Hate Everything About You

6 Marcado - Parte I - Desespero


Notas iniciais
Clairvoyance: Clarividência. Entendedores já começaram a tentar fazer previsões, no entanto, será que essas previsões estão certas? Nem sempre conseguimos dar o final que queremos dar para uma história, não?

Quarfein acordou e olhou para o lado, observando a forma como o elfo tentara se encolher na cama de casal. Podia ver olheiras profundas sob os olhos grandes e belos, que indicavam que o outro não havia conseguido dormir. Ainda assim, aquilo não havia sido o bastante — dessa vez, iria deixar claro ao garoto que este não devia fugir, e dessa vez, iria ter certeza de que ele não iria esquecer. Tomou um banho e se vestiu para ir tomar café da manhã, constatando que o outro ainda estava adormecido — provavelmente, exausto. Jogou a bolsa com o que havia comprado debaixo da cama e levou as chaves das algemas consigo — se alguém tentasse interferir, levaria tempo para conseguir soltar o garoto. Tempo o bastante para que o drow tomasse o desjejum e voltasse. Nádia observara tudo junto com Alvina, entrando no quarto quando Quarfein se afastou, e o que as garotas viram as deixaram chocadas.

– Amaess...– Nádia disse. Um par de lágrimas brilhando em seus olhos. A garota se ajoelhou ao lado da cama, observando as algemas.– Vina, procure uma chave! Qualquer uma!– Falou.– Eu vou vigiar o drow para te alertar antes que ele volte!– Disse, correndo em direção ao refeitório. Alvina se abaixou ao lado do garoto, tocando a pele clara do pescoço do mesmo — o elfo estava vivo, mas seu corpo quase tão frio quanto um cadáver. Não foi difícil para Alvina deduzir que o drow o havia deixado exposto ao frio na noite anterior. A humana vasculhou todo o quarto, encontrando a bolsa debaixo da cama e revirando o interior da mesma, vendo os inúmeros instrumentos de tortura em potencial. Sumiria com todos eles se não precisasse deixar tudo como encontrara. Estava prestes a abrir o guarda roupa quando ouviu a voz de Nádia.

– Vina, ele acabou!– Disse. A outra saiu correndo, trancando a porta do jeito que estava antes.– Não conseguiu?– Perguntou a mais nova. Alvina balançou a cabeça em uma negativa muda enquanto se afastavam do quarto para não levantar suspeitas.

A cabeça de Amaess latejava quando o jovem acordou com o barulho da porta se fechando com força. Seu corpo doía, e suplicava por mais horas de sono, quando o elfo ouviu o barulho das chaves.

– Então, você finalmente acordou? -Disse o drow, se debruçando sobre o corpo do garoto recém-desperto. Os olhos de Amaess estavam entreabertos devido à noite mal-dormida, deixando-o, juntamente com a expressão de dor em seu rosto, com uma aparência ainda mais frágil e vulnerável. Ah, se ele soubesse o quanto Quarfein gostava de vê-lo daquele jeito, completamente à sua mercê! Um ganido baixo foi abafado pela mordaça, ao que o corpo do garoto estremeceu quando o drow se sentou ao seu lado. As mãos do rapaz percorreram o tronco do elfo, que fechou os olhos sob o toque quente, porém desprovido de afeto.

– Havia tantas outras coisas que eu queria fazer com você ontem...– Falou Quarfein, com uma voz calma e doce, porém com um olhar cruel e cheio de luxúria.– Só que não seria tão divertido, porque eu não poderia ouvir seus gritos... uma vez que incomodariam as pessoas que estão no outro quarto. Mas bem, nesse horário, a maioria delas está fora tentando ganhar a vida, então eu pensei...– Quarfein pegou a faca, cortando a mordaça que cobria os lábios do elfo e propositalmente arranhando a bochecha do garoto.– Por que não terminar o que começamos?

– Você quer dizer o que você começou, seu monstro! - Disse o garoto, com lágrimas nos olhos. O drow sorriu, pegando a bolsa com os itens que havia comprando anteriormente e tirando uma vela e um chicote da mesma. Não um chicote de couro comum , mas sim com pequenos nós e algumas partes de metal. Posicionou a vela no criado mudo, ascendendo-a a despeito da claridade do dia.

– Não é assim que você deve se dirigir a mim. Eu sou seu dono, caso não se lembre.– Falou, erguendo o queixo do garoto com o cabo do chicote.

– Não... — Murmurou Amaess, sendo respondido por uma chicotada. Um corte rodeado de roxo se fez presente na pele alva do elfo.

– Errado, vadia. Eu sou seu dono, e você deve se referir a mim de forma apropriada.– Falou o drow, se deliciando com a visão da expressão de dor no olhar do outro. Apesar do medo, a raiva que Amaess guardava dentro de si era como um veneno, de forma que não colocá-la para fora iria terminar de destruí-lo.

– Não! Ah! importa... ahhh! O que... ahh... você diga -Disse o garoto, tendo a fala entrecortada por gritos de dor sempre que o drow o atingia. Sabia que desafiá-lo era estúpido, mas já havia abaixado a cabeça demais. Já havia suportado demais a crueldade do outro, e já havia se mantido passivo demais aos seus abusos . Não iria manter aquilo preso na garganta.– Você... não passa... de um monstro! -Exclamou, ainda que tendo a frase interrompida pelos próprios gritos de dor e pelo som do chicote abrindo cortes em sua pele — no tronco, nas coxas, nos braços. Quarfein parou por alguns instantes, observando os ferimentos ensangüentados do elfo, que ofegava, segurando as lágrimas. O drow deixou as mãos deslizarem pelos ferimentos do tronco de Amaess, fazendo com que o elfo mordesse os lábios para não gritar — até mesmo conter as lágrimas estava sendo um esforço enorme, porém, a urgência que tinha por não ceder — por não cair aos pedaços diante de seu agressor, desmoronando em suas garras — falava mais alto que a dor.

– E daí? Há algo que você pode fazer contra mim?– Disse o drow, pegando a vela e derramando a cera derretida no peito do garoto, fazendo-o emitir um grito de dor. Amaess se contorceu, mas logo se deteve por causa das algemas. Quarfein riu ao notar uma lágrima escorrendo. – Viu? Você está a minha mercê. Não passa da minha putinha.– Falou, enquanto voltava a vela para o lugar original. Amaess tremia devido ao fato de que parte da cera quente da vela havia caído sobre alguns cortes. Quarfein riu diante da mistura de raiva e medo nos olhos azuis do garoto, constatando que a raiva cedia cada vez mais espaço ao outro sentimento por trás daquele olhar.– Então, uma vez que é apenas uma vadia indefesa, trate de me obedecer.– Disse, tentando fazê-lo ceder apesar do conflito que sentia dentro de si. O elfo tentou se soltar mais uma vez, se cortando ainda mais.– Não se debata mais. Se continuar, pode acabar rasgando uma veia e sangrar até a morte.– Falou.

– Pois eu prefiro a morte a me submeter a você!– Respondeu o outro jovem. Quarfein riu, tentando ignorar o fato de que aquelas palavras o abalaram, e se abaixou ao lado de Amaess, mordendo-lhe uma das orelhas pontiagudas.

– Não é como se eu me importasse com suas preferências.– Falou, arranhando o tronco do elfo e derramando o que sobrara da cera da vela sobre ele. Observou a chama que sobrava no fundo do pequeno candelabro, encostando-a na clavícula do garoto e fazendo-o gritar ainda mais.– Você não passa de uma propriedade.– Disse, pegando uma faca. O garoto apenas arfava, tentando, em vão, se recompor.– Minha propriedade.– Falou, talhando seu nome a faca no peito do elfo enquanto este gritava de dor. Amaess não queria se render daquele jeito. Não queria se humilhar implorando por clemência. Mas Quarfein simplesmente não lhe daria tempo de se recompor e reunir as parcas forças que tinha — o drow sabia que, até que tivesse terminado de quebrar todas as defesas psicológicas do garoto, não poderia dar-lhe brechas para se recuperar.

– Pare! Ahh! Aghh!– Disse Amaess, em meio a gemidos de dor, enquanto Quarfein talhava a letra "a". Lágrimas escorriam dos olhos do elfo.– PARE!– Gritou o garoto, com as forças que tinha, enquanto o drow o fazia se render a dor e a gritar de forma desesperada, em prantos.

– Implore. Se refira a mim como deve e talvez eu pense em parar.– Mentiu o drow, enquanto traçava o "f". Amaess arqueava o corpo e se debatia, mas parou ao se lembrar que isso apenas o feria mais. Desolado ao notar que aquela era sua única saída, se viu forçado a ceder novamente.

– Por favor! Pare!– Disse, em meio a soluços. Os cortes e queimaduras doendo de forma insuportável e ardendo como se tivessem sido banhados em pimenta. Quarfein se deliciou ao ver a expressão no rosto do outro.

– Por que eu deveria?– Falou, encurralando cada vez mais sua presa. O elfo estremeceu ao se ver preso em meio a um turbilhão de dor e desespero. Não conseguiria agüentar muito mais do que aquilo.

– Por favor...– Suplicou Amaess, com a voz entrecortada por gemidos. Quarfein lambeu os lábios ao notar a respiração acelerada do garoto, e ao notar que ele estava se segurando firmemente à uma fina linha de obstinação que o impedia de cair em um abismo de medo e pânico. O elfo estava exausto, quase desmaiando de dor.

– Me diga, minha putinha da superfície, por acaso você está com medo?– Disse, puxando os cabelos de Amaess para trás com força e deixando a faca arranhar o pescoço do elfo.

– M-me mate...– Implorou. A dor nítida na voz.– Por favor me mate...

– Você não respondeu minha pergunta.– Disse o drow, cravando a faca no ombro do garoto após terminar de talhar a letra "n" no peito do mesmo. Tudo o que obteve foi um gemido fraco de dor. Ergueu o olhar, analisando a figura frágil e ensangüentada figura sobre a cama. Amaess fechou os olhos, soluçando.– Essa obstinação vai acabar de matando.– Ditou, sério.

– É melhor... do que viver assim...– Disse o elfo, com as poucas forças que tinha. O drow se ergueu, tirando a chave das algemas do bolso.

– Vamos fazer um acordo. Você diz o que você me deve e implora de forma apropriada, como um bom animalzinho de estimação, e eu tiro essas algemas.– Propôs, acreditando já ter empurrado o elfo para o mais profundo desespero. O garoto permaneceu em silêncio. Ah, aquela visão! A visão do vermelho carmesim do sangue contrastando, juntamente com o roxo dos hematomas, com o branco da pele macia do elfo — sem dúvida, ERA uma visão louvável — somando as lágrimas cristalinas então, era uma visão de fazer com que Quarfein se consumisse em luxúria. O garoto apenas fechou os olhos, esperando que a inconsciência o resgatasse daquele inferno, mas o drow o atingiu com um tapa.– Não desmaie.– Falou. A voz gélida, impiedosa. O elfo não proferiu uma única palavra.

– Então... me mate...– Disse, com a tontura se espalhando por sua mente.

– Peça algo direito. Do jeito que deve se referir a mim.– Falou, se sentindo desafiado pela obstinação do outro. Aquela obstinação, que até chegava a ser atraente. Amaess desviou o olhar, com lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto.– Está bem... uma vez que você não tem nenhuma objeção...– Falou, deixando as mãos deslizarem pelas coxas do elfo, erguendo-as. O medo tomou conta do outro quando notou Quarfein segurando suas pernas abertas — não queria passar por aquilo. Não novamente — e não quando mal havia se recuperado do que sofrera no dia anterior. Queria gritar, mas era como se tivesse entrado em choque, permanecendo imóvel antes de ceder à derrota.

– Não... por favor...– Suplicou.– Milord...– Sentiu nojo de si mesmo ao se referir ao outro dessa forma.– Apenas... me mate...– Implorou, o que fez o drow dar um sorriso triunfante. Quarfein removeu as algemas, como prometido. Os pulsos do elfo estavam em carne viva, e a parte do travesseiro abaixo deles manchada de sangue. O garoto se encolheu, em prantos, mas o outro o chutou da cama. Amaess apenas abraçou os joelhos, se mantendo encolhido. Quarfein não soube dizer porque, mas sentiu algo unusual ao observar o outro soluçar, em prantos.

Estranhando a sensação que nunca havia experimentado, virou-o de frente para si usando o pé, e a visão que teve apenas realçou aquela sensação estranha — uma sensação desconfortável que trazia um sentimento de tristeza, juntamente com um sentimento desagradável de culpa.

– Por favor... me mate...– Disse o elfo, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos azuis para a pele macia de seu rosto.– Você já tirou tanto de mim... por favor... tire logo minha vida...– Suplicou o garoto. Quarfein não soube o porque, mas sentia algo diferente ao observar o elfo naquele estado — o estado semelhante ao de um pássaro com asas quebradas, ou de uma ave engaiolada. Não conseguiu especificar o que sentira ao observar o corpo de Amaess tremer, enquanto este soluçava, em prantos. Quarfein abriu a boca para dizer algo, mas então notou que sequer sabia o nome daquele garoto tão frágil e indefeso — era isso que Amaess parecia agora, e talvez fosse aquilo que era de fato — um adolescente frágil e vulnerável, e não aquilo que o drow havia sido doutrinado a acreditar que ele era. A visão daquelas lágrimas, que outrora o excitavam, agora causavam uma estranha sensação de desconforto.

Pensou em chutar o outro por isso e mandá-lo calar a boca, mas quando se levantou para fazê-lo, não sentiu a menor vontade de executar tal ação — ao invés disso, apenas acendeu a lareira e encheu um balde com água.

– Vá tomar um banho.– Falou, enquanto a água esquentava.– Você está cheirando a sangue.

Silêncio. O drow se abaixou ao lado do garoto, constatando que estava falando sozinho. Instintivamente, levou a mão ao pescoço de Amaess, sentindo estranho alivio ao constatar que o elfo estava vivo, mas então, repreendeu a si mesmo em pensamento.

"É apenas um elfo. Você não devia se preocupar, não passa de uma propriedade que você pode simplesmente descartar ou substituir. É um dos seres responsáveis por todas as vezes que aquelas sacerdotisas lhe torturaram, e por você viver em um ambiente tão hostil.", disse para si mesmo. A verdade era que para um drow, que estava acostumado a pensar apenas em si mesmo, a preocupação súbita com o bem-estar de outra pessoa era algo assustador, uma experiência aterrorizante de tão ameaçadora. Tentando evitar aquela sensação estranha, Quarfein subiu o olhar para o rosto do garoto, se deparando com uma expressão de sofrimento de fazer se partir em pedaços a maioria dos corações. Negou para si mesmo a dor que aquele semblante ameaçara lhe trazer. Apesar disso, não podia negar para si que não deveria deixar o outro sujo de sangue daquele jeito. Ergueu o corpo do garoto, se surpreendendo com o quão leve a pessoa em seus braços era — talvez não houvesse notado antes, talvez o garoto tivesse perdido peso pelas refeições que ficara sem fazer — Quarfein se esforçou para negar a si mesmo qualquer resquício de preocupação. O drow depositou-o na banheira com cuidado, observando a expressão de dor no rosto do outro. Ah, aquele rosto! Aquele rosto tão belo que o fez se questionar.

"Por que o acho ... não ... por que eleétão bonito , se é um elfo? Se é um elfo, por que é tão bonito?"

Pensou, se deliciando com a visão dos olhos do outro fechados. Talvez a resposta fosse porque se a pele do garoto fosse da cor da noite e não da cor da Lua aquele rosto não seria tão delicado a ponto de parecer ser feito de porcelana. O drow afastou tais pensamentos, pegando o balde de água quente e depois enchendo o outro com água fria, despejando os dois na banheira ao mesmo tempo. Obteve um leve espasmo, mas não se importou com o outro estar consciente ou não — depois, pensaria em um jeito de fazer aquele sentimento esquisito ir embora. Por hora, apenas ensaboava o corpo frágil em seus braços, sem notar os olhos azuis se entreabrindo. Lhe agradava as curvas belas do corpo do elfo enquanto a água parcialmente se tingia de vermelho.

– N-não...– Disse uma voz baixa, quase inaudível. O elfo mal tinha forças para dizer uma palavra. Quarfein continuou ensaboando-o, enquanto lágrimas escorriam daqueles olhos tão odiosamente cativantes.

– Pare de chorar. Está me irritando.– Falou, tentando evitar o efeito daquelas lágrimas. Posicionou o garoto sentado e novamente encheu um balde de água, levando-o até a lareira. Enquanto isso, Amaess se apoiava sem força alguma na parede atrás da banheira. O elfo ainda não havia visto o corte feito em seu peito, mas sentia todo seu corpo doer. Abraçou os joelhos, afundando o rosto entre os mesmos — por que o outro não o matava? Por que o mantinha vivo?

Quarfein voltou para o banheiro segurando o balde de água quente, e mordeu o lábio inferior ao ver o elfo daquele jeito — por que se deixava afetar pela dor de uma criatura da superfície, frágil a ponto de parecer que iria quebrar ao menor toque? Se aproximou, tentando a qualquer custo afastar o sentimento que parecia querer invadir sua alma a despeito de sua vontade racional. Reprimiu aquela sensação que queria adentrá-lo de qualquer jeito, por bem ou por mal.

– Levante-se. -Disse, fazendo o outro erguer o rosto. Amaess tentou se levantar, mas acabou caindo na banheira, emitindo um gemido baixo de dor. Um pouco de água espirrou no rosto de Quarfein, que limpou-se fazendo uma expressão de desagrado. O elfo voltou a se encolher, e o outro rapaz notou que este não conseguiria se levantar sozinho. Agarrou-o pelo braço, e quase que no mesmo instante o garoto começou a tremer.

"Então... você sequer suporta a idéia de ser tocado por mim?" Pensou, dando um leve sorriso sarcástico ao perceber o quão assustado e indefeso o garoto estava. O ergueu pelo braço — era como se Amaess fosse uma boneca de pano.

– Se segure na parede. Eu vou te enxaguar.– Falou o drow, tendo a ordem prontamente acatada. Ouviu um soluço vindo do outro, mas não se importou com o choro quase silencioso. Encheu uma caneca com água e jogou sobre a cabeça do elfo, notando que aquilo não seria o bastante para lavar os cabelos do outro, que soltos, iam até abaixo dos ombros, pouco perto da cintura. Notou que as mechas do garoto ainda conservavam um pouco do aroma que possuíam no dia em que ceifara a liberdade do mesmo — um aroma doce e delicado de flores da superfície, nas quais o drow nunca reparara. Aproximou o rosto afim de sentir mais daquele delicado perfume, e deixou suas mãos deslizarem pelos fios dourados que o exalavam.

– Por que?– Perguntou o elfo. A voz quase um sussurro devido à fraqueza que sentia.

– O que?– Inquiriu o drow.

– Se me odeia, por que me mantém preso a você?– Disse, com um fio de voz.– Por que simplesmente não me mata?

Quarfein se viu pego de surpresa pela pergunta — visto que essa mesma pergunta era apenas uma das várias que atormentavam seus pensamentos — e aquilo o irritou, de forma que pensou em agredir o garoto, mas não o fez ao perceber que se fizesse isso iria inevitavelmente abrir um dos ferimentos antigos, tendo que lidar com mais sangue. Em sua mente, essa pergunta circulava com outras várias: não sabia dizer porque estava começando a sentir uma sensação de tristeza sempre que via o outro em um estado de agonia tão profundo, ou qual sensação desagradável o fazia se sentir mal sempre que via o outro chorando, e menos ainda o porque de senti-la. Gostava de subjugá-lo a sua vontade, era fato, mas não sabia o porque depois de tudo aquelas sensações desagradáveis o assaltavam. Ainda assim, não queria dar-lhes importância.

– Porque eu gosto de lhe causar dor.– Disse, jogando a água quente sobre o elfo, de forma que esta molhasse os cabelos do mesmo e escorresse pelo corpo. Amaess emitiu um gemido de dor — a água não havia esfriado muito, e estava quente demais.– Eu gosto da voz que você faz quando está sofrendo, e da sua expressão de dor. Gosto de te ver chorando, com os olhos arregalados de medo.– Falou, enquanto lavava os cabelos garoto. Amaess mantinha os olhos fortemente fechados, mordendo os lábios. O drow puxou os cabelos do outro para trás, segurando os ombros do mesmo contra a parede com a outra mão para que este não caísse.– Eu gosto quando você está apavorado, e amo quando você sangra.– Sussurrou no ouvido do elfo, mordendo-lhe a orelha.

"Você não é um monstro." Pensou o garoto, ainda mais amedrontado após ter sua certeza de que o outro sentia prazer em lhe torturar confirmada. "Você é pior que um monstro.".

Quarfein soltou os cabelos do elfo, voltando a encher um balde com água e levá-lo para a lareira. Fez o mesmo com a caneca — estava com pressa. Já no banheiro, o outro lutava para não cair — não que um machucado a mais ou a menos fosse fazer muita diferença. O drow voltou com o balde e a caneca de água quente, e o garoto se encolheu, com medo — a água parecia estar fervendo. Quarfein depositou os dois itens cheios de água no chão.

– Está bem, eu espero a água esfriar.– Falou. Sabia que a água estava quente o bastante para queimar alguém, então puxou o corpo de Amaess para si. O garoto mal se mantinha em pé, e o drow temia que ele caísse, sujando ainda mais o chão do banheiro. Quarfein não soube dizer o porque, sentiu algo que lhe era estranho e diferente enquanto segurava o corpo do elfo — uma sensação de calor, com uma estranha vontade de permanecer segurando aquele corpo frágil enquanto o outro tremia e chorava em seus braços. O drow voltou a colocar o elfo contra parede quando pensou que havia dado tempo da água esfriar, e então colocou o dedo na caneca para ver se a temperatura havia abaixado o bastante. Estava morna. A jogou sobre os cabelos do garoto, lavando-os. Amaess permanecia em silêncio, com medo, até o drow jogar a água que restara do balde em sua cabeça. Sentiu uma toalha sendo jogada sobre seus ombros, e então o outro o ergueu, deitando-o na cama — ações que foram feitas até com certo cuidado.

"Por que estou fazendo isso ?" Pensou o drow. "É apenas um brinquedo... algo que se pode descartar..." Repetiu para si mesmo, observando a expressão de dor e cansaço no rosto do garoto. Era desesperador a sensação de talvez — mas apenas a possibilidade já era desesperadora o bastante — estar se apegando justo a um elfo. Apegar-se a alguém, para um drow, já era assustador o bastante — apegar-se a alguém que havia sido ensinado a odiar então, ainda que fosse apenas uma mera possibilidade, era algo aterrorizante.

"Quem está se apegando a alguém aqui?" Disse para si mesmo. "Eu apenas não quero me desfazer dele... ainda..." Pensou, se esforçando para se agarrar à parte do "ainda".

– Sente-se.– Falou Quarfein. O elfo se esforçou para fazê-lo, apoiando as costas na cabeceira da cama, e abaixou o rosto. Só então notou os cortes feitos em seu peito. Lágrimas fluíram para seus olhos, já vermelhos de tanto chorar. O drow puxou a bolsa, tirando dela um aro de metal preso a uma corrente. Havia também um cadeado.– Acho que agora deixei as coisas claras o bastante.– Disse, erguendo o rosto do garoto para que este visse o colar.– O máximo que você se afasta de ser um brinquedo é sendo um animal de estimação.– Falou, fazendo uma expressão ainda mais abatida assolar o rosto do outro. Amaess tentou se afastar, mas o drow o segurou, colocando o aro em seu pescoço e fechando-o com o cadeado, prendendo-o à corrente.

– Não...– Soluçou o garoto.– Por favor... tire isso...– Suplicou. Em sua visão, nem mesmo animais deveriam ser presos daquele jeito. O elfo tentou arrancar o colar, obviamente em vão. As correntes psicológicas já não eram o bastante? O medo e as ameaças já não o encurralavam o suficiente? Por que o outro fazia questão de torturá-lo ainda mais, colocando uma coleira em seu pescoço?– P-por favor...

Quarfein sorriu diante daquela agonia, puxando o elfo para si pela corrente. Amaess engasgou.

– Por que eu tiraria? Você tem sido desobediente demais para ficar sem uma coleira... agora, não corre mais o risco de você fugir por aí...– Disse Quarfein, se deliciando com as lágrimas de seu prisioneiro. Pegou, então, uma roupa que estava dentro da sacola.– Ah. Vista isso.– Ordenou, jogando as peças de roupa sobre o elfo. O garoto permaneceu em silêncio, chorando. Se perguntava, em sua inocência, o que havia feito para que o outro o odiasse e o maltratasse tanto — não sabia que o outro achava uma justificativa algo desnecessário para suas ações.– Vista. Não vamos almoçar aqui hoje.– Disse o drow, se aproximando do outro.

– Eu não estou -O elfo se viu interrompido.

– Não estou perguntando se você quer.– Falou o outro. O garoto vagarosamente vestiu as roupas — uma calça preta extremamente justa, com uma blusa de mesma cor que possuía a gola em "v". Quarfein puxou a corrente para fora da blusa, observando o elfo, que mantinha o olhar fixo no chão. Pegou uma fita, prendendo os cabelos do garoto em um rabo de cavalo.– Bom, vamos logo.– Disse, seguindo para o corredor e puxando o garoto pela corrente. Amaess sentiu a corrente enforcando-o e tentou se levantar, mas estava fraco demais para se manter de pé.

O drow não se abalou ao ouvir o baque do corpo do garoto caindo no chão, e puxou um pouco mais a corrente, fazendo com que o garoto sentisse o aro apertando seu pescoço.

– Ande.– Disse o rapaz. Não tendo a ordem acatada, caminhou até o outro, parando com os pés ao lado do rosto do garoto.

– Você é surdo ou algo do tipo? Mandei você andar.– Repetiu, não obtendo uma resposta. Impaciente, ergueu Amaess pelos cabelo, obtendo um gemido de dor acompanhado de uma lágrima.– Entendo. Você achou que eu ia puxar até te matar enforcado, não foi?-Disse Quarfein terminando de erguer o outro e forçando-o a ficar de pé. O elfo mal conseguia manter o equilíbrio, mas ainda assim, se viu forçado a andar atrás do outro por meio das ruelas estreitas.

– E-eu... não consigo... -Disse o jovem, quase caindo em cima do outro.

– Como assim? Não consegue continuar andando?– Perguntou o drow, sarcástico. Os dois estavam em frente à um bar decadente. Amaess confirmou com um menear de cabeça.

– Está bem, vamos almoçar aqui mesmo.– Falou, entrando no bar com o garoto.

Vendo o quão decadente era lugar, o elfo se encolheu, e quase saltou sobre Quarfein quando sentiu um tapa atingindo-o nas nádegas.

– O que foi?– Disse o drow, momentaneamente soltando a corrente e se divertindo com o susto que o garoto levara sem saber com o que. O humano que o atingiu passou a língua nos lábios, dando um sorriso típico de um canalha com os dentes amarelados.

– Ih Robert, parece que você assustou a mocinha!– Zombou um humano, recebendo atenção apenas do amigo, que despia o garoto com os olhos sem o menor pudor ou respeito.

Quarfein notou o elfo tremendo, com um par de lágrimas brilhando nos olhos, mas antes que pudesse fazer algo o garoto saiu correndo por entre as ruas. Ia gritar para que parasse, mas só então notou que sequer sabia o nome daquele elfo- algo trivial: brinquedos não precisavam de um nome. Ainda assim, o drow saiu correndo atrás do outro jovem sem parar para pensar no que estava fazendo, e então se deparou com uma situação que fez seu sangue ferver — Amaess se debatia, em vão, enquanto um meio-orc cobria-lhe os lábios. Um humano deixava a faca deslizar pela blusa do garoto, expondo a pele alva, porém marcada por diversos machucados. O garoto tremia em meio ao medo e ao pavor, e um par de lágrimas escorria por seu rosto delicado. O drow agiu por impulso, e os olhos do elfo se arregalaram quando o sangue do humano jorrou em seu peito — não teve tempo de saber o que aconteceu a seguir — o meio-orc o jogou para o lado, e tudo o que pôde ouvir foi o som de carne sendo rasgada.

Amaess se virou, esperando ver alguém diferente, alguém como Alvina... ou Nádia... mas ao invés disso se deparou com a pessoa que mais odiava e temia.

– Você está bem?– Perguntou o drow. Porém o garoto não reagiu — apenas se encolheu, tremendo, ainda que em sua mente estivesse com raiva — bem? Como estaria bem, depois de tudo que Quarfein lhe fizera? Era óbvio que não estava bem! Ainda assim, não conseguiu dizer o que pensava.

– Me perdoe... por favor... me perdoe...– Repetia, convulsivamente — as memórias dos dias anteriores vividas demais em sua mente para que tentasse fazer qualquer outra coisa.

"Que meigo... você fica tão adorável quando está com medo." Pensou Quarfein, se abaixando ao lado do elfo, ainda sem pensar na reação que tivera em relação ao que vira.

– Você gosta mesmo de se machucar, não é?– Disse, em tom provocativo, só então se lembrando porque cortara a garganta de duas pessoas.

"Patético." Pensou. "Deixá-los se divertirem um pouco nada me custaria."

– Me perdoe... por favor... por favor me mate... por favor... se você me odeia tanto, me mate...– Falou Amaess, sem conseguir conter o choro.– Por favor me mate... eu não agüento mais... por favor...

– Eu vou deixar essa passar.– Disse o drow, novamente tentando reprimir o estranho sentimento que parecia querer se infiltrar em sua alma a qualquer custo.– Porque aquela espelunca era realmente imunda. Mas que fique claro, isso não vai acontecer de novo.– Falou, puxando o elfo para si.– No mais, quero que limpe o sangue do meu punhal. Ele estaria limpo, se não fosse você.– Disse, segurando a arma rente ao rosto do outro. Amaess ficou reticente por alguns instantes.– Use a língua.– Ditou o outro. O elfo hesitou, mas sabia do que Quarfein era capaz, e as feridas físicas e psicológicas que carregava eram grandes demais para que tentasse enfrentá-lo ou resistir às suas ações.

O rapaz de olhos cor de rubi mordeu os lábios ao ver a língua rosada do outro deslizar pela lâmina ensangüentada. As bochechas do elfo coraram diante daquilo — não era certo — aquilo era sangue, lamber aquilo era imoral, chegava a ser falta de respeito para com os mortos (mesmo aqueles mortos em especifíco não sendo tão dignos de respeito assim), mas... não era como se tivesse escolha.

– Vai me contar porque saiu correndo daquele jeito?– Disse, mal o drowsendo capaz de se conter diante daquela visão.

– Eu... fiquei incomodado com aquele lugar imundo...– Mentiu o garoto.– Era repulsivo demais.

Quarfein deu um sorriso de canto, levando uma das mãos ao membro do outro jovem e pressionando-o, fazendo com que o garoto emitisse um gemido de dor.

– Pare!– Gritou, com as forças que tinha, tentando afastar as mãos do outro. O drow riu, soltando o garoto, e atingindo-o com um soco no estômago, que o fez cair de joelhos. Um par de lágrimas escorria dos olhos do elfo.

– Além de não ser nenhum exemplo de pureza, você mente extremamente mal.– Disse, destilando o veneno sobre a indefesa criatura que tanto gostava de atormentar.– Qual o real motivo? Diga a verdade, ou eu vou -O rapaz se viu interrompido.

– F-foi porque... porque...– O garoto se sentou no beco, abraçando os joelhos. Por que aquilo estava acontecendo consigo? O que havia feito de errado para que sua vida virasse aquele inferno?

– Por que...?– Perguntou Quarfein. O outro soluçava, em prantos, sem responder.

"Por que?" Era o que se perguntava. O drow suspirou.

– Está bem, se você prefere contar do jeito difi-O garoto o interrompeu.

– U-um humano...– Disse, temendo as ações do outro.– E-ele...– A frase foi interrompida por soluços. "Por que isso está acontecendo comigo?" Pensou o elfo, sem sequer conseguir falar em meio ao choro. Movido por um sentimento que lhe era estranho e parecia querer esmagá-lo, Quarfein se abaixou ao lado do garoto.

– O que ele fez?-Perguntou. Sem resposta. O drow sabia que não conseguiria fazer com que o garoto falasse em meio aquele choro.– Está bem, só me diga se sim ou se não está bem?– Falou, obtendo um menear de cabeça relutante.– Ele disse alguma coisa ofensiva?– Perguntou, temendo fazer logo de cara uma pergunta que deixasse o outro ainda mais desesperado, e com mais medo ainda de falar. O garoto balançou a cabeça em uma negativa muda.– Ele te assediou?– O elfo afundou o rosto entre os joelhos, se encolhendo ainda mais. Quarfein não soube porque sentiu raiva, mas atribuiu ao fato de "não gostar que mecham em suas 'coisas' ". Ainda assim, permaneceu frio.– E daí? Nem– O garoto cobriu os ouvidos — não queria ouvir as ofensas do outro.– Está bem, tampe os ouvidos o quanto quiser, mas vamos comer algo.– Disse o drow, voltando a puxar o elfo pela coleira. Acabou entrando em um restaurante que parecia mais simpático — taberna clairvoyance. Amaess se via sem escolha, encurralado. Se sentaram no balcão. O garoto se encolheu, sentindo todo o corpo doer.

– Espero que não tenha problemas com carne.– Falou. O elfo permaneceu em silêncio enquanto o outro fazia o pedido, até que sentiu a mão do drow subindo pela sua coxa. Estremeceu, ruborizando. Fechou os olhos com força quando a mão do rapaz subiu ainda mais, deslizando por sua virilha. A tortura psicológica foi interrompida quando dois pratos de comida foram colocados sobre o balcão, juntamente com duas pequenas caixas lacradas. Em silêncio, o elfo começou a comer o mais devagar que podia, enquanto Quarfein não fazia cerimônias. Quando o drow acabou, o outro havia terminado de comer apenas metade da refeição.– Por que está fazendo hora?– Perguntou o rapaz.

– Não quero ficar sozinho com você. Vou adiar isso o quanto eu puder.– Disse o elfo, com a voz baixa, quase um sussurro, como que pensando alto e dando voz às palavras involuntariamente. Seus olhos se arregalaram quando notou que não havia apenas pensado. Quarfein riu.

– Você é realmente ingênuo se acha que isso irá adiantar alguma coisa.– Falou. O elfo ignorou e continuou a comer — não era unusual o outro deixá-lo sem refeição por um dia ou um dia e meio, e não sabia quando o outro o deixaria se alimentar de novo. Entediado, o drow abriu a caixa lacrada que vinha junto com a comida. Seus olhos deslizaram pelo conteúdo, e ele deixou escapar um pequeno sorriso de escárnio.

"Quanta estupidez..." Pensou, jogando a caixa no balcão com desprezo.

– Não subestime o destino rapaz.– Disse a atendente.– Ele pode oferecer uma face bondosa e um caminho com segundas chances, mas também sabe punir aqueles que o desprezam.

Quarfein se segurou para não rir de toda aquela baboseira — ainda mais daquela frase ridícula — "Não se deve lutar contra o amor, e sim por ele. Aqueles que rejeitam seus sentimentos estão condenados a terem suas almas soterradas pelo vazio da solidão e o coração esmagado pelo peso da dor." . Que patético! O drow apenas permaneceu em silêncio, sem sequer disfarçar o desinteresse. Amaess apenas terminava sua refeição e pousava os talheres sobre o prato.

"Destino..." Pensou o elfo, enquanto a garçonete se afastava. "O que eu fiz de errado para que ele me mostrasse sua face mais cruel?" . Pegou a caixa e a abriu, suspirando — quanta estupidez — se "Para os que perseveram, sempre há um arco-íris após a tempestade", por que aquele inferno não parecia ter fim? Quarfein não lhe deu tempo para pensar, puxando-o pela corrente como tinha hábito de fazer. O garoto lhe seguiu no mais absoluto silêncio, o que, de certa forma, perturbou o drow.

– Eu não me lembro de ter cortado sua língua.– Disse.

– Por que diz isso?– Perguntou o elfo, sentindo-se como se fosse desmaiar a qualquer instante.

– Você não disse nada desde que saímos daquele restaurante das caixinhas com frases sem sentido.– Respondeu o drow. O garoto desviou o olhar.

– É porque eu não tenho nada dizer.– Disse. Ainda assim, alguns de seus ferimentos ardiam, e sua mente procurava se manter ocupada com qualquer coisa que não fossem as feridas emocionais.

– Absolutamente nada?– Falou o outro, tentando preencher o silêncio. Amaess não respondeu — sempre que ouvia aquela voz, sua vontade era correr para o lugar mais distante que seu corpo lhe permitisse. O silêncio voltou a reinar absoluto, até chegarem na estalagem. Quarfein notou o olhar de Nádia e Alvina na direção de Amaess, e por isso foi com o menor direto para o quarto.

– Aquela garota da recepção... a que escreveu o bilhete sobre sua irmã... não para de olhar para você.– Disse.– Você não está pensando em fugir de novo, está? Pense que se fugir com a ajuda dela... você e sua irmã não serão os únicos a pagarem por isso.

Amaess se amedrontou diante da possibilidade de Quarfein ferir Nádia ou Claitae, mas ainda assim não recusaria a ajuda da humana para fugir. Desde sua última tentativa de fuga, não havia conseguido conversar com nenhuma das duas garotas... e sequer havia visto sua irmã, atrás da qual Quarfein não fizera questão de ir — sabia o quanto ela se arriscaria para tentar ajudar o irmão, e o quanto aquilo lhe podia ser útil. Sabia que ela não iria longe.

– Não estou. -Mentiu o garoto. O drow pegou a corrente e a prendeu ao pé da cama com um cadeado. Notou a expressão de cansaço no rosto de Amaess.

"Melhor ainda." Pensou, ligando o cansaço do outro a ausência completa de uma fuga com chances de ser bem-sucedida. Removeu as calças do garoto, que estava a beira de um desmaio.

– N-não...– Implorou o elfo, tentando se encolher. Quarfein facilmente segurou-lhe as coxas, impedindo-o de se debater.– Por favor... eu...

– Você está quase desmaiando.– Observou o drow, com um sorriso cruel.– Do jeito que você é fraco, pode acabar morrendo se eu fizer algo com você nesse estado.

Amaess desviou o olhar, fechando os olhos. Quarfein se ergueu, voltando alguns instantes depois com uma pomada feitas de ervas medicinais.

– Eu comprei para usarmos na viagem caso você se machuque. O que provavelmente vai acontecer.– Falou, se abaixando ao lado do garoto e começando a passar a mistura nos ferimentos do mesmo.– Não se acostume, eu apenas não quero que você esteja desmaiado quando eu voltar. É apenas um analgésico.

O elfo ignorou, fechando os olhos enquanto as mãos de Quarfein deslizavam por seu corpo. O drow se ergueu, trancando a porta e deixando a chave do lado de dentro não apenas para provocar o elfo, mas também para dificultar a entrada de outra chave na porta. Saiu pela janela, sem se importar com nada — estava na terra de ninguém. Foi então que se deparou com uma pequena figura de cabelos dourados.

– Ah, a pirralha... o que está fazendo aqui?– Perguntou, com certo desprezo... e sufocando dentro de si a inveja que sentia pela garota ter alguém que se importasse com ela — aquilo não duraria muito — disse para si mesmo, visto que em sua concepção, logo Amaess estaria aceitando qualquer coisa em troca de um mínimo de clemência. A sinceridade infantil da garota falou mais alto que a noção do perigo.

– Estou esperando alguém... você nunca... nunca mais vai encostar no meu irmão se depender de mim.– Disse a pequena. Lágrimas escorrendo dos olhos azuis.

– Mesmo? O que vai fazer para me impedir?– Falou, provocando .– Chorar?

Nesse instante, Quarfein sentiu uma pedra atingindo-o na cabeça. No instante em que se virou para encarar um garoto com um estilingue, Claitae correu em sua direção, e suas mãos pequenas entraram direto no bolso com o minúsculo relevo da chave, pegando-a e jogando-a para o garoto. Porém, logo a vantagem do elemento surpresa se foi e a pequena se viu erguida no ar.

Mas esse não era o único elemento surpresa do plano que ela havia bolado com o filho de uma das várias pessoas anônimas e despercebidas que rondavam aquela estalagem.

– Drake, pega!– Gritou o humano, apontando para o drow. O dragonete voador deu meia pirueta no ar, antes de cravar os dentes afiados no braço de Quarfein. Claitae caiu no chão, correndo até o garoto, enquanto a mascote peculiar do mesmo voava para o alto.
O jovem de cabelos brancos parou para olhar o ferimento no braço — os dentes do animal haviam se afundado com força na pele, e parecia que o sangue não iria parar de escorrer tão cedo. Mordeu os lábios de raiva ao ver que teria que voltar para a estalagem, a fim de cuidar daquilo, antes de continuar os preparativos para sair da cidade. Os olhos de Túlia se arregalaram quando a jovem viu o drow passar pela recepção com uma expressão de raiva, mas sabia que Nádia e Alvina estavam cuidando de seus afazeres naquele horário — então, nenhuma delas estaria no quarto 25.

Quarfein levou a mão à maçaneta da porta do quarto, lembrando-se de que havia deixado a chave do lado de dentro e voltando para onde havia sido pego de surpresa pelo plano da irmã do elfo. Com um pouco de dificuldade, subiu até a janela e entrou, se deparando com algo que fizera o sangue subir pela sua cabeça — no quarto, estava aquele maldito dragonete, sentado no colo de Amaess, que acariciava o pequeno animal, sorrindo.

Assustado, o elfo ergueu o olhar. Drake começou a grunhir, mostrando os dentes longos e afiados. O elfo se apressou em ter certeza de que o bilhete que havia terminado de ler a pouco estava rasgado em pedaços minúsculos o bastante para não serem decifrados, enquanto o drow expulsava o pequeno réptil pela janela- Quarfein não podia ler o que estava escrito ali em hipótese alguma .

– Ele entrou pela janela...– Disse o garoto, tremendo, quando o drow se voltou para ele com um olhar de raiva.– Eu não achei que você se importar– O elfo se viu interrompido.

– O que aquela coisa estava fazendo aqui?– Perguntou o drow.

– N-nada...– Mentiu o garoto. Alvina finalmente havia elaborado o plano perfeito, no qual Claitae certamente estaria a salvo. Não podia por aquilo a perder.

– É a última vez que pergunto com calma — por que aquela coisa estava aqui?!– Disse Quarfein.

– Nada! Ele apenas entrou pela janela– Falou o garoto, amedrontado. O drow o atingiu com um tapa no rosto, fortemente desferido com as costas da mão. Amaess, que já estava demasiadamente ferido, chegou a ver sua mente ficar em branco por um momento.

– Então por que você se apressou em se explicar?– Perguntou– Você é um péssimo mentiroso, eu já lhe disse isso! Me conte a verdade e talvez eu não te faça dormir no chão.

O elfo fechou os olhos — preferia dormir no chão à dividir a cama com o outro, de qualquer forma. Mas não diria aquilo — aprendera rápido que, naquelas horas, o silêncio era seu melhor aliado.

A mensagem da irmã lhe trouxera esperança de se ver livre do outro, mas isso dependia de que Quarfein quase nada soubesse a respeito do plano, logo, nada no mundo faria o elfo abrir a boca para dizer qualquer coisa a respeito daquilo.

– Diga!– Falou o drow, puxando o garoto pela corrente.

– Não!– Disse o elfo, por impulso, empurrando o outro. Tentou se levantar, mas o drow voltou a puxá-lo pela corrente.

– Não sei qual é a origem do seu atrevimento, mas algo me diz que eu devo te lembrar qual é o seu lugar!– Falou. Amaess notou a mordida no braço do outro, e cravou os dedos nos buracos feitos pelos dentes do pequeno animal de estimação do humano, arrancando um grito de dor do drow.

Sem pensar duas vezes, o garoto se voltou para a corrente que o prendia ao pé da cama, e seus olhos se voltaram para o atiçador que repousava junto a lareira. Quarfein esticou a mão para agarrá-lo pelo braço, mas o elfo conseguiu alcançar o objeto de metal, usando-o para golpear seu agressor, e então para tentar romper o cadeado ou um dos elos da corrente que o prendia, não apenas lutando contra o tempo, mas também contra as investidas de Quarfein que visavam pôr um fim à sua tentativa de fuga.