Hate Everything About You
24 Amor e Morte - Parte VI - Em pedaços
Notas iniciais
Amaess abriu a porta do quarto, entrando e depositando um prato de comida no colo de Quarfein. O drow reparou que os olhos do garoto estavam avermelhados — um sinal óbvio de que ele esteve chorando.
– Amaess... sabe que não precisa ficar ao meu lado se não quiser, não sabe? – Perguntou o rapaz, preocupado. O elfo apenas desviou o olhar por alguns instantes, e seus ombros tremeram devido a um soluço.
– V-você realmente acha... que eu posso simplesmente sair por aquela porta, e ignorar tudo o que aconteceu? – Falou o garoto, se encolhendo. Estava evidente de que, apesar de Amaess ter perdoado — ou ao menos ter dito que perdoava — as ações do drow, o mesmo ainda se mostrava tenso e amedrontado com sua presença. – Que eu posso simplesmente esquecer tudo?
– Ama- O drow se viu interrompido.
– Eu não sei mais... não sei o que esperar... você mudou tanto... e-eu... – Quarfein pensou em interromper o elfo, mas algo dentro de si dizia que talvez devesse ouvir o que o jovem tinha a lhe dizer antes de mais nada. – Dias atrás e-eu era... você não se importava, e... e de repente você quase morre para me proteger... eu não estou bem, eu estou confuso, eu estou assustado... eu não sei mais o que pensar... eu não sei se isso é real ou fingimento, não sei o que você quer, eu nem- O drow colocou o prato de comida sobre o criado mudo, se erguendo e indo até perto de Amaess. O elfo estremeceu, mas apenas permaneceu em silêncio, se encolhendo no beiral da janela. Quarfein ficou com medo de que, devido à forma como o garoto se acuava no beiral, o mesmo pudesse cair a qualquer instante.
– Nesse exato instante... tudo o que eu quero é te segurar... te abraçar bem forte e mandar sua dor para longe... – Falou, estendendo as mãos a Amaess. O garoto ergueu o rosto, com seu olhar carregando uma mistura de sentimentos que Quarfein jamais conseguiria decifrar, e então voltou a desviar o olhar para o horizonte. – E... eu sei que as coisas não vão se resolver tão facilmente... mas...
Os olhos de Quarfein se arregalaram um pouco quando uma das mãos pequenas de Amaess segurou a sua — o elfo estava tremendo, e parecia se questionar, no ápice da hesitação e do medo, até onde aquilo era real. O drow hesitou quanto ao que estava fazendo, mas abraçou o garoto, sentindo-o estremecer.
– Isso é real... eu não estou mentindo, Amaess... – Disse, tentando conter as lágrimas que brilhavam em seus olhos cor de sangue: era aterrador pensar que Amaess tremia em seus braços apenas pelo fato de estar recebendo seu toque — o coração de Quarfein doía como se fosse se partir-se em mil pedaços diante daquilo — e doía ainda mais quando o drow se lembrava de que aquele temor era fruto de suas próprias ações... de que ele era o culpado pelo sofrimento e pela dor de Amaess. – Eu... sinto muito... eu não fui uma pessoa boa... eu sei disso... mas...
"Tão quente... tão diferente de... não... antes não importa, importa? Eu... não quero viver com essa dor pelo resto da vida... não quero que o que aconteceu me impeça de seguir em frente ou confiar nas pessoas..." Pensou o elfo, recostando o rosto no ombro do drow — era tão grande a mudança vinda dele, que o garoto por alguns instantes se questionara a respeito da possibilidade de ser mero fingimento — no entanto, os ferimentos que Quarfein obtivera lhe protegendo eram reais, assim como o risco que o drow correra, e assim como as mortes de Faeremma e Aunbryn. O afeto e a preocupação por trás daquele abraço eram reais, e Amaess sabia disso — era fácil de perceber... era fácil de sentir.
– Você está sendo uma pessoa boa agora... – Disse, deixando que uma de suas mãos tocasse as bandagens que cobriam o lado esquerdo do rosto do drow. Uma lágrima solitária escorreu do olho direito de Quarfein.
– Você vai ficar bem, Amaess... nenhuma ferida dói para sempre, nem mesmo a pior delas... – Falou o drow, acariciando os cabelos do garoto. Ver Amaess chorar lhe causava tanta dor que era como se sua alma fosse ser feita em pedaços. – E aí... você vai superar essas memórias... vai voltar a sorrir... a dar aquele sorriso perfeito que eu só vi uma vez... vai voltar a confiar nas pessoas que merece- Quarfein parou de falar ao sentir o indicador de Amaess sobre seus lábios. O elfo se sentia estranhamente confortável com aquele silêncio, com os braços do drow em volta de sua cintura... mas então o garoto se sobressaltou, empurrando Quarfein e quebrando o abraço.
– Sua comida está esfriando! – Exclamou, empurrando Quarfein para cama. – E Nádia disse que você precisa de repouso... ah, que cabeça a minha...
O drow abaixou o olhar, secando uma das lágrimas que insistia em escorrer — aquele carinho e aquela preocupação eram muito mais do que ele merecia, do que ele podia pedir — mas ainda assim, Amaess parecia não se importar com tal fator.
"No final... nós dois estamos em pedaços, não é? Você pela dor e eu pela culpa... e também... eu não posso negar que preciso de você para me recompor... eu me sinto exposto sem você... me sinto vulnerável e perdido... será... que você está me dando uma segunda chance... porque também se sente exposto quando está sozinho?" Pensou o drow, enquanto Amaess lhe desejava um tímido "boa noite" antes de se deitar na outra cama de solteiro que havia no quarto. Um sorriso se formou nos lábios de Quarfein.
– Boa noite, meu amor... – Disse, esperando realmente que Amaess não saísse de sua vida.
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