Hate Everything About You
3 Oscilações - Parte I - Esperança
Notas iniciais
Spes é esperança em Latim.
Ilmater é o deus do panteão humano de D&D da perseverança.
. Acordaria apenas no dia seguinte, com o irritante chacoalhar da carroça. Olhou para os lados e viu que, com exceção do humano, todos estavam adormecidos — inclusive Amaess e a irmã. Observou a forma como o elfo dormia — quem visse a expressão serena em seu rosto angelical jamais seria capaz de deduzir o que aquele garoto havia passado nos últimos dois dias. O drow se esgueirou até o jovem, observando os cabelos longos e dourados espalhados sob o mesmo. Se não tivesse de manter a farsa de que estava protegendo o garoto e sua irmã, não faria o menor esforço para resistir à vontade de acordá-lo já deixando claro as intenções de tomar-lhe o corpo belo e esguio, porém tinha de manter as aparências, de forma que apenas deixou as mãos deslizarem por debaixo das roupas que cobriam o tronco do jovem. Amaess acordaria gritando, se o drow não cobrisse seus lábios com a mão, fazendo o grito morrer em sua garganta. O mais jovem se afastou, encarando o chão. Um par de lágrimas escorreram de seus olhos, fazendo Quarfein rir — sequer havia encostado no garoto, e ele já estava chorando?
– Pare de chorar por nada.– Disse o drow.
– Nada?! Você chamaria o fato de quase todos que você ama estarem mortos de nada?!– Respondeu o garoto.
O drow quase riu daquilo, mas sabia que se o fizesse poderia acordar a humana ou chamar a atenção do homem que conduzia o veículo.
– Você é mesmo um tolo. O amor não passa de uma fraqueza. – Disse.
– Não– O garoto se viu interrompido.
– Mas não é como se eu fosse perder tempo discutindo com você. Você é meu e me deve obediência.
Tal frase fez o mais jovem desviar o olhar. Não pretendia desafiar o drow novamente — não depois da forma como o outro o espancara no dia anterior, deixando-o extremamente ferido. O rapaz lambeu os lábios diante da visão daquele olhar melancólico — algo digno de um quadro, e ao mesmo tempo, quase digno de pena. Sem dúvida, fora ótima a idéia de não chamar os outros quando adolescente fugira com a irmã da vila em chamas.
– Venha cá.– Disse, tendo a ordem acatada com má vontade — uma resistência passiva e fácil de ignorar. Puxou Amaess para o seu colo, fazendo com que esse emitisse um ganido baixo de dor, levando às mãos às costelas. – O que foi?– Falou, deixando as mãos deslizarem pelas coxas do elfo.
– Você ainda pergunta, depois – Um tapa no rosto. Os dedos do outro não chegaram a ficar marcados, mas a bochecha do garoto ficara nitidamente vermelha.
– Não seja atrevido e responda.– Falou, fazendo com que o elfo estremecesse de leve.
– Meu corpo está doendo por causa do que você fez ontem. – Respondeu o garoto. Não era só seu corpo que estava doendo — seu coração doía como se fosse implodir, e sua alma se retorcia em agonia e dor, mas não era como se o drow fosse se importar — para ele, Amaess não passava de um brinquedo, que podia usar e quebrar como bem entendesse.
– Se você não tivesse fugido, não estaria sentindo dor. – Disse Quarfein. Mas o elfo sabia que estaria sofrendo de qualquer forma. O rapaz segurou o rosto do outro virado para o seu.– Espero que tenha aprendido alguma lição com isso. – Falou, pegando a faca e deslizando-a de leve rente ao pescoço do garoto. Se surpreendeu ao não ver nenhuma demonstração de medo — ao invés disso, Amaess ergueu o queixo, como que desafiando-o a plantar a lâmina em sua garganta. Diante de tal ousadia, o drow ergueu a faca, arranhando o queixo do garoto de leve.
– Você acha mesmo que vou por fim ao seu sofrimento? – Falou, lambendo o corte feito de forma superficial — o corte que fora raso apenas para não deixar cicatrizes. – Não seja estúpido. Não a ponto de acreditar que eu faria algo que lhe tiraria da dor. Mas se faz tanta questão que eu lhe tire algo além do que já tirei... — O rapaz puxou os cabelos do elfo de forma a trazer seu rosto para perto, sem deixar passar batida a oportunidade de testar o quão longe o jovem estava disposto a ir para proteger a irmã. – Eu posso lhe tirar sua irmãzinha... – Sussurrou, fazendo os olhos do garoto se arregalarem. Aquela expressão de medo... não havia palavras para descrever o quanto Quarfein adorava aquela expressão...
– Não!- Disse Amaess, afastando o rosto. – Não... por favor... – Disse, abaixando o olhar. O drow riu — era tão fácil impor submissão àquele garoto... bastava ameaçar a vida de sua irmã, que agora abria os olhos devagar. Porém, próximo a entrada de uma vila, a criança humana acordou, de forma que Quarfein tivesse de tirar o elfo de seu colo antes que a mulher acordasse com o choro. A carruagem parou enquanto a mulher aninhava a criança, e o homem desceu do veículo.
– Está tudo bem aí atrás?– Perguntou.
– Archie acordou querido... acho melhor pararmos para um desjejum...– Disse a mulher, ninando o bebê.
– Se você diz... nós estamos no vilarejo de Spes... vamos procurar uma estalagem...– Disse o homem.
– Spes?– Perguntou Quarfein.
– Sim, a poucos metros ao Sul da cordilheira– O homem se viu interrompido.
– Nos separamos aqui, então. Obrigado pela ajuda. – Disse, procurando manter as aparências e colocando o capuz para que seus cabelos brancos e sua pele ardósia-azulada não chamassem atenção, e apesar do drow ter enganado o casal com o bebê e deixado-os ir, bem como apesar de estarem em um vilarejo predominantemente habitado por humanos, Amaess tinha uma vaga idéia do que poderia acontecer caso não o seguisse.
– Adeus. – Disse o humano, sem saber o que estava acobertando.
– Adeus. - Disse Claitae, com um tom de voz um tanto amargo, que devido a pouca idade da elfa o homem atribuiu à mesma ter acordado cedo. Seguiram por ruas cada vez mais estreitas e sombrias, com Claitae apertando a mão do irmão. O garoto ia a passos lentos, com dificuldade.
– Onde estamos indo?– Perguntou o elfo, com um pouco de medo.
– Procurar um lugar para ficar provisoriamente, por que?– Respondeu o rapaz. Amaess olhou pelo complexo de tabernas, onde alguns anões e humanos faziam apostas em jogos de azar e alguns orcs e mestiços se embriagavam. Havia uma e outra estalagens baratas e inúmeros prostíbulos, e as ruas fediam a álcool e a tabaco. – Nunca esteve em uma cidade humana? Elas são bastante desorganizadas, e a periferia é perfeita para quem não quer ser notado... ninguém iria reparar se uma pessoa fosse morta aqui, muito menos perder tempo procurando um culpado... – Falou, a fim de deixar clara a situação em que o outro se encontrava — mais para se entreter com seu desespero do que para informá-lo.
– Mas aqui é– A fala do garoto foi interrompida.
– É onde vamos ficar até eu conseguir os mantimentos necessários para sairmos daqui.– Disse o drow, sem deixar ao outro chance de contestá-lo. Amaess abaixou o rosto enquanto passavam por lugares cada vez mais decadentes, sem notar os inúmeros olhares maliciosos sobre si. Quarfein percebeu, e envolveu os quadris do garoto de forma possessiva. O elfo tentou se soltar, mas o outro o segurou com firmeza, deixando claro que não era para que ele o fizesse.
– Dói...– Queixou-se o outro, referindo-se aos ferimentos que o drow pressionara ao envolvê-lo daquela forma.
– Você não espera que eu te carregue, espera?– Perguntou Quarfein. Por fim, pararam em frente à uma estalagem que mais parecia um bordel clandestino — prostitutas transitavam em frente à mesma e em meio ao pátio, havia uma porta que Amaess se recusava a imaginar o que ocultava, e uma mulher de aparência rústica observava tudo por trás do balcão.
– Não... não vamos ficar- O garoto foi interrompido quando o drow se dirigiu com ele até o balcão.
– Um quarto para três pessoas... com apenas duas camas.– Falou para a atendente, deixando implícito que deveria ser um quarto com uma cama de solteiro e uma de casal.
– Quanto tempo pretendem ficar?– Perguntou a mulher carrancuda.
– Quatro dias. — Disse o drow.
–Quinhentas rúpias.– Disse a mulher, enquanto Quarfein segurava o elfo para evitar que o mesmo fugisse. Por mais que o desespero estivesse vivido nos olhos do garoto, que praticamente pedia ajuda com o olhar , a mulher fingiu que nada demais acontecia, estendendo uma chave ao drow, contendo o número 25 talhado de forma delicada.
– Nádia!– Gritou a mulher, o que fez com que Claitae cobrisse os ouvidos. Uma garota trajando um vestido longo e de gola alta (provavelmente para não ser confundida com uma das várias das meretrizes que ofereciam seu corpo ali) adentrou na recepção.
– Pois não, Amélia. – Disse a jovem, cujos cabelos estavam presos em duas tranças, que se dividiam em sua nuca dando-lhe um ar inocente e infantil.
– Leve estes três até o quarto 25. E deixe claro as regras da estalagem. - Falou.
– Sim, Amélia.– Respondeu, se voltando para os três. – Por aqui.– Disse a garota, guiando o grupo pelo corredor.– O almoço será servido daqui a quatro horas e ficará à disposição até duas da tarde, o jantar é servido às sete da noite e fica disponível até as nove e o café da manhã às seis, ficando disponível até oito da manhã.– Disse a moça. – É proibido trazer convidados sem avisar na recepção e quando o quarto for ficar vazio, as chaves devem ser deixadas na recepção. O quarto de vocês é esse.- Ela disse gesticulando para a porta no qual se via inscrito o número 25. O drow abriu a porta e Claitae entrou, se sentando na cama de casal como quem dissesse que não permitiria que o homem dividisse a cama com seu irmão. Quarfein apenas lhe lançou um olhar ameaçador para que saísse e ajudou o elfo a se deitar — sabia que aquela caminhada piorara o estado do mesmo. Nádia olhou para o garoto com pena, e se dirigiu para Quarfein.
– Senhor, se me permite, eu posso cuidar dos ferimentos dele. Eu estudava para me tornar uma curadora antes de meu pai morrer.– Falou a jovem de olhos negros como os da mulher amargurada da recepção, porém com um olhar gentil que em nada se assemelhava ao da ma- ao de Amélia. Nádia se recusava a se referir àquela figura desprovida de sentimentos como "mãe" — a Amélia que era sua mãe morrera junto com seu pai no incêndio que deixara a família na miséria. Aquela era apenas uma irmã gêmea ou sósia, talvez até mesmo Amélia — mas não a Amélia sua mãe, e sim os resíduos dela, os restos do que outrora fora uma mulher batalhadora, sem deixar de ser gentil e sorridente.
– Se não fizer estardalhaço sobre os ferimentos...– Disse o drow.
– Em hipótese alguma. Meu trabalho aqui requer não me intrometer nos assuntos dos clientes. – Disse a garota. Amaess abriu a boca para dizer algo, mas Quarfein praticamente lhe disse "cale-se" através do olhar.
– Nesse caso, sinta-se livre. — Falou. – Pequena, venha comigo. Eu vou ir até o mercado.
– Eu quero ficar com meu irmão.– Disse a elfa, vendo nisso uma oportunidade de fuga. O drow respirou fundo.
– Não seja teimosa. Vai atrapalhar a garota a fazer seu serviço.– Falou. Nádia já vira vários casos assim, chegando até mesmo a interferir em muitos deles, e sabia o que estava acontecendo. Sabia também que tinha de ser discreta se quisesse ajudar os dois irmãos.
– Não atrapalharia senhor... pode ficar a vontade se quiser deixá-la aqui.– Disse, forçando o sorriso e fingindo estar em uma situação normal.
– Isso não vai ser possível. Eu vou olhar algumas roupas novas para ela e preciso que ela experimente.– Mentiu o drow. Nádia conteve um suspiro — ajudar a pequena havia ficado fora de seu alcance.
– Pode ir, Clai... eu vou ficar bem... – Disse Amaess, tentando evitar problemas para a irmã.
– Não minta para mim.– Falou. – Eu não quero ser um fardo!
O irmão da garota sorriu — o primeiro sorriso espontâneo desde que Quarfein pusera as mãos nele.
– Você não está sendo um fardo. Vá, esfrie um pouco a cabeça... mas volte antes do almoço.– Disse. Emburrada, a pequena obedeceu, saindo do quarto e batendo a porta com força.
– Eu te odeio.– Disse para Quarfein.
– A recíproca é verdadeira.– Falou o outro, indiferente. Dentro do quarto, Nádia puxou uma corda ligada à um sino no quarto das criadas. Uma delas se voltou para a outra.
– Belinda...– Disse uma delas.
– Quarto 25... eu sei...– Falou a mulher de meia-idade, indo até o quarto onde Nádia tirava um lençol do armário.
– O que foi, pirralha? Acha que pode me usar de empre– A jovem se levantou, se impondo.
– Me insulte novamente e você está na rua, Belinda.– Falou, fazendo Amaess se encolher.
– Perdão filha da dona, o que deseja? – Disse Belinda, destilando seu veneno. — Se aproveitar de um cliente? Ao menos para homens você– A garota a interrompeu.
– De todas as serviçais, tinham de mandar a mais arrogante... apenas cale a boca e peça a Alvina que traga meu material de assistência. Ela irá saber a que me refiro. – Falou. Com um olhar malicioso, Belinda saiu do quarto, e um tempo depois uma criada pouco mais velha que Nádia entrou, depositando uma cesta com faixas e ervas sobre um criado mudo.
– Belinda me disse que pediu isso. Vai querer minha ajuda? — Perguntou.
– Acho que suas magias de cura vão ser bem úteis. – Disse para a amiga de infância. Amaess se sentia constrangido ao ficar sozinho com duas garotas jovens e belas, e ficara mais constrangido ainda quando Nádia se debruçou sobre seu corpo, removendo-lhe a túnica. Tentou impedi-la, mas ficou ainda mais embaraçado quando suas mãos acidentalmente tocaram as da garota.
– Está tudo bem... – Disse a jovem. – Eu irei apenas cuidar de seus ferimentos.
– Eu e Nádia iríamos servir à Ilmater, mas o pai dela, que nos ensinava a seu respeito, faleceu antes de terminar de fazê-lo. – Disse Alvina.
"Esse não é o problema..." Pensou Amaess. "O problema é..."
– Não se preocupe... o que quer que tenha acontecido... não foi porque você quis... – Disse Nádia, envolvendo a mão do elfo e se sentando na beirada da cama. – E não é difícil notar pelas ações da pessoa que te trouxe aqui... mas... se você não cuidar dos seus ferimentos... vai estar apenas dificultando as coisas para si mesmo... – Falou.
Por mais embaraçosa que a situação fosse, o olhar reconfortante de Nádia fez com que o garoto cedesse e permitisse que as duas vissem seus ferimentos. Amaess se sentiu ainda mais constrangido quando as bochechas de Nádia coraram — não queria deixar uma garota embaraçada, mas a jovem prosseguiu junto com a amiga, usando as poucas técnicas de magia que conheciam e cuidando das feridas do garoto usando de ervas medicinais. Por fim, terminaram enfaixando os ferimentos do rapaz.
Porém, as garotas sabiam que aquilo não seria o bastante, e que logo novos ferimentos estariam sobre a pele alva do elfo. Elas haviam crescido na hospedagem da mãe de Nádia, e não era raro verem situações iguais àquela — pessoas sendo levadas para longe de seus entes queridos, de seus lares, de tudo o que conheciam, para serem tratadas como meros objetos descartáveis. As coisas pouco variavam — às vezes, eram vendidas para trabalhar de forma forçada em construções, às vezes serviam como cobaias para necromantes ou praticantes de magia negra, e em outros casos, como escravas sexuais.
Ainda assim, queria ter certeza da situação — o fato de uma pessoa agir de forma estranha não significava que suas intenções eram ruins — ela mesma já agira de forma estranha para enviar pessoas naquele tipo de situação para longe de seus seqüestradores. Queria ter certeza antes de contar com a ajuda de Alvina para elaborar um plano.
– Foi ele quem fez isso com você, não foi?– Perguntou.
– Nã– Amaess se viu interrompido.
– Pode contar. Nós manteremos segredo e te ajudaremos a escapar se foi o caso. – Disse Alvina. O elfo hesitou, mas a presença das garotas era reconfortante e elas lhe pareciam confiáveis — além do mais, julgava que qualquer coisa seria melhor do que aquela situação. Apenas confirmou com um menear de cabeça, de forma que um semblante de tristeza assolou o rosto das jovens.
– Eu irei trazer o café da manhã aqui.– Disse a mais velha, deixando Nádia no quarto com Amaess, cujo corpo estava coberto apenas pelo lençol e pelas roupas intimas.
– Então... qual o seu nome? – Perguntou a garota.
– Amaess... e o seu?– Disse o jovem, ainda com as bochechas queimando de vermelhidão.
– Nádia. E a garota que saiu para buscar o almoço é minha amiga de infância, Alvina.Pode chamá-la apenas de Vina ou Alvi.– Disse. Alvina abriu a porta com os pés, depositando a bandeja sobre o colo de Amaess após a amiga tê-lo ajudado a se sentar .
– Obrigado... me desculpem– Alvina o interrompeu.
– Não foi sua culpa. Várias pessoas já estiveram aqui na mesma situação.– Disse a garota, cujos cabelos negros e ondulados escapavam do coque feito com simplicidade.– Por ser uma pousada na periferia ela é muito usada por...
– Não vamos entrar nos sórdidos, Vina...– Disse Nádia, abaixando o olhar, mas erguendo-o em seguida. – Mas fique tranqüilo. Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudar você e sua irmã. Por hora, apenas descanse e se recupere. — Falou. O garoto assentiu com um menear de cabeça, flexionando o braço para pegar a colher, mas se encolhendo ao notar que o movimento fizera com que um dos inúmeros cortes que Quarfein havia feito ardesse. Nádia fez uma expressão preocupada. – O corte pegou uma articulação... acho que não tem como evitar ...– Disse, pegando a colher. Amaess abriu a boca para protestar — Nádia e Alvina já o estavam ajudando muito, já o haviam lhe dado esperança de recuperar sua liberdade, não se sentia no direito de pedir mais nada à elas — ainda assim, quando seus lábios se separaram, sentira sua boca ser invadida por uma colher de sopa.
Alvina cobriu os lábios para não rir — a amiga parecia uma criança tentando cuidar de um irmão mais velho. Nádia levou a bandeja embora, e sua amiga se sentou na beirada da cama de casal.
– Então... como você veio parar nessa situação?– Perguntou. Amaess abaixou o olhar, se lembrando do dia anterior — das casas em chamas, das pessoas sendo mortas, da fuga fracassada... uma lágrima brilhou em seus olhos ao se lembrar da forma como não pudera se lamentar ao ver o garoto de quem gostava ter a garganta perfurada por uma espada — de como apenas mordera a própria língua para não fazer barulho e poder salvar Claitae. De como fora ainda pior ver as mãos dele tentarem alcançar a lâmina antes de caírem ao lado do corpo sem vida. De como não pôde fazer nada enquanto ouvia os gritos das pessoas sendo torturadas e mortas.
– Não precisa me contar se for muito doloroso!– Disse a humana, vendo um par de lágrimas escorrer. – Me perdoe...– Falou, abaixando a cabeça antes de sair — perguntara o que não devia, e não sabia lidar com a situação que havia criado — era Nádia quem confortava e ajudava as pessoas — ela apenas fazia os planos de fuga. Passou direto pelo refeitório, sem notar a presença de Quarfein e Claitae, que logo se dirigiram para o quarto.
– Espere aqui.– O drow disse à pequena, entrando no quarto. A garotinha ficou esperando do lado de fora, mas o rapaz hesitou — havia prometido não... espera, por que estava dando importância àquela promessa? Não era algo importante, então porque se importar? Colocou a sacola com as coisas que havia comprado no chão e fechou a porta, trancando-a, o que fez Amaess se voltar em sua direção, surpreso.
– Onde está minha irmã?! - Perguntou.
– Do lado de fora.– Falou o drow, se debruçando sobre o garoto. Por alguns instantes, se permitiu hipnotizar por aqueles olhos cor de safira — aqueles olhos grandes, intensos, que pareciam querer prendê-lo a algo. Notara marcas de lágrimas no rosto do outro, e deslizou o indicador pela pequena trilha deixada pelas mesmas. Chegou a abrir a boca para dizer algo, mas então desviou o olhar — não se deixaria afogar naquele mar. Não faria como marinheiros faziam ao ouvirem o canto de uma sereia. Ao invés disso, se levantou, observando o corpo do outro e a forma como o fato de este estar com várias partes enfaixadas o faziam parecer ainda mais frágil.
– Eu vou tomar um banho. Não faça nada estúpido.– Disse o rapaz. Amaess hesitou — tinha medo do outro, mas agora tinha alguém disposto a lhe ajudar — tinha Nádia. E Alvina. O medo que tinha de ser pego e passar por tudo aquilo novamente era menor que sua ânsia por liberdade e sua esperança de recuperá-la. Esperou que o drow trancasse a porta do banheiro para se vestir e pegar a chave do quarto, saindo e trancando a porta por fora.
– Mae... – A pequena abriu a boca para dizer algo, mas Amaess a puxou ao longo do corredor, passando por entre as prostitutas e empregadas presentes, até encontrar — ou melhor, até trombar com — Nádia.
– Amaess! – Ela disse, ao que o garoto quase caiu no chão.
– Nádia! Eu estava procurando você! – Falou, se levantando. Seu coração batia mais forte, e a liberdade que o outro lhe tirara parecia mais próxima a cada passo. Ansiedade, adrenalina e esperança se alastravam pelo corpo do jovem — tinha uma chance perfeita diante de si! Com a ajuda de Nádia, iria para um lugar onde o drow jamais o encontraria, e o resto das coisas com as quais teria de se preocupar pensaria em como resolver depois.
– Acalme-se! O que houve?– Disse a garota.
– Ele... se distraiu por um instante... eu consegui trancar ele no quarto... por favor... eu preciso de ajuda para escapar! Ir para longe dele! – Falou, ofegando.
– Está bem! Eu vou até Alvina, ela é melhor em resolver isso do que eu! Me espere na sala de empregados, que fica na segunda porta à esquerda do refeitório. Se alguém perguntar diga que eu mandei.– Respondeu Nádia, desaparecendo em meio ao salão. Amaess puxou a irmã ao longo do corredor, a pequena indicando a direção do refeitório.
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