Hans
5 Interlúdio
Notas iniciais
Século XXI
Uma estranha noite caiu sobre a orla. É normal as correntes austrais de água fria baixarem dramacticamente as temperaturas da cidade, mas nessa noite elas parecem ter caído rápido demais.
Elisa andava sozinha pelas linhas monocromáticas sinuosas da calçada de pedras portuguesas. O frio cada vez mais forte expulsava as pessoas da rua e reagia de forma estranha com as águas ainda quentes do dia, fazendo a umidade condensar em uma extensa neblina que tornava a sensação de isolamento dela ainda maior.
Ela continuou andando pela orla, cercada dos borrões das luzes noturnas e do burburinho que vinha dos bares de beira mar. A neblina realçava a sensação de solidão, exeptuando-se por um cão vadio ou por um casal agarradinho que vez ou outra cruzavam lhe o caminho.
Com as mãos nos bolsos, percebeu que esquecera o celular na bolsa em casa. A única coisa que havia consigo era o cartão do estranho que ela pegou da portaria.
Uma mudança súbita no reflexo das luzes a fez prestar atenção nos arredores. Ali estava, imponente e sóbrio, o Copacabana Palace a surgir por entre as brumas.
Como que num conto de fadas.
Verão. 1840
–Boa noite mamãe!- Dizia a princesa Frederica após a Rainha Emmanuelle lhe beijar a testa.
–Boa noite Giovanna, querida.
–Boa noite, mamãe.
–Conta uma história, Gi...- Dizia a princesinha para a irmã mais velha.
Giovanna franziu a testa e respondeu:
–Vá dormir, Frederica, você está grandinha para historias bobas!
–Giovanna!- A Rainha interviu. – Eu sei que está aborrecida pelo o que seu pai falou, mas... Entenda, minha filha. Ele é um homem bom, mas extremamente distraído, ele não pensou antes de falar.
–Desculpa mamãe.
A Rainha Emmanuelle se sentia mal. Sabia que havia uma forma melhor de remediar aquilo.
–Quando o tio Hans está no palácio ele sempre conta histórias quando você pede.- Frederica disse mostrando a língua, fazendo com que a irmã sorria.
–Está bem pestinha, eu conto uma história.
Ela se ajeitou na cama, fechou os olhos, respirou fundo e começou a narrar.
–Era uma vez...
Um homem sábio que morava no alto de uma montanha, ele tinha um jovem discípulo muito inteligente e curioso. Certa tarde, eles foram à vila no pé da montanha confortar uma mãe que havia perdido o filho.
Na volta, ele perguntou ao sábio. "Mestre o que é realmente a morte?"
"A morte" disse o sábio "É quando você adormece e em seguida seu corpo seca e enrijece..."
"E então?" Perguntou o jovem.
"Então seus olhos se abrem para a vida!" Respondeu o mestre dispensando-o.
O jovem ficou entristecido e foi dormir. Naquela noite ele sonhou com uma lagarta, ela descia por uma folha de bambu e em seguida adormecia em um casulo de seda, seu corpo enrijecia e ficava duro como uma casca à medida que o orvalho se formava brilhando pelo fio que tecera.
Quando acordou na manhã seguinte, ele viu que nas folhas de bambu do jardim em frente a sua janela o corpo inerte do que outrora fora uma lagarta pairava sob um fio de seda. E uma linda borboleta de asas verde azuladas lhe veio pousar sobre o ombro.
E ele sorriu. Pois seus olhos se abriram para a vida!
–Que tal?- Virou-se Giovanna sorrindo.
–Já ouvi melhores...
Respondeu a pequena Frederica coçando os olhos sonolentos.
–Ora sua pestinha! Na próxima vez você conta a história.
Disse a princesinha tacando uma almofada por cima da irmã que adormecia.
A Rainha permanecia quieta. Tentando conter as lágrimas.
–Foi uma linda história, minha filha. Quem te contou?
–Eu li num dos livros do Tio Hans...
A Rainha permaneceu no quarto, observando suas filhas dormir. Ela passou os olhos pela escrivaninha e riu-se com o quão diferente suas filhas eram.
Em seu lado do quarto a pequena Frederica tinha delicadas bonecas de porcelana francesa, uma mesinha para chá com finas peças importadas e uma sunptuosa casa de bonecas; Giovanna, sua filha mais velha, por outro lado parecia cultivar amor por cavalos e livros. Sua estante vivia abarrotada e ela já possuía uma pequena biblioteca.
Viu que alguns dos títulos não eram exatamente os mais recomendados para uma pequena dama. Pegou um dos livros.
"A Peregrinação de Childe Harold"*1
Só havia uma pessoa capaz de fazer sua filhinha se interessar por Byron, e a confirmação veio ao ler o Ex Libris*2 em sua contra-capa.
Nele haviam o desenho de um leão e as iniciais H. W.
***
As portas do Salão onde o Rei e seus irmãos se reuniam estavam sendo guardadas por dois guardas palacianos em roupa cerimonial. Tal indumentária era comum aos soldados que serviam debaixo do complexo de edifícios que constituía o palácio de Amalienborg
Ouviram passos apressados ecoar pelos corredores, uma linda jovem de vestido nocturnal irrompe pelo hall. Era Marie Godgift, A Marquesa de Eastergärd, esposa de Grant, o Ingênuo, 9° príncipe na linha de sucessão.
Ela parecia assustada, tinha uma carta na mão.
–Preciso falar com o Rei!
–Perdão senhora. -disse um dos homens- O Rei Klaus está em reunião com o Conselho de Estado, e ninguém está autorizado a entrar!
–Mas é importante! O meu marido...
O guarda levantou a mão.
–Sinto muito! Ordens de Viktor! Nem mesmo familiares do Rei tem permissão para adentrar nessa câmara.
A expressão de Marie era cada vez mais aflita, tentou bater na porta mas os guardas cruzaram as lanças a sua frente fazendo um som metálico alto que a assustou. A Marquesa inclinou-se para trás num reflexo defensivo, se desequilibrou e foi amparada por um par de mãos masculinas.
Eram as mãos de Linus, o incompreendido, 11º príncipe na linha de sucessão. Ele a saudou com um sorriso sincero e um ar sonolento.
–Boa noite. Dona Marie, sem vontade de dormir?
***
Voltando do quarto das filhas, a Rainha Emmanuelle viu que o Rei Klaus ainda não retornara.
"Receio que o Rei ainda esteja reunido com o Concelho de Estado Majestade!" Disse-lhe um dos serviçais.
"Ele deixou ordens expressas de que não deveria de forma alguma ser incomodado."
–Pois bem, EU também desejo ser deixada em paz. Ouviu bem? Estarei trancando a porta dos meus aposentos, ele que vire a noite naquele salão se quiser!
Disse isso fechando e trancando a grande porta de madeira Angelim.
E em seguida, recolheu o saiote e removeu os sapatos colocando escuras sandálias em seus pés. Olhou bem para ver se estava mesmo sozinha nos aposentos e moveu a pedra de mármore lateral de sua lareira fazendo surgir um buraco para uma entrada secreta.
Desceu por túneis escuros e cheios de ratos até uma parede falsa que dava para o Salão da grande mesa, A sala de conferências do concelho de Estado. Lá nenhum dos irmãos que estavam reunidos percebeu quando os olhos de um dos quadros na parede mexeu.
A rainha chegou a prender a respiração tamanha a tensão. "Vejamos o que os homens de estado confabulam esta noite!" Pensou.
Viu que o Rei Klaus, Alexander o presunçoso, Viktor o beligerante e Fredbjorn o Humilde estavam reunidos. Sentados em volta da mesa iluminada por grandes castiçais, onde havia um enorme mapa que ia do Canal da Mancha aos Bálcãs.
–E como eu dizia, meus caros, não estamos a castigar Hans pelo que ele fez de errado, irmãos. Estamos castigando pelo que ele fez de bom!
Dizia Viktor, enquanto circulava de pé pela sala, na ponta da grande mesa, o Rei Klaus cruzava os dedos e apoiava os cotovelos sobre a mesa.
–Explique!
Viktor acenou afirmativamente para Alexander, o presunçoso, que abriu uma grande pasta sobre a mesa com o mapa, nela havia documentos com números e uma carta.
–Juntamente com a embarcação que nos trouxe nosso irmão, recebi uma carta de Isen nos pedindo, sobretudo, discrição para lidar com essa crise. Eles sequer permitiram que o capitão do navio registrasse no manifesto de carga o nome de nosso irmão como prisioneiro.
O Rei Klaus apanhou os documentos numerados e os folheou, eram planilhas com tabelas de preços e cotações da guilda mercante.
–Com essa carta, eles enviaram um relatório fiscal resumindo o curto período de tempo em que a então princesa regente, Anna, nomeou nosso irmão como o regente de Arendelle!
–Quem em são consciência entrega tal poder a um homem que acabou de conhecer?- Perguntou francamente Fredbjorn, o humilde.
–Irrelevante!- Respondeu-lhe Alexander. -De facto eu não esperaria nada menos de uma ingênua jovem e apaixonada victima da famigerada lábia de nosso irmão.
Viktor tomou a palavra.
– O principal problema foram as contra-mensuras que Hans elaborou durante essas horas como regente! – Virou os olhos negros para o irmão -Alex?
– Para lidar com o cenário improvável de um inverno em junho, nosso querido irmão "congelou" os preços de artigos estratégicos como carnes, grãos, lenha e peles, evitando a especulação inflacionária.- Alex completou.
–O que, alias, foi uma atitude mais que bem vinda, tendo em vista que o Duque de Weselton estava presente, e aquela raposa velha certamente iria aproveitar-se da situação para comprar todos os mantimentos encalhados no Fiorde congelado, somente para revendê-los pelo triplo do preço aos pobres cidadãos de Arendelle.*3
Viktor continuou, suas botas ecoavam alto enquanto andava em volta da sala.
–Não suficiente, ele retirou o dinheiro das festividades posteriores ao baile da coroação da Rainha Elsa!
–Desviou o dinheiro? – Perguntou o Rei Klaus preocupado.
–Aparentemente não, parece que a intenção dele foi de usá-lo para comprar casacos e distribuir comida para os refugiados das áreas rurais que foram pegos de surpresa pela nevasca.
Acrescentou Alexander, guardando de volta metade dos papeis.
–Além do mais, há testemunhos de bravura comandando homens na missão de "resgate" da Rainha, bem como participação na distribuição de mantimentos e no acolhimento dos desvalidos.
–Resumindo. Aquele idiota fez de tudo para parecer um herói aos olhos do povo.- Disse Frebjorn, passando um dos documentos para o irmão.
–Sim irmão, -Consentiu Viktor- e infelizmente ele se revelou surpreendentemente talentoso em "bancar o herói."
–Mas ainda não entendo o porque de castigá-lo tão severamente?
–Porque, Klaus, pelo bem de sua coroa você nunca iria querer que um homem com os talentos, a habilidade e o carisma de nosso caçula tome gosto por ser o herói!
Klaus ficou parado, surpreso pelo súbito elogio de seu irmão.
–Hans, caro irmão, é um espelho dos talentos da casa de Westergärd. Ouso dizer que ele possui ao menos um pouco das melhores e piores características de cada um de nós doze! Por outro lado, ele tem responsabilidade para lidar com tais talentos?
E enquanto seus irmãos se entreolhavam incomodados Viktor parou ao lado do Rei Klaus e socou a mesa com força, dizendo:
– Não! Ele é ambicioso demais! Muito mais do que todos você juntos! Ele é o tipo de homem que se deixaria levar pela paixão até o fim! Nós temos, não, nós devemos fazer com que ele pense em si apenas como o crápula insensível que ele é! Caso contrário, seria uma questão de tempo até ele vir a fazer convosco o que fez com a Rainha de Isen!
Por trás do Quadro na parede, os olhos da Rainha brilhavam. "Quem é mais crápula Viktor?" pensou a rainha consigo mesma. " "Você que faz seu irmão e Rei comer na suas mãos sujas ou seu irmão mais novo, de quem você tem medo?"".
Do lado de fora da parede secreta. Viktor continuava seu discurso exaltado.
– Nunca! Ouviu? Nunca permita que um subalterno excessivamente talentoso e ambicioso se enxergue como um herói ou salvador, pois essa é a função que cabe ao Rei!
Os olhos de Klaus estavam arregalados, olhavam assustados os olhos negros de Viktor.
–E apenas ao Rei! E é por isso, Klaus, que eu estou cortando as asinhas dele! Arruinado sua reputação e retirando-o de nosso nível. Para sempre!
Disse voltando-se para o quadro onde se ocultava a Rainha, seus olhos negros a olhavam ameaçadores como se ele soubesse que ela estava lá. Ela segurou o susto com a mão na boca e saiu para as sombras.
Aquilo foi o suficiente. A Rainha estava decidida. Se Klaus não tinha colhões para lidar com aquela situação absurda, então ela iria resolver ela mesma!
Voltando para os aposentos reais, ela se assustou quando um camundongo se esgueirou pela passagem secreta antes que essa fechasse, escorregando por sob o tapete e passando por debaixo da porta de Angelim.
Alguns momentos depois, já recomposta, ouviu passos atrás da porta e, em seguida, alguém bateu três vezes.
–Vá embora!
As batidas continuaram, sem paciência ela abriu a porta com severidade.
–Já disse que... Ah?
Emmanuelle se assustou. Linus, o incompreendido, estava parado a sua frente com um camundongo no ombro. Ao seu lado estava Marie, esposa de Grant, o Ingênuo, com olhos grandes e aflitos.
– Eu disse que ela ia voltar!Oo senhor Flinckes, nunca se engana.
Disse Linus sorridente. Marie deu um passo a frente, sua voz era hesitante.
–Rainha Emmanuelle, perdão por incomoda-la em alta horada noite... -Seus olhos a marejar, sua voz falseava. — Mas eu não tenho ninguém a quem recorrer!
–Marie? O que houve? Você está pálida!
–Meu marido... Grant...
–Grant? O que aconteceu? ele não está em missão no porto de Bristol?
A marquesa mostrou a carta que levava em mãos para a Rainha. E com o pouco fôlego que tinha lhe disse.
–Ele...Ele está preso, Emma! Puseram meu doce Grant numa prisão!
A Rainha levantou os olhos, segurou as mãos da cunhada e lhe disse com firmeza.
–Você veio a pessoa certa, cara mia! Venha comigo!
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