Hate Everything About You
23 Amor e Morte - Parte VI - Remorso
Notas iniciais
Amaess não conseguia parar de pensar na forma como, apesar de tê-lo ferido inúmeras vezes, Quarfein nunca permitira que outra pessoa o machucasse. O elfo se ergueu, enrolando a toalha em sua cintura e indo em direção ao quarto, onde o drow apenas encarava o horizonte em silêncio.
– Quarfein– Amaess se viu interrompido.
– Eu sinto muito... por te querer ao meu lado mesmo tendo te ferido tanto... – Disse o drow, dando um sorriso amargo. – Eu... não consigo imaginar minha vida sem você... ela perderia todo sentido, e eu não conseguiria voltar ao que eu era antes...
– Eu sinto muito... por Akorcyrl... e pelo que sua irmã fez... durante todos esses anos... – Falou, fazendo um sorriso triste se manifestar nos lábios do drow.
– Ela projetou minhas memórias em você, não foi? – Indagou Quarfein, obtendo como resposta um menear de cabeça.
– Eu... sinto muito... – Disse o elfo, fazendo o rapaz rir.
– Pare de se desculpar por coisas que não foram sua culpa, Amaess. – Falou o drow, que sabia muito bem como era ser realmente culpado por algo terrível. Amaess permaneceu em silêncio por alguns instantes, antes que o outro rapaz fosse em sua direção e depositasse um beijo em seu rosto. – Ter uma chance de poder ter você ao meu lado foi, e ainda é, de longe a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Seria perfeito se eu pudesse voltar no tempo e nunca ter te machucado... eu sinto muito por não poder mudar isso mas- Algumas lágrimas escorreram pelo rosto de Amaess.
– Não diga mais nada... e-eu... estou me sentindo tão perdido... – Disse o garoto, que apesar de tudo, ainda sofria por causa das memórias que o outro lhe deixara. Quarfein sentiu seu coração doer diante daquilo — era por sua culpa que Amaess estava sofrendo daquele jeito — não era por culpa de Lolth, nem de Faeremma, nem de Aunbryn, nem de sua mãe, nem de nenhuma outra de suas irmãs: a culpa era dele (Quarfein), e somente dele.
– Amaess... se você quiser um tempo sozinho para pensar... – Falou, acariciando o rosto do garoto. – Eu não estou com tanto dinheiro, mas se você quiser... eu posso alugar um quarto na estalagem de Nádia para você ficar... ela... se importa com você, e eu tenho certeza que você vai poder contar com ela se precisar... você não é obrigado a ficar do meu lado ou se apressar em tomar uma decisão se não quiser...
– M-mas... – Amaess se viu interrompido.
– Foi minha escolha, por mais que seja doloroso admitir. Matar Akorcyrl ao invés de enfrentar minha irmã... fazer o que eu fiz até aqui... fazer o que eu fiz com você... foram escolhas que eu fiz, da mesma forma que eu escolhi mudar para poder... poder tentar consertar isso e te fazer feliz... mas... eu sei que você não vai ser feliz se eu te pressionar para ficar ao meu lado... se eu te prender a mim... eu sei que eu vou te machucar de alguma forma se eu fizer isso... então... – Quarfein permaneceu em silêncio ao sentir os braços delicados de Amaess envolverem seu corpo — aquele abraço... aquele abraço que ele não merecia, mas ainda assim desejava e aceitava... aquele abraço tão carinhoso e suave — Quarfein congelaria o tempo naquele abraço se tivesse poder para fazê-lo: pararia o tempo para sempre, naquele momento tão doloroso e prazeroso, tão pesado e tão leve, tão amargo e tão doce.
– E-eu — Amaess se viu interrompido.
– Eu não quero te prender, nem te machucar. Qualquer que seja sua decisão, Amaess... ela é sua... e te apoiar não vai ser mais que minha obrigação... é o mínimo que eu posso fazer... – Disse o drow, acariciando os cabelos do garoto e, hesitantemente, aproximando seus lábios dos lábios do elfo. Amaess permitiu aquele beijo, apenas para se afastar em seguida.
– Eu quero pensar sobre isso com calma... talvez... talvez eu precise de um tempo sozinho... e- Novamente, Quarfein o interrompeu.
– Qualquer coisa que você precisar. – Disse o drow, acariciando o rosto do garoto. Amaess recostou a cabeça no ombro do rapaz, hesitando antes de falar.
– Podemos jantar aqui mesmo? – Perguntou o elfo, preocupado com os ferimentos do drow. Quarfein hesitou por alguns instantes, mas acabou concordando.
– Está bem. Eu irei providenciar- Amaess o interrompeu.
– Não. Eu mesmo faço isso. Nádia disse que você precisa de repouso, lembra? – Disse o elfo, fazendo com que o drow suspirasse e desse um sorriso ambíguo — não merecia a preocupação daquele garoto tão doce e meigo, mas ainda assim... aquela presença, aquela chance... por que tinham um gosto tão agridoce?
Amaess saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. "Está tudo bem Amaess... você só está... só está confuso... droga... por que ele tinha que ter feito aquelas coisas? Ele... poderia ter morrido me protegendo, mas ainda assim... por que?" O garoto se questionava em pensamento. De fato, suas decisões seriam muito mais fáceis se Quarfein não tivesse se arriscado tanto para protegê-lo... se ele não agisse como se importasse... "Se ele apenas me ferisse..." Amaess se deteve, parando para pensar no que havia acontecido dos últimos dias. "Não... se ele apenas tivesse me ferido... e não aparentasse estar se esforçando tanto para mudar apenas por minha causa... droga... eu realmente... preciso de um tempo sozinho..."
~*~
"Está tudo bem Alvina...a irmã não é sua... quem tem que explicar o que aconteceu não é você, você está apenas seguindo a cabeça sentimental da Nádia... segura na mão de Ilmater e vai..." Pensou a jovem, antes de bater na porta da casa da irmã, que prontamente a atendeu.
– Vina! Como vai? – Perguntou a dona da casa, abraçando-a calorosamente.
– Eu vou bem, e você? E as crianças? – Indagou, sorrindo.
– Elas vão bem. Claitae está triste e preocupada por causa do irmão, mas fora isso... ela ficou bem próxima do Pete... O que houve? – Perguntou a jovem.
– Aconteceram algumas mudanças... Nádia pediu para que eu buscasse Claitae...
– O irmão dela... – A jovem se viu interrompida.
– Está vivo... mas a situação é complicada... tão complicada que eu nem quero ter a tarefa de explicar ela... – Contou Alvina, ainda sem conseguir processar a mudança de Quarfein dentro de sua mente.
– Entendo... mas ela não vai estar em apuros, vai? – Perguntou a moça.
– Não, não vai. Isso eu posso garantir. – Falou a jovem.
– Nesse caso, eu irei chamá-la. – Disse a garota.
~*~
Nádia bateu na porta do quarto onde Quarfein estava se recuperando do incidente com Aunbryn, e a voz do drow logo lhe deu uma resposta.
– Pode entrar. – Disse o drow, esperando que Amaess já houvesse retornado, mas logo abaixou o olhar, decepcionado ao se deparar com Nádia. – Ah... é você... o que foi?
– Eu vim avisar que você não precisa voltar para a outra pousada. Eu acertei algumas contas com o dono dela, e fechamos alguns acordos para ninguém ter prejuízo. Túlia vai pegar suas coisas e as de Amaess, e vocês vão voltar a se hospedar aqui. – Falou a garota, determinada a fazer o tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar Amaess.
– E com que autoridade você fez isso?! – Perguntou o drow, de certa forma se sentindo com o orgulho ferido — não estava acostumado com meros humanos lhe dizendo o que fazer.
– Com a autoridade de quem vai cuidar dos seus ferimentos e lhe dar um emprego, além te ajudar a reerguer a vida que destruiu. – Disse a humana, se sentando ao lado da cama de Quarfein. O drow perdeu a fala por alguns instantes, que foram o bastante para Nádia explicar um pouco do que havia feito. – Eu conversei com minha mãe. Ela concordou em empregar você e Amaess na estalagem, e descontar o aluguel do quarto do seu salário.
Quarfein permaneceu em silêncio por alguns instantes, ficando ainda mais sem saber o que dizer — não conseguia parar de se questionar o porquê de Nádia, justo Nádia, o estava ajudando tanto depois de tudo o que ele havia feito.
– Eu estou fazendo isso por Amaess. Apenas por ele. – Disse a garota, como que lendo os pensamentos do drow.
– Eu sei... mesmo assim... obrigado... – O rapaz hesitou por alguns instantes, analisando o que havia acabado de dizer, e apenas por uma questão de orgulho, murmurou um – Eu acho...
– Agora vamos olhar essas bandagens... Afinal, creio que nem eu nem você queremos que Amaess tenha mais motivos de preocupação... estou correta? – Perguntou Nádia, se sentando perto de Quarfein. O drow hesitou por alguns instantes, pensando em tudo o que havia acontecido — quando levava em conta o que havia feito, não conseguia enxergar uma razão para que Amaess se importasse consigo, e menos ainda uma razão para que o elfo ficasse ao seu lado.
– Está... até porque... eu não mereço que ele se importe comigo... ele é... sempre foi... tão doce... e mesmo depois de tudo, continua tão inocente... Nádia... como eu pude? – Disse, sentindo-se desolado ao confrontar o fato de que, por mais que várias de suas decisões tivessem sido tomadas com base no temor a uma divindade cruel e à morte, as ações que haviam causado tanta dor a Amaess haviam sido feitas tendo também como base em um desejo egoísta inconseqüente. – Como eu pude fazer algo tão terrível a ele? Eu fui estúpido e cruel ao ponto de... deuses, no que eu estava pensando? Como eu pude querer aquilo? Como eu pude ser tão cruel?
Nádia suspirou com certa indiferença, e começou a remover as bandagens do drow. Sua expressão normalmente alegre e esperançosa estava bem distante, e ainda que suas feições continuassem se mostrando acolhedoras, havia um certo ar de frieza e desprezo.
– Acha que eu sei? E mesmo que eu soubesse, você realmente acha que suas motivações quando você fez aquelas atrocidades importam? – Perguntou a humana, enquanto analisava se a pomada medicinal na qual havia banhado as bandagens estava realmente tendo o efeito desejado. - Elas não são importante Quarfein. Elas não terão mudado as suas ações, menos ainda a conseqüência delas, ou a dor que elas causaram a Amaess... talvez ajudem você a escapar da sensação de culpa e se afundar em auto-piedade, mas eu realmente não sei onde isso pode diminuir ou ajudar a consertar a dor e o estrago que você causou... – Falou, enquanto preparava algumas bandagens novas.
– Mas então o que é importante? Ainda que eu me arrependa de ter feito todas aquelas barbáries, eu não posso voltar no tempo de forma a jamais ter feito elas... eu causei muita dor a ele, e eu por mais que eu queira, eu não sou digno do carinho dele... da preocupação dele... menos ainda o amor dele...– Lamentou o rapaz, olhando para suas próprias mãos. Quarfein sentiu uma dor lacerante em seu peito ao se lembrar de Amaess se contorcendo, tentando inutilmente se esquivar de seus toques... ao se lembrar dos gritos e súplicas do garoto, implorando apavorado e em prantos para que ele parasse... doía ainda mais lembrar da forma como ele ignorava as súplicas, esmagando a resistência de Amaess enquanto o mesmo soluçava, implorando por uma clemência que Quarfein nunca teve. O drow apertou o lençol da cama, atormentado pela lembrança de suas mãos e seus lábios marcando a pele alva de Amaess, ignorando não apenas a ausência de consentimento, mas também todo o terror por trás dos tremores que percorriam o corpo do garoto — todo o horror por trás dos gritos que o jovem emitia, todo o pânico que se refletia nos olhos azuis do elfo, toda a dor e todo o medo por trás das lágrimas que escorriam daqueles olhos.
Aquilo era estupro, não importava a forma como se fosse visto — e Quarfein fechou os olhos com força para não desmoronar ao pensar na forma como prendera Amaess e cometera aquela barbárie vil e hedionda não uma ou simplesmente mais de uma, mas sim mais de duas, mais de três... mais de quatro vezes... o drow respirou fundo ao se lembrar de como o garoto tremia, enquanto tinha seu corpo tomado a força. Quarfein sentiu seus olhos umedecerem ao confrontar o fato de que em todas as vezes que tomara Amaess, de forma cruel e egoísta, deixara marcas e feridas bem mais profundas e menos passageiras do que hematomas e arranhões.
– Eu não mereço o perdão dele Nádia... ainda que eu o ame... as coisas que eu fiz... eu não mereço ficar ao lado dele... não é just- O drow se viu interrompido pela humana.
–Eu concordo com você. – Disse Nádia, sem sequer parar para olhar Quarfein nos olhos — apesar de que não era como se agora o drow se sentisse capaz de olhar nos olhos de qualquer outra pessoa. – Você foi uma pessoa totalmente horrível, e a princípio você nem amava Amaess ou se importava com ele, apenas o desejava de forma egoísta. – Falou a humana, sem dó algum — mas não era como se aquele rapaz, que nunca tivera nenhum senso de clemência até então, tivesse direito à piedade de alguém. – Amaess de fato merece alguém melhor do que você, que do ponto de vista do que é justo, deveria apodrecer em uma masmorra, preferencialmente de forma lenta e dolorosa... acho que você não é hipócrita o bastante para discordar disso.
– Eu não sou cínico a esse extremo. – Disse Quarfein, jogando a cabeça pra trás, enquanto desejava mentalmente que a cama virasse algum tipo de monstro e o engolisse, pondo fim a sua existência. "Aunbryn estava certo em um ponto..." Pensou, enquanto Nádia fazia uma pausa para prosseguir. "Eu sou patético e indigno... minha existência só traz desgraça...".
– Entretanto, será que estamos fazendo as perguntas certas? — Falou a humana, ao que Quarfein permaneceu em silêncio, remoendo a culpa que carregava — pela primeira vez, depois de muitos anos, o drow se sentia como se fosse desmoronar e começar a chorar a qualquer instante. Nádia prosseguiu. – Porque por alguma razão, Amaess parece discordar de nós... e ele pode ser inocente, mas mesmo que ele esteja se sentindo perdido e desamparado, mas ele não é tolo. Para aceitar te dar uma segunda chance... para estar se preocupando com você... alguma coisa ele viu em você. E pelo que eu sei, você poderia ter morrido tentando proteger ele de sua irmã...
– Talvez tivesse sido melhor para todo mundo se isso tivesse- Nádia não permitiu que Quarfein terminasse a fala.
– Pare com a auto-piedade. Ela não vai ajudar ninguém. – Falou a garota, de forma ríspida. – Como eu estava dizendo, você pode não ter amado ele ou não se importado com ele no começo, ou ter agido como se não o amasse... mas até que ponto isso importa? Será que isso importa mais do que o fato de que a culpa e o arrependimento que você diz que sente... essa sua mudança de comportamento são — ou pelo menos eu espero que sejam — reais?– Disse Nádia, enquanto terminava de enfaixar um ferimento no tronco do drow. – O amor que você sente por ele agora... isso é real, não é? – Falou a humana, erguendo o rosto e olhando no fundo dos olhos de Quarfein — aqueles olhos eram os mesmos olhos da pessoa que mais odiara, mas a pessoa que os possuía lhe parecia alguém completamente diferente.
– S-sim... é... eu só quero que ele fique bem e-
– E você acha que pode ajudar ele a superar a dor que você causou? Acha que pode fazer ele feliz? – Indagou a humana, enquanto começava a trocar as bandagens do olho do drow, analisando calmamente a cicatriz deixada no rosto do mesmo.
– Se eu posso... isso eu não sei dizer... mas eu quero... – Falou Quarfein, fechando os olhos para impedir uma lágrima de escorrer — deuses, como queria poder nunca ter ferido Amaess. – Só que...
– Só que talvez seja isso o que mais importa. Você não tem que olhar o que é melhor para o seu recém-adquirido senso de justiça, Quarfein... – Disse Nádia, enquanto enfaixava o olho do drow com uma nova bandagem. – Você tem que olhar o que é melhor para Amaess.
– M-mas Nádia... eu... fiz coisas terríveis com ele... eu cheguei a tentar... – A humana novamente o interrompeu.
– O que importa não é no que você estava pensando quando fez aquelas atrocidades. Não é o quanto você se arrepende. O que importa é se o seu arrependimento e seus sentimentos são reais. É se você consegue fazer Amaess feliz se ele quiser ficar ao seu lado. O que importa não é o que vai trazer justiça, e sim o que vai trazer felicidade. – Falou Nádia, olhando no fundo dos olhos de Quarfein — aqueles olhos eram tão iguais e tão diferentes dos olhos que ela odiava. – A regra é que só há felicidade quando há justiça, mas toda regra tem suas exceções. Se você não está mentindo quando diz que o ama... se essa mudança sua é real... então, caso Amaess quiser ficar ao seu lado, estamos falando de uma exceção.
– E o que faria um anjo como ele querer ficar ao lado de um monstro como eu, Nádia? – Perguntou o drow, sentindo seu peito doer como se fosse implodir, de tanta culpa que sentia.
– Você... podia ter morrido protegendo ele de Aunbryn... – Disse a garota, enquanto analisava os curativos que havia feito no drow. – Você arriscou sua vida para salvar ele. Você pode não ter se importado com ele antes, mas agora você se importa... ou você o ama, ou você finge muito bem, e é isso o que ele viu em você... – Concluiu a humana, enquanto descartava as bandagens velhas da forma mais apropriada o possível.
– Ele ainda tem medo de mim... – Lamentou o drow, afundando o rosto entre as mãos.
– Lógico. Vai levar tempo até que ele se recupere. Meses, anos... talvez ele nunca se recupere completamente... – Declarou a humana, fazendo Quarfein se sentir sem chão: Amaess poderia... nunca se recuperar? – Mas se você realmente ama ele... você vai ficar ao lado dele... e vai ajudar ele a superar essa dor, sem forçar nada. Então vamos a uma das perguntas que define tudo com a mais suma importância — você ama ele, ou ama o corpo dele?
– Que pergunta é essa? – Indagou o drow.
– Quarfein, tendo em vista o que você fez, me surpreende ele não entrar em pânico só de olhar para você, quem dirá ao ser tocado por você. – Declarou Nádia, terminando de guardar suas coisas e se erguendo. Quarfein sabia o que a humana queria dizer com aquilo, e suspirou.
– Nádia... eu posso ter passado a vida inteira sem saber o que é amor... eu posso ter vivido todos esses anos sem me importar com ninguém além de mim... mas eu tenho discernimento o bastante para saber que eu amo Amaess, e que o que eu mais quero é que ele seja feliz. – Falou, sentindo seu corpo tremer — seu coração doía como se fosse implodir em um misto de culpa, remorso, amor e vários outros sentimentos que durante anos ele havia renegado. Sua voz tremeu. – Apesar de me questionar se eu não iria fazer ele mais feliz caso eu me matas-
– Se você se matasse você estaria apenas fugindo da sua culpa, no irrevogável ápice da auto-piedade. E auto-piedade é um direito de vítimas, não de culpados. – Disse a humana, antes de sair do quarto. Quarfein olhou para o teto, afundando-se em meio à angústia e à culpa.
"A auto-piedade é um direito de vítimas, não de culpados... está certo... eu não posso ter pena de mim mesmo por ter sido um monstro... mas — " A porta se abriu, e a humana interrompeu seus pensamentos.
– Mas o arrependimento e o remorso é um direito dos dois, assim como o direito de querer consertar as coisas e o desejo de se tornar alguém melhor. Desejar ser perdoado é um direito do culpado. Só não é o direito dele tentar tornar o perdão obrigatório. Agora repouse, e aproveite para refletir. Vai te fazer bem.– Falou, a humana. Quarfein deu um sorriso amargo, e Nádia apenas tornou a fechar a porta, se sentindo infinitamente mais leve agora que tudo parecia tomar um rumo melhor.
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