Hart
2 Dia 11
Exatamente ao meio dia do décimo primeiro dia da estadia de Aart naquele quarto quase hospitalar as portas se abriram e não foi o típico enfermeiro empurrando um carrinho que adentrou no espaço. Ao menos, não ele sozinho. Acompanhado de Basten (ou Berg, Aart sentia-se levemente culpado por não ter decorado o nome dele. Felizmente podia pôr a culpa na amnésia e no fato do enfermeiro ser um sujeito caladão, estranho e que mal falava com Aart) estava o homem que viera visitá-lo dias anteriores, com a mesma expressão porém agora carregando uma sacola vermelha com o nome de um restaurante impresso nela. O garoto quase salivou, há séculos não comia uma comida digna de um ser humano.
— Está com fome? – o homem perguntou ao sentar-se na mesma cadeira de antes, Basten/Berg ficou em pé ao seu lado e Aart quase fez uma piada típica de si ao perceber que, riu, os dois pareciam uma antiga pintura de um senhor rico e sua senhora. Todavia conteve-se.
— Meus órgãos já estão praticando canibalismo, senhor. – exagerou.
O homem franziu o cenho e encarou o enfermeiro, depois lhe entregou a sacola e esta foi parar nas mãos de Aart. O jovem, que não era inclinado à educação, rasgou o plástico, encontrou uma caixa e dentro dela um risoto italiano com cogumelos com uma aparência tão apetitosa que o garoto choraria se não estivesse ocupado caçando os talheres e devorando o prato, agradecido.
O homem ao seu lado provavelmente pensaria que o jovem era um mendigo qualquer colocado naquela cama sem razão aparente, comia como um náufrago em processo de ressocialização, entretanto feliz. Depois de finalizar a refeição digna de um rei, Basten/Berg retirou o lixo e levou para fora sem mais delongas. Aart encostou-se no espelho da cama com a mão na barriga, sentia-se cheio como um porco para o abate e contente por isso.
— Ah, eu poderia morrer agora e morreria satisfeito. – decretou fechando os olhos. — Obrigado pela refeição.
O homem olhou para a porta, pensativo, depois para Aart e depois para as próprias mãos. Mexeu nos anéis.
— Do que mais se lembra? Além do apartamento?
O jovem suspirou e pensou um pouco.
— Eu... tenho uma memória... estranha... – franziu o cenho — que eu não sei muito bem de onde é. — o homem esperou pacientemente que o outro continuasse. — Eu lembro de vozes, gritando, falando, murmurando em uma língua estranha em cima de mim mas não importa o que eu faça eu não consigo ver de quem são. – ele abriu os olhos. – mas agora de uma eu já sei. Você era... o cara que estava gritando. Eu sabia que tinha reconhecido sua voz, só não sabia de onde. — confessou ansioso pela confirmação do outro. E ela veio.
O homem assentiu como se lembrasse perfeitamente do acontecimento. Aart esperou que ele lhe desse mais detalhes, porém o outro permanece em silêncio.
— E essa memória é de...? – incentivou ansioso.
— De logo depois da sua perda de memória, o que é estranho já que...
— A minha amnésia é retrógrada, eu sei. Já cansei de ouvir essa informação. — o jovem suspirou. — Você sabe o que houve comigo? Por que eu estou assim?
O homem comprimiu os lábios antes de responder.
— Não, mas... Estou trabalhando nisso, Aart.
O garoto corou. Não era a primeira vez que o homem o chamava pelo nome, seu cérebro sabia, mas os ouvidos pareciam receber aquela informação pela primeira vez e os pelos do seu braço se arrepiaram.
— Sabe meu nome, não acha justo que eu saiba o seu também? — sorriu nervoso.
— Você sabe o meu nome. — o homem se levantou. — De qualquer forma, não acho seguro que volte ao seu apartamento... pelo menos por enquanto.
— Eu me sinto em cárcere e estranhamente calmo. Deve ser por causa desses remédios.
— Você não está em cárcere. — o homem pressionou a mandíbula.
— E onde eu estou? – Aart jogou a cabeça para trás. – Ainda não saí desse quarto desde que acordei.
— Na minha casa.
— É uma casa bem grande então.
— É uma casa vazia. – respondeu automaticamente. O homem olhou para os remédios da mesinha e franziu o cenho ao constatar que alguns frascos estavam quase vazios. Ele fazia muito aquilo. Franzir o cenho. – Sabe que ano estamos?
— 2016. Eu fiquei quatro meses em coma, não acredito que perdi o Ano Novo. – Aart suspirou de novo. – Juntei dinheiro o ano todo com a galera para irmos para... – por um momento ele parou, forçou a memória mas nada, nada veio.
— Istambul.
O jovem o encarou, piscou inexpressivo e assentiu.
— Istambul. – repetiu lentamente.
— Eles não foram. Estavam preocupados. – as palavras do homem pareciam tentar lhe consolar.
— E você conhece meus amigos...?
— São meus amigos também.
O garoto arqueou a sobrancelha. Era óbvio que aquele homem não frequentava os mesmos bares que Aart, mas ele deixou quieto. Muita informação no dia o deixava com fortes dores de cabeça. Ele lembrava bem do dia que acordara.
— Falando em conhecer... – o garoto se sentou mais reto, colocou as pernas para fora da cama e encarou seu companheiro de conversa. – por quê eu acho que te conheço? – apertou seus dedos entre si.
— Você me conhece.
— Não, não. Não esse tipo de conhecer, não o conhecer de "saber quem é" mas o conhecer de que se tivesse um corpo no seu armário eu provavelmente saberia.
— Não saberia. – murmurou sucinto.
O ventilador de teto soprou ar pelo quarto enquanto o garoto digeria aquela resposta
— Ah,– Aart articulou lentamente. Seria apenas uma forte impressão? – então não éramos tão próximos.
— Não saberia... – o homem voltou a repetir. – porque você odeia vir nessa casa. Acha muito vazia. – explicou e se levantou.
Novamente o diálogo fora curto. A porta fora fechada com uma incrível leveza.
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