HOLD THE LINE - Livro #01
24 CAPÍTULO 24 - Claridad
Perdida em relação ao local que se encontrava, Louise despertou lentamente do seu sono sem sonhos no hospital regional localizado na cidade vizinha. Apesar do seu corpo estar levemente dolorido devido ao cansaço que insistia em permanecer, as dores de cabeça haviam passado completamente e o ombro ferido não queimava como antes. Esfregando os olhos com o braço livre do gesso que ocupava quase metade do tronco, ela sentou na cama buscando por rostos conhecidos ao redor.
— Bom dia, bela adormecida! — Brincou Steve Harrington sentado na poltrona do hospital, surpreendendo Louise que esperava qualquer outra pessoa como companheiro de quarto. Ele caminhou em sua direção, forçando com ternura a menina voltar a deitar— Os médicos disseram que não é para fazer força, você passou por cirurgia para consertar a escápula.
— Eu passei por o que? — Perguntou confusa aceitando o auxilio do menino para acomodar-se novamente nos travesseiros macios.
— Cirurgia. A bala não foi fatal, mas fez um estrago. Felizmente sobreviveu, apesar de ter perdido bastante sangue — Steve segurou a mão de Louise entre as suas.
— Meu irmão... — Louise fez que ia levantar, mas Steve a impediu pela segunda vez.
— Ele está bem, as outras crianças também estão. O Will acabou de acordar e estão trocando novidades — Explicou Steve sorrindo gentilmente — Não se preocupe, acabou.
— A minha mãe... O que disseram para ela? — Perguntou Louise suspirando mais aliviada em saber que haviam recuperado Will com vida do mundo invertido.
— Que você foi uma menina muito corajosa e salvou quatro crianças de um assalto — Respondeu Joyce Byers ingressando no quarto com sorriso orgulhoso na face, ela aproximou da cama de Louise ao notar que a menina estava finalmente acordada e acariciou seus cabelos — Apesar de que sabemos que foi algo bem mais perigoso que isso.
— Espero que o Hopper me de uma medalha de honra, vai ser bom para minha carta de admissão da faculdade — Louise riu enquanto fechava os olhos com o carinho na cabeça e sem soltar da mão do Steve. — O Will está bem?
— Está, graças a vocês — Joyce agachou puxando a segunda poltrona existente no quarto — Mas precisa prometer que não fará mais nada de estúpido.
— Não posso prometer o que não vou cumprir, quase morri tia Joyce, é óbvio que vou fazer algo estúpido para compensar a estupidez que quase me matou — Respondeu Lola rindo fraco, porém seu sorriso se desfez ao recordar que havia enviado o melhor amigo e Nancy para os braços da morte. — Sinto muito pelo Jonathan.
— Do que está falando? — Perguntou Joyce confusa.
— Ele está vivo? — Perguntou Louise estando tão confusa quando a senhora Byers.
— Sim, seu namorado está vivo — Joyce semicerrou os olhos fingindo estar brava por ambos estarem em um relacionamento sério. Mas ela não demorou em desfazer o olhar e sorrir animada com Louise.
Apesar de ter uma relação como segunda mãe de Louise, a matriarca da família Byers estava contente por ambos terem finalmente se acertado de forma positiva, dando um passo a mais na relação. Em algum momento ela teria de ter uma conversa séria com ambos sobre proteção, já que o relacionamento envolve outros eventos que a maioria das amizades não costuma ter, mas por enquanto deixaria Louise se recuperar do susto e aproveitar o começo do namoro tão desejado pela adolescente.
Mesmo que demonstrasse felicidade por finalmente estar dentro do relacionamento mais ansiado no último ano, Louise se sentia culpada por ter ficado contente em ver Steve Harrington sentado na poltrona ao lado de sua cama ao invés de Jonathan. Ela amava Jonathan, mas isso não significava que tudo o que sentia por Steve no passado havia ido embora para sempre.
— A Nancy está bem? — Louise perguntou olhando dessa vez para o Steve. Mesmo que seguisse odiando a ex-melhor amiga, ela não desejava sua morte.
— Sim, ela está — Concordou Steve sorrindo sem mostrar os dentes.
— Que bom. — Louise suspirou aliviada e retribuiu o sorriso sem humor.
— LOUISE! — Gritou Dustin ingressando no quarto onde a irmã repousava, ele não hesitou em pular sobre a menina na cama e abraça-la apertado. Apesar de sentir dor pelo carinho abrupto do irmão mais novo, Louise retribuiu o abraço com seu braço livre do gesso. — Eu pensei que tinha morrido, vou chamar os outros — Ele levantou animado correndo até a porta do quarto — A LOLA ACORDOU! ELA NÃO MORREU.
— É óbvio que não morri, ainda vão ter que me aturar muito — Disse Lola rindo fraco enquanto se ajeitava confortavelmente com auxilio de Steve Harrington e Joyce Byers.
— Lolinha! — Lucas foi o segundo membro do grupo a ingressar no quarto, assim como Dustin ele não hesitou em abraçar Lola fortemente, estando feliz em saber que a nova amiga estava saudável apesar do tiro tomado — Você foi o melhor membro honorário que tivemos até agora.
— Pensei que tomar um tiro por vocês me faria do bando — Brincou a menina retribuindo o abraço de Lucas com ternura.
— Podemos conversar sobre isso futuramente — Disse Mike ingressando no quarto e também abraçando Louise, mas diferente dos outros meninos o seu abraço foi rápido e levemente desengonçado, como se não soubesse ao certo o que estava fazendo. A adolescente não o culpava, pois não era como se ele abraçasse frequentemente as mulheres de sua casa ou qualquer outra pessoa. — Como está o braço?
— Não caiu, isso que importa — Lola riu fraco erguendo com dificuldade o corpo para mostrar o local atingido pela bala — Só não entendi a armadura que colocaram em mim.
— Lady Stardust tem uma armadura — Recordou Dustin sentando no canto da cama da irmã.
— É, mas não é ridícula — Com o braço livre ela baixou parte da bata hospitalar para que pudessem ver o gesso completamente branco e sem graça que ocupava grande parte do seu tronco, imobilizando toda sua cintura escapular e úmero direito. — Espero que isso aqui não atrofie os meus peitos.
— Louise! — Repreendeu Joyce ao ouvir o comentário enquanto segurava para não rir junto com os demais.
— O que? Eu estou falando sério — Disse a menina irritada — Já não basta ser horrorosa.
— Posso dar um jeito nisso — Falou Steve convicto.
O rapaz levantou da poltrona que estava sentado e caminhou até o quadro de informações preso nos pés da cama de Louise, para sua sorte o doutor havia deixado à caneta azul de ponta grossa presa no quadro branco. Com o objeto em mãos ele regressou para próximo da cama, sendo o primeiro a assinar o gesso toracobraquial da menina.
— Uau! — Ironizou Louise ao notar o nome de Steve escrito com letras garrafais sobre o ombro engessado — Melhorou quase que cem por cento.
— Óbvio que melhorou, sou um artista — Zombou Steve passando a caneta para Dustin, o qual também assinou o próprio nome no gesso da irmã.
Entre risadas e conversas animadas, todos os presentes no quarto assinaram o gesso de Louise utilizando suas melhores caligrafias. Em poucos minutos a peça estava repleta de nomes e frases humoradas, até mesmo Hopper que havia ingressado no quarto quase que meia hora depois de Louise despertar assinou seu nome. O delegado estava ajeitando secretamente com Cláudia as despesas do hospital, assim Lola não teria de se preocupar com a conta médica quando voltasse para casa.
O último a visitar Louise no quarto foi Jonathan, ele não queria deixar Will sozinho enquanto a mãe e as outras crianças conversavam com a atual namorada. Todos, com exceção de Steve Harrington, tinham deixado à menina em observação no hospital. Dustin havia regressado com a mãe para a casa no intuito de descansar um pouco e pegar trocas de roupas para Louise, as quais ela conseguiria utilizar quando deixasse o hospital em breve e ao mesmo tempo sentisse confortável.
Apesar de todo o histórico negativo que possuía com Steve desde a briga na Middle-School, estar sozinha ao lado do velho amigo era como se o tempo não tivesse passado e ambos permanecessem com doze anos. O rapaz estava focado em mudar a imagem ruim que Louise carregava dele, provando que não era o idiota que havia iniciado com o apelido de aberração Henderson, que mesmo tendo agido feito imbecil em muitos momentos existia algo bom em seu coração.
— Eu tinha imaginado o nome de todos baseado nos personagens do Bowie, incluindo o meu — Disse Louise risonha depois de ter narrado toda sua teoria sobre mudar-se para o México caso continuasse sendo perseguida pelo governo.
— E você sabe falar alguma coisa em espanhol? — Perguntou Steve arqueando a sobrancelha. Ele estava sentado confortavelmente na poltrona com os pés esticados sobre a cama da amiga.
— Te quiero, muah! — Louise imitou o velho urso de pelúcia que Steve havia lhe dado de presente de aniversário quando tinha doze anos, fazendo o rapaz gargalhar bem humorado. — Viu, sei falar muito espanhol. Ah, também sei cantar as músicas do Menudo.
— Música do que?
— Menudo, é um grupo Porto-Riquenho — Explicou Louise lembrando do LP que sua mãe havia lhe dado de presente dois anos atrás. — Minha mãe tinha achado os moços bonitos e pensou que seria interessante algo diferente do Bowie.
Parado no batente da porta, Jonathan assistia em silêncio a conversa entre Louise e Steve. Com espanhol todo errado, Lola cantarolava o refrão de "Claridad" da banda citada anteriormente, fazendo Steve gargalhar de sua péssima dicção na língua estrangeira.
Aquela era a primeira vez que estava vendo a melhor amiga se divertindo ao lado de Harrington, como se as coisas ruins não passassem de lenda urbana. Na verdade aquela era a primeira vez que via Louise completamente relaxada, mesmo tendo amizade com a adolescente desde tenra idade, a menina sempre parecia aflita esperando o pior de todas as pessoas ao redor.
— Hey, Jon! — Mantendo o sorriso cansado na face, Louise chamou o namorado ao nota-lo parado embaixo do batente. — Como está o Will?
— Dormindo — Respondeu Jonathan aproximando da cama de Louise, propositalmente ele a beijou demorado nos lábios, deixando Steve desconfortável e o obrigando a olhar para o lado contrário — Você está bem?
— Melhor agora — Respondeu Lola sorrindo doce — Estava contando para o Ste sobre o que aconteceu na escola antes de desmaiar.
— Ela ia se mudar para o México — Disse Steve alargando o sorriso ao escutar Lola o chamar pelo apelido de infância.
— A Nancy sabe que você está aqui? — Perguntou Jonathan tentando disfarçar o tom de ciúmes da voz.
— Sim, ela sabe — Respondeu Steve sorrindo sem mostrar os dentes — Não sei se você recorda, mas antes de ser namorado da Nancy eu era amigo da Lola.
— Isso foi antes ou depois de agir feito idiota com ela? — Defendeu Jonathan levemente irritado.
— Foi passado, o Ste mudou — Disse Louise interferindo na conversa antes que uma briga desnecessária iniciasse — Você é amigo da Nancy e eu não gosto dela, eu sou amiga do Steve e você não gosta dele. Equilíbrio. Além de que ambos agiram feito idiotas comigo, então um não pode julgar o outro. Perdoei o Steve, perdoei você. A vida é muito curta para guardar rancor.
— Então você vai perdoar a Nancy? — Perguntou Jonathan provocando a namorada.
— Já está querendo muito — Respondeu Louise sorrindo de escárnio — Nancy nunca me pediu desculpas.
— Eu vou pegar algo na cantina e deixarei vocês conversando. — Anunciou Steve levantando do sofá.
Apesar de estar pouco á vontade com a ideia de deixar Louise sozinha no quarto de hospital com Jonathan, ele tinha conhecimento de que ambos precisavam conversar e arrumar os detalhes do novo relacionamento iniciado. Sorrindo sem mostrar os dentes, Steve deixou o aposento. Porém antes de sumir pelo corredor dolorosamente branco, ele gesticulou para que Lola utilizasse do braço engessado para atacar Jonathan caso precisasse de ajuda, fazendo a menina rir fraco e revirar os olhos.
Diferente de Steve que havia utilizado o tempo inteiro a poltrona, Jonathan preferiu acomodar-se ao lado de Louise na cama hospitalar, deitando junto com a garota e passando seu braço sobre os ombros dela para que utilizasse como apoio enquanto deitava a cabeça em seu peito.
— Estamos bem? — Perguntou Jonathan genuinamente preocupado e acariciando a bochecha de Lola com o polegar.
— Estamos — Assentiu Louise fechando os olhos enquanto segurava a outra mão de Jonathan com o braço não engessado — Apesar de que as coisas serão diferentes agora.
— Diferentes como? — Perguntou Jonathan baixando o tom de voz ao notar que Lola estava prestes a dormir em seus braços.
— Não sei, mas não podemos fingir que somos os mesmos de quando a semana começou — Lola suspirou profundo — Só vamos seguir o fluxo e ver onde a correnteza nos leva.
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