Haru

4 04 – Amor


Notas iniciais
Então, esse é o meu capítulo mais querido. Espero, de coração, que eu tenha conseguido passar tudo o que queria - e precisava - com ele. Espero que gostem :D

Era de conhecimento geral entre os amigos deles que Midoriya não tinha o menor jeito para a limpeza e a organização doméstica – o que, claro, não impedia Bakugo de colocá-lo para trabalhar quando a casa precisava ser limpa. Assim como era conhecimento unânime que Izuku era quase obcecado com a organização de seus cadernos com as “anotações de heróis” e de sua invejável coleção de fotos dos amigos heróis. Pensando nisso, Katsuki levou Haru até o escritório do apartamento, onde havia uma vitrine com a primeira versão do traje de Deku, o que já fixou a atenção do menino por bastante tempo.

As paredes do escritório estavam cheias de recortes de jornais e revistas em porta-retratos. Havia muita coisa sobre All Might, claro, contudo, também havia recortes e mais recortes sobre eles — Midoriya e Bakugo. Suas maiorias lutas, suas maiores missões, suas maiores conquistas. As vitórias de uma vida como herói. Haru ainda não sabia ler, porém, seus olhos entusiasmados percorreram um porta-retrato por vez. Porque, por mais que ele ainda não soubesse o que diziam aqueles recortes, ele sabia que falavam dos tios heróis, pessoas pelas quais ele nutria profunda admiração.

Com cuidado, Katsuki desceu da estante a primeira das caixas de fotos que Izuku guardava com tanto apreço. Ele sentou-se ao redor dela, e com um curioso Haru ao seu lado, aleatoriamente, foi tirando as pastas com as fotos. Talvez ele desarrumasse um pouco a coleção de Deku? Talvez. Talvez Midoriya ficasse revoltado com a confusão? Talvez. Mas não era como se Bakugo não soubesse lidar com o mau humor do parceiro. Afinal, depois de quase dez anos, ele aprendera a lidar com praticamente todas as nuances de humor de Izuku.

— Ah, essa aqui é do Primeiro Ano na Yuuei. – Ele entregou a foto nas mãos de Haru, com um sorriso sarcástico. Na foto, estavam Midoriya Izuku, Uraraka Ochako, Tenya Iida, Tsuyu Asui e Todoroki Shoto. O único sem um sorriso idiota na cara era, claro, Todoroki. – Como pode ver, seu pai tinha tanta expressão na época quanto tem hoje em dia.

— Tio Kacchan! – Haru repreendeu-o, cruzando os braços e fazendo um bico. Daquele jeito, ele realmente lembrava Todoroki Momo.

— Ok, ok, desculpe. – Katsuki disse rindo. O que mais ele poderia fazer diante daquela versão mirim de Creati?

Havia todo tipo de foto naquelas pastas. De eventos públicos, de missões da juventude, dos estágios, e muitas do dia a dia íntimo deles como turma. Algumas bastante impressionáveis, outras, no entanto, muito vergonhosas. Bakugo optou por esconder uma foto de Shoto, no terceiro ano deles na Yuuei, muito embriagado. A ideia “brilhante” de levar álcool para dentro dos dormitórios tinha sido de Minoru Mineta – aquele demente — e nem mesmo Todoroki conseguira fugir da situação. A ocasião toda fora um show de horrores, com direito a Kirishima e Kaminari dançando sobre a mesa da cozinha, Tokoyami e Jiro cantando aos berros uma versão gótica de “Toxic” da Britney Spears, Sero e Aoyama se agarrando no sofá da sala, Ashido vomitando perto da geladeira com Iida ditando todas as razões que faziam com que “consumir álcool” fosse uma coisa idiota – mesmo que ele também estivesse bêbado, e Deku... bem, Deku era outra história. Uma história que eles haviam resolvido no quarto de Katsuki. A coisa toda tinha terminado com Monoma dedurando eles para Aizawa e todos eles – inclusive Monoma por perambular pela Yuuei tão tarde da noite – em detenção.

— Do que você está rindo, tio Kacchan? – Haru indagou inocentemente, fazendo Bakugo perceber que estivera rindo sozinho daquela memória deplorável.

— Quando você estiver na puberdade e seu pai lhe dizer que beber é errado, aí eu te conto, ok? – E deu um tapinha amigo nas costas de Haru.

Katsuki, então, desceu mais uma das caixas de fotos. A nova caixa guardava as fotos dos anos após a Yuuei, com eles sendo oficialmente heróis. A turma deles havia se separado com o tempo, com alguns indo morar em outros países, inclusive. Mesmo assim, eles sempre davam um jeito de se reunir de tempos em tempos. E, quando isso acontecia, sempre havia uma coleção considerável de fotos para guardarem de recordação. O que era realmente engraçado nas fotos desses encontros era a mudança de ambiente ao longo dos anos.

No primeiro encontro, as fotos denunciavam um bar meia-boca, onde eles haviam comido e bebido além da conta. No último desses encontros, entretanto, eles haviam se reunido num salão de festas infantil, porque era o aniversário de oito anos de Tenya Hiroto, o filho mais velho de Iida e Ochako. Então, nas fotos, lá estavam eles, adultos plenos e superpoderosos divididos entre colocar as fofocas em dia, comer o bolo com cobertura verde e preta (porque a festa toda era em homenagem ao herói que Hiroto mais estava vidrado: Deku) e impedir que as crianças cometessem alguma loucura. O ápice da coisa fora uma briga entre Kirishima Yuuto e Sato Yuzuki por um brinquedo que na verdade era de Tenya Kanata, o irmão mais novo de Hiroto. No fim, Midoriya salvara o dia com frases de efeito e todo tipo de lição de moral que as crianças adoravam.

— Oh! São os meus pais! – Haru exclamou eufórico, enquanto erguia uma foto a altura dos olhos de Bakugo.

A foto fora tirada no dia do casamento de Shoto e Momo, e contava com a presença do casal e de todos os seus padrinhos e madrinhas de casamento. Era uma bela foto, mas havia uma ainda melhor. Bakugo procurou entre as fotos até achar a que considerava mais especial e mostrou-a a Haru. Na foto, o Sr. e a Sra. Todoroki dançavam uma valsa no centro do salão de festas, cercados por muitos outros casais, entretanto, havia algo em seus olhares que ofuscara todo o resto. Os olhos de ambos brilhavam tanto na direção um do outro que nenhuma luz do salão fora capaz de competir com eles. Izuku aproveitara o momento e tirara aquela foto, sem que os amigos o vissem. Depois se virara na direção de Katsuki e lhe sussurrara algo íntimo demais para contar a Haru. Quando eu olho para você, meus olhos brilham assim também?

— Você ama muito o tio Deku, né, tio Kacchan? – A indagação trouxe Bakugo de volta ao presente, onde ele apertava uma foto dele e de Midoriya caminhando lado a lado após a cerimônia de casamento dos Todoroki. Na foto, não havia qualquer contato físico entre eles, porque, fora as famílias e os amigos, na época, ninguém mais sabia que eles eram um casal.

— É tão óbvio assim, garoto? – Haru respondeu com um movimento das mãos que queria dizer “só um tantinho assim”, fazendo Katsuki gargalhar. Então, Haru se jogou contra a caixa de fotos e começou a procurar por algo com ansiedade. – O que está procurando?

— As fotos do casamento de vocês. Mamãe nunca me mostrou. – Algo gelado se apossou do coração de Bakugo. Ele sabia que nome disso era tristeza.

— Não há fotos, porque nós não somos casados. – Katsuki esclareceu. Haru sentou-se de forma “comportada” novamente e ficou encarando o mais velho. Suas sobrancelhas estavam torcidas e suas feições denunciavam que seu cérebro de cinco anos tentava desesperadamente achar uma lógica no fato dos seus tios não serem casados.

— Mas vocês se amam. Pessoas que se amam se casam. – Haru anunciou muito convicto. Bakugo sorriu para o garoto, tentando parecer mais sarcástico do que triste.

— Bom, para início de conversa, nem todo mundo que se ama, obrigatoriamente se casa. Duas pessoas podem viver juntas muito bem sem precisarem assinar alguns papeis. – Haru ponderou, mas ainda não estava derrotado.

— Então, tio Kacchan não quer se casar com tio Deku? – Ele queria. Como ele queria.

Ele quase conseguia imaginar a coisa toda. Izuku usando um terno branco. As mães deles chorando. Seu pai lhe oferendo um sorriso amigo. O padre ditando os votos. Eles repetindo os votos. Ele segurando a mão trêmula de Midoriya e colocando o anel no anelar da mão esquerda do companheiro. Deku chorando – Katsuki não tinha qualquer dúvida de que o parceiro choraria – e eles se beijando. Izuku sendo seu marido, segundo Deus e o Estado. Era um sonho, claro. Uma utopia delirante. Afinal, eles ainda eram do mesmo sexo, ainda eram japoneses, e o mundo ainda era homofóbico.

Bakugo se lembrava do momento em que ele e Midoriya perceberam que estavam cansados de esconderem o fato de serem um casal. Na época, já corriam boatos pela internet sobre os dois, mesmo que eles sempre fossem bastante discretos. Todo o tipo de gente parecia estar interessada na intimidade deles e especialmente, entre eles, como se a vida dos dois fosse entretenimento barato. Então, eles decidiram admitir para o mundo que eram um casal com uma única foto no Instagram de Deku. Na imagem, eles estavam sentados, lado a lado, com as mãos dadas e Katsuki tinha a cabeça apoiada no ombro direito do parceiro. E era isso. Eijiro – o responsável pela foto – não viu nada demais na posição, nas roupas ou nas feições deles. Era uma foto “baunilha”, como ele a intitulara. A internet, entretanto, tinha uma opinião totalmente diferente.

A foto rodou o mundo e estampou até capa de revista. De repente, todo mundo estava focado neles, e não pelo trabalho impecável que faziam como heróis, e sim, como se fossem um tipo de aberração. As agências de heróis a qual faziam parte entraram na discussão, o Governo Japonês entrou na discussão, e até mesmo o Presidente dos Estados Unidos – o qual fora salvo por Deku dois anos antes – decidiu dar pitaco. As pessoas na internet, antes tão amigáveis, transformaram a vida de Izuku – dos dois, o que mais usava as redes sociais – em um inferno constante. Todo tipo de comentário homofóbico e deplorável surgiu até que Bakugo encontrou o parceiro chorando no banheiro e começou a manter Midoriya longe da internet. O problema, contudo, era muito maior que isso. Seus vizinhos se recusavam a falar com eles. Seus colegas de profissão se recusavam a trabalhar com eles. As pessoas se recusavam a serem salvas por eles.

E, então, os vilões viram o qual fraco estava o Símbolo da Paz e decidiram aparecer aos montes, um atrás do outro, sem qualquer receio. Na mente deles, assim como a de todo mundo mais, Katsuki e Izuku não eram mais dignos de respeito, eram apenas dois viadinhos entre tantos. Ah. Bakugo se lembrava da primeira vez que um vilão usara o termo contra si. Assim, como se lembrava de tê-lo explodido e o feito voar por mais de um quilômetro de distância. Aquela não tinha sido a sua melhor fase, isso era um fato. Ele passava o tempo todo fervendo de ódio e por isso, usava de muito mais violência do que era necessário. Ele quase parecia ter voltado a ser o mesmo garoto enlouquecido de quinze anos do passado. Porém, a razão era totalmente diferente. No passado, ele usava a raiva para proteger a si mesmo. Naquela fase, no entanto, ele usava a raiva para proteger Deku e não demorou a perceber que esse novo combustível era muito mais potente. As pessoas passaram a temê-lo muito mais do que o respeitavam e havia mais de um comentário na internet sobre ele estar se tornando um vilão. Ele não se importava. Ele só queria que as pessoas calassem a boca e deixassem Midoriya em paz.

Então, tudo mudara com apenas uma entrevista espontânea e três frases de Todoroki. Shoto nunca dava entrevistas e não tinha qualquer paciência com a mídia. As pessoas só sabiam algo sobre sua vida pessoal devido a Momo, que tentava ser simpática, mesmo também não falando muito. Quase um mês depois da postagem da foto no Instagram de Deku, contudo, Todoroki perdeu a paciência e ele nunca perdia a paciência. Shoto acabara de impedir um atentado terrorista em um metro superlotado e estava saindo de cena, após ajudar no que fosse possível, quando um repórter barrou sua passagem. Diga-me, herói Shoto, agora que todos nós sabemos a verdade sobre o herói Deku, você pretende permitir que seu filho fique perto do padrinho? Todoroki o encarou. A filmagem mostrava alguém inflexível, com a mesma expressão fria de sempre. Porém, qualquer um que o conhecesse o suficiente sabia que ele estava em um dos seus raros momentos de autocombustão. O amor é transcendental e belo em todas as suas formas. Por isso, meu filho o conhecerá comigo e com a minha esposa, assim como o conhecerá através de Deku e Bakugo. Agora, saia da minha frente. E fora isso. E, mesmo assim, mudara tudo. Porque, no fim, Todoroki era um cara tradicional, num relacionamento tradicional, que criaria Haru em um lar tradicional e mesmo assim, sabia respeitar todas as formas de amor.

Com o passar dos anos, o relacionamento de Katsuki e Izuku passou para segundo plano. A maioria das pessoas não falava sobre, como se não “falar sobre” fizesse com que a coisa em si desaparecesse. O apoio dos amigos heróis, além de Todoroki, também fora importante, assim como o apoio tímido de algumas comunidades da internet. Assim, o Símbolo da Paz voltou a pairar sobre o Japão, como a força motriz que carregava aqueles tempos de calmaria, e Bakugo voltou a ser o mesmo de sempre, não menos raivoso, mas um pouco menos violento. E, ali estava ele, cara a cara com aquela pergunta inocente de Todoroki Haru. Não havia como contar toda aquela história para uma criança de cinco anos, entretanto, Katsuki também não queria mentir. Haru merecia algo melhor do que uma mentira.

— Eu quero. Quero muito. Mas o mundo não é fácil, e nem sempre está aberto às mudanças, por melhores que elas sejam. – Bakugo esclareceu, olhando diretamente para o rosto de Haru.

Assim que ele terminou de falar, Haru pegou na mão do mais velho e apertou-a. Ele não entendia o teor por trás das palavras de Katsuki, afinal, só tinha cinco anos. No entanto, ele era filho de Shoto e Momo, e como os pais, Haru era uma pessoa gentil. Por isso, mesmo que não entendesse, ele sabia que tio Kacchan precisava de carinho. Deve-se curar dor com amor, está bem, Haru-chan? Sua mãe o ensinara anos antes e ele nunca se esqueceria disso.

— Bem, que tal nós darmos uma olhada nas fotos mais recentes? – Bakugo desconversou desesperado para sair de um assunto que lhe doía e que ele não sabia explicar ao menino. Haru assentiu com a cabeça, de repente, muito mais empolgado do que já estava. – Acho que Deku as guarda naquela caixa ali.

Já estava escurecendo quando a energia voltou. Katsuki mal percebeu a passagem do tempo, por isso, levou um susto ao ver o relógio do celular e constatar que passava das seis da tarde. Bakugo deixou Haru na banheira – com sua coleção admirável de patinhos de borracha – e preparou o jantar. Eles estavam rindo, sentados a mesa, quando o celular de Katsuki vibrou, avisando-o dos remédios. A mesma apatia tomou a expressão de Haru enquanto ele tomava seus medicamentos. Daquela vez, entretanto, Bakugo pegou-lhe pela mão e levou-o até o quarto principal. Muito bem coberto, Haru ouviu atentamente enquanto Katsuki lia a história de um dos livros infantis de Midoriya sobre as aventuras de All Might. O garotinho pegou no sono em algum momento. Quando tentou se levantar, Bakugo percebeu que a mão direita de Haru estava agarrada em sua camisa. Ele não teve coragem de afastá-la. Por isso, acomodou-se perto de Haru e em algum momento, pegou no sono também, totalmente esgotado pelo dia cheio.

Notas finais
E então? O que acharam de verdade? Estarei esperando qualquer tipo de comentário ♥