Hart
1 Dia 8
O ventilador de teto girava lentamente como se não se importasse em ventilar ou como se ignorasse se aquilo era ou se um dia já fora sua função primordial. Porém, se havia algo que Aart, na flor da sua juventude, mais prezava naquele momento era a capacidade de se lembrar do nome das coisas espalhadas pelo quarto. O ventilador de teto era um sujeito bem-vindo, os livros nas prateleiras distantes já tinham tido seus títulos devorados pelos olhos apreciativos do enfermo e as bulas dos tão pontuais remédios já estavam cravadas na memória do jovem. E ele agradecia por lembrar-se dessas coisas, já que por muito tempo suas memórias recentes duravam poucas horas. E isso quando duravam.
Mexia os pés ansiosamente. Aquele quarto não parecia ser de um hospital, apesar de que vez ou outra uma médica ou um enfermeiro aparecia para lhe fazer testes, perguntas ou simplesmente medicar-lhe. Parecia mais um quarto construído justamente para aquela situação — ou assim ele presumia.
A porta rangeu pela segunda vez e Aart franziu o cenho ao olhar o relógio na parede a direita: ora, ainda não fazia meia hora que o último enfermeiro tinha lhe medicado, teriam seus responsáveis médicos esquecido de algo?
Mas os passos era diferentes e logo o dono deles se mostrou irreconhecível para o jovem. Quem entrara trazia um olhar que Aart jamais vira em qualquer um dos que foram lhe visitar anteriormente. Investigativo, suspeito, íntimo. Fazia com que ficasse com os pelos arrepiados e a guarda alta.
— Como está sua cabeça? — foi a primeira coisa que o homem mais velho perguntou enquanto o examinava com os olhos atentos.
Aart piscou algumas vezes antes de abrir a boca, mas não porque era retardado ou coisa assim, mas sim porque aquela voz era familiar e não custou para ele saber de onde.
— Bom, — ele pigarreou ajeitando o travesseiro em suas costas e incomodou-se por imenso com os olhos do outro sobre si. — ela não está fazendo exatamente o seu trabalho. — brincou por nervosismo, não sabia como lidar com pessoas novas.
O outro assentiu com o cenho franzido e olhou ao redor, puxou uma cadeira e sentou-se, mas não próximo o suficiente para que Aart pudesse ouvi-lo direito, já que falava baixo e grave.
— Qual a sua última lembrança? — cruzou as mãos na frente do seu corpo.
O garoto se virou, pegou um copo d'água na mesinha ao seu lado e bebericou enquanto pensava se saberia dar aquela resposta.
— Eu... — mordeu os lábios e desviou sua atenção para os livros. — acho que estava no meu apartamento tomando café.
— Sozinho?
Aart o observou por um minuto: suas roupas caras, sua barba bem aparada, os cabelos curtos e assentados, os anéis nos dedos e os sapatos lustrosos. Bem diferente de como um garoto se sentia — um verdadeiro trapo. E aquela voz, aquela voz era familiar e fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem.
— Sozinho.
O outro olhou para o chão e sussurrou alguma coisa para si, o enfermo já se sentia incomodado em tão pouco tempo de diálogo.
— Lembra-se desse apartamento?
Aart sorriu como um maníaco.
— É claro que eu lembro, quase eu vendo meus órgãos internos para terminar de pagar. — riu. — E talvez eu tenha vendido, não me lembro.
Mas o outro não parecia achar aquilo tão engraçado.
— Qual a cor do carpete?
— Vermelho.
— Quantos quartos há?
— Dois.
— Qual o modelo do sofá?
— Em L.
O homem por fim levantou-se e parou na beira da cama do outro.
— Que lado da cama você dorme? — e ele fez aquela pergunta como se fosse segredo de estado, mas Aart já tinha a resposta na ponta da língua. Afinal, conhecia-se.
— Eu rolo na cama a noite toda.
Aart devolveu seu olhar como se o desafiasse a fazer mais perguntas soltas sobre seu suado apartamento, mas o outro se limitou a olhar para o chão e ponderar. Depois virou as costas e seguiu em direção à porta, mas Aart ainda não tinha terminado, sentia que aquele cara tinha as respostas para as perguntas que o mantinham acordado a noite e ele não iria perder aquela oportunidade.
— Você está bem diferente. — arriscou.
O homem parou seu andar, porém nem se deu ao trabalho de virar-se por completo, apenas a cabeça foi levemente inclinada para o lado.
— Você não se lembra de mim.
— Ah, é? Como pode ter tanta certeza assim?
Mas ele não lhe deu a tão esperada resposta, apenas continuou seu caminho e saiu, fechando a porta silenciosamente.
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