Harry Potter: O Leão do Ringue
6 A Garota que Conversa com Animais
Harry passou a manhã conversando com McGonagall sobre o tal “presente” que ganhou de Lupin: uma coruja-das-neves chamada Edwiges. O rapaz levou bronca da tutora por ter faltado à aula. Harry explicou que não conseguiu dormir por causa da “nova situação”.
- Francamente... Quem presenteia os outros com uma coruja? – dizia McGonagall. – Você descubra o que vai fazer com ela, Harry... Eu preciso ir trabalhar. E que isso de faltar à aula não se repita!
- Tá bom, Minerva... – dizia Harry, ainda cheio de sono.
Algum tempo depois, o jovem de óculos estava no metrô. Iria para a Columbia Road, mas não pelo motivo de sempre: ele iria ao pet shop que havia de frente para a academia de boxe. Estava com seu habitual moletom azul e calça jeans, segurando a caixa de madeira onde transportava Edwiges. Bocejou algumas vezes, enquanto esperava o local onde desceria.
A caminhada pela Columbia Road era diferente agora que tinha que tomar cuidado com a ave dentro da caixa. Ele passou devagar pelas lojinhas. Alguns donos deram “bom dia”, os quais Harry respondeu com educação. Quando estava chegando perto da Academia de Boxe Dumbledore, ele olhou para o outro lado da rua. Harry não estava errado. Havia mesmo um pet shop chamado Lepus. Então, atravessou a rua e entrou com a caixa naquele lugar.
O sino acima da porta tocou quando ele entrou. Ele ficou impressionado. O lugar era mágico à sua maneira: cheio de sons de bichos, cheiros estranhos, brinquedos pendurados, produtos diversos, aquários... E então, percebeu que tinha uma garota de longos cabelos loiros ajoelhada de frente para um para uma tartaruga num terrário. Ela falava como se conversasse com um velho amigo:
- Eu sei que você gosta do lado esquerdo da pedra... Mas se nunca experimentar o lado direito, como vai saber se é mesmo o seu favorito? Chegou um cliente, eu já volto.
Luna olhou e os enormes olhos sonhadores se arregalaram por um momento quando viu quem era. Harry também arregalou os olhos quando ela se levantou. Nunca tinha visto uma moça com cabelos dourados tão longos. Edwiges, dentro da caixa de madeira, começou a piar sem parar, como se soubesse que havia outros bichos. Luna deu um sorriso angelical. Mas não foi um sorriso qualquer. Foi o tipo de sorriso que vinha de dentro. Ela esperou muito por aquele momento.
- Você é o garoto da tempestade! – disse Luna, animada.
- Eu... O quê?! – Harry ficou desconcertado.
- Ah... Isso saiu meio esquisito, né? — disse Luna, sorrindo sem jeito. — Oi. Eu sou Luna Lovegood. Seja bem-vindo à Lepus: Coelho em latim. E você tem uma caixa que pia!
- Hã?!
O garoto de óculos olhou pra própria caixa. Edwiges estava bem agitada. Harry deu risada, entendendo o que ela quis dizer.
- Muito prazer, Luna. Eu sou Harry Potter...
- Harry... Potter... – repetia Luna sorrindo para o coelho Pompom. – E então, o que temos na caixa que pia?
Depois de dar mais um bocejo que não conseguiu segurar, Harry abriu a caixa e mostrou a Edwiges. Luna se aproximou com um cuidado que Harry nunca tinha visto ninguém ter. Ela observava a coruja como se fosse um enigma do universo.
- Uma coruja-das-neves? Meu Deus... é linda! Sabia que elas têm um campo de visão maior que quase todas as aves noturnas? E que conseguem caçar quase no escuro total?
- Isso já a torna melhor que eu, suponho... – disse Harry. – É meio difícil pra mim enxergar bem sem esses óculos.
- Ah, não se preocupe, Harry. – dizia Luna sorrindo. – A maioria das pessoas só enxerga o que elas querem... e não o que está bem diante delas.
Harry ficou sem resposta, mas Luna se aproximou de Edwiges e a acariciou com calma. A coruja olhou pra ela e correspondeu ao gesto, ficando calma e silenciosa. Isso deixou Harry impressionado.
- C-Como fez isso? Eu passei o maior aperto essa noite... Eu meio que ganhei ela ontem. Ela se chama Edwiges. Ainda não sei como cuidar dessa ave...
- Quase todo ser vivo gosta de carinho. – falava Luna, acariciando Edwiges. – Corujas se assustam facilmente, muito barulho e comoção as deixa agitadas. Mas é só a gente dar carinho que ela começa a ficar dócil. Que presente incomum, por que você ganhou uma coruja, Harry?
- Bom, me falaram que... é um lembrete pra quietude, atenção plena... algo assim. – respondeu Harry. – Você... tava falando com aquela tartaruga ali, né?
- Ah, ela é meio devagar, mas ainda a convenço a experimentar coisas novas. – disse Luna como se confidenciasse uma fofoca.
Harry deu um sorriso sem jeito. Depois de afagar bem Edwiges, Luna fechou a caixa. Logo, a loira começou a dar dicas de como cuidar dela:
- Primeira coisa: corujas não são como cachorros. Não vão sentar, deitar ou buscar um graveto só porque você quer. Elas são criaturas de autonomia, e é uma honra quando escolhem ficar.
Harry prestava atenção, assentindo com a cabeça às vezes. A loira sonhadora continuou:
- Elas não têm glândulas salivares, então a dieta precisa ser sempre rica em proteína e água natural. Ratinhos congelados, filhotes de codorna, às vezes grilos vivos… Se você não conseguir alimentar, ela pode adoecer por dentro sem nenhum sinal externo. Ela precisa de um poleiro próprio, comida especial, e um cantinho escuro pra dormir. Corujas não gostam de luz forte. E... ela vai gritar se você deixar o ventilador ligado.
Harry tentava anotar tudo mentalmente, embora o sono ainda atrapalhasse. Luna começou a colocar itens no balcão: uma pequena luva de couro, um cinto para percheiros móveis, um poleiro e até um livrinho com o título “Cuidado Ético com Aves de Rapina”.
- Ah, e você precisa conversar com ela — completou Luna. — Não é sobre ensinar palavras. É sobre ser presença. As corujas percebem mais pelo silêncio do que pelo som. Sua presença e cuidado vai fazer com que ela te respeite.
Luna deu para Harry um pacote que tinha suplemento de cálcio e outras coisas das quais corujas podiam se alimentar.
- Ajudo em mais alguma coisa? – Luna perguntou com doçura e ofereceu um largo sorriso com os olhos fechados.
Harry olhou para tudo ao redor. O que mais podia notar era como os bichos se voltavam para a direção de Luna. Ela tinha um jeito caloroso e honesto. Também agia como se já conhecesse ele. O garoto de óculos olhou ao redor e depois falou:
- Sobre conversar com a coruja... Você parece valorizar bastante isso, né? Conversa com todos os bichos assim?
- Ah, sim! – disse Luna e apontou para um terrário. – Veja esse hamster, por exemplo.
Harry olhou e tinha mesmo um hamster roendo um canudo de papelão. Luna se aproximou e disse:
- Esse é o Cheeky. Não para de me contar que está tentando escavar uma saída. — Ela olhou para Harry. — Mas a gente finge que acredita, pra manter a magia viva, sabe?
Harry riu. E não foi por educação. Aquilo realmente o divertiu. Foi tão leve e espontâneo que não conseguiu se segurar. Fazia tanto tempo que não ria assim, era como se a vida tivesse ficado mais leve só de estar na presença da moça. Ele se virou para Luna:
- Sabe... eu nunca conheci alguém como você. — ele disse, sincero.
Luna deu um sorriso calmo, mas olhou para outro lado, perdendo um pouco o brilho.
- Eu ouço bastante isso... mas não com esse tom, sabe...
- Como assim?
- Eu... não tenho muitos amigos. As pessoas me acham estranha. Na escola, acham que eu invento coisas. Mas meu pai é jornalista, dono do Pasquim, então isso meio que vem no sangue. — Ela hesitou um instante. — Eu perdi minha mãe quando tinha nove anos. Desde então... é só eu e ele... Eu também tenho a minha chefe, a dona deste lugar: A Sra. Sprout... E é isso.
Harry ainda estava preso na fala sobre ela ter perdido a mãe. Ele se sensibilizou e falou com calma:
- Eu... Sinto muito pela sua mãe. Perdi meu pai e minha mãe com oito anos. Eu entendo o sentimento.
Luna olhava para Harry. Então era esse o motivo de ele ter aquele “silêncio” que ela identificou quando o viu pela primeira vez. Os dois olharam um pouco para o hamster enquanto não diziam mais nada. Até que Luna quebrou o silêncio:
- Acho que às vezes, quando a dor chega cedo, a gente começa a ver o mundo com outra lente. Um pouco do porque você não me desmerece, mesmo eu sendo... como eu sou.
Harry olhou para Luna, que olhava para os bichos. Ela era uma mistura de melancolia com alegria que ele nunca tinha visto antes. E o que ela disse parecia fazer total sentido. Era alguém que tinha algo parecido com ele... Alguém incompreendida.
- Você fala como se soubesse coisas que ninguém ensinou.
- Talvez porque eu escuto onde ninguém presta atenção. – Luna deu um sorriso calmo.
Harry sorriu em resposta. Depois, pagou pelos produtos e se organizou para carregar a caixa junto com as sacolas.
- Obrigado, Luna. E, se você permitir... Eu também quero ser mais um amigo seu.
Luna deu um sorriso tão lindo que era como o sol nascendo num vilarejo repleto de flores.
- É claro, Harry! Eu... Obrigada!
Harry sorriu de volta e se preparou para ir embora. Luna correu até a caixa de madeira que ele segurava e falou baixinho:
- Cuida bem dele, Edwiges! Ele já perdeu o suficiente...
A coruja piou, como se respondesse. Harry olhou para Luna uma última vez antes de sair e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma grande paz ao conhecer alguém. Uma paz que trazia esperança e calor em seu coração.
Luna olhava Harry indo embora pela janela do pet shop e, enquanto sorria, murmurou para si mesma:
- Prazer em finalmente te conhecer, Harry...
...
Depois de dar Edwiges para Harry como prêmio a tudo que ele alcançou, Lupin voltou para a sua rotina anterior, mas deixou Harry com as chaves do galpão para continuar os treinos com os olhos vendados sozinho. Harry continuou com esses treinos mesmo sem a presença de Lupin, se esforçando para encontrar a concentração que precisava para identificar sons e movimentos sem depender só da visão. E isso sempre depois dos treinos com Dumbledore e os outros na academia.
Mas além da escola, de cuidar de Edwiges e do boxe, Harry também começou a fazer visitas regulares ao pet shop de Luna. Ele não ia lá todos os dias, mas sempre que surgia uma dúvida sobre Edwiges ou simplesmente queria saber mais sobre cuidados com corujas, ele lá estava. Luna, com seu jeito peculiar, nunca deixava de ensinar com entusiasmo:
- Sabia que corujas podem voar por horas sem fazer o menor barulho? – ela dizia com um brilho no olhar enquanto afagava o coelho Pompom, seu favorito. – Isso é porque elas têm penas especiais que amortecem o som do voo. Imagina como seria poder voar e voltar sem ninguém perceber, Harry?
Harry, ainda se adaptando a sua nova rotina de treino e aprendizado sobre Edwiges, apenas sorria, fascinado pelas palavras de Luna. Ele gostava de como ela explicava tudo com a mesma seriedade que dava para um livro de biologia, mas com o toque de serenidade de quem realmente acreditava na conexão entre os seres vivos.
Na Academia de Dumbledore, os resultados dos treinos de Harry eram visíveis. Ele já estava levando com naturalidade treinos bem rigorosos. Estava dominando os treinos em grupo, com uma precisão que antes parecia fora de seu alcance. Gina, especialmente, começou a reparar no quanto ele havia evoluído. Ela, que sempre fora uma das melhores, agora sentia a presença de Harry como um desafio real, diferente da pessoa que ela derrotou.
Gina sentiu que depois de tanto tempo, poderia finalmente tentar algum contato amigável. Numa dessas tardes, ela decidiu falar com ele.
- Ei, você... – Gina chamou, enquanto ele estava fazendo um treino de sombra, aprimorando seus golpes rápidos. – Você está diferente. Desde o começo... nunca pensei que fosse melhorar tanto assim.
Harry sorriu, meio envergonhado.
- É... não podia ficar do jeito que estava. Eu tava me sentindo meio perdido, mas agora... bem, estou começando a entender mais o que estou fazendo.
Dumbledore, observando tudo de longe, não deixou de expressar sua satisfação.
- Muito bem, Harry. A intensidade com a qual você treina agora é impressionante. Continue assim.
Rony, ao lado de Hermione, deu um sorriso.
- Quem diria, eles conversaram de boas... – disse para a moça de cabelos cheios.
- Ainda bem, né? É mais legal quando as pessoas são civilizadas. – respondeu Hermione.
De repente, Simas Finnigan e Neville Longbottom foram até a dupla.
- Ei, vocês dois têm percebido que o Harry anda indo bastante naquele pet shop do outro lado da rua? – começou Simas.
- O quê? Pro pet shop? – indagou Rony. – Você deve tar confundindo, Simas. Porque o Harry precisaria ir num pet shop, afinal?
- Vocês dois são os mais grudados nele, deveriam saber... – comentou Neville.
- Só que a gente não tá sabendo não. – disse Hermione. – Ele... anda meio afastado de uns meses pra cá.
- Vocês precisam avisar pra ele! – disse Simas. – A menina que toma conta daquele lugar é MALUCA... O pai dela é dono do “Pasquim”, aquele jornal é muito esquisito!
Hermione arregalou os olhos quando o garoto disse aquilo.
- Peraí... o Harry anda conversando com a Luna Lovegood?? – indagou, incrédula.
- Não é aquela esquisita que fala com bichos? – disse Rony. – O que deu no Harry, afinal?
- Sei lá, ela é muito estranha... – disse Simas. – Só achei que deviam saber...
- Caramba... – disse Rony, olhando para Harry, que fazia o treino de sombra, totalmente alheio ao que falavam sobre ele.
...
Mais uma semana se passou e agora era sábado. O dia em Camberwell estava calmo... mas o quarto de Harry estava longe disso. Edwiges voava de um lado pro outro, bicando as almofadas, arranhando o abajur e derrubando livros de cima da cômoda. Harry corria de um lado para o outro tentando acalmá-la, com uma luva de boxe na mão – não que isso fosse adiantar.
- Edwiges! Se acalma, por favor! Você já destruiu um caderno inocente...!
A coruja piou alto e voou ainda mais alto. Harry soltou um longo suspiro, dando-se por vencido.
De repente, ele teve uma ideia quando viu o próprio celular na cama. Na verdade, era um último recurso, já que estava sem opções. Ele procurou o número que Luna deixara no panfleto do pet shop, meio rabiscado à mão. Discou o número e ligou.
Algum tempo depois, a campainha da casa dele foi tocada. O garoto de óculos se apressou em atender, usando roupas caseiras e um chinelo. Ali estava Luna Lovegood. Ela vestia uma jaqueta jeans, saia longa azul-marinho, meias listradas amarelas e pretas (como as da personagem Louisa Clark do filme Como eu Era Antes de Você), e um par de tênis brancos gastos. Os cabelos loiros bem longos como sempre, como cachoeira dourada em dia de sol. Ela sorria como se o dia tivesse acabado de nascer.
- Ouvi dizer que a Edwiges declarou guerra ao mundo. – disse Luna com seus olhos sonhadores.
Harry riu, meio envergonhado e respondeu:
- Ela tá... um pouquinho agitada. Ah, Minerva, essa aqui é a minha amiga do pet shop. Luna Lovegood.
McGonagall, que tinha aparecido para ver quem tocou a campainha, ficou sem palavras quando viu a garota de roupas excêntricas. A professora reparou que ela tinha uma paz no olhar que era rara de se ver em qualquer idade.
Luna não se intimidou com os olhos que a analisavam. Só sorriu com gentileza e cumprimentou a tutora com um “bom dia” educado e sincero.
- Muito prazer, minha jovem. – disse McGonagall. – Harry está com alguns... desafios, digamos assim. Mas agradeço por ter vindo. Sinta-se à vontade.
- Obrigada! – respondeu Luna – É sempre bom visitar quem precisa ser ouvido.
Enquanto Luna seguia Harry até o quarto dele, McGonagall observava e notou como os olhos de Harry brilhavam com aquela presença. Ela soube que, apesar de não entender tudo sobre aquela garota… ela fazia bem para o rapaz.
- Hmm... aquela idade chegou, pelo visto... – Minerva murmurou para si mesma.
Harry ficou bastante envergonhado quando abriu a porta e mostrou o quarto completamente bagunçado. Luna entrou com calma e mexendo a cabeça para a direita e para a esquerda, como se ajustasse o cabelo imenso que ela tinha. Antes que Harry falasse, ela olhou para o local exato onde a coruja estava. Isso deixou o de óculos bastante impressionado “É como se ela... sentisse os animais...”, pensou Harry.
- Ah, aí está a estrela do espetáculo! – disse Luna.
- Luna... desculpa pelo quarto caótico... E bem na primeira vez que você vem aqui.
Sorrindo, Luna sacudiu a cabeça com tanta meiguice que Harry ficou corado. Em seguida, ela se sentou à cama do rapaz. Edwiges voou até uma cadeira do quarto, como se reconhecesse a presença da loira. Harry observou como Luna, sem dizer uma palavra, apenas ergueu a mão com calma, estendeu dois dedos, e os manteve ali — próximos à coruja, sem forçar o toque.
Edwiges piou uma última vez… depois se aproximou devagar… e pousou no colo dela. Luna começou a afagar a coruja com carinho e depois foi sussurrando:
- Shhh... tá tudo bem. Você só quer ser compreendida, não é? Igual a ele... Igual a mim...

Harry a observava. Encantado. Era como ver uma criatura mágica domar o caos com a alma. Aquela visão era tão bonita que ele sentiu o rosto ardendo, enquanto corava fortemente. Foi a primeira vez que seu coração bateu fora do ritmo enquanto olhava uma garota. E foi por uma menina com meias listradas e um olhar que entendia o que ninguém mais via.
Pouco depois, o caos havia terminado. Edwiges, agora tranquila, bicava suavemente a lateral da pequena luva de couro no canto da cama. Harry e Luna estavam organizando as coisas espalhadas e desfazendo toda a bagunça. Só que agora, o garoto de óculos estava realmente desconcertado. O perfume de Luna tinha tomado conta do quarto. Era... diferente. Algo entre lavanda e chuva de primavera. Harry tentava focar nas gavetas, mas estava difícil. Luna se aproximou para pegar um livro caído. O cabelo longo balançou, escorrendo pra frente. Ela, então, jogou uma mecha dourada para trás da orelha direita, como quem revela um segredo.
Harry engoliu em seco e travou. Ele olhou rapidamente para outro lado e começou a falar, gaguejando, enquanto ficava vermelho como um tomate:
- M-M-Muito obrigado pela ajuda, Luna. E desculpa te fazer vir até aqui… e pelo quarto bagunçado… E... Pela situação com a... Edwiges...
Luna apenas sorriu, com uma doçura que desarmava qualquer constrangimento. Ela se aproximou de Edwiges e fez um leve carinho em sua cabeça. Depois falou com a ave:
- Você vai colaborar com ele, certo? Só um pouco mais de paciência.
Edwiges respondeu com um sonoro “kroo”, como se resmungasse.
Momentos depois, o cenário era a cozinha. McGonagall preparou um lanche simples, mas acolhedor. Como de costume, havia pão, chá, torradas e geleia de morango. Era um agradecimento à Luna pela ajuda. A loira aceitou e os três puderam conversar. A professora estava mais e mais impressionada pela inteligência de Luna, apesar da maneira sonhadora de ser que ela tinha. A conversa fluiu com uma calma reconfortante, o que deixou Harry muito feliz.
- Eu quero ser uma grande bióloga um dia! – dizia Luna. – Estudar comportamento animal. Não só os de verdade… também os que vivem na imaginação das pessoas!
McGonagall arqueou as sobrancelhas, interessada. E então disse:
- Isso sim é uma carreira admirável. Cuidar da vida. Bem diferente de... levar socos e pancadas por aí.
Harry olhou para ela com um sorriso cortante.
- Obrigado pelo apoio, como sempre. – disse cheio de sarcasmo.
Luna limpou os cantos da boca com o guardanapo e respondeu calmamente:
- Existe poesia no que o Harry faz. O corpo também pode contar histórias. O ringue é como uma página em branco… e os movimentos são a caligrafia.
Silêncio. McGonagall e Harry se entreolharam.
- … Hã? – a professora ficou confusa.
- … É. – Harry deu um sorriso sem jeito.
Ambos sorriram para Luna, meio perdidos, meio encantados. A loira olhava sorrindo para o chá, como se fosse uma iguaria de outro planeta, perdida em seus pensamentos e com o olhar sonhador.
O que eles não sabiam é que ela estava pensando em Harry. A presença dele era, para ela, acolhedora como o sol da manhã atravessando uma janela. Ela o admirava porque mesmo ainda não sendo o dono ideal para Edwiges, ele estava TENTANDO. Luna olhou de lado para Harry quando ele comentava algo com McGonagall e pensou “Você é como o som da chuva antes dela cair, Harry... Ninguém percebe… Mas eu percebo”.
...
Conforme os dias vão passando, Harry vai se aproximando mais de Luna e as visitas ao pet shop são cada vez mais frequentes. O garoto de óculos divide com ela o seu dia a dia e a loira sonhadora transmite conhecimento, positividade, reflexão e belos sorrisos. Numa sexta-feira, ele decidiu não ir para o galpão para fazer o treino vendado e chamar Luna para tomar sorvete na sorveteria Hogsmeade. Ele se dirigiu direto para o pet shop assim que o treino coletivo de boxe terminou e fez o convite para ela.
- Hmm! Eu adoro sorvete! – disse Luna – Eu penso em unicórnios coloridos quando misturo sabores... Quero ir sim! Espera só um pouco enquanto fecho a loja?
- Claro que espero! – disse Harry, animado.
Naquele momento, Rony e Hermione estavam escondidos no canto de uma parede, observando Harry.
- Caramba, parece que os boatos são verdadeiros... – disse Rony. – O Harry está mesmo bem amigo da tal Luna.
- Ah, daqui parece que ele tá feliz. – respondeu Hermione. – Só não consigo entender. Imagina os papos malucos que ela deve ter...
- As crianças crescem tão rápido... Aos pais só resta entender. – disse Rony, cheio de sarcasmo e rindo.
- Tá dizendo que Harry era o nosso filhinho, “esposo”? – indagou Hermione com uma sobrancelha levantada e também sarcástica.
- De boxe, né... – disse Rony, com um jeitão largado. – Mas sei lá, depois perguntamos pro Harry sobre isso. Melhor que criar hipóteses malucas.
- Tá, vamos logo pra minha casa! Você disse que precisava de ajuda pra estudar pra prova! – disse Hermione, já empurrando o ruivo.
- O que seria de mim sem você, Mione...
Hermione riu, revirando os olhos.
Depois que Luna fechou a Lepus, ela e Harry foram andar para a sorveteria. Caminhavam calmamente, falando de coisas leves: animais raros, o som das folhas secas no outono, e a quantidade exata de açúcar que se deve pôr no chá. Porém, uma presença apareceu diante dos dois na calçada.
Era o garoto loiro com agasalho preto que tinha derrubado Harry na calçada meses atrás. Mãos nos bolsos, sorriso venenoso. Seus olhos brilharam quando viu Harry… e Luna. Era Draco Malfoy. Harry ficou apreensivo ao ficar de frente com ele novamente. Luna se lembrou do ocorrido e se preocupou na mesma hora. O loiro se aproximou com seu sorriso desafiador:
- Ora, ora… se não é o herói de “meia-luta” e quatro-olhos! Tô surpreso que ainda tem coragem de sair na rua depois daquele dia!
Harry cerrou os punhos, ofendido. Luna, atrás, travou. Os olhos arregalados, mas não por medo — por tensão.
Draco agarrou Harry pela gola, os olhos faiscando com aquele prazer venenoso que só ele sabia sentir. Falou com escárnio:
- E essa menina aí? Ah, me lembrei! Essa aí não é a maluca desequilibrada daquele pet shop de frente praquela academia ridícula que você frequenta? Apanhar de meninas é o seu lance, moleque? Tá apanhando dela também, é?

O sangue de Harry ferveu. Os punhos cerrados, o maxilar trincado. O corpo inteiro pronto pra explodir.
- Não, não, não! – Luna falou com firmeza.
Ela se enfiou no meio dos dois. Com as mãos delicadas, empurrou Draco para um lado e Harry para o outro. Draco limpou a camisa como se Luna fosse algo impuro e foi falando:
- Tira a mão de mim, sua anormal!
- Malfoy! – gritou Harry. – Você vai pagar por tudo que tá dizendo!!!
Luna virou-se, olhando diretamente nos olhos de Harry. Não havia medo. Só serenidade.
- Harry. – Ela foi falando com a voz mansa, mas firme. – Você tava caminhando comigo. Não muda o foco.
Harry olhou para os olhos azuis enormes dela. Luna abaixou o tom:
- Não tem ninguém ali dizendo nada que importe pro mundo inteiro… ok?
Harry ainda tremia. As veias saltadas no pescoço, a testa úmida. Mas os olhos… estavam grudados nos de Luna. Ela o empurrava suavemente, na direção contrária. Harry tentou protestar:
- Mas Luna, ele te chamou de…
- Harry. Passeio. – disse Luna com um sorriso calmo – Não tem nada ali. Vamos.
Draco ficou parado, rindo sozinho. Mas por dentro, ficou decepcionado por não ter conseguido provocar o garoto de óculos. Harry olhou para trás uma última vez… e seguiu com Luna.
Segundos depois, a loira sonhadora já caminhava com o mesmo sorriso tranquilo de antes, como se o mundo não tivesse ameaçado desmoronar. Harry olhava para ela impressionado.
- Como você faz isso? – indagou o garoto de óculos.
Luna andava serena, olhando as nuvens e respondeu:
- Se eu der atenção à escuridão… ela cresce. Os problemas só têm o tamanho que nós dermos a eles...
Harry ficou sem palavras. As pessoas que subestimam Luna não têm ideia da maturidade que ela realmente tinha. Ficou ainda mais admirado pela moça sonhadora.
...
Agora era dia 6 de outubro. Era a segunda-feira que se seguiu logo após o segundo encontro de Harry com Draco. O garoto de óculos estava na academia de boxe, colocando as bandagens para treinar junto com Rony e Hermione. Ele aproveitou para perguntar:
- Pessoal, vocês já ouviram falar de uma academia chamada “Dark Cobra”? Eu... me desentendi com três rapazes que falaram que treinam nesse lugar.
- O quê?! – Rony falou alto sem perceber, arregalando os olhos. – Harry, o que você anda fazendo? Como assim se desentendeu com três malucos DAQUELE LUGAR!
Harry ficou meio assustado, não imaginou que o assunto era delicado. Hermione foi falando:
- Harry, essa academia fica em Bethnal Green. Não é tão longe daqui, com uns 15 ou 20 minutos andando você chega lá. É uma área perigosa... Eles treinam num prédio antigo com janelas cobertas por tapumes. É super escuro dentro daquela academia, não estou brincando! Não se comenta muito sobre ela aqui porque... o treinador de lá era colega do Dumbledore.
- É mesmo? – disse Harry, surpreso.
- Harry, só malucos treinam lá! – disse Rony. – Só sociopatas, agressores, gente que gosta de confusão e de violência! O treinador de lá se chama Severo Snape. Ele era colega do Dumbledore mesmo, antes da nossa época aqui, mas os dois viviam entrando em atrito por causa do método de ensinar. Aí o Snape se cansou e decidiu ter a própria academia.
- Snape acredita mais na disciplina e na frieza do que no coração e na emoção... – disse Hermione. – Harry, é importante ter disciplina e frieza, mas é preciso equilibrar isso com a emoção, com os sentimentos! As pessoas que ele treina se tornam boxeadores muito bons, mas não boas pessoas... entende?
- Entendi... – disse Harry. – Então, prefiro mil vezes ficar aqui.
Rony e Hermione sorriram. Logo, os três foram fazer seus treinos.
Depois de meses se aperfeiçoando tanto na academia quanto no galpão de Lupin, o nível de Harry estava tão alto que já era comparável com os quatro mais habilidosos (Gina, Dino, Cho e Angelina). Rony e Hermione já não conseguiam acompanhar a habilidade dele como antes. Mas não sentiam qualquer inveja, pelo contrário, eles o incentivavam a manter o ritmo. Nos aquecimentos, era o mais rápido. Nas sequências de socos, o mais fluido. Nos exercícios com saco de pancada, o mais intenso. Gina notava. Dino apenas o olhava com olhar nervoso, como se tentasse encontrar o truque por trás daquela “evolução milagrosa”.
Dumbledore parou ao lado de Angelina. Observou Harry executar um combo perfeito de jab-jab-gancho, finalizando com giro de quadril e recuo técnico. E o trabalho de pernas excepcional, movendo-se com uma leveza e segurança notáveis. O treinador comentou com Angelina:
- Sabe o que eu vejo? Um futuro campeão. Ele se perdeu... mas com trabalho duro, se encontrou. É isso que acontece quando alguém descobre a si mesmo e tem a humildade de deixar que outros o ajudem.
- Treinador, Harry está incrível! – dizia Angelina. – Eu também tô começando a ver alguns troféus, medalhas e até cinturões no futuro dele!
Dino ouviu e ficou furioso por dentro. Quando viu que até Gina já estava indo para a direção de Harry, ele rosnou entre os dentes e começou a bater com ódio no saco de pancadas onde treinava.
Harry se secava com uma toalha de rosto quando reparou que Gina estava se aproximando. Ela tinha uma expressão tímida, mas o que ela precisava fazer não podia esperar mais.
- Ei… — começou a ruiva. – Queria pedir desculpas. De verdade. Pelo que aconteceu naquela luta, meses atrás. Eu… tava cega. De raiva. De orgulho. Eu me deixei manipular por uma pessoa que não merecia a minha confiança… Você não merecia aquilo. Se não me perdoar... Eu vou entender. Mas eu realmente precisava dizer isso.
Harry olhou nos olhos dela e sorriu.
- Obrigado, Gina... Por mim, está tudo bem. Vamos deixar isso pra trás. Da minha parte, você e eu estamos de boa. Ficarei muito feliz se pudermos ser amigos.
Gina deu um sorriso maravilhoso, radiante. Ela estendeu o punho direito fechado. Harry estendeu o dele e eles bateram os punhos, selando a nova amizade. De longe, Neville olhou e ficou muito feliz com a cena, respeitando ainda mais a ruiva pela qual ele tinha sentimentos românticos. Gina foi abraçada de lado pelo irmão Rony. Ele e Hermione viram a cena e se aproximaram, animados.
- Essa é a minha maninha! – disse Rony. – Agora eu tô feliz mesmo!
- A gente te adora, Gina. Que bom que ficou de bem com o Harry! – disse Hermione. – Vai ser legal ter mais gente pra fazer coisas divertidas!
- Ela diz isso, mas falou que não vai poder ir na Noite de Lutas. – resmungou Rony.
- “Noite de Lutas”? – indagou Harry.
- Harry, eu chamei o Neville e também estou te chamando. – disse Rony. – Meu pai tem uma coleção incrível de lutas de boxe lá em casa... O velho é um fanático, não tô brincando. Aí nós vamos assistir a essas lutas enquanto comemos pipoca, tomamos refrigerante e qualquer outras guloseimas! Anima? A Gina também vai participar, claro!
- Pior que vou... – disse Gina com um sorriso sem jeito, tentando tirar o braço do irmão. – Anima, Harry?
- Mas é claro que animo! Estão brincando?! – disse Harry. – Eu nunca passei a noite na casa de amigos, isso vai ser incrível! Ainda mais vendo lutas de boxe!
- Eu não vou poder, vou viajar com meus pais no fim de semana... – disse Hermione, meio desanimada. – Mas não deixa de ir, Harry! Eu adoraria estar lá, comentando cada luta!
- Pelo menos teremos silêncio! – Rony disse dando uma risada debochada.
Hermione o perseguiu comicamente para bater nele com a própria toalha por causa do comentário enquanto Harry e Gina davam risada. Os dois se olharam e sorriam um para o outro, agora com a nova amizade.
...
Na sexta-feira à noite, a casa dos Weasley estava iluminada, cheia de risadas, cheiros de pipoca amanteigada, refrigerante e sons de socos secos ecoando da televisão. O velho aparelho estava ajustado para transmitir uma coletânea de lutas icônicas que o Sr. Arthur Weasley, um entusiasta de boxe clássico, mantinha em fitas gravadas com muito zelo. Harry, Rony, Gina e Neville estavam sentados no chão de frente ao sofá, admirando os grandes momentos do boxe. Neville, usando um agasalho cardigã cinza, estava feliz não apenas pelo momento divertido com amigos, mas pela oportunidade de passar um tempo mais descontraído ao lado de Gina.
As lutas assistidas incluíam:
· Muhammad Ali vs. Sonny Liston (1965) – A famosa luta em que Ali derrubou Liston com o lendário “Golpe Fantasma”. Todos ficaram em silêncio quando a cena foi reprisada em câmera lenta. Harry se lembrou da foto no escritório de Dumbledore e seus olhos brilharam. Ali era sua principal inspiração para a movimentação no ringue.
· Rocky Marciano vs. Jersey Joe Walcott (1952) – Os garotos ficaram impressionados com a força bruta e resistência de Marciano. Neville deixou a pipoca cair de susto quando um soco brutal do pugilista fez um som forte no vídeo, tirando risada da turma.
· Mike Tyson vs. Trevor Berbick (1986) – Gina se animou MUITO com a brutalidade de Tyson aos 20 anos, quando conquistou seu primeiro cinturão mundial. O estilo que ela decidiu usar no boxe era inspiração direta dele.
· Evander Holyfield vs. Riddick Bowe I (1992) – Gina comentou o quanto Holyfield parecia calmo até quando levava os piores golpes. Harry ficou impressionado com a tenacidade e técnica de Holyfield.
· Oscar De La Hoya vs. Fernando Vargas (2002) – Rony ficou espantado com o controle de distância e jogo de pés dos dois. A luta fez com que eles até parassem de comer para não perderem nenhum momento.
· Zab Judah vs. Cory Spinks (2005) – A mais recente da noite. Harry ficou fascinado com a velocidade de Judah, comparando-a com os movimentos que treinava com Lupin.
- Parece até dança, né? – comentou Harry enquanto assistiam à luta entre Judah e Spinks.
- É tão rápido que mal dá pra ver de onde vem o soco. Tipo você nos treinos ultimamente – disse Rony, dando um soco amistoso no ombro dele. – Sério, você está num ritmo absurdo.
- Valeu... – disse Harry, encolhendo um pouco os ombros, envergonhado.
- Ei, Harry, fiquei sabendo que você agora tem uma coruja! – disse Gina. – É ela quem vem te dando sorte no boxe? Se for, eu também vou comprar!
- Na verdade, ela me dá é muito trabalho, isso sim... – disse Harry com um olhar de desdém, pensando que Edwiges resmungaria um kroo bem desafiador se o ouvisse dizendo aquilo. – Mas tá dando certo porque a Luna tem me ajudado muito.
- Luna? – indagou Gina. – É aquela Luna esquisita do pet shop do outro lado da rua?! Gente, aquela menina precisa cortar o cabelo urgente! Deve gastar uma fortuna com hidratante!
- É essa Luna mesmo, Gina. – disse Rony. – Aquela que vive falando com os animais como se fossem amigos imaginários... Eu e a Hermione já vimos o Harry lá. O pai dela é dono de um jornal maluco, né?
Harry fechou a cara quando eles falaram daquele jeito de Luna com tanta naturalidade. Neville foi o próximo:
- O Pasquim. O pai dela escreve umas paradas bem doidas. – Neville falava enquanto atacava um pacote de jujubas. – Teve uma edição que disse que “vacas podiam voar se comessem o mato certo.”
Todos riram, menos Harry. Ele apertou os punhos discretamente e olhou sério para a TV, sem conseguir ignorar a conversa.
- Ela é legal. – disse, em voz mais firme que o habitual. – É inteligente, entende muito de animais e... é gentil. Talvez mais do que muita gente por aí.
O silêncio se espalhou por alguns segundos.
- É, pode até ser. – respondeu Rony, fazendo um gesto ambíguo com a mão. – Mas, sei lá, acho que ela prefere conversar com bichos do que com gente. Meio difícil se aproximar.
Harry mordeu o lábio inferior. Não queria brigar com Rony. Gostava muito dele, mas sentia-se desconfortável com a forma como estavam falando de Luna. Era como se estivessem zombando de uma parte dele mesmo. Mas quando sentiu a raiva quase borbulhando, lembrou-se das palavras da loira sonhadora: “Os problemas só têm o tamanho que nós dermos a eles”. Ele respirou fundo e se acalmou. Depois, respondeu sem olhar diretamente pra nenhum deles:
- Talvez ela só esteja esperando as pessoas certas pra conversar.
O clima se suavizou de novo quando começou uma nova luta: era a luta em que Gideon Prewett se tornou Campeão Europeu pela EBU. Harry reconheceu na hora.
- Ei, esse é o Gideon Prewett! Um dos grandes alunos de Dumbledore! Ele é incrível não é?
Rony olhou para Gina e a ruiva suspirou fundo. Depois, ela foi falando:
- A gente nunca contou, mas... Prewett é nosso tio. Irmão da nossa mãe.
- O QUÊ? – Harry e Neville indagaram em uníssono, surpresos.
- Pois é, a gente tem sangue de campeão! – disse Rony, rindo. – Sem falar na cabeleira vermelha, claro...
Isso distraiu o grupo, e a conversa sobre Luna morreu ali.
Mais tarde naquela noite, quando todos já estavam deitados e a TV desligada, Rony virou-se para o lado de Harry e falou em voz baixa:
- Cara, eu não quis pegar pesado sobre a Luna Lovegood, tá? Se ela é tua amiga, beleza. Só... sei lá, a gente sempre ouviu que ela era meio “fora da casinha”.
Harry, deitado de costas, olhando para o teto, respondeu:
- Às vezes, ser diferente é só ser corajoso demais pra fingir que é igual aos outros.
Rony deu um riso sonolento.
- Agora parece mais que você virou filósofo... A gente vai respeitar a Luna, ok? Vou pedir isso pros outros também. Boa noite, cara.
- Boa noite... e obrigado.
Harry fechou os olhos e pensou na imagem de Luna falando com o coelho como se ele fosse um velho amigo. E de como, com ela, o mundo parecia menos duro. Menos cinza. E como cada um, a sua maneira, estava buscando formas de enxergar o mundo com menos superficialidade.
Continua...
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