Hate Everything About You

22 Amor e Morte - Parte V - Traumas e complicações


Notas iniciais
"Memórias Não são só memórias São fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber" - Memórias, Pity.

A medida que a carruagem se deslocava no horizonte, Alvina pensava em como explicar a situação para Claitae — a elfa era apenas uma criança, e certamente odiava Quarfein — com todos os motivos do mundo para fazê-lo. Seria uma história complicada de se explicar, especialmente levando-se em conta os traumas e a pouca idade da irmã de Amaess.

"Talvez eu não deva explicar... talvez eu deva deixar que Quarfein e Amaess expliquem... mesmo porque... são eles quem irão cuidar dela depois... no entanto, sinto que algum motivo eu terei que dar para levá-la de volta ao invés de trazer Amaess até ela... eu irei ter que explicar... ainda que de forma superficial.." Pensou a humana, observando o Sol se pôr.

~*~

"Ele podia ter morrido me protegendo... assim como Erdan morreu... droga... às vezes eu me sinto um fardo... eu me sinto tão incapaz..." Pensou Amaess, enquanto enchia um balde de água e o levava até a lareira. "E... eu me sinto tão manipulado... essa sensação é tão desconfortável... eu deveria me sentir bem... então por que?"

~*~ Flashback ~*~

– E...? É tão divertido brincar com os seus medos...– Falou Quarfein, lambendo o sangue que agora estava na ponta de seu dedo. Uma mistura de ódio e desejo o motivava, e Amaess não tinha noção do que o outro planejava fazer. – Você faz uma expressão tão meiga quando está apavorado... me dá cada vez mais vontade de fazer você chorar e implorar para morrer logo.

Medo. Muito medo. O drow sorriu ao notar que Amaess tremia, com a respiração acelerada e o tórax subindo e descendo de forma rápida. Os sinais do corpo do elfo podiam muito bem ser comparados aos de um coelho pressionado sob as patas de uma raposa. Quarfein abaixou o rosto até perto do abdômen trêmulo de sua vítima, lambendo o corte que ia até a clavícula direita e parando na altura do peito do jovem. Um soluço deixou os lábios de Amaess.

– Mas... seria um desperdício matar um animal de estimação em potencial tão adorável quanto você... – Disse o drow. Aquelas palavras abusivas fizeram o outro estremecer.

~*~ Flashback ~*~

"Verdade... você achava divertido brincar com que eu temia, não é? E se... e se você apenas estiver mudando o seu jogo, e brincando com o que eu sinto? Afinal, você faria tudo que eu te pedisse, menos me deixar, não é?" Pensou o elfo, inseguro. A água morna preencheu a banheira, e Amaess se lembrou das memórias que Aunbryn havia projetado em sua mente — memórias de Quarfein. Uma delas, em particular, ainda assombrava os pensamentos de Amaess — não por ser uma das piores, ou mais cruéis — longe disso: aquela memória o assombrava apenas por ser uma das mais tristes.

~*~ Memórias ~*~

Quarfein ainda era uma criança — possuía a idade equivalente ao que seria os seis ou sete anos de uma criança humana. Havia pouco tempo, o garoto havia encontrado um filhote de besta deslocadora — uma espécie de animal semelhante a uma pantera — no subterrâneo, e começado a cuidar dele escondido de suas irmãs. Todo dia, sem falta, o pequeno drow levava para o animalzinho alguma sobra do almoço — e naquele dia não havia sido diferente.

Um sorriso inocente se formou nos lábios do garoto — um sorriso tão inocente que Amaess duvidava que a criança nas memórias que Aunbryn lhe bombardeara fosse de fato Quarfein.

– Acho que já está na hora de te dar um nome... – Disse o garoto, acariciando a cabeça do animal. O filhote apenas deu alguns pequenos pulos em volta do pequeno, sem entender o que o mesmo dissera, mas ainda assim, interessado em brincar. – O que acha de Akorcyrl? Significa "primeira amiga". Acho que não vou ter muitos amigos além de você, já que minhas irmãs praticamente só me deixam sair para ir na igreja... – Falou, acariciando o animal. Porém, Quarfein saltou para trás ao ver uma sombra ser projetada atrás de si.

– O que é isso, Quarfein? – Disse Aunbryn, com um tom de voz assustador. O garoto pegou a pantera no colo, com medo.

– É... é uma... — O garoto se viu interrompido quando o punhal de sua irmã se viu perigosamente perto.

– Você estava se apegando a essa coisa? Estava até chamando ela de amiga? Você quer tanto assim morrer, irmãozinho?– Perguntou a mulher, fazendo o garoto tremer.

– Não! Não Au- Um tapa no rosto o fez soltar a pantera, que começou a rosnar para a sacerdotisa.

– Mate essa coisa. Agora. – Ordenou, jogando o punhal perto do garoto. – E nem pense em usar esse punhal para outra coisa que não seja matar esse bicho imundo.

– Akorcyrl — Aunbryn interrompeu o menino ao desferir um chute contra o corpo pequeno do mesmo.

– Se você não matar essa coisa, eu mato você. – Ameaçou, fazendo com que lágrimas rolassem pelo rosto do garoto. – E engula esse choro! – Falou, atingindo o pequeno com seu apavorante chicote terminado em cabeças de serpente. Um grito de dor deixou os lábios do garoto.

– Não... por favor, Aunbryn não me faça — O chicote o atingiu repetidamente.

– Seu inútil, pare de implorar! Isso é patético! Em que mundo você acha que você vive?! Mate ou morra, eu estou te deixando escolher! – Gritou Aunbryn. Akorcyrl a mordeu no tornozelo, e a sacerdotisa chutou o filhote na parede.

– É sua última chance.– Falou, fazendo o garoto soluçar. – Se você não matar esse monte de imundice eu mato você!

– Eu faço! – Disse o pequeno, quando sua irmã voltou a erguer o chicote. Aunbryn deu um sorriso de satisfação ao ver o irmão se levantar com dificuldade, e então pegar o punhal, indo em direção ao filhote. Akorcyrl correu em direção ao garoto, querendo pular no colo do mesmo. Quarfein soluçou, erguendo o punhal para o animal que esperava as carícias que o pequeno sempre lhe fazia na cabeça, e então mirando na nuca. Respirou fundo — era algo que não queria fazer, mas então notou a aproximação de sua irmã. O punhal se cravou na nuca da pantera, que apenas tombou no chão — sem vida, sem sequer emitir algum som.

– E que isso lhe sirva de lição. Amor, amizade e afeto são fraquezas, Quarfein. Ou você destrói a causa delas, ou a causa delas te destrói. Em última instância, Lolth se encarrega de te destruir, mas a destruição sempre chega para aqueles que acreditam nessas tolices. Lembre-se disso. – Falou Aunbryn, enquanto o garoto já não conseguia mais conter o choro. – A propósito, hoje nós iremos ter carne de besta deslocada para o jantar.
Jantar que Quarfein se recusara a comer — e, apenas por mera irritação, Aunbryn o deixou sem comer por três dias, mantendo-o preso em um quarto.

~*~ Fim da memória ~*~

Algumas lágrimas escorreram pelos olhos de Amaess — pensar que aquele rapaz, que havia lhe causado tanta dor, um dia fora uma criança completamente doce e inocente, era perturbador.

O elfo se encolheu — mais perturbador que aquilo era pensar que aquela havia sido apenas uma das incontáveis vezes em que Quarfein havia sido torturado por sua irmã mais velha — e que aquela tortura não passava nem perto de ser a mais cruel ou traumática que Aunbryn já havia infligido ao irmão mais novo: exaustivos e pesados trabalhos forçados, duras privações de comida, pesadas agressões físicas e psicológicas — todos esses tormentos, de forma combinada ou isolada, entravam na lista das torturas que Aunbryn usava para fazer seu irmão absorver a idéia de que ela (e qualquer outro drow em uma posição superior à dele na hierarquia social) tinha o direito de fazer o que quisesse com ele, "porque perto deles ele era fraco e estúpido, ele era inferior e a única forma de dar algum significado para sua existência indigna era servir a ela e àqueles superiores a ele, porque eles eram fortes e cheios de glória, mas em compensação, criaturas ditas inferiores estavam sujeitas da mesma forma à vontade dele, assim como qualquer outro ser fraco o bastante para estar abaixo dele na hierarquia social". O mundo onde Quarfein crescera era resumida por uma regra básica: forte e esperto mandava, e o fraco e ingênuo, a menos que quisesse ter a cabeça arrancada do pescoço, deveria abaixá-la e obedecer. E por mais que Amaess considerasse aquela informação sobre o drow desnecessária para saber o que fazer e indesejada por interferir em seu julgamento a respeito de como agir, o elfo não podia ficar sem levá-la em consideração — ela era um fragmento doloroso de uma vida marcada por traumas, era uma evidência de uma infância marcada por medo e dor — e, para além daquilo, havia ainda uma série de perguntas que rodava a mente do elfo.
"Você achava que o amor levaria à morte... você tinha medo de amar e... deuses... não... então... ah meu deus, você realmente achou que eu pudesse causar sua morte, e ainda assim... por que? Isso não muda a dor que eu sinto mas... mas ainda assim..." Amaess estremeceu, visto que agora não apenas seus traumas, mas também os de Quarfein, assombravam sua mente. O garoto respirou fundo, sacudindo a cabeça de leve e buscando se acalmar. Ele tinha que tomar uma decisão, e não podia esperar muito para fazê-lo, simplesmente por medo do quanto aquela decisão podia ser influênciada pelas memórias de outra pessoa — ao mesmo tempo, se questionava a respeito do esforço que Quarfein vinha feito nos últimos dias, e não bastassem seus questionamentos a respeito da veracidade do que o drow dizia sentir, havia uma pergunta que o assombrava ainda mais — o que o fato de ele estar ponderando a respeito de dar uma segunda chance a Quarfein significava?

Notas finais
"O mundo foi quem lhe acolheu Por pura caridade (...) Aos 12 não é mais criança E não pode esperar Por alguém assim Pro resto da vida Me diz então O que você fez, o que você fez Da sua arte de sobreviver Desse seu jeito de sobreviver Ela não sabia o que é o amor Ela não sabia, mas (...) Quis provar o que é o amor Mas teve medo de se apaixonar Então partiu Mas uma vez se foi E ninguém vai esperar Por alguém assim Pro resto da vida" - Renata, Tihuana. Eu ouvi essa música esses dias, quando comentei com uma amiga sobre o fato do Quarfein ter (sobre)vivido até então saber o que é o amor. Depois de uma análise, eu vi que ela também se encaixava ao Amaess em alguns aspectos. Vou explicar primeiro porque eu acho que ela se encaixa no Quarfein: Assim como a Renata, ele cresceu sem saber o que era o amor, ele apenas cresceu e nesse processo foi ficando cada vez mais sem saber o que era esse sentimento. Ele foi desenvolvendo uma arte de sobreviver (lógico, bem diferente da da Renata em certos pontos), mas assim como ela ele tinha medo de amar (diferindo dela ao achar que o amor podia ser letal). Então a medida que ele foi convivendo com o Amaess ele foi começando a sentir isso, e em certos momentos chegou até a querer saber como era, mas tinha medo de fazê-lo. Outro fator é que, assim como a Renata, ele simplesmente deixou de ser criança (e perdeu a inocência e desenvolveu uma barreira contra sentimentos) muito cedo. Por que eu acho que essa música combina com o Amaess? Ela combina com ele bem menos do que com o Quarfein (até porque ele sabe o que é o amor e chegou a provar dele), mas o ponto é que depois de tudo o que aconteceu, ele não se sente como se as pessoas fossem esperar por ele tomar uma decisão ou se recuperar. Ele se sente na urgência de fazer isso não apenas por pensar que não pode deixar todo mundo esperando (o que não seria um problema, mas ele vê como um problema), mas também porque ao mesmo tempo em que ele quer voltar a amar alguém, ele tem medo de estar começando a amar o Quarfein mesmo depois de tudo o que ele fez.