Hamartia
2 II
Meu caro amigo,
Soube de tuas aventuras e peço a Deus que essa carta o encontre em segurança. Quando voltar a Camelot, prometo um enorme torneio em sua homenagem, o banquete merecido e as pelejas das quais você tanto gosta. Todos ficaremos alegres em revê-lo; Mordred principalmente, pois a pergunta pelo querido professor de equitação é uma constante em seus lábios.
Mal posso crer que ele completou onze anos ontem.
Onze anos e uma personalidade tão única que me faz querer gritar de orgulho. Quem dera, amigo, você pudesse ver e ouvir mesmo à distância! Mordred é talentoso com a espada e com o arco, está aprendendo a utilizar a lança, bem como a arte da retórica. É quase como se houvesse feito uma seleção das melhores características dos pais e as tivesse atribuído ao próprio ser.
Convencer Morgana a permanecer na corte, deve se lembrar, para que a criança recebesse a educação de um futuro rei — o que ele é, não importando de qual ângulo é a visão — não foi fácil. Eu não teria conseguido sem a sua ajuda, a de Viviane e a de Merlin e, por isso, sou eternamente grato. Poder ver o menino crescer, se desenvolver e ter contribuído para isso foi um presente maior do que qualquer outro.
A rotina dele sofreu algumas alterações desde que você se foi. De manhã, estuda com a mãe ou com Merlin, pela tarde me acompanha nas atividades reais, conselhos ou treinos. À noite, como qualquer criança, prefere voltar para a mãe que o faz dormir contanto histórias de reinos distantes e lendas. Eu também fico para ouvir, sem conseguir deixar de pensar que, só na ausência da luz, é possível que essa família errante se reúna na santa paz.
Amigo, mas permita que eu lhe dê um conselho: a noite é muito perigosa.
É de noite, no escuro, que os demônios se sentem à vontade e estão mais poderosos e, ambos sabemos, que não existe demônio mais influente do que o do desejo reprimido.
É comumente estranho quando Mordred adormece e eu e Morgana saímos do quarto juntos. Caso fôssemos apenas os irmãos que deveríamos ser, conversaríamos sobre o nosso dia, sobre nossos planos… Mas não somos assim. Saímos em silêncio e assim permanecemos temendo qualquer palavra mal colocada. Isso, devo admitir, é um pouco agridoce: algumas vezes sinto que comunicamos pelo olhar e qualquer palavra é inútil, por exemplo, quando estamos em um conselho e algum dos meus ministros diz algo ridículo ou estúpido, nos encaramos divertidos. Outras vezes, entretanto, sinto falta do som, do explícito da palavra. Ontem, a excentricidade da situação foi muito mais intensa…
Talvez por causa da data. O aniversário de Mordred, o modo em ele foi concebido…
Abri a porta, ela saiu e nos encaramos, constrangidos. Quando ela abriu a boca para o que, tenho certeza, seria um boa noite, me ultrapassei, inconsequente, e a convidei para um vinho na biblioteca. Não seria nada demais, completamente inocente, se não fossemos nós.
Amigo, não devo e nem quero entrar em vis detalhes, mas algo errado tornou a acontecer entre nós. E, dessa vez, o pecado foi ainda mais grave, pois eu sabia quem era ela e ela também sabia sobre mim. Amigo, que agonia, que tragédia! E eu não mudaria absolutamente nada. Possuí Morgana com todas as partes do meu corpo: minhas mãos, meus lábios, minha masculinidade. Seus cabelos negros me prendendo ao seu corpo, os olhos violeta olhando diretamente nos meus e ela me chamando, chamando pelo meu nome uma e outra vez.
E eu respondia feliz ao chamado, entregando tudo o que eu tinha, entregando meu coração.
Temi o fim, mas quando acabou não pareceu condenável. Longe disso: foi bonito, satisfatório, certo. Não éramos mais as pessoas que tinham entrado na biblioteca horas antes. Possuíamos mais uma transgressão, mais um segredo e também sorrisos imensos nos lábios.
E, amigo, se você me perguntar, eu não saberia dizer com sinceridade se isso é asqueroso ou desagradável . Talvez, quando você voltar, possa me aconselhar mais uma vez.
Fique bem.
Seu confessante amigo,
Arthur.
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