Harry Potter: O Leão do Ringue
2 Descobrindo o Boxe
Ano: 2008
Londres, em janeiro de 2008, era uma cidade de contrastes: otimista com os preparativos olímpicos (os Jogos Olímpicos foram confirmados na cidade em 2005), mas ansiosa com os primeiros sinais de recessão — bancos como o Northern Rock já enfrentavam problemas, e havia um crescente nervosismo sobre a estabilidade econômica, embora a vida cotidiana ainda mantivesse um ritmo vibrante. A cidade era um caldeirão de cultura, música e inovação, onde a chuva incessante não impedia a cidade de pulsar com vida, ideias e movimento. O iPhone, lançado no Reino Unido em novembro de 2007, começava a aparecer nas mãos dos londrinos mais antenados, embora os BlackBerrys ainda reinassem nos bolsos dos profissionais da City.
Na política, debates sobre transporte público, habitação acessível e a expansão da cidade para as Olimpíadas de 2012 dominavam as manchetes. A preparação para os Jogos Olímpicos já transformava áreas como Stratford, com canteiros de obras e promessas de regeneração urbana.
A cena musical londrina estava efervescente. Bandas indie como Arctic Monkeys e Bloc Party, que haviam explodido nos anos anteriores, ainda dominavam as paradas, enquanto Amy Winehouse, uma filha de Camden, era um ícone global, embora sua vida pessoal começasse a ofuscar seu talento. Clubes como Fabric e Ministry of Sound continuavam sendo epicentros da vida noturna, com o electro e o indie rock ditando o ritmo das pistas. O estilo das ruas misturava o grunge dos anos 2000 com toques retrô, e as lojas da Oxford Street e Camden Market eram pontos de peregrinação para jovens em busca de novidades. O futebol aquecia os ânimos, com Arsenal, Chelsea e Tottenham disputando a Premier League.
Janeiro era frio e chuvoso, como de costume, com temperaturas girando entre 2°C e 8°C. A cidade estava iluminada pelas luzes de Natal recém desmontadas, e os pubs lotavam à noite com pessoas buscando aquecer-se com pints e conversas. O transporte público, especialmente o Tube, enfrentava críticas por greves ocasionais e superlotação, mas continuava sendo a espinha dorsal da cidade.
Quando fevereiro chegou e as aulas voltaram, Harry foi correndo atrás do zelador Hagrid na primeira oportunidade que teve. Logo que encontrou o imenso amigo foi falando com a maior empolgação do mundo:
- HAGRID, QUE LUTAS!! O DVD que me emprestou foi INCRÍVEL!! Eu assisti naquele mesmo dia e passei dezembro e janeiro revendo tudo!! Boxe é tão incrível!! Não é só porrada sem controle, é ESTRATÉGIA, é disciplina, é garra, foco...
Hagrid ia rindo a cada palavra, mas realmente satisfeito.
- Calma, Harry! Hahaha!... Puxa, eu fico tão feliz que gostou! E que enxergou como eu enxergo! Quais lutas mais te empolgaram??
- Caramba, eu realmente empolguei com Julio César Chávez vs. Meldrick Taylor!! Como ele conseguiu aquela virada no finalzinho?? Se aquilo não é garra, eu não sei o que é!! — vibrava Harry, com olhos brilhando — George Foreman vs. Muhammad Ali também! Puxa, aquele foi um espetáculo que juntou tanta gente... Sugar Ray Leonard vs. Thomas Hearns foi fantástico... e durou QUATORZE rounds, que loucura... Eles são muito incríveis... Sem falar no cara que conseguiu ganhar do Mike Tyson, o Buster Douglas! PAM! PUM! POW!
Harry tentava simular os movimentos das lutas que comentava, fazendo Hagrid rir. Após, o garoto devolveu o DVD devidamente encapado. Ele se virou e continuou falando ao zelador:
- Hagrid, acha que eu conseguiria me tornar um? Eu já vou fazer 16 anos no meio do ano, não é muito tarde pra começar?
- Pra ser sincero, Harry, o normal é começar bem cedo nessa vida sim. — respondia Hagrid — Tipo o Tyson, que começou com 11 anos num reformatório. Mas isso não quer dizer que a exceção não aconteça, meu garoto! Você gostou da luta Rocky Marciano vs. Jersey Joe Walcott? Pois saiba que Marciano começou no boxe com 23 ANOS! Ele tentou o beisebol e o exército antes... E não é que ele terminou a carreira invicto? QUARENTA E NOVE vitórias e NENHUMA derrota! Ray Mercer, que ganhou ouro olímpico em 1988, começou no boxe com 22 ANOS! Ken Norton começou com 24 ANOS e derrotou o próprio Muhammad Ali em 1973 e foi campeão dos pesados! Quer alguém mais recente? Nosso conterrâneo Clinton Woods saiu de uma vida de crimes e drogas pra se tornar campeão mundial meio-pesado da IBF em 2005! Já defendeu o título quatro vezes! Sabe com qual idade ele começou?? Com 22 ANOS! Tem um rapaz que ando acompanhando chamado Deontay Wilder. Ele só foi colocar as luvas pra valer aos 20 ANOS — dois anos atrás! — depois de tentar basquete e futebol americano... E acredite, ele é uma grande promessa!
Harry estava boquiaberto. Hagrid não apenas era bem fanático por boxe, mas conseguiu listar a ele alguns lutadores que começaram tarde no esporte e ainda se consolidaram com feitos incríveis. O medo que ele sentia de começar com quase 16 anos tinha praticamente evaporado depois daquilo.
- E repare, garoto — continuou Hagrid — que alguns que citei saíram de outros esportes para o boxe. Você foi chutado do Clube de Futebol, já tem preparo físico bem lapidado por todos esses anos que jogou. Sim, não vai ser nada fácil, mas nada nessa vida é, Harry! Só que a recompensa das coisas difíceis é muito mais suculenta, se é que me entende! Hahaha!
- H-Hagrid, eu quero começar! — exclamou Harry — Você conhece algum lugar bacana pra eu treinar?
Hagrid cruzou os braços com um sorriso confiante, como se estivesse esperando aquela pergunta desde o dia que emprestou o DVD para o garoto.
- Se quer mesmo virar um guerreiro dos ringues, vou te mandar pro lugar ideal: A Academia de Boxe Dumbledore! Aqui está o endereço. O treinador de lá é o Alvo Dumbledore!
Harry levantou uma sobrancelha quando o enorme amigo lhe entregou um pedaço de papel com um endereço escrito. "Isso aqui já tava pronto há tempos...", pensou Harry.
- Hmm... E esse tal Dumbledore é bom mesmo?
- Acredite, ele não se preocupa só com a parte física... Ele te transforma numa pessoa melhor! — respondeu Hagrid.
- Falando assim, tá parecendo que você já treinou lá.
- Não, meu amigo! Hahaha! — Hagrid riu sonoramente — Mas acompanhei lutadores que Dumbledore preparou. Ele não erra, confie em mim.
Harry olhou o papel com um olhar mais confiante. Ele o guardou no bolso.
- Hagrid, muito obrigado! Você é mais que um grande amigo! É um irmão!
O garoto de óculos deu um abraço no zelador, que ficou sorrindo emocionado com o gesto e o elogio.
- Espero que não se esqueça de mim depois que virar campeão mundial! — disse o barbudo com um grande sorriso.
- Não deixe de me ver na TV se isso acontecer, então! — disse Harry.
- É uma promessa! — exclamou Hagrid.
...
No dia seguinte, após a aula, Harry deu um jeito de ir conhecer a tal academia de boxe. Para a sua surpresa, na noite anterior, quando contou seu plano para McGonagall, ela não ofereceu oposição. Na verdade, McGonagall conhecia Dumbledore. Ela disse que só permitiria que Harry começasse no boxe porque Hagrid indicou justo Dumbledore para orientá-lo. "Dumbledore é um amigo e uma pessoa de imensa integridade, Harry", disse Minerva naquele momento. "Você vai se tornar, no mínimo, uma pessoa melhor só de conviver com ele."
Então, ele chegou à Columbia Road, uma rua localizada no East End de Londres, na região de Bethnal Green com Shoreditch. Era larga, com calçadas generosas, e com certo clima vintage, meio vitoriano. Percorrer aquela rua para chegar ao local já era praticamente um aquecimento, que Harry fez correndo mesmo, com uma mochila.
A Columbia Road não era a rua mais movimentada do leste de Londres — pelo menos não mais. Nos dias de semana, respirava lentamente. Alguns lojistas varriam as calçadas, cumprimentavam-se com acenos discretos. Bem ali, aninhada entre uma oficina de bicicletas e um antiquário, ficava a Academia de Boxe Dumbledore. Harry ficou impressionado com a imagem gravada na imensa janela que tinha na frente — uma imagem de alguém que só poderia ser o próprio Dumbledore. Era possível ver o interior da academia atrás daquela janela. Harry se esgueirou até ela e se colocou a olhar. Havia tudo o que se podia esperar de uma academia de boxe: vários equipamentos de treino, vários sacos de pancadas, um ringue enorme, um punhado de alunos. Alguns treinavam socos com as mãos enfaixadas, outros pulavam corda e outros estavam batendo nos sacos de pancada.
Harry entrou pela porta, empolgado, e acabou trombando com um rapaz de cabelo bem ruivo, um pouco mais alto que ele. Era um dos alunos da academia, que estava usando um uniforme de treino.
- Caramba, cara! Que susto! — disse o garoto ruivo — Por que entrou com tanta voracidade?
- M-Me desculpe. — Harry estava encabulado, já chegou passando vergonha. — Meu nome é Harry... Potter. Me disseram que aqui era um excelente lugar pra aprender boxe. Eu... vim me inscrever.
O ruivo deu uma risada suave e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
- Ronald Weasley, mas todo mundo me chama de Rony. Você veio ao lugar certo, camarada! Seja bem-vindo! Ei, Hermione! Veja só, um recruta pra gente! Apresento: Harry Potter!
Havia uma garota de cabelos castanhos batendo em um dos sacos de pancada. Ela parou ao ser chamada. Hermione se dirigiu até onde Harry e Rony conversavam. Ela tirou as luvas e o cumprimentou também. As mãos, mesmo sem as luvas, estavam enfaixadas com bandagens de treino. Harry apertou a mão dela e sorriu.
- Prazer! Sou Hermione Granger! — disse Hermione — Somos poucos aqui, mas garanto a eficiência do Treinador Dumbledore. Há ex-alunos dele trabalhando no GB Boxing Team... Eu e o Ronald já estamos aqui há algum tempo e estamos com um preparo fantástico!
- "GB Boxing Team"?! — Harry ajeitou os óculos. — O que é isso?
Hermione riu.
- Mais um completamente alheio a tudo que nem você, Ron? — disse a moça olhando para o ruivo.
- Não liga não, Harry... — dizia Rony com um sorriso sarcástico — Hermione aqui é uma nerd de boxe. Ela conhece todos os termos, cultura, história, eventos e lutadores famosos. Fica lendo sobre boxe o dia todo ao invés de... sei lá, ver novela.
- Eu vou fingir que nem ouvi esse comentário machista! — disse Hermione dando um soco no braço do ruivo. Harry riu e foi dizendo:
- Parece o Hagrid, meu amigo que é zelador da escola onde estudo. Ele também ama boxe!
- Você parece em forma, Harry. Já praticava esporte? — perguntou Hermione.
- Eu joguei futebol na escola durante uns sete anos. — respondeu Harry.
- É, aqui precisa ter muita energia! — foi falando Rony. — Em todo caso, se quer se inscrever, lá está o Dumbledore, de roupa vermelha. Se apresenta pra ele.
Rony apontou para a direção de onde Dumbledore acompanhava um aluno perto dos sacos de pancada. Harry o reconheceu pela silhueta que viu do lado de fora da academia. "Então esse é o amigo da Minerva...?", pensou Harry.
- Trouxe roupa de treino? — indagou Hermione. — Se for o caso, já pode começar hoje ainda!
- Eu meio que trouxe sim! — disse Harry. — Empolguei e acabei trazendo... Mas obrigado, gente, vou lá conhecer o Dumbledore. Com licença.
Harry foi até o treinador da academia. Era um senhor de idade, com um longo cabelo branco e uma longa barba igualmente branca. Usava óculos. Ele estava com agasalho e calça vermelhos de atividade física. Também tinha um apito pendurado ao pescoço. Ele se virou ao sentir a presença de Harry e deu um sorriso calmo.
- Boa tarde, meu rapaz. — disse Dumbledore. — Seja bem-vindo. Está pensando em praticar boxe?
- O-Olá! — disse Harry já meio encabulado. — Eu sou Harry Potter... Me indicaram essa academia pra começar no esporte. Muito prazer.
- Alvo Percival Wulfrico Brian... Dumbledore. — disse o treinador, e, em seguida ele apertou a mão de Harry.

Embora ele fosse um idoso, Harry ficou impressionado com o aperto de mão de Dumbledore. Era a força de alguém que superou muita coisa na vida e que tinha total controle de si mesmo. O treinador foi falando:
- Harry, o boxe não é sobre quem bate mais forte. É sobre quem consegue suportar mais e ainda assim seguir em frente. Aqui, vocês vão aprender a aguentar com dignidade... e a revidar com inteligência.
- S-Sim...! — disse Harry.
- Quer começar hoje? Pode usar o vestiário e se vestir. Em alguns minutos eu começarei o treino em grupo. Pode manter os óculos se quiser.
Harry assentiu e foi ao vestiário masculino se trocar. Pouco depois, ele estava de volta com uma camisa preta e um calção vermelho. Ele foi até Rony e Hermione, os dois que já conhecia.
- Que legal que você vai começar hoje, Harry! — disse Hermione. — Você trouxe as suas bandagens de treino?
- Era pra trazer isso? — indagou Harry. — Eu não sabia...
- Relaxa, meu chapa. — foi falando Rony. — Eu tenho um par a mais, eu te empresto.
Rony buscou rapidamente as bandagens extras que tinha no vestiário. Quando entregou a Harry, o garoto de óculos ficou olhando sem entender muito.
- Obrigado... Como se coloca isso? — perguntou Harry.
- Esse é o nosso futuro campeão mundial! — riu Hermione. — Bom, não se pode fazer nada, né? Ninguém nasceu sabendo colocar bandagens.
- Eu te ajudo, Harry. — disse Rony, sorrindo. — Eu também levei um tempo pra aprender a fazer isso. Veja só...

Rony ajudou Harry a colocar suas bandagens e Hermione sorriu. Os três combinavam incrivelmente e uma grande amizade tinha se formado. Harry observava com cuidado, tentando se lembrar todas as voltas necessárias com as bandagens para se enfaixar as mãos.
- As bandagens de boxe têm a função de proteger as mãos e os pulsos de lesões, como fraturas, entorses e luxações. — foi explicando Hermione. — Elas ajudam a estabilizar o pulso e proteger os ossos das mãos, distribuindo o impacto dos golpes de forma mais uniforme.
- A gente tá aqui pra praticar, não se destruir... — comentou Rony.
- Entendi. Obrigado, gente. — disse Harry.
Pouco depois, Dumbledore voltou de sua sala e chamou os alunos pra aula em grupo. Todos largaram os treinos individuais e foram se alinhar de frente a um grupo de espelhos. Harry seguiu o que os outros fizeram, tentando ficar perto de Rony e Hermione.
- Turma, temos um novato hoje. Aquele é o Harry Potter. — disse Dumbledore.
Os outros olharam pra trás na direção do garoto de óculos. Harry deu um sorriso de leve.
- Oi, gente. Muito prazer.
- Bem-vindo, Harry! — foi falando um garoto alto com uma alegre timidez. — Meu nome é Neville Longbottom...
- Deixa isso pra depois, Neville. Vai começar o treino. — disse uma garota de pele escura com postura confiante.
- Aquela é a Angelina Johnson. — disse Hermione baixinho para Harry. — Ela é a aluna mais antiga daqui.
Dumbledore soprou forte o apito e todos ficaram em alerta na hora. Harry se assustou, mas voltou o olhar pro treinador.
- Não são os punhos... — começou Dumbledore.
- ... É O CORAÇÃO! — gritaram os alunos.
- Primeiro, todos alongando. — Dumbledore falou e apitou.
À frente de todos, estava Angelina. Ela mostrava o que era pra ser feito e todos a copiavam. Primeiro eles alongaram vários músculos e pescoço. Depois, foram dando uma corrida em volta do salão durante cinco minutos. Depois fizeram três séries de quinze agachamentos e duas séries de dez flexões. Harry foi levando com facilidade até então, não diferiu tanto do treino de futebol. Só que depois disso, deram uma corda de pular para o garoto. Era a primeira vez que estava diante daquilo.
- Harry, temos que pular corda agora, faz parte do aquecimento. — avisou Hermione.
- T-Tá... — disse Harry.
Os alunos começaram a pular suas cordas e Harry ficou assustado. Havia uma garota ruiva que estava pulando como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Ao lado dela, um orgulhoso rapaz de pele escura, também pulava com tranquilidade e muita categoria. Angelina também já pulava sua corda com naturalidade e tinha uma outra moça com traços asiáticos e cabelo preto, pulando sem problemas.
- Aquela menina de cabelo ruivo ali... é a minha irmã mais nova. — disse Rony. — Digamos que ela é um... talento nato, diferente de mim. O nome dela é Gina.
- Caramba, ela é muito boa nisso! — disse Harry.
- Ei! Vocês dois aí! Silêncio! Pulem corda! — vociferou Angelina.
Rony ficou preocupado e começou a pular corda. Ele e Hermione pulavam decentemente, mas não tão bem quanto os outros. Neville e um outro garoto mais baixo também pulavam com mais dificuldade. Harry fez uma cara nada animada e foi tentando pular a corda, dando pulos bem lentos e tentando se acostumar. O garoto de óculos reparou que o de pele escura, que estava pulando melhor que todos os outros, estava dando risada dele. Harry fechou a cara e tentava pelo menos não cair. Dumbledore andava ao redor dos alunos e ia falando:
- O corpo precisa estar desperto. Um músculo tenso não protege. Um pulmão fraco não dura no segundo round. Vamos, vamos.
- Harry, mantenha os joelhos flexionados e não olhe para os pés. — Hermione dava a dica.
- Ela faz parecer que é fácil, mas levou uma semana para parar de bater nas próprias canelas. — disse Rony rindo enquanto pulava corda.
- Eu tava testando, tá? Melhor que essa sua ginga de macarrão! — devolveu Hermione.
Aos poucos, Harry foi se acostumando e, ao tentar imitar os outros, foi conseguindo ganhar ritmo. Hermione e Rony olhavam orgulhosos.
- Aí está outro talento nato, Ronald. — comentou Hermione ao mesmo tempo que pulava corda.
- Verdade... Quem disse que eu fiquei bom assim no primeiro dia?! Muito bom, camarada!
- V-Valeu... — respondeu Harry, tímido.
Harry viu Gina. Os olhos dela estavam concentrados, a postura limpa, os movimentos naturais. Como se o boxe fosse uma extensão do corpo. Do lado dela, o rapaz de pele escura fazia seus saltos com estilo exagerado, lançando sorrisos irônicos para quem errava.
- Ei, novato! — foi falando com Harry — E aí, cadê a energia? Só consegue essa velocidade?
Harry rangeu os dentes, se esforçando muito.
- Aquele é o Dino Thomas, namorado da minha irmã... — dizia Rony. — Eles se dão muito bem porque estão no mesmo nível... o alto.
- Eu francamente acho que ela deveria repensar os conceitos dela. — comentou Hermione.
- Ah, vocês mulheres são bastante confusas. — disse Rony.
- Como se vocês rapazes fossem um sonho de sensatez! — retrucou Hermione.
- Ei... menos flerte e mais pulos.
Os três se assustaram. Quem falou foi Gina, que pulava corda com uma cara séria para Rony e Hermione. Harry ficou se sentindo desconcertado, mas sorriu de leve com a cena que parecia de novela.
Mais ao canto, Neville Longbottom se esforçava para não tropeçar na corda, assim como o amigo ao lado. Mas Neville se distraía constantemente com a bela visão de Gina.
- Fala sério, Neville... — disse o rapaz menor. — Não fique olhando tanto pra ruiva ou vai acabar na mira do Dino. Você tem plano de saúde?
- V-Você tá vendo coisas, Simas... — responde Neville.
- Daqui de onde estou, parece mais que é VOCÊ que tá vendo coisas...
- Não tem nada errado em admirar um talento incrível. — disse Neville.
- A menos que você seja socado até a morte, claro... — respondeu Simas.
Dumbledore apitou e o aquecimento estava encerrado. Os alunos se dirigiram para o centro do salão onde a próxima instrução seria dada.
- Boxe, meus caros alunos, não é sobre raiva. É sobre ritmo, razão e resiliência. Não basta bater — é preciso saber por que se bate. E quando não bater. Angelina...
Angelina se dirigiu à frente quando foi chamada. Dumbledore foi falando:
- Demonstre a postura. Pode parecer besteira treinar o básico pra quem já está aqui faz tempo, mas acreditem, aperfeiçoar o básico é algo que precisa ser feito sempre.
Angelina foi falando e posicionando a cada frase:
- Atenção. Pés na largura dos ombros. Pé dominante atrás. Mãos na altura das bochechas, punhos fechados. Queixo baixo, olhos à frente. Esta é a sua fortaleza. Perca a postura, perca a luta.
Harry foi imitando a postura e vendo como os outros faziam. Ficou impressionado com a postura da garota de traços asiáticos. Ela percebeu o olhar de Harry e virou o rosto rudemente.
- Aquela é a Cho Chang. — cochichou Rony. — Eu acho que ela também não gosta muito de gente iniciante... Ela também é boa, e algo me diz que é "rival" da Gina.
- A gente tem que prestar atenção na aula, e não nos dramas juvenis! — disse Hermione em voz baixa.
- Nossa, tá bom, "mamãe"... — resmungou Rony. Hermione revirou os olhos, impaciente.
O garoto de óculos ainda estava um pouco torto, claro, mas Dumbledore corrigiu com um simples toque no cotovelo.
- Assim está melhor. — disse o treinador. — Uma fortaleza deve ser sólida, não rígida.
Após, Dumbledore pediu para que Angelina demonstrasse os golpes principais do boxe. Ela se colocou na postura e esticou a mão da frente devagar.
- Esse é o jab! Pode não parecer, mas é o soco mais importante do boxe. Ele dita o ritmo da luta, ele mede distância, ele desestabiliza a guarda e surpreende o adversário.
Em seguida, ela usou a mão de trás e bateu reto para a frente.
- Esse é o direto. Usa a mão de trás, é bem mais forte! Um desse na fuça e é "game over".
Harry assistia enquanto Angelina fazia movimentos laterais de fora para dentro com os punhos, bem devagar.
- Isso é o cruzado. É lateral, prestem atenção! De fora pra dentro!
Depois, ela movia os punhos de baixo para cima, um de cada vez. Sempre com a guarda alta.
- Esse se chama gancho. Você pode acertar ou a barriga ou o queixo do infeliz!
Dumbledore apitava e os alunos faziam. Primeiro o jab. Depois o direto, o cruzado e o gancho. Harry estava impressionado. Já se sentia um boxeador só de aprender alguns golpes. Já tinha usado um ou outro em brigas, mas não sabia os nomes. Diferente de uma briga, o boxe exigia a postura correta para o resultado mais eficiente. Dumbledore se certificava de ajustar a de Harry para que ele tirasse o potencial máximo desses golpes. Harry ficou impressionado com o cuidado do treinador e foi entendendo aos poucos porque Minerva o respeitava.
- Vamos com o jab e o direto! — vociferou Angelina, ao mesmo tempo em que demonstrava. — Jab: rápido, certeiro, mão da frente! Direto: soco poderoso, vem de trás. Um-dois, pessoal! Vamos lá!
Dumbledore apitava para cada "um-dois" que os alunos lançavam. Um jab rapidamente seguido de um direto. Harry reparava que Gina, Dino, Angelina e Cho-Chang disparavam seus "um-dois" com intensidade, como bons lutadores. Harry tentava imitar o entusiasmo deles, soltando golpes fortes. O barulho dos movimentos do garoto de óculos foram notáveis. Dumbledore arqueou as sobrancelhas ao perceber.
- É isso aí, novato! — disse Angelina animada. — Manda ver! Um-dois!
Ao lado, Neville tentava, todo desajeitado.
- Pelo menos não é tão ruim quanto esgrima... — disse o garoto alto.
Gina, que estava perto dele, foi falando:
- Você está indo bem, Neville. Relaxe um pouco o ombro. Isso, desse jeito.
Neville ficou corado com o cuidado dela para com ele. Harry olhou e deu um leve sorriso. Gina era forte, mas não tentava desfazer dos outros.
Algum tempo depois de muito "um-dois", era o momento do "treinamento de sombra". Os alunos se espalharam pelo salão, cada um em guarda, preparados. Angelina foi falando:
- Treinamento de sombra é simular uma luta contra um adversário imaginário! Vamos fazer três rounds de três minutos, assim como numa competição amadora. Todo mundo em guarda!
Dumbledore apitou, iniciando o round. Harry observou cada um socando e dando sequências de golpes com gingados, bloqueios e trabalhos de pernas. "Ah, entendi... é pra fazer de conta que tô numa luta contra alguém invisível...", pensou Harry. O garoto de óculos se prontificou a começar, tentando imitar os movimentos dos outros e os que viu em lutas de verdade. Dumbledore rodeava os alunos dizendo:
- Fechem os olhos, se precisarem. Imaginem seu oponente. Sintam o ritmo. O soco não é só músculo... é mensagem.
A qualidade dos alunos mais dedicados era impecável. O som seco do direto de Gina ressoava como um estalo de trovão no salão. Ela gingava com uma postura que colocava as luvas na frente da boca. Cho Chang lançava seus cruzados com precisão cirúrgica, como se cada soco encerrasse uma história. Dino, então, parecia um profissional, dando combos realmente velozes e precisos, com gingados e defesa afiados.Harry percebeu que não era tão simples quanto parecia lutar por três minutos. E isso porque ele estava lutando contra o vento. Dentro do ringue, seria contra outra pessoa revidando. "Minha nossa, isso é pesado!", pensava ele. "Vou ter que aumentar o nível do meu preparo físico pra exercer essa profissão."
No fim dos três minutos, Dumbledore apitou. Deixou os alunos recuperarem o fôlego durante um minuto. Depois apitou novamente para o segundo round. A movimentação geral começou novamente. Neville e Simas já estavam bem cansados. Rony também, dando golpes mais lentos. Hermione o incentivava a dar mais gás naquilo. Angelina, Gina, Dino e Cho estavam num ritmo mais forte. Harry, que não gostava de ficar para trás, também se esforçava muito pra manter o mesmo ritmo do primeiro round, mesmo com a energia quase esgotada. Ele suava mas lançava golpes com intensidade, querendo já buscar o seu sonho de ser boxeador com toda força.
- O adversário mais perigoso está aqui. — Dumbledore tocou o próprio peito. — Lutem com a "sombra" e verão quem vocês são.
Após, o treinador apitou e descansaram mais um minuto. Dino sorria para Harry, como se dissesse "Eu posso fazer isso o dia todo." Harry estava ofegante, quase não conseguia raciocinar. O suor escorria e o coração batucava feito banda de axé brasileira. O terceiro round começou e Harry já sentia os braços pesados, como se tivesse voltado de uma guerra. Rony se aproximou dele e foi falando:
- Cara, o primeiro dia é o pior de todos. Eu me lembro... Não deixa isso te desanimar... Aos poucos vai ficando mais fácil. E já aviso que vai ficar todo dolorido amanhã.
- Obrigado... pelas palavras de apoio... — dizia Harry tentando recobrar o fôlego.
Com os três minutos finais encerrados, Dumbledore apitou. Alguns sentaram no chão, completamente esgotados. Harry se dobrou e se segurava nos joelhos, tentando respirar. Os óculos caíram do rosto. Ele os apanhou e colocou de volta, vendo Dino em sua frente, com um sorriso debochado.
- Quer que chame uma ambulância? — zombou o rapaz.
Harry só deu um olhar feio e saiu ando pra longe dele. Dino foi até Gina, a namorada ruiva.
- Como sempre, você foi um arraso, lindona.
- Ah, treino tranquilo o de hoje. Deve ser por causa do novato. — dizia Gina enquanto sorria pro namorado.
- É, o quatro-olhos devia voltar pros videogames, isso aqui vai ser demais pra ele. — disse Dino, venenoso.
- Não chama ele assim, Dino... — resmungou Gina.
- Vamos finalizar, gente! — vociferou Angelina. — Todo mundo alongando de novo e respirando.
A turma toda obedeceu, alongando os membros que foram usados. Depois, Dumbledore apitou pra que todos fizessem abdominais. Logo, o treino estava encerrado. Dumbledore falou as seguintes palavras:
- Lembrem-se. O ringue não julga. Ele apenas revela. Continuem vindo... e descobrirão do que são feitos.
"Que cara filosófico", pensou Harry. "Nem parece treinador de boxe..." Logo que foram liberados, Neville e Simas foram até Harry para conhecê-lo.
- Eu já tinha dito meu nome, hahaha... — riu timidamente Neville. — Esse aqui é o Simas Finnigan, Harry.
- Prazer, cara! — Simas apertou a mão de Harry com firmeza. — Bem-vindo ao inferno hahaha!
Harry deu um riso sem jeito.
- E aí, tá nessa pra quê? Ficar trincadão e pegar mulher? — perguntou Simas.
- Na verdade eu... Eu quero virar boxeador profissional. Viver disso, sabe...
- Puxa, isso é incrível, Harry! — disse Neville. — Admiro muito a sua coragem! Eu gosto de boxe, mas acho que não tenho perfil pra viver disso. Só que estar aqui todo dia com a turma é tão legal... Fora que faz muito bem pra saúde!
- Exceto se você tomar um cruzado no queixo e ficar inconsciente, claro! — exclamou Simas.
- Eu devia dar um cruzado em você por ficar falando tanta coisa negativa, Simas! — disse Rony. — E aí, vocês topam o sorvete?
- Eu não vou poder, preciso correr pro curso de jardinagem! — disse Neville.
- E eu tenho animes pra assistir, não vou ficar perdendo tempo em sorveteria! — respondeu Simas.
- Vocês que tão perdendo aqui! — Hermione foi falando. — Vamos, Ronald! Quer ir, Harry?
- Eu? — Harry ficou surpreso.
- É, ora! Você já é nosso amigo! — sorriu Rony.
Harry deu um largo sorriso, um sorriso que não dava desde que recebeu o amor e o carinho de Minerva McGonagall. Agora ele tinha amigos de verdade, gente que gostava dele e o chamava para fazer coisas.
- Vamos!
...
O trio estava dentro de uma sorveteria chamada Hogsmeade que ficava perto da Academia Dumbledore. Com os pedidos já em mãos, o clima ficou mais tranquilo.
- Agora isso sim é recuperação esportiva, não é? Treino, suor... e sorvete de chocolate! — disse Rony bem satisfeito.
Hermione revirou os olhos, balançando a cabeça e rindo.
- Recompensa vazia. Açúcar não repara músculos. — disse a moça. — Mas pelo menos é um momento mais descontraído...
- Essa é a Mione, ela tira a alegria de tudo. — disse Rony para Harry.
- Eu tô bem aqui, viu? — respondeu Hermione, fazendo uma careta de reprovação para Rony.
Harry ria de leve dos dois. Ele estava com um sorvete de baunilha e ainda tentava assimilar tudo — o treino, os rostos, os socos, os conselhos de Dumbledore. Era como se tivesse entrado num novo universo.
- Vocês treinam juntos há muito tempo? — perguntou o garoto de óculos.
- Dois anos, desde que ela me arrastou pra lá. Eu só queria aprender a dar uns cruzados... mas ela queria entender o boxe como "fenômeno cultural." — o ruivo fez aspas com os dedos no último termo.
- E você está melhor por causa disso, Rony Weasley! — Hermione foi respondendo. — Benditas sejam as Regras do Marquês de Queensberry!
- É o quê?! — indagou Harry.
- Senta que lá vem história... — disse Rony sarcasticamente.
- As Regras do Marquês de Queensberry são um conjunto de regras criadas no século XIX, mais precisamente em 1867. — dizia Hermione com categoria, enquanto Rony só se preocupava em devorar o sorvete. — Elas foram desenvolvidas por John Graham Chambers, mas receberam o nome do Marquês de Queensberry, que foi quem as endossou publicamente. Nada de brigas de taberna sem regras. Luvas obrigatórias, tempo de round cronometrado, proibição de agarrões, tamanho certo do ringue, a presença de um árbitro e claro: sem golpes abaixo da cintura. Em outras palavras... são as regras do boxe moderno! Sem elas, seria uma brutalidade sem controle algum. A "nobre arte" seria tudo, menos nobre!
- É... — foi falando Harry. — Benditas sejam as Regras do Marquês de Queensberry!
- Yay... — celebrou debochadamente Rony. — Tá vendo, quem precisa de Google com a Hermione no córner?
- Conhecimento é a verdadeira arma, Ronald. Socar não é tudo! — disse a moça.
- Espero que não coloquem uma prova de conhecimentos na minha frente quando eu entrar num ringue. — zombava Rony. — "Explique a origem dos ganchos em três parágrafos ou perca por nocaute técnico."
Harry soltou uma gargalhada alta. Estava se sentindo... leve. Pela primeira vez, aquelas pessoas não o tratavam como um problema ou um coitado. Só como alguém novo, mas bem-vindo. Voltou-se para Hermione:
- Ele brinca, mas você é mesmo impressionante, Hermione!
- Finalmente, alguém com classe! — disse Hermione, fazendo Rony revirar os olhos. — Você está por dentro de quem são os principais nomes do nosso país hoje? Ricky Hatton, por exemplo — é o orgulho de Manchester. Estilo agressivo, mas técnico. David Haye — peso pesado, extremamente rápido, e Amir Khan — jovem, veloz, e cerebral. Tem muito talento britânico em ascensão agora. Estamos numa nova era do boxe, Harry!
Harry estava hipnotizado. E um pouco intimidado. Hermione falava com tanta paixão que ele mal percebia o sorvete derretendo nos dedos. Rony percebeu e foi falando:
- A cabeça do Harry vai explodir! Foi o primeiro treino dele, Hermione! Vai com calma ou ele vai ficar com trauma de ir em sorveteria...
- Não! Foi ótimo. Vocês são ótimos! — respondeu Harry. Depois olhou com um sorriso malicioso e disse: — E vocês dois... meio que têm uma vibe de casal prestes a acontecer, ou sou só eu?
Rony e Hermione congelaram por alguns segundos. Os dois coraram, mas a garota deu um sorriso debochado.
- Ah, por favor! O Ricky Hatton teria mais chance, sabe?
- Nem pensar... — respondia Rony, depois de quase deixar o sorvete cair. — Imagina essa falação todo dia? Dá não...
Harry apenas sorriu. Ali, numa sorveteria comum, entre provocações e conhecimento demais, ele tinha encontrado algo mais importante do que socos e exercícios: amizade.
...
Após se despedir dos novos amigos, Harry pegou a mochila e saiu correndo para voltar pra casa. Sem que ele percebesse, dois olhos bastante azuis e sonhadores o observaram da janela de uma das lojinhas da Columbia Road. Era uma garota, com cabelos loiros bastante longos. Ela olhou como se tivesse descoberto algo muito interessante.
Continua...
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