Ano: 2000

Estrada entre Cantuária e Londres, Reino Unido | 11:32

Duas pessoas avistam o acidente de carro na estrada e se assustam. Eles já começam a ligar para a emergência, acreditando que ainda era possível que vidas pudessem ser salvas. A batida entre dois carros fez um barulho assustador, especialmente o que virou e capotou pelo asfalto. Após alguns minutos, a ajuda dos profissionais chegou e a cena não parecia muito esperançosa.

O trabalho durou uma hora, mas conseguiram tirar do veículo que capotou o seu único sobrevivente: um garotinho de oito anos. Dentro das ferragens do carro destruído, havia um casal que infelizmente não sobreviveu.

E assim começa a história de Harry Potter: com uma tragédia.



...




Ano: 2001

Escola Primária Mayflower | 09:50

Harry, que agora morava com os tios, os Dursley, caminhava triste pelos corredores da escola. Estava com dor nos ombros e nas costas. "Duda me bateu de novo hoje", pensava triste. Ele estava usando roupas muito grandes para seu corpo, que eram roupas usadas do primo Duda, o único filho de Válter e Petúnia, seus tios. Harry estava muito magro, mal comia. Os tios não gostaram nada de ter que cuidar dele depois que os pais dele morreram. Cada dia era um sofrimento diferente, e o primo ainda aproveitava para agredi-lo por qualquer motivo. Ele era mais alto e mais corpulento, então era tarefa simples.

Harry andava cabisbaixo todos os dias pela escola com seus óculos e não conversava com nenhuma outra criança. Elas se afastavam dele quando percebiam que ele só exalava tristeza. O que o garotinho não sabia era que havia uma pessoa que estava observando todos os dias, muito preocupada. Seu nome era Minerva McGonagall, uma senhora de idade e uma das professoras da Escola Mayflower.

Faltando poucos minutos para a aula dela começar ela foi até a sala de aula e viu Harry sentado em sua carteira, triste e mudo como sempre. Ela foi falando suavemente:

- Harry... está tudo bem em casa? Você está sempre triste. Pode sempre conversar comigo quando quiser.

Harry não respondeu, ele só se encolheu ainda mais nos braços. McGonagall não tinha qualquer dúvida: ele estava sofrendo abusos no lugar que ele deveria chamar de "lar". Podia ver algumas marcas de agressões em lugares não cobertos pela manga da blusa.

A professora não suportava ver aquilo. Ela se prontificou a levar o caso para o corpo docente, tentou argumentar e pedir auxílio, mas eles deram pouca importância, dizendo que ela não estava mostrando evidências muito fortes. Depois de muito insistir, ela percebeu que estava sozinha nessa situação. Mas isso não seria o suficiente para que ela desistisse.

McGonagall decidiu fazer uma investigação informal. Ela buscou saber informações sobre o comportamento dos Dursley por meio de vizinhos, conhecidos deles e demais pessoas da comunidade onde eles viviam. Posteriormente, ela faz uma denúncia formal aos Serviços Sociais, mencionando os sinais de abuso físico e emocional que ela observou em Harry; incluindo os hematomas visíveis, a saúde debilitada e a falta de cuidados básicos. Minerva entende que, para que uma intervenção aconteça, as autoridades precisavam ser convencidas de que o garoto estava em perigo imediato ou em risco de sofrer mais danos. Estava óbvio que, naquele momento, a situação de Harry era uma clara violação de seus direitos e McGonagall iria até o fim pelo bem dele.

Após a denúncia, os Serviços Sociais fazem uma investigação sobre o ambiente em que Harry vive. Eles visitaram os Dursley e, embora eles tentassem esconder a verdade (afinal, os Dursley são uma família que tem o desejo de manter uma imagem de normalidade), a evidência se tornou clara para os assistentes sociais. Durante as entrevistas com os Dursley, a falsidade de suas alegações sobre Harry ser um "menino problemático" foi revelada, enquanto Harry estava recluso e está com sinais evidentes de negligência. Eles concluem que o ambiente não era adequado para o desenvolvimento saudável de uma criança e entram com um pedido formal de guarda provisória para protegê-lo.

O caso vai parar em um tribunal familiar, o que deixou os Dursley bastante irritados. Ao mostrar seu envolvimento genuíno e sua preocupação com o bem-estar de Harry, McGonagall se apresentou como uma alternativa mais estável e segura para cuidar dele, para a surpresa do pequeno garoto. O tribunal entende que a professora deseja solicitar a tutela de Harry e começa a considerar o cenário, já que a família de sangue está negligenciando o menino.

- Harry, seja forte. Eu vou tirar você dessa casa onde todos te maltratam. — disse Minerva para o pequeno garoto quando teve a oportunidade. — Você merece ser feliz, eu vou garantir que isso aconteça.

Como parte do processo, McGonagall precisou apresentar provas de sua capacidade de cuidar de Harry, incluindo sua situação financeira, o fato de ser uma pessoa respeitável na comunidade e sua motivação genuína para ajudá-lo. Para sustentar sua solicitação, McGonagall coletou cartas de outros professores e de outros colegas de trabalho, que davam testemunho sobre sua integridade.

O acordo não foi difícil. Os Dursley cedem a guarda de Harry facilmente, pois para eles, "finalmente se livraram de um grande fardo". O total desinteresse deles fez com que tudo ocorresse mais depressa. Harry pegou a pouca bagagem que tinha e saiu da casa dos tios. Eles nem se despediram, simplesmente fecharam a porta. Harry olhou para McGonagall. Embora ele ainda não entendesse tudo, ficou aliviado de que ela decidiu ficar com ele.

- Obrigado, Sra. McGonagall... — disse o menino.

Os olhos da professora se encheram de lágrimas. Ela se abaixou e deu um forte abraço em Harry.

- Por favor, me chame de Minerva. Eu prometo... Você vai ter uma vida digna. Vai ter um lar, seu próprio quarto, seus próprios sonhos e objetivos. Eu prometo.

Harry finalmente sorriu depois de muito tempo.



...




Na casa de McGonagall, Harry encontrou um lar seguro. Ela garante que ele tenha uma rotina estável, alimentação adequada, cuidados médicos e, acima de tudo, amor. A professora, apesar de ser uma pessoa séria, era dona de uma enorme empatia, e Harry começou a sentir, pela primeira vez em muito tempo, que era importante para alguém. Aos poucos, aquela tristeza que tinha tomado conta do garoto foi sendo estilhaçada, dando lugar a uma criança normal. Harry agora sorria e se divertia. Quando voltava da escola, já tinha histórias para contar. Ele se apegou a McGonagall de tal forma, que já a tratava praticamente como uma mãe. E ela o tratava como a um filho. Harry recebia presentes, eles assistiam televisão juntos, passeavam... e ele finalmente tinha alguém para dividir seus pensamentos e dúvidas.

Porém, ele colocou na cabeça que nunca mais iria apanhar de outra pessoa como apanhava todos os dias do primo Duda. Ele assistia a filmes que o inspiravam a aprender a bater em inimigos e começava a dar socos no ar, tentando imitar os personagens que assistia. McGonagall viu a cena e se preocupou. Foi até Harry com calma e o questionou:

- Por que está aprendendo essas coisas violentas, Harry? Você não é um menino mau.

Harry fitou os olhos sérios dela. A princípio, ele ficou temeroso de responder, mas depois falou com firmeza:

- Desculpa, Minerva... Eu não quero bater em ninguém. Eu só não quero que ninguém me bata... e nem que batam na senhora. Eu quero ser forte e proteger nós dois.

McGonagall se assustou um pouco com a resposta. Ela deu um sorriso em seguida.

- Quer proteger quem você gosta? Existem outras maneiras de fazer isso sem bater.

- Existem? O que eu faço se um menino me bater? — indagou o pequeno Harry.

- Você chama algum adulto para pôr um fim à briga.

- Tá bom... Mas e se não tiver nenhum?

McGonagall riu de leve. Ele finalmente se tornou confiante o suficiente para questionar as coisas. Ela acariciou o cabelo dele e disse:

- Seu aniversário de nove anos está chegando. Quer fazer algum pedido?

Harry deu um grande sorriso, urrou e deu piruetas pela sala, arrancando risos de Minerva. Depois, ele voltou e respondeu:

- Eu quero ver aquele filme que vai ter no cinema: "O Beijo do Dragão"!

- Como quiser, querido...

Harry se alegrou e, para recompensar sua tutora, deu-lhe um beijo no rosto. Ela ficou comovida pelo bom humor e pelo carinho dele.



...




Ano: 2007 (final do ano)

Escola Westminster | 15:40

O cenário é um campo de futebol onde vários adolescentes estão correndo para tentar marcar gols em seus respectivos adversários. O jogo é frenético, com muita gritaria e esforço físico.

Harry, agora com 15 anos, está como goleiro de um dos times. Normalmente, os meninos oferecem dificuldade em jogar nessa posição, mas Harry dizia que "trabalhava melhor com as mãos". Ele estava atento às jogadas do adversário, que se aproximava. Preparou-se com suas luvas vermelhas e quando veio o chute a gol, Harry pulou para a direção que a bola foi e socou ela, protegendo o gol. A bola bateu em um dos postes do gol e mudou sua direção, indo para a linha de fundo. Era escanteio para o time adversário.

- Todos voltando pra marcação! Vamos, vamos!! — vociferou Harry.

Os defensores do time de Harry recuaram para marcar os atacantes. O lateral adversário cobrou o escanteio e a bola veio furiosa, sendo mirada na cabeça de um dos atacantes. Harry não esperou seus defensores acordarem. Ele mesmo pulou e deu um soco potente na bola antes que o adversário que pulou pudesse cabeceá-la. Mas, naquele movimento, ele acabou se jogando em cima de, não apenas do atacante do outro time, mas de dois defensores do próprio. Os quatro caíram desajeitadamente dentro da pequena área.

Uma grande gritaria começou e um "empurra-empurra". O time adversário exigia que fosse pênalti, mas Harry negava, dizendo que "foi apenas na bola e o contato veio depois".

- Qual é, Harry! Pra cima da gente? Você é o goleiro mais agressivo do Reino Unido! — resmungou o atacante do outro time que tinha ido ao chão. — Você vive dando socos na bola, por que não apenas a pega?

- Pra vocês terem a chance de tomá-la de mim num rebote? Eu não tenho culpa de vocês serem uns fracotes que não aguentam uma disputa justa de bola! — respondeu Harry, encarando.

- Ah, é? Então disputa isso aqui!

O rapaz tentou dar um soco em Harry. Este apanhou a mão do menino antes que chegasse em seu rosto e usou a mão livre para dar um soco bem dado no rosto dele. Os meninos do time adversário protestaram imediatamente ao ver o colega com o nariz sangrando no chão. Eles foram, sem controle, pra cima de Harry. O caos estava instalado. Mas Harry só se posicionou pra brigar ao invés de fugir.



...




No dia seguinte, McGonagall foi chamada até Westminster por causa do comportamento de Harry. Os dois, sentados um ao lado do outro, diante de um nervoso diretor, recebiam uma bronca. Minerva olhava de lado para Harry com um rosto claro de decepção e Harry não sabia para onde olhar.

- ONZE garotos foram parar na enfermaria, Sr. Potter! — dizia o diretor — Alguns eram até do seu time! O que tem a dizer em sua defesa?

- Que eles começaram. — respondeu Harry, seco. — Eu posso garantir que não dei a primeira porrada.

- Como pode responder isso com tanta naturalidade? Você bateu em onze garotos da sua idade como se não fosse nada...

- Bati. Não permito que tentem me bater desde que fiz nove anos. — disse Harry, emburrado.

- Senhora McGonagall... — começou o diretor — A senhora entende que terei que expulsar Harry do Clube de Futebol, não é? Os pais não vão aceitar menos que isso.

- Mas foram eles que tentaram bater no Harry. — disse McGonagall. — Eu não estou feliz de saber que ele brigou, mas não seria Harry a vítima aqui?

- Não é a primeira vez, madame. Infelizmente, é isso. Harry Potter, você está fora do Futebol aqui em Westminster.

- Isso não é justo! — gritou Harry.

- Sente-se, Harry. — disse McGonagall com calma. Harry emburrou o rosto, mas obedeceu na hora.

A explosão de Harry assustou o diretor, mas ele manteve a decisão. Agora, Harry estava proibido de praticar futebol em Westminster. Ele e McGonagall saíram do escritório do diretor logo que a conversa terminou. Foram andando pelos corredores da escola, sem falar um com o outro. Depois que saíram do prédio, Harry se voltou para a tutora:

- Desculpa pelo que eu fiz, Minerva.

- Pelo menos não foi expulso da escola. — disse McGonagall. — Considero apropriada a punição que levou. Você tem muita coisa dentro de si, Harry. Absorveu muito das coisas ruins que te aconteceram quando era mais novo. Tem tanta coisa pra soltar que está transbordando. Mas está machucando os outros e isso precisa parar.

- Você que me disse pra praticar esportes! — respondeu Harry. — Foi o que eu fiz, tenho jogado futebol há anos! Mas esses garotos não têm metade da paixão que é necessária pra vencer! Eu não aguentava mais esses molengas...

Minerva McGonagall parou de frente para Harry, obrigando-o a frear o passo. Ela o olhava com seriedade, intimidando um pouco o garoto.

- Harry, eu fiz o que pude pra você ter uma vida digna e plena. Eu torço por você e quero que seja feliz, quero que esse mundo seja seu. Mas precisa encontrar uma forma de superar seus traumas e ódios. Eu só consigo te ajudar até certo ponto! O resto será por sua conta. Precisa se tornar o homem que eu sei que existe dentro de você, sem remorsos, sem rancores.

Ela ficou olhando para os olhos do garoto de óculos, que ficou sem saber o que responder. Depois, ela simplesmente se retirou e foi embora, dizendo que precisa voltar para Mayflower, a escola onde ainda dá aulas. Harry esperou ela se distanciar e foi andando cabisbaixo para tirar seus pertences do Clube de Futebol, já que o ano letivo estava se encerrando.

Quando saiu do vestiário masculino do Clube, Harry viu uma imensa e conhecida figura: Hagrid, o zelador. Harry ficou animado.

- Oi, Hagrid! Tudo certo?


- Olá, Harry! — respondeu Hagrid — Bom, quase tudo, né? Sacanagem terem tirado você do Clube de Futebol. Você apenas se defendeu de uns folgados.

- Deixa pra lá... O pior foi ver a cara de decepção da Minerva...

Hagrid viu o sorriso de Harry se defazer. Ele ficou preocupado por alguns segundos, mas depois falou:

- Quer saber? Eu tenho algo que vai te empolgar bem aqui... Você tem aparelho de DVD em casa?

- Tenho, por quê? — indagou Harry.

Hagrid levou Harry até uma salinha e pegou um disco DVD dentro de uma capa protetora. Este foi prontamente passado para Harry.

- Estou te emprestando pra ver durante as férias! É uma gravação pessoal de grandes lutas de boxe ao longo dos tempos.

- B-Boxe?! — Harry estava incrédulo.

- Harry, você é bom com as mãos e tem bons instintos. — comentou Hagrid. — Se não deu certo no futebol, pode ser que o boxe seja uma ótima alternativa.

- Não sei... Minerva não quer que eu bata nas pessoas... — disse Harry.

- Isso não é bater, é boxear. — argumentou Hagrid. — É um esporte! Tem regras, tem juiz e tem premiação! Não é selvageria descontrolada. Quem entra no ringue já sabe no que está se metendo. Pelo menos assiste e depois me conta o que achou!

- Hmm... Valeu, Hagrid, eu vou ver sim!

- Excelente, Harry! — comemorou Hagrid.



...



Harry estava em casa e agora assistia com bastante atenção às gravações de grandes lutas de boxe que Hagrid juntou. Seus olhos se enchiam de empolgação a cada embate, a cada reviravolta e ao que os grandes nomes do boxe conseguiam fazer. Mal podia acreditar que boxe era mesmo tão incrível. "Será que eu teria tal talento?", começou a pensar Harry. Cada bordoada e golpes pesados que os lutadores aguentavam deixavam Harry impressionado e empolgado. Os momentos de tensão quando alguém era levado ao chão e tinha que se levantar antes que a contagem chegasse a "dez" e toda a comemoração quando o lutador se sobressaia trazia faíscas de fogo dentro do menino de óculos. Quando percebeu, ficou até de madrugada vendo aquelas lutas. Tentava se imaginar num ringue, derrubando adversários e finalmente achando um caminho para extravasar os sentimentos e ao mesmo tempo fazer sucesso.

Depois disso, Harry não conseguiu dormir. Tinha muitas perguntas. Perguntas que com certeza faria a Hagrid assim que o encontrasse no ano escolar seguinte.



Continua...