miseravelmente por não estar sentindo apenas dor enquanto Quarfein o segurava com apenas uma mão, deixando sua boca e a mão que se encontrava livre percorrerem seu corpo como bem entendiam. As estocadas em seu interior eram fortes e bem direcionadas, fazendo dor e prazer se misturarem enquanto a cama rangia sob os corpos quentes. Amaess estremeceu ao perceber que aquilo excitava uma parte de si — como seu corpo podia traí-lo daquela forma, fazendo-o sentir prazer com aquele homem, ainda mais sob aquelas circunstâncias?

– Não é como se você odiasse... – Falou Quarfein, notando a alteração na respiração do elfo, agora entrecortada não apenas pelo choro e pelos soluços, mas também por gemidos de prazer que o mesmo tentava inutilmente abafar. Tendo a provocação ignorada, Quarfein levou a mão livre até a parte mais íntima de sua presa. – Ou estivesse sentindo apenas dor... – Disse, pressionando o penis semi-ereto do jovem. Um grito de dor deixou os lábios do garoto, que teria colapsado se o drow não o segurasse pelo quadril. – Ainda assim, eu preciso te punir de alguma forma pelo que fez... – Falou, aumentando um pouco a pressão.

– P-pare... Por favor! – Gritou o garoto, em meio à dor de ter seu membro pressionado daquela forma.

– Peça direito. – Disse o drow, deixando sua unha deslizar pela sensível região do corpo do elfo, ameaçando arranhá-la.

– P-por favor... – Suplicou o garoto , com a voz trêmula. – M-milord...- O garoto se odiou, amaldiçoando a si mesmo, ao dizer aquelas palavras. – Pare... dói muito... – Implorou.

A vontade de se matar agora era maior do que nunca.

– Vai tentar fugir, de qualquer forma, de novo? – Falou o drow. A dor nublava os pensamentos de Amaess, cujos dedos se afundavam no travesseiro.

– Não... por favor... me perdoe... – Disse, com a voz entrecortada pelo sofrimento.

Quarfein não soltou o membro do garoto, mas parou de apertá-lo, e agora sua mão deslizava por ele no mesmo ritmo das estocadas que o drow dava no interior de Amaess. O garoto tentava não gemer, mas as ondas de estímulos atacavam sua mente por todos os lados. O elfo se viu erguido pelo ombro, e estremeceu ao sentir a respiração do drow em sua orelha — a respiração ofegante, entrecortada por gemidos baixos de prazer. Amaess soluçou, ficando ainda mais embaraçado ao notar que estava gemendo alto, sem conseguir conter sua voz — aquilo era de fato humilhante, mas o outro ministrava seus toques de forma que o auto-controle do elfo fosse aos poucos consumido por uma indesejável chama de prazer. O drow empurrou o garoto até a beira do clímax, e então interrompeu os movimentos de sua mão, posicionando o dedo na frente da uretra do outro a fim de obstruir a passagem de qualquer líquido. Um gemido um pouco mais alto deixou os lábios de Amaess.

– E você ainda diz que não gosta disso... – Falou. Seu hálito fresco soprando alguns fios dourados para a frente. Sua língua macia e experiente deslizando pelo lóbulo da orelha do elfo, cujo corpo suplicava por alívio. O garoto não conseguiu reter o gemido que deixou seus lábios.

"Por que?" Era o único pensamento coerente que restava na mente de Amaess, ao que a mão livre de Quarfein deslizava pelas regiões mais sensíveis de seu corpo, fazendo com que este suplicasse por um orgasmo. Quarfein mordeu a ponta da orelha do elfo antes de sussurrar em seu ouvido.

– Me peça. – Disse a voz suave, e ainda assim cruel, entrecortada pela respiração ofegante.

– O... que? – Perguntou o elfo. O outro o pressionou ainda mais contra seu corpo, fazendo com que os lábios do mesmo deixassem escapar um gemido baixo, em um tom de voz angelical — era quase como um anjo puro e inocente, capturado e atormentado por um inccubus¹, tremendo devido a luxúria que assaltava seu corpo de forma indesejada.

– Peça para eu terminar o que começamos.– Respondeu o drow, se esforçando para conter-se. Os olhos do elfo se arregalaram, mas Quarfein não tardou em encurralá-lo. – Ou você prefere que eu lhe obrigue a pedir?

O sentimento de humilhação era esmagador. Lágrimas de raiva e vergonha escorriam pelo rosto delicado de Amaess, mas o elfo sabia que Quarfein não descansaria enquanto não o fizesse implorar. Estava encurralado, e não dizer aquilo apenas iria prolongar sua agonia.

– T-termi...– O garoto se viu interrompido.

– Não assim. Peça direito. – Falou o drow, à beira do ápice. Amaess sentiu os dedos do outro rapaz deslizando de leve ao longo de seu membro, fazendo seus lábios se abrirem em um gemido humilhante de prazer. Precisava acabar com aquilo logo, ou aquilo acabaria com sua sanidade.

– P-por... favor... mi...lord... – Disse. Já não mais sentia a dor devido à forma que o drow atacava os pontos mais sensíveis de seu corpo — sentia apenas o fogo do prazer consumindo seus pensamentos e a necessidade de expulsá-lo antes que este consumisse toda sua mente. – T-ter...mine... o que... c-co... – A última palavra não se formava. O elfo simplesmente não queria dizê-la, mas se viu obrigado a fazê-lo — sabia que o outro não o deixaria enquanto não dissesse. – C-começa...mos... – Falou, quase morrendo de vergonha. O drow sorriu, voltando a deslizar a mão pelo penis do garoto. Amaess sentiu o próprio sêmen espirrando em seu tronco, e então uma dor excruciante quando o drow o virou de barriga para cima, sem sequer sair de seu interior. Um grito de dor deixou seus lábios.

­- N-não mais... – Implorou. – Milord... p-por favor... aagh!

O corpo do elfo tremeu em um espasmo quando o sêmen do outro jorrou em seu interior. O garoto desviou o olhar, sem sequer ter coragem de olhar para o drow, que tocou-lhe o queixo, segurando-o de frente para si.

– P-por favor... chega... e-eu... não agüento m-mais... – Suplicou, mantendo os olhos fechados. O drow apenas removeu-lhe as algemas, se afastando por alguns instantes e observando enquanto o elfo se encolhia, abraçando os joelhos e chorando em silêncio.

"Tão lindo ... " Pensou, afastando alguns fios dourados do rosto do garoto, ainda ofegante. Não podia mais negar de que essa fora uma das razões pelas quais não matara o outro no primeiro dia em que se encontraram — não podia negar para si mesmo que desde que colocara seus olhos em Amaess, sentira desejo pelo mesmo. Mas era apenas um desejo carnal, e nada mais — a não ser, é claro, um pouco de inveja pelo garoto ter uma irmã que não o abandonaria na primeira oportunidade. No entanto, já não mais podia resistir ao estranho sentimento que surgia dentro de si e o puxava para aqueles olhos azuis.

– Me... deixa... – Suplicou o garoto, com a voz chorosa. Se odiava miseravelmente, e se não fosse o medo de outra tentativa de suicídio falhar e aquilo se repetir, tentaria se matar de novo. Quarfein se afastou, observando os hematomas que havia deixado sobre a pele do outro. Geralmente, sairia para arejar um pouco e colocar as idéias em ordem, mas agora a irmã do elfo tinha a chave. Agora, não poderia deixá-lo sozinho, ou correria o risco de perdê-lo. Observou pela janela — o brilho do Sol ficava cada vez mais fraco, anunciando a chegada do inverno. Se sentou sobre o beiral da mesma, sentindo o vento tocar-lhe o rosto, pelo qual uma gota de suor escorria.

"Por que eu faço tanta questão de não ficar sem ele?" Se perguntou, esperando que alguma voz misteriosa lhe respondesse enquanto sua respiração ofegante voltava ao normal.
Sua pergunta ficou para si. Já não sabia mais o que fazer — sentia-se cada vez mais estranho, com vontades que nunca sentira, e cada vez mais a presença do outro lhe despertava sentimentos que lhe eram estranhos, desconfortáveis e acima de tudo, assustadores, fazendo-o se sentir ameaçado. "Droga, por que?!" Se perguntou o drow, batendo com a mão fechada no beiral da janela. Não poderia continuar naquele lugar — as ações de Alvina e Nádia não o deixariam ter sossego.

Suspirou, se debruçando sobre Amaess. Não demorou para que o elfo começasse a tremer de medo. O rapaz suspirou.

– Vem, vamos tomar um banho e sair. Nós só temos mais uma diária aqui de qualquer forma. – Disse, puxando o elfo pelo braço. Amaess o seguiu de forma entorpecida, já sem esperança alguma, e apenas observou, enquanto o drow enchia a banheira, o nível da água morna subindo. Quarfein o levou até a estrutura de madeira e se sentou, puxando-o para seu colo.Todo o corpo do garoto tremia. O drow mordeu-lhe a ponta da orelha, deixando os lábios deslizarem para o pescoço do jovem, que se encolheu. Amaess sentiu os braços fortes e com músculos ligeiramente definidos do drow em volta de sua cintura, e se encolheu ainda mais.

–N'uma... Iqista... n'uma...² – Suplicou, exausto. O drow sorriu, enrolando parte de uma mecha de cabelo do garoto em volta de seu dedo.

– Esqueceu como se fala o idioma comum? – Provocou. Amaess estremeceu, em choque. – Eu não vou fazer nada demais com você... não agora... – Falou Quarfein, ensaboando o corpo do elfo. Amaess não reagia — apenas tremia em meio ao medo. O jovem de cabelos brancos terminou de se banhar, e então se ergueu, se enrolando na toalha. Algumas gotas d'água escorriam de seus cabelos para a pele obsidiana de sua nuca, e deslizavam por seu corpo bem definido e escultural, fazendo dele uma visão tentadora. Mas no elfo, aquela visão não despertava desejo, e sim medo. – Vem. – Disse o drow, segurando a outra toalha aberta. Amaess a tomou de suas mãos, se enrolando na mesma como uma criança se enrola no cobertor temendo os monstros embaixo da cama.

O drow suspirou — não sabia por que se sentia tão atraído por uma criatura tão frágil, muito menos conseguia compreender os sentimentos que cresciam dentro de si — apenas o temia, e os rejeitava. Esfregou a toalha nos cabelos do elfo, secando-lhe o corpo e sentindo-o tremer sob seu toque. Uma frágil criatura da superfície, irritantemente amável e odiosamente cativante, que Quarfein não mais conseguia sentir vontade de matar. O drow ergueu os olhos, observando o belo par de olhos cor de safira que o encarava com uma expressão de medo. Deixou a mão deslizar pelo rosto delicado do elfo, que não reagiu — apenas desviou o olhar, encarando o chão. Uma lágrima silenciosa escorreu.

– Por que?– Perguntou o garoto, com a voz trêmula. O drow não soube o motivo, mas sentira seu peito doer, como se estivesse sendo dilacerado pelo punhal de uma sacerdotisa da sádica e calculista deusa de seu povo. – Por que faz isso comigo?

– Não vai demorar. – Disse Quarfein, sem compreender porque passara a sentir seu coração doer quando via o garoto angustiado daquela forma — no começo era divertido: achava engraçado quando o outro tentava inutilmente escapar, mas facilmente sua fuga era interrompida... mas agora... agora não era mais engraçado — por razão desconhecida, agora era doloroso.

O elfo permaneceu em silêncio, se afastando. Quarfein pensou em partir para cima do garoto, mas algo dentro de si lhe alertava que aquela seria a pior decisão que podia tomar. Talvez se o matasse? Sim, se o matasse antes que aqueles olhos da cor do mar o fizessem se afogar em desconhecida fraqueza... talvez fosse a melhor decisão a ser tomada, mas... mas não conseguia se imaginar vivendo sem o outro.

Ficou ali, parado, observando o elfo se vestir com certa dificuldade. Por que não conseguia mais imaginar sua vida sem ele?

Considerava que sua vida estava bem antes de conhecê-lo: havia se graduado na academia de armas pouco antes de atingir a maioridade, e quase imediatamente havia conseguido uma posição que, para um jovem recém graduado, era de fato de destaque.
Já não era a primeira vez que torturava alguém — já matara e torturara várias pessoas — não porque havia sido obrigado por alguém, mas simplesmente porque podia — e queria. E se divertia, sem sentir remorso, com os gritos e os pedidos desesperados por clemência, que friamente ignorava.

Estava tudo bem, até ter decidido atormentar aquele elfo — aquele garoto, que era apenas um pouco mais novo, mas muito mais inexperiente e frágil — aquele garoto que o fazia ter aquelas sensações estranhas e irritantes, para não dizer ameaçadoras. Aquele garoto que o tirara de seu rumo. Começara a ter aquelas sensações desagradáveis depois de permanecer certo tempo com ele... então... se o matasse as coisas voltariam ao seu normal, certo? Respirou fundo, pegando o punhal e indo até o garoto.

– Amaess... – Falou. O elfo voltou o olhar em sua direção, fixando os olhos no punhal que o outro trazia consigo e parecendo mais calmo diante da possibilidade do outro lhe matar. Morte. Morrer sem dúvida era melhor do que viver daquele jeito — era melhor do que viver sem liberdade, sem ninguém em quem confiar... era melhor do que viver tendo como únicas companhias constantes o medo e a angústia. Um suspiro deixou os lábios do garoto quando Quarfein ergueu o punhal — para si, a morte havia deixado de ser uma ameaça a ser temida, e passara a ser uma possibilidade muito bem-vinda de acabar com seu sofrimento.

A lâmina desceu de forma acelerada, abraçando de forma inclemente seu alvo, rasgando-o. Amaess estremeceu quando se viu debaixo do outro novamente, com o drow roubando-lhe o ar que respirava e tomando-lhe os lábios de forma súbita. Tentou empurrá-lo, mas foi em vão — sentia a língua do outro deslizando por sua boca, procurando pela sua, roubando seu fôlego. Quarfein terminou de afundar o punhal no colchão e puxou os cabelos dourados do elfo para trás, fazendo com que o mesmo mordesse os lábios para não gritar, não de dor, mas sim de medo. As mãos delicadas de Amaess se agarraram com força ao lençol da cama, ao que o jovem tremia, apavorado. Um gemido deixou seus lábios quando o drow mordeu-lhe o pescoço, fazendo com que o garoto estremecesse quando uma humilhante sensação de calor assaltou seu corpo. As mãos de Quarfein deslizavam pelo corpo do elfo com ânsia, com desespero... seus lábios suplicavam por aqueles lábios, tão rosados e macios... por que não conseguia mais desprezá-lo? Por que não conseguia matá-lo? Aquele garoto, tão irritantemente doce, tão irritantemente amável ... por que se deixara cativar por aquele garoto?

Amaess estremeceu quando os dentes do outro deslizaram pelo seu pescoço, arranhando-o enquanto a língua do drow dançava sobre a pele alva, que certamente ficaria marcada. Lágrimas escorreram dos olhos do jovem.

– Não mais... por favor... – Suplicou, com a voz chorosa, tremendo enquanto as mãos de Quarfein percorriam seu corpo com voracidade. O drow parou por alguns instantes, observando o medo praticamente tangível refletido nos olhos do garoto. Por que? Por que não gostava mais de vê-lo com aquela expressão de medo? Por que não sentia mais prazer em fazê-lo sofrer ou sentir-se apavorado? Afinal, o que estava acontecendo consigo? Sentira uma dor lacerante no lado esquerdo de seu peito, sem compreender o que se passava — não entendia a natureza do que estava sentindo, e isso não apenas o incomodava, mas também o assustava.

– Você... que se submeteu a isso, lembra? – Falou, deixando as mãos deslizarem pelo rosto do elfo. O garoto desviou o olhar, fazendo com que o outro jovem o segurasse de frente para si. – E... tudo isso...

– Em vão... – Balbuciou Amaess. – Foi tudo em vão. Foi um erro confiar em Nádia, foi um erro fazer de tudo para que Claitae pudesse viver! – Soluçou, fazendo com que o outro se espantasse.

– Do que está falando? – Perguntou o drow.

– Você sabe! Sabe do que estou falando! Eu devia ter morrido naquele dia, junto com minha irmã, que agora eu nem sei aonde pode estar! – Disse o garoto. Quarfein sentiu algo dentro de si se partindo, e então se afastou — uma inconveniente voz repetindo em sua mente as palavras de Alvina: "A culpa é sua!".

– Esqueça isso. Está tirando meu apetite. – Falou, puxando o garoto pelo braço. Amaess cambaleou, quase sem equilíbrio, mas o drow o segurou pela cintura. Um soluço deixou os lábios do jovem, fazendo com que os olhos rubis se voltassem para baixo. – Bom, ao menos assim você aprende a não confiar nas pessoas de forma tão ingênua e estúpida. – Falou Quarfein, acariciando os cabelos do garoto.

– 'Ksher! – Disse o elfo, soluçando.

– Eu sei o que você disse. E eu não me importo. – Falou. – Você é meu, nada do que faça irá mudar isso.

– Amin delotha lle! Utinu em lokirim! — Exclamou o garoto, tentando se soltar. Seus olhos se arregalaram quando se viu pressionado contra a parede, e todo o seu corpo tremeu quando as mãos de Quarfein novamente deslizaram por seu rosto, colhendo uma lágrima. As mãos do drow tremiam — geralmente, faria o jovem se arrepender por ter dito aquelas palavras, mas agora... agora não entendia porque sentia uma dor vindo de dentro sempre que pensava em feri-lo ainda mais. Ao invés de impulsivamente atingir o garoto com um tapa, Quarfein simplesmente buscou se acalmar, acariciando as bochechas do jovem.

– Não me surpreende o fato de que me odeia. Mas diga — quando eu fiz algo que ferisse sua irmã? Eu não te enganei, enganei? – Falou, sentindo uma certa tristeza ao ver o olhar abatido e desamparado do elfo, que desviou o rosto em silêncio. Os olhos cor de sangue permaneceram fixos naquela expressão melancólica de agonia e tristeza. O que estava sentindo?

Amaess se encolheu quando Quarfein tocou-lhe os ombros, temendo as próximas ações do drow. Tudo o que o outro fez, porém, foi ampará-lo.

– Vem, você perdeu muito sangue ontem... precisa se alimentar, ou sequer irá conseguir se manter em de pé. – Falou.

– Ndengina... iqista... – Suplicou o garoto, cabisbaixo.

– Se eu quisesse te matar... já teria feito isso. – Disse Quarfein, calmamente indo até o restaurante clairvoyance com o garoto. Não sabia porque não mais gostava de vê-lo com uma expressão de sofrimento, nem sabia porque sentia vontade de abraçá-lo, de protegê-lo... tampouco porque se arrependia de ter lhe causado tanta dor, e aquilo o incomodava — por que deveria se arrepender? Por que se sentia triste ao vê-lo tão abatido?

Se voltou para o garoto, que havia se sentado. Os olhos azuis, outrora cheios de vida, agora perdidos no espaço. Hesitando, Quarfein tocou-lhe uma das mãos, fazendo com que o elfo quase se encolhesse contra o encosto da cadeira.

– E então, o que você vai querer comer? – Perguntou. Amaess apenas suspirou, desviando o olhar — não era poder escolher o que viria em um prato de comida que diminuiria a dor que sentia, mas esse era um fator que o drow parecia fazer questão de ignorar. – O que foi?

O elfo respirou fundo, ainda com medo. O outro emitiu um suspiro.

– Amaess, pode só responder o que vai querer comer? – Perguntou, tentando arrancar qualquer resposta da boca de Amaess .

– Tanto faz... – Respondeu o garoto, observando a rua do lado de fora. Quarfein engoliu em seco ao notar a tristeza nos olhos do elfo.

– Tanto faz não é uma resposta. O que você quer? – Falou.

– Não precisa fingir que se importa. – Disse Amaess, abaixando um pouco da gola blusa e deixando exposto um ferimento. – É apenas isso que você quer, não é? Então... apenas me corte, me machuque, me torture... faça o que bem entender, mas pelo menos NÃO FINJA se importar comigo! – Falou, com um par de lágrimas escorrendo de seus olhos. Quarfein permaneceu em silêncio — não sabia o motivo, mas se sentia dilacerado por dentro.

A pior sensação, no entanto, era a de que não havia nada que pudesse dizer contra o que o garoto falara. Abaixou o olhar, que inevitavelmente recaiu sobre as faixas que envolviam os pulsos de Amaess. Notou a expressão de cansaço no rosto do garoto — uma expressão de exaustão, não apenas física, mas também psicológica.

"É tudo culpa sua" — Acusou a voz de Nádia em sua mente. Hesitando, o drow apenas pediu uma refeição qualquer.

O silêncio prevaleceu, pesado e mortificante. Quarfein pousou os talheres sobre o prato e ficou observando o elfo, se preocupando ao notar que o jovem mal tocara na comida.

– O que foi agora? – Perguntou, reunindo o pouco que tinha de paciência.

– Estou sem fome. – Mentiu o garoto, pousando os talheres sobre o prato.

– Você sequer comeu. – Disse o rapaz. Amaess deu de ombros. O drow emitiu um suspiro de impaciência. – Eu vou ter que te forçar a comer, é isso? – Falou.

– Tanto faz... – Respondeu o garoto. A apatia transpareceu em sua voz.

– Repita essas palavras de novo e eu irei... – Silêncio. O que iria fazer? – Eu irei te obrigar a comer agulhas.

Silêncio. E apenas o silêncio. Amaess apenas se obrigou a comer metade da refeição, enquanto o drow abria a pequena caixa lacrada, lendo a frase nela contida.

"Amor é algo que condena os que o negam ao vazio, os que os desprezam à solidão e os que o rejeitam à dor. Os que o sentem, porém, sempre terão uns aos outros. Amar é se importar com a pessoa amada e querer vê-la feliz, é sofrer ao vê-la triste e temer vê-la partir."

Engoliu em seco. Aquilo era... amor? Impossível. Amor era a pior das fraquezas, era algo que não devia sentir... principalmente por uma criatura tão frágil... então... como? Sabia que estava sentindo algo novo, algo que desconhecia e que lhe era incomodo e ameaçador, mas... amor? Algo tão vergonhoso, tão... fraco e inútil?

– Quando vai me matar? – Perguntou Amaess, tirando o drow de seus pensamentos. Os olhos rubis do rapaz se arregalaram.

– Te matar?! Por que- O drow parou, deixando a frase ficar jogada ao ar. A tristeza na voz do garoto era tanta... se fosse dias atrás, se divertiria com aquilo, mas agora... agora sentia dor... agora sofria... por que? – Não sei... – Disse, voltando a agarrar Amaess pelo braço. – Venha.

O elfo o seguiu, sem contestar. Quarfein se voltou para o garoto.

– O que foi? – Perguntou. Um par de lágrimas brilhou nos olhos de Amaess. – Amaess... eu estou falando com você. – Disse o drow, irritado.

– Por que? – Balbuciou o garoto. Por que? Por que por mais que tentasse não conseguia manter sua mente afastada do que era infligido ao seu corpo? Por que tudo era cravado em sua memória, por mais que preferisse esquecer? Por que? Por que ainda estava vivo?

– Por que o que, Amaess? – Disse Quarfein, puxando o garoto com mais força. O mais jovem perdeu o equilíbrio, caindo sobre o drow.

– Não... eu não agüento mais viver assim... – Disse. – Não suporto... viver assim... – Falou Amaess, em prantos.

– Assim como?– Perguntou o drow.

– Eu preciso mesmo dizer?! – Respondeu o mais jovem, soluçando. – Preciso mesmo descrever o inferno que você fez da minha vida?!

Aquelas palavras atingiram Quarfein de forma que o rapaz permaneceu em silêncio e, por mais que não quisesse, o drow não conseguia ignorar aquilo. Quarfein desviou o olhar, evitando os olhos úmidos do elfo- não queria deixar Amaess ir, porque sabia que nunca mais o veria se o deixasse ir. Não tinha dúvidas de que depois do que fizera o garoto o odiava, e sabia muito bem seus motivos.

O elfo recuou, com medo do que estaria se passando pela mente do drow, especialmente quando notou Quarfein apertando seu braço com mais força. Temendo o que o outro poderia fazer, agiu por impulso.

– M-me perdoe... – Se obrigou a dizer, ao que o drow o puxou para si. – Me perdoe... eu esqueci que você não se importa... eu não vou fazer de novo... por favor me per- O garoto parou, tremendo, quando o indicador de Quarfein tocou-lhe os lábios. Estremeceu, quase parando de respirar enquanto o dedo do drow deslizava para dentro de sua boca. Um par de lágrimas escorreu de seus olhos.

– Amaess... pare de chorar como uma criança, está me desorientando! – Falou, nervoso. – Eu não vou fazer nada, está bem? Agora, me siga, eu tenho de ir recolher uma encomenda. – Disse, evitando a situação.

Amor? Como podia, logo ele, estar sendo afetado por aquela fraqueza que chamavam de amor? Odiava tudo aquilo — odiava o fato de que sua mente estava completamente confusa, odiava o fato de que não conseguia por seus pensamentos em ordem... odiava o fato de que precisava manter sua mente ocupada para que ela não lhe torturasse com a sensação de culpa.

Amaess respirou fundo, enxugando os olhos antes de se ver forçado a seguir o drow. Não demoraram para chegar a um estábulo pequeno, onde apenas três, das cinco baias, estavam ocupadas.

– Achei que tinha desistido de sua encomenda, Quarfein. – Disse um humano, olhando de forma maliciosa para Amaess. – Você realmente tem um ótimo brinquedo para passar o tempo... – Falou, estendendo a mão em direção a Amaess. Antes que pudesse tocá-lo, o drow o segurou pelo pulso. O homem recuou. – É mais do que isso?

– Não lhe devo uma resposta. – Falou. Não pretendia ter se envolvido, muito menos ter se apegado a Amaess. Mas agora... agora era tarde, e lutar contra aquele sentimento estava apenas desgastando sua sanidade.

– Mas me deve um pagamento. – Disse o humano. O som de um saco de moedas sendo arremessado cortou o ar — Quarfein não queria que aquele homem percebesse o arrependimento por trás de seus olhos vermelhos. Esperava também, que aquele humano sequer desconfiasse de seu temor — o temor pelo fato da razão que o fez impedir aquele homem de tocar Amaess não ser apenas mera possessividade — isso era algo que jamais aceitaria admitir.

–São os cavalos das beiradas. – Falou o humano, enquanto conferia o dinheiro recebido.

No caminho de volta, Quarfein manteve o braço em volta da cintura do elfo, tomando o cuidado de ficar entre ele e os cavalos, temendo que os animais pudessem reagir de forma espantada à mudança de dono e relincharem.

Sentia a sensação amarga de culpa consumindo-o — devia ter percebido antes, mas, como perceberia o que sentia se desconhecia a natureza daqueles sentimentos? Sentia uma dor lacerante sempre que olhava naqueles olhos azuis e não mais via o brilho que outrora possuíam... aquele brilho cheio de vida e inocência... sentia-se psicologicamente exausto, e se perguntava se era essa a exaustão que o elfo vinha sentindo nos últimos dias.

Avistou uma estalagem relativamente arrumada para aquela região, e decidiu que era ali que ficariam quando o prazo que tinham para ficar na estalagem de Nádia se esgotasse. Ainda assim, foi direto para a pousada, trancando a porta atrás de si ao entrar com Amaess.

O elfo se afastou o máximo possível da cama, evitando, porém, ficar com as costas contra a parede. Quarfein suspirou — não estava interessado em fazer qualquer coisa com Amaess — não agora. Mas ainda assim, tentou aproveitar a deixa para afastar o fantasma que tanto pesava sua consciência.

– Sabe que nada do que fizer vai me impedir, não sabe? – Disse o drow, indo até o garoto.

– Por favor... ao menos me deixe descansar um pouco... – Pediu Amaess, que agora, pelo menos, sabia o nome daquela pessoa. Estava exausto devido ao que o outro lhe fizera, de forma que mal reagira quando Quarfein removera a coleira de seu pescoço e o jogara na cama, debruçando-se sobre seu corpo. O elfo virou para o lado, assustado, mas os braços do outro apenas envolveram sua cintura e o puxaram para si.

– Tudo bem... – Falou, deixando suas mãos repousarem sobre o peito de Amaess. – Eu estava mesmo pensando em fazer isso...

O elfo permaneceu em silêncio, apertando o lençol. Podia sentir a respiração de Quarfein em sua nuca, jogando alguns de seus fios dourados para frente. Estava com medo de que o outro pudesse fazer algo, porém maior que o medo, era a exaustão. Fechou os olhos, tentando repousar, e apesar do medo, não tardou a adormecer. O drow se ergueu um pouco, observando enquanto o garoto dormia — aquilo que repousava sobre a bochecha do mesmo era uma lágrima?

"Você dormiu chorando? Tão frágil... será mesmo? De pensar que um ser tão frágil poderia ser culpado por tantas coisas ruins que aconteceram na minha vida... isso tem ao menos como ser verdade?" Pensou, deixando as mãos deslizarem pelo rosto do garoto. "Eu me sinto estúpido... por ter acreditado em algo tão irreal...mas então, qual seria a verdade?" Parou por alguns instantes. Por que estava questionando as palavras de sua irmã mais velha?

Se Aunbryn estivesse ali, as conseqüências por ter se atrevido a pensar aquilo seriam terríveis. Aliás, os seres que habitavam aquele lugar estranho eram terríveis — se aproximavam, e depois apunhalavam. "Não pense... não se deixe enganar..." Pensou. "Não se deixe desorientar... não se deixe enlouquecer."

Notas finais
Uhull minha prova foi adiada!! Bem, melhor para os que se reviraram de ansiedade no último capítulo!
Não se esqueçam de deixar reviews para eu não me revirar de ansiedade do lado de cá!