Happiness is a lie
1 Capítulo 1
Dia após dia, ano após ano, este sentimento de culpa, este sentimento de impotência, vem crescendo gradualmente, exponencialmente, vem me queimando por dentro. Já se passaram 10 anos e eu simplesmente não consigo esquecer você... Me sinto um idiota, por acreditar que eu poderia ser feliz com você... Tudo não passa apenas de uma superstição... “Serão felizes pelo resto da vida” uma ova... Por que será que o mundo não suporta ver a felicidade das pessoas?
15 anos atrás.
Dia após dia minha monotonicidade apenas cresce, meu sentimento de desaparecer neste mundo falho apenas aumenta... Meus sentimentos... Apenas se esvaem. A primavera desabrocha diversas flores, diversos corações... Mas por que o meu não desabrocha? O verão apenas deixa tudo mais quente e infernal, os casais vão para praia ou algo assim... No outono existem os festivais e as lindas cores de folhas, mas e daí? Somente quem tem alguém querido consegue aproveitar. E o que falar do inverno? A época de frio... Mas será que ele consegue congelar ainda mais o meu coração?
Tudo o que faço da minha vida é ir para a escola, trabalhar, sobreviver... Sendo este último um empecilho... Sinceramente nem sei o porquê de eu ainda tentar... Todo dia a mesma coisa, as mesmas pessoas. Toda noite o mesmo silêncio agonizante e doloroso, e na madruga os pesadelos constantes, as dores, tudo... Vêm para mim como facadas imateriais.
Mas acho que lembro o que me mantém neste mundo falho. Na minha escola, eu sento ao lado da janela logo ao fundo. Eu fico na minha, não converso com ninguém, tento interagir o mínimo possível. Notas altas, 100% quase sempre... Mas a distância entre mim e os outros... É algo que eu gosto.
A garota lá na frente, próxima ao quadro, ajudando os outros em partes que não entenderam, é a representante da classe: Kamen Wana. Família rica, atraente, boas notas, simpática, um exemplo para os outros... Simplesmente a garota perfeita... Para os outros... Sinceramente, como eles podem ser tão idiotas nesse ponto? Bem, isso não é da minha conta... Não irei fazer nada... Além de que, mesmo não estando apaixonado por ela, qualquer aproximação nos colocaria em uma situação complicada, sendo por parte dela ou minha.
—Ei... Shiragiku-san. (Kamen)
Eu olho para ela, que se aproximara de mim. Todos aqueles olhares, todos cochichando: “Por que ela está falando com ele?”, “Ele fez alguma coisa para ela?” “Por que ela está tentando socializar com tal escória?”. Sempre ouço esse tipo de comentário. Sou um hikikomori, e estou acostumado com todo tipo de acusação. Eu apenas observo-a, um pouco tímida e receosa. Aceno a cabeça dando o sinal de que estou escutando-a, mas não desfiro nenhuma palavra.
—Você... É um pouco antissocial, hein?
Muitos perderiam a calma em tal situação, mas eu continuei observando-a, sem falar nada, esperando que ela fosse objetiva no que gostaria de dizer realmente.
—Bem... Você... Não vai falar nada?
Continuo olhando-a. Ela parece ainda mais desconfortável, mas não é como se eu ligasse pra isso. Em minha opinião ela deveria simplesmente me ignorar e seguir sua vida.
—Aquele idiota está ignorando-a. (Vozes)
—O que ele acha que está fazendo com ela? (Vozes)
—Será que devemos ensiná-lo uma lição? (Vozes)
—Ele devia simplesmente morrer. (Vozes)
—Aquela escória? Ninguém liga para ele, é apenas um peso morto. (Vozes)
—Pessoal parem com isso! Por que vocês falam coisas tão maldosas? (Kamen)
Eu levanto e entrego a ela um papel escrito: “Me deixe em paz, isso vai só arruinar sua reputação”. Depois disso saio da sala e vou em direção à minha casa. Está chovendo e eu não trouxe um guarda-chuva, então simplesmente começo a caminhar debaixo daquelas gotas, que ecoavam as vozes de todos aqueles que estão na escola.
Não tardou muito e eu já estava encharcado, isso poderia fazer mal à minha saúde? Obviamente, mas eu não ligo para isso, pois estando doente eu posso simplesmente usar isso como desculpa para não sair de casa.
Já no meio do caminho para minha casa, escuto o som pesado dos passos de alguém correndo debaixo da chuva, passando por cima de todas as poças. Eu não olhei para trás, apenas continuei até chegar no sinal, só para vê-lo fechado. Alguém parou ao meu lado, mas continuei olhando para frente, como se eu fosse um dos poucos que não tivesse o instinto de curiosidade para saber quem era, esse mesmo alguém estava ofegante, era aquele que estava correndo alguns instantes atrás.
As gotas que perfuravam minha pele começaram a se chocar contra algo, fazendo um barulho um tanto irritante.
—Você... Poderia me olhar?
Eu faço como disse... Era Kamen, ela ainda estava um tanto cansada, suas roupas estavam molhadas e a mesma estava dividindo o guarda-chuva comigo. Eu mostro uma expressão características de “Por quê?”, e ela deixa escapar um sorriso meigo.
—Eu queria apenas conversar com você.
Quando o sinal abre eu começo a caminhar saindo do guarda-chuva que me protegia daquelas gotas perfurantes, mas Kamen o coloca sobre mim novamente e começa a andar do meu lado. Ela pega meu braço e me puxa para perto dela.
—Você vai se molhar se ficar distante. Coladinhos assim não acontecerá nada a nenhum de nós dois.
Kamen me acompanha até a minha casa, eu a deixo entrar e busco algumas toalhas para ela.
—Obrigada, Shiragiku-san.
Eu sento no sofá do lado oposto ao dela e começo a me enxugar.
—Sua casa é bem grande, hein? Você é rico?
—...
—Você mora com seus pais?
—...
—Por que você não fala nada?
—...
—Ei... Eu estou sendo tão amigável com você, e mesmo assim...
—Por isso mesmo.
—O que quer dizer com isso?
—Suas palavras, seus atos, suas expressões, seu ser exterior... Isso tudo é falso...
—Eu não estou entendendo.
—Não precisa se forçar...
—C-como assim?
—Eu consigo ver através de sua máscara.
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