Hamartia
1 I
Notas iniciais
Caro amigo,
Morgana está de volta.
Morgana, minha irmã e meu maior pecado… Chegou ontem a noite junto com nossa tia, Viviane, e uma outra pessoa nos braços: um menino de pouco mais de um ano e tão parecido com ela que é impossível rastrear qualquer sombra do pai… Mesmo que, para mim, isso não seja necessário. Há um ano eu recebia a minha coroa e conhecia pela primeira vez uma mulher no ritual…
Morgana não sabe e nunca saberá, mas sua presença na corte não era realmente necessária. Quem realmente se ocupa dos assuntos do povo das fadas é Viviane e é ela quem Merlin queria ver, porém eu insisti para que ele pedisse, de forma discreta, mas incisiva, que Morgana viesse junto. Eu precisava saber… já fazia muito tempo que não a via.
Guinevere, minha mãe, Galahad, Lancelot e eu estávamos jantando no grande salão quando recebi a notícia da chegada delas. Era noite alta; me senti nervoso como não fico em nenhuma batalha e foi a mão de Deus que me conteve para que não saísse correndo. Ordenei ao guarda que as guiasse até o salão, pois certamente teriam fome e, mesmo na minha ansiedade, não perdi o desconforto óbvio da minha rainha, minha mãe e meu primo. Não obstante, ele se ergueu, refletindo a minha ação e a de Galagah, quando sua mãe passou pelas portas duplas de madeira em um redemoinho roxo acompanhada por um Merlin galopante. Viviane continua igual, se deseja saber. Esguia, cabelos lisos e longos que não ocultam os olhos violeta falsamente morosos. Sua boca constantemente curvada com malícia e seu rosto envelhecido e belo.
Minha tia se curvou respeitosamente e me cumprimentou antes de se voltar para os outros. Curvou-se rígida diante de Guinevere, lançou um cumprimento seco ao filho e à irmã sem ao menos olhá-los. Galahad foi o único a receber um leve indício de sorriso. Eu estava prestes a fazer uma pergunta precipitada quando uma neblina negra cobriu meus olhos. Com passos lentos, uma sobrancelha desafiadora e ferozes olhos violetas, minha irmã se aproximou. Pequena, pálida e arrogante. O vestido negro, os cabelos escuros e ondulados… Meu coração nos pés. E em seus braços cobertos de renda negra, meu querido amigo, a criança mais linda que existe.
Os olhos de Mordred são idênticos aos da mãe e seu semblante tão austero quanto o dela. Ele olhou diretamente nos meus olhos e uma emoção estranha coagiu meu peito, me deu vontade de chorar e, honestamente, não sei dizer se por alegria, tristeza, arrependimento ou orgulho.
O jantar, sem dúvida, foi desconfortável e constrangedor, porém eu não me importei — nem ao menos tive consciência disso. Sabia que as únicas vozes a soar eram a de Merlin, Viviane e Galahad, contudo eu estava hipnotizado por aquela mãe e seu filho.
Amigo, me dói confessar, mas uma hora senti um desejo sujo e quase incontrolável de deslizar minhas grandes mãos por baixo das ondas negras e guiar aquele rosto fraternal para o meu, a sua boca para a minha. Tive vontade de pegar ela e Mordred e fugir de Camelot para sempre e, quem sabe e Deus me perdoe, repetir aquela primeira noite — tão distante e nunca esquecida — e colocar em seu ventre uma outra criança, uma companhia para Mordred.
Antes de seguirmos cada um para seu respectivo aposento — o salão já estava em completo silêncio a alguns minutos — me rendi a tentação, ergui minhas mãos para Mordred e, diferente de sua surpresa mãe, ele não se encolheu diante da minha estranheza. “Para que você possa descansar um pouco, irmã” eu disse sem tirar meus olhos do menino… Daquele menino… A forma física da minha heresia e, ainda assim, tão lindo. Nasceu no meu peito um sentimento novo, poderoso, único, bonito….
Mordred me encarou de volta, fixo, sério como se seus enormes infantis pudessem ver dentro da minha alma. Eu quis dizer alguma coisa, qualquer coisa e não consegui. Mais corajoso, Mordred ergueu as mãozinhas e tocou meu rosto, meu cabelo dourado tão distinto do seu e sorriu. Querido amigo, no meu último suspiro irei lembrar desse momento, seu enorme sorriso para mim. E, de alguma forma, eu soube imediatamente que, dali em diante, faria qualquer coisa por ele. Sorri de volta, desejando que aquele inocente fosse realmente capaz de ler, de entender a minha alma, pois lá estavam palavras que nunca poderão ser ditas em voz alta.
Nosso momento teve fim quando Guinevere aproximou-se e ergueu as mãos para ele, na intenção de segurá-lo. Assustado, ele virou o rosto e começou a chorar. Em um piscar de olhos, Morgana retirou-o dos meus braços, agora frios, e o resguardou junto ao peito.
Nessa noite, fui marido para Guinevere, no entanto admito — simplesmente porque preciso, amigo! — que cada vez que a voz dela soava alta no quarto, eu pensava em outra voz. Cada vez que seus cabelos cobre deslizavam por suas costas nuas, eu fechava os olhos desejando fios mais grossos e escuros. Derramei minha semente nela mordendo o lábio para não cometer erros diante do entusiasmo. Ela me beijou e adormeceu logo em seguida. Não consegui acompanhá-la com medo dos meus sonhos.
Amigo, escrevo essa carta em um raro momento de paz real e peço, infinitamente, que você também volte à corte. Sei dos seus problemas com seu tio e a nova esposa dele e penso que um tempo em Camelot poderá acalmar os ânimos. A verdade, porém, é que peço por motivos egoístas. Preciso de seus sábios conselhos e seu apoio inestimável.
Mais seu amigo do que seu rei,
Arthur.
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