Harry Potter: O Leão do Ringue
7 A Lua que Brilha
O sábado estava nublado, e uma garoa fina caía sobre os paralelepípedos da rua em frente ao pet shop Lepus. Harry se dirigia, com o capuz tapando os pingos, até o local. Ele teve um vislumbre na noite anterior, depois que Rony pediu desculpas por caçoar de Luna: que talvez ela tivesse um pouco da capacidade sensorial que Lupin estava tentando ensinar para ele. A maneira como ela lia as pessoas e os animais não era coisa que qualquer pessoa possuía. Então, ele decidiu visitar a amiga para testar sua teoria.
Quando empurrou a porta de vidro do pet shop, ouviu o sininho tilintar e o som de uma melodia instrumental suave tocando ao fundo. Lá dentro, Luna estava ajoelhada diante da gaiola de um casal de calopsitas, murmurando algo com doçura.
— Ei, Luna. – chamou Harry, com um sorriso tímido.
Ela se virou devagar, os cabelos loiros presos num coque improvisado e a blusa com estampa de constelações um pouco torta no ombro.
—Olá, Harry. Edwiges gostou das sementes de amora que você levou no outro dia?
— Adorou. E também... me bicou menos hoje de manhã.
Luna riu baixinho.
— Isso significa que ela te respeita agora. Ou que sonhou que você era uma coruja também. Elas respeitam os da mesma espécie.
Harry franziu o cenho, sem saber se ela estava brincando ou falando sério – talvez os dois.
— Escuta... Ontem eu vi umas lutas de boxe com o Rony e o pessoal. Fiquei pensando se você... se você gostaria de ver uma comigo. Tipo... só pra gente conversar mesmo.
Luna piscou lentamente, surpresa.
— Interessante. Eu nunca vi uma luta de boxe. – disse a loira sonhadora.
— Então é perfeito. Você vai ter um olhar único disso. – disse o garoto de óculos. – Quero saber o que você percebe. Não precisa entender as regras nem nada... Só... observa, assim como você olha os bichos.
Luna ficou imóvel por um instante. Depois assentiu com a cabeça, os olhos arregalados e curiosos.
— Você tem um computador aqui? – perguntou Harry.
— Tenho. Mas ele é um pouco mal-humorado... gosta de ser ligado com carinho. – respondeu Luna.
Harry sorriu e pegou um pen drive do bolso. A loira se levantou, caminhou com leveza até uma mesinha onde ficava um notebook antigo. Conectou o pen drive sem perguntar nada. Enquanto Luna estava sentada, o garoto de óculos ficou de pé ao lado dela enquanto ela abria o vídeo que tinha no pen drive.

A luta era Zab Judah vs. Cory Spinks (2005), uma das mais rápidas que ele já vira e tinha assistido um dia antes na casa de Rony. Luna assistia com atenção, os olhos fixos nos dois boxeadores que se movimentavam, batiam e recuavam.
Ela não dizia nada.
Harry resistiu ao impulso de explicar, de narrar ou de dizer quem era quem. Apenas esperou.
Depois de um tempo, Luna falou:
— O da direita... está mais impaciente. Ele quer terminar isso logo. Seus pés estão mais nervosos que os braços. Já o outro... está escutando. Não o som. Mas os gestos. Ele sabe quando o outro vai errar.
Harry arregalou os olhos. Aquilo fazia sentido. Judah estava de fato se movendo de forma mais solta, respondendo às intenções do adversário – não aos socos em si.
— Como você sabe disso? – perguntou ele, ainda olhando a tela, mas com os pelos do braço arrepiados.
Luna deu um leve sorriso.
— Não sei. Só... vejo como os corpos contam segredos. Os animais fazem isso o tempo todo. As pessoas também. Só que escondem melhor. Ele aí, o de shorts mais vermelho... ele está começando a perder o equilíbrio emocional, porque o outro está mais confiante, desviando melhor. Vai errar no próximo ataque. Aposto um pacote de sementes de girassol.
Segundos depois, Judah desviou de um soco e contra-atacou Spinks com precisão.
Harry se virou para ela, boquiaberto.
— Você... conseguiu entender tudo sem eu explicar... E ainda antecipou o resultado...
— Sim. É como... ler nuvens. Elas nunca mentem. As pessoas só acham que sim porque esqueceram como olhar.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, admirando aquele jeito calmo e incomum de Luna. Ela olhava para a luta, não com olhos de torcedora, mas de quem traduz cada movimento como se os corpos estivessem dialogando. Harry se lembrou das palavras de Dumbledore: “Boxe é um diálogo – não um monólogo. Se você só bate, então não está ouvindo.” E era por isso que Judah estava vencendo: ele não estava só lutando, estava entendendo Spinks. Ele estava prestando atenção no “diálogo”, aprendendo tudo sobre o adversário durante a luta e mantendo a calma, escolhendo o momento certo para agir. Harry estava chocado. Ele pausou o vídeo da luta sem aviso e virou Luna com as mãos aos ombros dela para a direção dele. Esta ficou com os olhos arregalados.
— Luna, você... você é BRILHANTE. Isso que você faz pode ser o maior trunfo de um lutador. Ler o corpo, a intenção, antes que o golpe venha. Luna... você tá lendo eles como se fossem... livros. Como se tivesse dentro da cabeça deles. Você... consegue sentir o que eles vão fazer. Isso é muito incrível! Eu treinei isso com o Lupin, mas você faz sem esforço. Por favor, me ajude a treinar...! Me ensina isso!
Luna ficou tão vermelha quanto as bochechas de uma raposa. Ela abaixou um pouco a cabeça e mordeu o lábio. Nunca tinha sido elogiada com tanta intensidade.
— Você quer que... eu seja sua treinadora? – perguntou baixinho.
— Não treinadora, tipo... "conselheira dos olhos" – brincou ele. – Quero aprender a ver como você vê.
Ela hesitou por um instante, olhando para o coelho ao seu lado – seu companheiro silencioso, que mordiscava uma cenoura – e enquanto se emocionava por dentro, sussurrou:
— Ninguém nunca quis aprender comigo antes...
— Pois eu quero! – disse Harry, com convicção. – E não é só por Edwiges ou por boxe. É porque... você vê o mundo de um jeito que eu nunca vi.
Luna olhou nos olhos dele. Não havia riso ali, só ternura e surpresa.
— Talvez... então... você esteja começando a ver como eu vejo. Eu estou feliz... não estou mais sozinha...
Agora foi Harry quem corou fortemente. Ele engoliu em seco e começou a tremer um pouco. O sorriso que Luna estava dando para ele fez com que o coração dele batesse mais depressa.
— E-E-Então... Você aceita?!....
— Aceito sim, Harry. – respondeu Luna com um sorriso meigo.
Harry estava corado até as orelhas. O jeito que ela respondeu foi como se ele tivesse a pedido em casamento. Após, ele removeu o pen drive do notebook dela e combinaram de ela o chamar no telefone para marcar a “aula de como enxergar com o coração”.
...
A rotina de Harry seguiu como de costume nos dias que se seguiram e novembro de 2008 chegou. Escola, treinos na Academia de Boxe de Dumbledore e treinos solitários com os olhos vendados no galpão de Lupin – e ainda achava um tempo ou outro para visitar Luna no pet shop. Ele perguntava para ela quando seria a primeira lição. Ela respondia “Faltam apenas alguns dias...”. Isso o deixava com dúvidas, mas preferiu a emoção da surpresa.
A segunda quinzena de novembro chegou trazendo aquele friozinho mais sério, cortante, que entrava pelas frestas do casaco e deixava o céu de Londres com uma tonalidade quase prateada. As árvores já estavam praticamente despidas, seus galhos secos desenhando linhas tortas e elegantes contra o fundo cinza azulado do fim de tarde. Harry estava encerrando mais um dia, deitado à cama e conversando com Edwiges – que agora o respeitava como dono. Quando, de repente, o celular tocou. Ele atendeu e era Luna:
— Esteja disponível amanhã à noite, Harry. – dizia a loira. – Eu não vou te levar pro ringue... mas sim pro RINQUE.
Após dizer aquilo, ela deu uma risadinha leve. Harry até demorou dois segundos pra entender o trocadilho, mas assim que percebeu, soltou uma risada curta, meio desconfiada. Patinar no gelo? Isso definitivamente não fazia parte dos treinos do Lupin...
— Tá brincando comigo, né?
— Tô, mas é sério. – respondeu ela, serena, como quem diz que o céu é azul ou que coelhos gostam de cenouras.
Harry ficou meio desconcertado, mas continuou ouvindo o plano.
No dia seguinte, logo depois do treino na academia de boxe, Harry estava bem arrumado, com agasalhos adequados. Encontrou-se com Luna no metrô e ela também estava bem bonita, usando um casaco de frio verde, com uma blusa amarela de gola alta por baixo, uma saia amarela e meia-calça marrom. Pegaram a linha District, seguindo até a estação South Kensington, uma região elegante, cheia de casarões vitorianos, museus, cafés aconchegantes e ruas que cheiravam a pão recém-assado misturado com aquele perfume úmido e limpo das folhas no chão.
O caminho da estação até o museu era uma caminhada rápida, de pouco mais de cinco minutos, atravessando uma passarela coberta que protegia os pedestres da garoa teimosa de Londres. E ali estava ele: o Museu de História Natural de Londres. Majestoso, imponente, um verdadeiro castelo da ciência, com suas paredes de pedra em tons de areia e detalhes neogóticos, janelas arqueadas e torres que pareciam tocar o céu.
Mas o que mais chamava atenção naquela noite era o que estava montado bem na frente do museu: a famosa Pista de Patinação no Gelo do Museu de História Natural (Natural History Museum Ice Rink). Um retângulo branco e reluzente cercado por pequenas luzes amarelas presas aos troncos das árvores — árvores secas, nuas, que pareciam decorar o lugar com uma beleza meio melancólica, meio mágica.
Ao redor da pista, havia um deque de madeira, onde algumas pessoas tomavam chocolate quente, observando os patinadores escorregarem, rirem, caírem e levantarem. Havia também um pequeno carrossel iluminado, que girava lentamente, quase como se pertencesse a um outro tempo. Harry parou, olhando tudo aquilo com uma expressão que misturava fascínio e pavor. O gelo parecia ao mesmo tempo lindo e traiçoeiro.
— Bom, eu preciso avisar que... Eu nunca fiz isso na minha vida. – confessou, ajeitando os óculos enquanto observava um garoto escorregar espetacularmente, cair de bunda e depois levantar rindo.
Luna sorriu para ele e foi falando:
— Perfeito, então! Estamos começando do zero. Gosto disso. Garanto que é mais prazeroso que trocar socos! Vem, vamos alugar nossos patins!
Harry deu um sorriso sarcástico, mas logo foi puxado pela mão por Luna. Ela parecia realmente animada e a simples visão disso já fez com que Harry não ficasse nem um pouco arrependido. Naquela altura, ele não sabia mais se era mesmo uma lição ou um encontro. Não estava conseguindo imaginar como ele aprenderia mais sobre percepção sensorial naquela atividade.
Após comparem o ingresso e informarem o tamanho dos calçados, eles foram para a área onde ficava o balcão, com centenas de pares de patins. Entregaram o bilhete para o atendente, que passou para ambos os patins. Para Harry, eles pesavam mais do que ele esperava. O couro era frio, meio rígido. Ele olhou pro par, depois olhou pro par de Luna... e, de repente, se perguntou como diabos aquilo seria confortável.
Foram até os bancos de madeira. Ao redor, todo mundo fazia aquele ritual engraçado: sapatos voando pro lado, mochilas abertas, cadarços apertando, botas rangendo. Alguns riam, outros já estavam tropeçando antes mesmo de chegar no gelo. Assim que tirou os tênis e colocou seus patins, Harry fez uma careta. Eles eram frios e nada confortáveis. Enquanto ajustava os cadarços, perguntou:
— É normal serem tão apertados assim?
Luna deu um sorrisinho, já amarrando os dela com movimentos ágeis, como quem fazia aquilo desde que nasceu.
— Sim. É o gelo te abraçando antes mesmo de você entrar! Vamos?
Harry ficou apreensivo. O medo de cair e passar vergonha na frente dela era mais desconfortável que os patins que usava. Eles andaram por uma rampa de borracha até a entrada da pista. Luna entrou, deslizando com graça digna de um anjo. O cabelo rodopiou com ela quando fez um movimento cheio de confiança. Harry se segurava nas beiradas como se fosse uma criança. Ele entrou e já foi tentando se equilibrar. “Lembra dos treinos de equilíbrio nos pneus!”, pensava Harry. O preparo de boxeador que ele tinha ajudou para que ele conseguisse manter certo equilíbrio no gelo.
— Vejam só, o Sr. Harry Potter se equilibrou no gelo! – dizia Luna, patinando com os braços para trás e rodeando Harry.
Harry riu de leve, sendo rodeado pela loira.
— Tem certeza que isso é uma aula de percepção?... – perguntou o garoto de óculos, se equilibrando como podia. – M-Minhas mãos tão congelando...
Luna foi até Harry e segurou as mãos dele com suavidade. O calor... foi indescritível. Harry olhou para os olhos de Luna, que olhou de volta para os dele. Aquilo que ele estava sentindo... ele nem sabia descrever. Era acolhedor e intenso ao mesmo tempo. Com o toque, ele se equilibrou melhor e o frio das mãos estava se dissipando.

Luna olhou para a pista, para as famílias, casais, crianças e disse:
— Harry... Todos nós somos parte desse mundo. Tudo e todos existem e coexistem, mesmo que não percebam. Cada pessoa tem a sua música. Eu tenho a minha, você tem a sua. Feche os olhos...
O garoto de óculos olhou para ela por alguns segundos, impressionado. Depois fechou os olhos como ela pediu.
— Concentre-se nos sons. Os patins raspando no gelo. Ouça... mergulhe nesse diálogo. O que o gelo está te contando? Consegue ouvir o vento? Sim, tem vento aqui. Consegue saber onde há uma folha seca se soltando da árvore? Qual é a criança mais próxima de nós? Quem está prestes a cair? Escute... O mundo é nosso... E nós somos do mundo. Esqueça o ontem, esqueça o amanhã... Converse com o agora.
Harry se arrepiou. Não de frio, mas porque o raciocínio foi praticamente o mesmo de Lupin. E Luna não fez uma viagem de uma década para aprender essas coisas. Então, ele se lembrou de “desligar” essas lembranças e tentar se concentrar totalmente no momento. Começou a ouvir o gelo raspando. As risadas. O vento. Havia padrões. Havia um “diálogo”. Era como se um papel em branco começasse a ser escrito. Informações chegavam à mente de Harry, mesmo sem olhar para o que acontecia. Ele sentiu uma distorção na “música” atrás dele. Luna chegou tão perto da orelha dele que ele sentiu o calor dela. Ela sussurrou:
— O garoto atrás de você vai cair.
Harry abriu os olhos com uma cara séria e olhou para trás. Havia mesmo um garoto e ele acabou caindo no chão, dando risada de si mesmo. Os pais dele o ajudaram a se levantar. Ele olhou para Luna e perguntou:
— Como você sabia?!
— Ele perdeu o ritmo. A perna esquerda começou a antecipar o resto do corpo. O gelo notou antes dele.
Harry olhou pra ela, maravilhado. Luna apenas deu de ombros, tímida.
— Você é tipo... mágica. – disse Harry.
— Você também sentiu, não foi? – perguntou Luna. – Como se sente conhecendo essa versão do mundo?
— Eu... É como se... Eu sentisse um abraço... do mundo inteiro. Como se ele dissesse: “o que quer saber? Eu te mostrarei.”
Os olhos de Luna brilharam e ela deu um largo sorriso.
— É ISSO MESMO, HARRY! – disse emocionada. – Nem eu teria conseguido descrever assim!
Harry deu um sorriso sem graça e olhou para o lado. Arriscou umas patinadas. O gelo já não parecia tão ameaçador. Ele estava “dialogando” com a pista e se tornando um com ela aos poucos. Luna patinava ao lado, orgulhosa. Ela foi falando com sua voz melodiosa:
— Segunda lição, e dessa vez com os olhos abertos: repara nos outros. Não com os olhos… com o coração. O que você vê?
Harry começou a observar. Uma mãe sorria enquanto o filho patinava torto. Um casal adolescente discutia baixinho. Um senhor sorria sozinho, talvez lembrando de algo antigo. Uma garota do outro lado da pista... chorava em silêncio. Ele a viu. Sentiu. Harry parou de patinar. Ele estava começando aos poucos a ouvir outro tipo de diálogo... A energia das pessoas. Os sentimentos. As intenções. Olhou para Luna e ouviu uma música tão linda, a mais linda que havia ali. Logo, ele perdeu a concentração e os sons normais do mundo voltaram. Ele estava com a boca entreaberta, olhando para Luna. Foi falando:
— Tem gente aqui que tá feliz... Tem gente que tá aqui por obrigação. Tem gente triste... Mas Luna... a música que veio de você... Você é a mais feliz aqui hoje.
Os olhos de Luna marejaram. Ele ouviu a música. Do mesmo jeito que ela ouvia a dele antes de conhecê-lo. Depois olhou para o céu, os flocos dançando acima. E respondeu com um sorriso tão bonito que fez Harry se esquecer do gelo sob os pés:
— Porque eu estou com alguém que quer enxergar como eu. E isso… nunca tinha acontecido. Harry... no boxe ou na vida... OUÇA. Seja como uma coruja... fique atento ao seu redor... Você vai encontrar os padrões, vai entender as intenções. E nenhum lugar será estranho o suficiente.
Eles continuaram deslizando devagar. Entre tropeços, risadas e pequenos toques. E naquela noite gelada… Harry aprendeu a ver o mundo com olhos de luz. E ali, no som do gelo e dos risos ao redor, nas entrelinhas de cada movimento, Harry aprendia mais sobre luta do que qualquer soco já havia ensinado.
…
Dois dias depois, a rotina seguiu como sempre. Naquela tarde, Harry estava na Academia de Boxe Dumbledore, O treino rolava normalmente. Cordas sendo puladas, sacos de pancada vibrando, gritos abafados de esforço. Harry estava focado enquanto testava uma nova combinação de treino de sombra... Até que sentiu algo. Olhou para a direção da vidraça da frente da academia e ali estava ela: Luna.
Ela olhava para ele pelo vidro, com uma blusa azul clara, os cabelos soltos como luz de fim de tarde, os brincos sempre charmosos. A loira sonhadora sorriu, discreta, e acenou com a mão.
Enquanto os outros que também estavam lá treinando repararam e olharam para ela, Harry devolveu um aceno com um sorriso pequeno, mas sincero. Luna fechou os olhos com doçura e depois foi embora.
Angelina olhou com cara de dúvida para Neville que deu só um sorriso calmo. Ele, Gina e Rony já tinham decidido respeitar Luna. Hermione também, já que ela e Rony conversaram sobre isso depois daquela “Noite de Lutas”. Simas fazia uma cara meio incrédula e só ficou aliviado porque “a esquisita não entrou ali”. Já Dino, revirou os olhos e foi comentando em voz alta:
— O Potter agora tem torcida particular, é? Espero que a “garota do zoológico” não venha tentar nos transformar em esquizofrênicos também!
Todos olharam com desdém para Dino, incluindo Gina.
— Nossa, você não consegue só ficar calado, né? – disse a ruiva, enojada.
— Ninguém te perguntou, Weasley! – disse Dino, bravo.
— Certo, certo. Chega desse bate-boca! – disse Angelina quando ela viu que Gina estava cerrando os dentes. – Aquilo que aconteceu no começo do ano não vai se repetir, então tratem de dar um jeito de conviverem!
— Dino está certo! – disse Cho Chang. – Era só o que faltava agora, já pensou se aquela esquisita entra aqui? Virou o quê? Manicômio?
— Ei! Como se atreve a falar assim da Luna? – Harry andou em direção à Cho, lívido.
Cho não se intimidou e andou de encontro a ele. Gina andou de encontro à Cho para proteger Harry.
— Vai fazer o quê, sua esnobe insuportável?? – disse a ruiva.
Dino avançou para proteger Cho e Harry se colocou de frente a ele. Rony, Hermione, Neville e Simas ficaram atônitos, o clima esquentou imensamente na academia. Cho encarava Gina e Dino encarava Harry.
— Ei…! – começou Angelina.
— Você ia se meter com a Cho, Potter? – disse Dino. – Esqueceu que perder de garotas é a sua especialidade?
— Você quer testar, Dino? – disse Harry, sem se intimidar. – Chegue mais perto da Gina e vai se arrepender!!
Um som longo e ensurdecedor de apito irrompeu no meio do salão. Todos franziram o rosto, incomodados, mas sabiam: era Dumbledore. Ele terminou de apitar e estava com um rosto completamente sério. Foi falando com a calma de sempre:
— Voltem para os seus cantos. Quem fizer mais uma afronta será convidado a se retirar.
O tom de voz nem foi alto, mas todos ficaram intimidados na mesma hora. Todos, sem exceção. Só o olhar de Dumbledore já transmitia toda a autoridade que ele precisava. A confusão se desfez imediatamente. Até Angelina, que só estava tentando impedir, se retirou com medo. O treino seguiu no total silêncio, todos fazendo seus exercícios sem comentar mais nada.
…
No dia seguinte, antes de entrar na academia de boxe no horário que sempre fazia, Harry passou no Lepus mais cedo para falar com Luna. A loira estava com os olhos meio arregalados ao ser pega de surpresa pelo que ele perguntou:
— Luna, o que acha de ir na academia do outro lado da rua assistir ao meu treino? Não só pela janela… Lá dentro… Você iria?
— Eu… não incomodaria? – perguntou Luna. – Acho que algumas pessoas lá não… iriam gostar.
— Luna, você me ensinou a ver o mundo com o coração, a ver o que não é visto. – dizia o garoto de óculos. – Eu gostaria de te ensinar algo também. Coragem! Luna, você tem todo o direito do mundo de ser você mesma e estar onde quiser! Eu juro, Luna, se alguém lá te desrespeitar, vai se ver comigo!
Luna sorriu ao ser convidada por ele para estar presente mesmo na frente de outros. Porém, ela falou com a voz mais contida:
— Não quero ser… motivo de violência, Harry… Eu não quero incomodar…
Harry levou as duas mãos às de Luna, o que a fez corar docemente. Ele disse:
— Eu sei que as pessoas são difíceis e intolerantes… Eu sei que é desagradável ser subestimado por todos. Mas Luna, eles precisam ver você. Seu nome significa “lua” em latim, eu pesquisei… Você é como a lua mesmo, você brilha quando está tudo escuro. A lua não se esconde, ela BRILHA… Sei que todos aprenderão a admirar o seu brilho, Luna!
Luna mordia o lábio inferior, sendo elogiada como nunca foi em toda a sua vida. Ela estava tão rosa agora que era visível. Harry arregalou os olhos e soltou as mãos de Luna comicamente. Ele olhou para a direção do coelho Pompom, que olhava de volta com… ciúmes?!
— E-E-Então, Luna? Você aparece lá comigo? Eu ficaria… honrado!
— Eu vou… – disse Luna, sorrindo como um anjo. – deixa só eu falar com a Sra. Sprout, ok?
Antes que Harry respondesse, ela saiu alegre correndo para os fundos da loja. Ele ficou desconcertado, pensando nas coisas que disse. Engoliu em seco ao refletir no quanto ela ficou corada.
Luna foi até a chefe dela, a Sra. Pomona Sprout – uma senhora de idade com um carisma muito bacana e disposição inigualável para o trabalho. O pet shop Lepus era uma das propriedades dela. A loja principal de Sprout era uma grande floricultura que ficava em outra parte de Londres. Sprout amava os animais, mas ela amava as plantas e flores mais ainda. Por isso ela deixava Luna cuidando do Pet Shop enquanto ela ficava mais tempo na floricultura. Mas naquele dia, a chefe estava presente. Luna, com sua sinceridade, contou para a chefe que precisava passar por “um exercício de coragem” e que ela sairia da loja por duas horas.
— Hmm, isso aí veio por que conheceu aquele garoto? – Perguntou Sprout. – Ele parece ser tão bonzinho…
— A senhora permite, Sra. Sprout? Por favoooor… – Luna perguntava com seu jeitinho doce.
A chefe deu risada e apertou a bochecha esquerda de Luna, que ficou com uma careta engraçada.
— Permito sim! Eu fico de olho aqui enquanto vai, ok? – disse Sprout. – Mande um abraço pro velho Dumbledore pra mim, eu o adoro! Sempre me visita na floricultura quando ele está lá na área!
— Eu te adoro, chefinha! – disse Luna, iluminada.
Meia hora depois, os alunos de Dumbledore já estavam fazendo seus treinos individuais antes da sessão em grupo quando a porta se abriu. Harry entrou junto com Luna. O longo cabelo loiro dela balançava a cada passo. Ela olhava para a academia com um olhar cheio de curiosidade, nunca tinha entrado. Como sempre, ela se mergulhou no diálogo sensorial dela, o lugar transmitindo muitas informações. Harry sorriu, já acostumado.
Rony estava boquiaberto. Hermione também. Gina deu um sorrisinho pensando “É isso, aí, Harry! Nada de abaixar a cabeça pra aqueles dois debochados!”. Angelina olhava incrédula. Era como se estivessem QUERENDO a confusão. Simas se escondeu comicamente atrás de Neville, o que ele temia aconteceu. Cho olhava com absoluto desprezo, e Dino soltava uma fungada sarcasmo.
— Não acredito… A Defesa Civil deveria interditar essa pinel… – disse Dino.
— Agora pode mesmo entrar qualquer um aqui? – disse Cho. – Tô ficando preocupada com a nossa integridade.
Hermione e Rony olharam feio pra dupla.
— Credo, gente. Ela só entrou. – disse Hermione. – Ela é uma pessoa normal, não faz mal a ninguém! Não se deixem levar por boatos!
— Não esquenta, Hermione. Eles não ligam pra esses detalhes. – disse Rony. – Só vão desmerecer toda e qualquer pessoa que gostar do Harry.
Dumbledore, um pouco afastado, viu Luna se sentando em um lugar da arquibancada que ficava perto do ringue com um caderno e uma caneta. O olhar do velho treinador também era capaz de ler as pessoas. Angelina foi até ele e olhava como se implorasse por algum posicionamento. Dumbledore olhou para a aluna mais antiga e disse:
— Algumas pessoas entram em um lugar e bagunçam tudo. Outras entram… e o mundo todo se reorganiza ao redor delas. Essa garota… transborda amor.
— A-Amor? – perguntou Angelina.
— É claro que ela pode vir e assistir quando quiser. Voltem pros exercícios. – disse o treinador.
Angelina olhou para Luna, que só observava com um sorriso calmo e anotava algo vez ou outra. Embora ela não conhecesse a garota loira ainda, ela podia ver que nada negativo estava vindo dela. Pelo contrário, Harry se colocou a treinar com afinco ao saber que ela estava assistindo. Angelina sabia que Dumbledore nunca errava, e nisso, ele também estava certo.
Dino e Cho não se atreveram a provocar outro tumulto depois do que foi dito no dia anterior, então eles só tiveram que “engolir” a presença de Luna, mesmo com rostos nada felizes. Harry ficou feliz porque Luna decidiu se expor, sair da zona de conforto e descobrir que era tão brilhante que não fazia sentido ficar sozinha. Luna escrevia em seu caderno tudo o que observava, tudo o que comunicava com ela, e ela estava com o olhar mais sonhador que nunca. Mas além do que ela via, o calor em seu peito era alimentado pelo que descobriu: Que coragem não é só subir no ringue para lutar. Às vezes, coragem... é simplesmente ser quem é, independente do que outros pensem.
…
O treino em grupo estava chegando ao fim e o exercício final era abdominais. Dumbledore apitava com calma e batia palmas ritmadas e os alunos respondiam se dobrando, fazendo as abdominais. O velho treinador decidiu “esticar” o exercício, surpreendendo alguns alunos. Mais de setenta abdominais já tinham sido feitas. Muitos foram desabando ao chão, não conseguindo mais fazer. Luna assistia com olhos atentos. O caderno dela já tinha diversas anotações.
Com o tempo, só Harry, Gina e Dino ainda estavam fazendo abominais. Cento e dez já tinham sido contadas. Gina desabou, exaurida e ofegante. Restaram Harry e Dino. Dumbledore sorriu com o apito ainda à boca e continuava contando, sem preocupação alguma com o horário. Os outros se sentaram para assistir à disputa. Enquanto Dino se matava de se dobrar pra não perder, Harry estava fazendo abdominais com confiança. Ainda que doesse, ele não cederia pro rival de jeito nenhum: chegou o dia de Dino descobrir que não pode mais se considerar o melhor.
Cento e trinta e sete abdominais depois Dino tentou se erguer mais uma vez, mas simplesmente não iria… e desabou. Harry sorriu, conseguindo fazer mais cinco abdominais. Dumbledore apitou de forma suave, indicando o final do exercício.
— É ISSO AÍ, HARRY!! – gritou Rony.
Os amigos foram até ele, o ajudaram a se levantar e celebraram a vitória nas abdominais. Cho ajudou Dino a se levantar. Ele olhava para Harry com total raiva, vendo aquele que já deveria ter sido removido dos holofotes desde o começo do ano conquistando tudo de volta. Foi o limite para ele. O rapaz saiu do apoio de Cho e falou alto para Dumbledore:
— Abdominais, é?! Grandes coisas! Treinador, eu quero uma luta contra o Potter! Dentro do ringue, com as regras e tudo!
A turma ficou atônita com as palavras de Dino. Angelina já olhou preocupada para Dumbledore. Rony e Hermione estavam, cada um de um lado de Harry, como se o protegessem. Gina olhou para o ex-namorado que nunca parava de surpreendê-la com o jeito patético dele. Harry olhou sério para Dino. Luna, da arquibancada, sorriu e murmurou: “O óbvio aconteceu…”
— Ele tá sendo tratado como estrela… sem ter provado nada ainda! – disse Dino, que bateu no próprio peito em seguida. – Eu sou o melhor lutador dessa academia! Vou provar isso onde tem que ser provado! Dentro do ringue!
Cho Chang apontou para Luna na arquibancada e disse:
— Acho ótimo! Talvez aquela estranha até pare de vir!
— Cho, fica na sua! – disse Gina. – Você o Dino se merecem, francamente!
— Cala a boca, ruiva! – disse Cho, finalmente perdendo a calma.
Dumbledore teve que apitar alto de novo. Todo mundo se assustou. O treinador olhou para todos e soltou um longo suspiro. Percebeu que aquele drama só seria resolvido de uma forma.
— Se é o que deseja, senhor Thomas... Harry, aceita o desafio?
Harry respirou fundo, sem perder o olhar de Dino.
— Aceito.
— Ótimo. — declarou Dumbledore. — Têm uma semana. Preparem-se bem. Simas, você será o juiz. Venha devidamente vestido.
— E-Eu??! – Simas estava chocado.
— Sim, você. Estão dispensados, alunos.
Dino deu um sorriso para Harry. Ele disse antes de ir:
— Prepare-se, Potter. Eu não terei misericórdia!
Harry não respondeu. Ele só se dirigiu junto com Rony, Hermione, Neville e Gina até onde Luna estava. Ainda sentada à arquibancada, ela sorria tranquilamente, como se tivesse assistido ao final de um episódio de série.
— Bom… desculpa pelo que você teve que assistir agora… — disse Harry, sem jeito, coçando a nuca.
Luna sacudiu suavemente a cabeça.
— Desde o momento em que eu entrei, percebi que aquela pessoa só irradiava negatividade pra você. Aí ficou bem claro que era uma espécie de “rival”…
— Mais importante que isso… – dizia Harry. – Luna, conheça os legais. Estes são Rony, Hermione, Neville e Gina.
— Muito prazer! – dizia Luna sorrindo.
— Bem-vinda à academia, Luna. – disse Neville. – Se é amiga do Harry, então também é nossa amiga!
— Isso mesmo! – respondeu Hermione. – E já que é nossa amiga… Vai na sorveteria com a gente, né Rony?
— Peeeeensei que nunca fosse falar isso! Eu tô faminto depois dessas dez mil abdominais… – falava o garoto ruivo.
— Lembrando que você só fez setenta, maninho. – disse Gina e a turma riu.
De repente, eles perceberam que Luna estava de boca aberta, os olhos trêmulos.
— L-Luna, você tá bem?! – Harry perguntou, preocupado.
— Qu… Querem mesmo que eu… seja amiga de vocês… e vá na sorveteria com vocês?… – perguntou a loira, quase num sussurro.
Hermione e Gina deram um sorriso cheio de ternura. Neville olhou para Rony, que olhou para Harry. Todo o grupo sentiu: aquele peso suave e invisível de algo real e bonito acontecendo. Gina estendeu a mão para que Luna se levantasse da arquibancada e disse:
– Queremos sim, Luna! Somos todos seus amigos agora!
Luna deu um sorriso maravilhoso e abraçou Gina, para a surpresa dela. Hermione agarrou o braço de Rony, olhando comovida. Harry sorriu abertamente. Ele sabia que o brilho de Luna não passaria despercebido. O que ela precisava era só aparecer.
…
Os amigos estavam na Sorveteria Hogsmeade. Antes eram só três, agora já eram seis. Gina fazia Neville experimentar um sorvete de pistache e o garoto alto ficava bem corado, tentando não deixar tão claro que era apaixonado pela ruiva. Hermione comentava sobre boxe com empolgação, enquanto Rony fingia que roncava só para provocá-la. Para puni-lo, ela simplesmente lambeu o sorvete que ele segurava. Isso gerou muitas risadas. Harry olhava para Luna. Como ela estava feliz por ter novos amigos, isso o deixava radiante. Luna percebeu o olhar de Harry e sorriu de volta para ele, fechando os olhos docemente. O clima estava tão bom que ele nem estava se lembrando do desafio de Dino… Até Hermione falar:
— Harry, agora que chegou nesse ponto… Não treina na academia nessa semana.
— Hã?! – Harry estranhou a fala. Os outros se calaram.
— Dino vai ficar de olho em tudo o que você fizer. – disse Hermione. – Cada movimento, cada padrão, cada falha. Ele vai observar e ajustar o estilo dele para te vencer. Você não pode ser previsível.
— Ela tem razão, cara. – disse Rony, com olhar sério.
Ele levou alguns segundos pra processar aquilo, então assentiu devagar. Sabia que ela estava certa.
— Vocês têm razão… Obrigado, turma. – disse Harry com sinceridade.
…
Naquela noite, ao chegar em casa, Harry ligou para Lupin.
— Oi, Lupin… é o Harry.
— Potter! Já estava com saudade das suas perguntas enquanto eu te arrebentava com as manoplas. – respondeu Lupin do outro lado da linha, bem-humorado.
— Eu tenho uma luta na academia… uma luta importante. Eu preciso treinar com você nessa semana. E dessa vez, só no galpão. Treinar tudo. Corpo e cabeça.
Houve uma pausa do outro lado, depois um suspiro.
— Imaginei que esse dia ia chegar, Harry. Claro que ajudo! E se fizer tudo que eu mandar, vai sair dessa luta diferente de como entrou.
Harry hesitou por um instante, depois perguntou:
— Posso levar a Luna?
— Luna? – indagou Lupin.
— É… minha amiga do… Lepus Pet Shop. Que fica de frente pra academia.
— Aquela doçura que trabalha no pet shop onde eu entrego ração toda semana? Aquela que trata os peixes como se fossem príncipes? — ele riu. — Claro que pode! Mas, Harry… vou avisando: mulheres enfraquecem as pernas.
— Hein?! – Harry levantou a sobrancelha.
Lupin só gargalhou alto do outro lado, enquanto Harry continuava sem entender a frase.
…
No dia seguinte, Luna conversava com os bichos no pet shop, contando como foi na academia. Depois de contar tudo. Ela foi ouvindo os sons diversos deles. Ficou com os olhos fechados por uns momentos. Depois ela os abriu, sorriu e disse:
— Acho que vocês têm razão… Vocês vão conhecer um novo amigo em breve… UM LEÃO.
Continua...
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