[HIATUS] Mudanças impuras
27 Sob pontas soltas
Notas iniciais
Um pouco mais de duas semanas depois...
— Olha aqui, ruivinha... No próximo sábado vou te levar comigo a uns lugares. Você vai ser minha o dia inteiro. Portanto, esteja pronta a partir das oito da manhã. — Dayse anuncia com um sorriso atrevido, depositando um dos braços por cima dos ombros de Manu, ajeitando-se no banco e buscando sua boca para beijar novamente, ao passo que lhe acaricia as faces afogueadas com os dedos suaves e massageia a sua nuca por cima dos cabelos rubros.
— Aonde você quer me levar? — Manu pergunta, ao afastar minimamente os lábios inchados e úmidos, franzindo o cenho e achando interessante que ela a esteja convidando com antecedência de dois dias. Ela está meio arquejante por conta dos beijos afoitos, mas acha ótimo ter os braços de Dayse envoltos a si, fazendo diminuir a friagem desta noite de quinta-feira.
Estão na conhecida parada de ônibus, sentadas no banco, esperando pela condução de Dayse. Tal ato se tornou rotina. Como o esperado, Manu e Dayse, iniciaram um relacionamento indefinido, visto que nem a ruiva e nem a outra tinha referido ainda sobre assumir namoro, embora não estivessem escondendo a sua sutil aproximação de ninguém.
— Ué. Não foi você quem disse que queria me conhecer melhor e saber o que eu faço quando não estou na lanchonete? Pois então... Vou te mostrar um pouco do meu mundo. — A moça de olhos castanhos agatinhados sussurra a última frase rente ao ouvido de Manu, impondo um ar de excitante mistério.
Manu ri, um tanto acanhada, o que faz Dayse apertá-la nos braços ainda mais forte, achando-a linda com este ar de recato.
— E como vai ser? Vamos marcar um local de encontro para este nosso passeio? — Manu inquire espontaneamente.
— Bom, meu pai vai me emprestar o carro... Então, eu pensei em passar na sua república pra te buscar. Pode ser? — lança a pergunta avaliando as expressões de Manu. Dayse está um pouco receosa e não quer ser invasiva, pois sabe que, além das demais colegas, Manu convive com a sua ex–namorada e pode não achar boa ideia recebê-la na sua moradia, por enquanto.
— Uhum... pode, sim. — Manu responde, mas algo em sua voz deixa Dayse intrigada.
— Tem certeza? Olha, não tô querendo lhe causar nenhum mal-estar... Eu sei que a sua separação com ela é recente.
— Você não vai me causar mal-estar algum, Dayse... Como eu disse, pode passar lá, sim. Você tem o endereço, né? Eu já te dei. Então, está tudo certo. — A voz de Manu sai mais afetada que o previsto, pois, no fundo, não está tão segura quanto gostaria. No entanto, Dayse prefere fingir não perceber o seu comportamento hesitante, pois considera que apenas o tempo poderá fazer Manu encerrar definitivamente o que sente pela ex-namorada e se voltar, em absoluto, para ela. Opta por voltar aos beijos e às conversas amenas, até que sua condução venha.
Na república, Vicky está sentada com as pernas para cima da cama e tem em suas mãos um livro, que finge ler, referente ao seu curso. Lavínia entra, a fim de pegar uma roupa na cômoda, pois pretende tomar banho. De repente, um celular toca. É o dela, que o pega de cima do móvel agavetado, vê que se trata de um número desconhecido e atende.
— Alô! — Não há resposta e Lavínia fica incomodada, pois, desde que voltou para a república, esta é a quinta ligação que ela recebe sem que a pessoa do outro lado da linha emita qualquer som. — Alô! Henry... é você? — cria coragem e pergunta. A ligação é encerrada. Ela olha para o aparelho na mão, sentindo-se incomodada só de pensar que ele a esteja cercando novamente.
— Tudo bem com você, Lavínia? — Vicky questiona, ao notá-la com olhar um tanto assustado.
— Tá. Tá tudo bem... Acho que alguém li-ligou para o meu celular por engano, só isso. — recoloca o telefone sobre a cômoda.
Vicky não quer ser indiscreta e finge não a ter escutado pronunciando o nome daquele que sempre ouvia nas conversas entre ela e Louise, embora tenha percebido a sua inquietação com a chamada. Contudo, baixa o livro e a olha como quem está com uma dúvida que quer sanar.
— Lavínia, tem certeza de que não quer levar as suas coisas lá pro outro quarto? Eu trago rápido as minhas pra cá e desocupo o espaço na cômoda de lá.
No mesmo dia em que Lavínia havia regressado para a república, Vicky praticamente implorou para que trocassem de quarto. Não quis justificar os motivos e se mostrou satisfeita quando a loira concordou. Lavínia, por sua vez, só aceitou a troca com a simples condição de que nenhuma das duas iria tirar os seus pertences dos locais de origem, até o fim de, no mínimo, dois meses, pois ela tem plena certeza de que, em breve, Vicky voltará para o quarto ao qual de fato pertence.
— Não, Vicky. Deixa como está. Você sabe o que eu penso. Pra mim, essa separação de vocês é provisória. Logo vocês se entendem e vai ser chato ficar com as minhas coisas pra lá e pra cá. — Lavínia fala de forma alegre. Ela se aproxima da cama, já com a muda de roupas e a toalha em mãos, senta-se ao seu lado. Põe a mão alva por cima dos dedos morenos e ri, simpática. — Não se preocupe... Tudo vai dar certo.
Vicky devolve-lhe com um sorriso meio triste.
— Quem dera, amiga. Mas eu sei que já perdi a Manu... e não há mais como voltar e consertar as coisas. O jeito é seguir com a vida e tentar fazer o que é certo... o que é melhor para todos. — solta, tentando desabafar um pouco e Lavínia acha o discurso dela triste demais, mas não questiona.
Vicky, porém, está pensando no último fim de semana em que esteve com seus familiares e eles lhe aprontaram uma que ela nem teve como se livrar. No último domingo, quase hora de almoço, estava na casa dos pais, conversando sobre qualquer fato corriqueiro, sentada numa antiga cadeira estofada, tendo-os ao seu redor juntamente com suas duas irmãs, Lídia e Raquel, bem como com os seus lindos filhos e os maridos delas, que estavam em pé, próximos à estante velha de madeira nobre, encostados à janela larga e comprida, conversando entre si, relaxados, numa alegria genuína. A sala mobiliada com gosto tradicional refletia as cores opacas de bege e marrom por todo lado, fazendo-a sentir-se um tanto nostálgica, pelas lembranças de uma infância repleta de reprimendas e alguns momentos genuinamente pueris. Vicky olhava para a sobrinha sentada no tapete a brincar com suas bonequinhas e para a barriga de cinco meses da mãe dela, sua irmã mais velha, Lídia, e para o sobrinho, de pouco mais de dois anos, no colo da sua irmã do meio, Raquel, percebendo a convocação à maternidade como algo que a perseguiria em breve. Isto seria inevitável, visto que o hábito de sua família tende ao casamento e à gestação precoce. Ela desviou os olhos para baixo, envergonhada, pois estes já estavam sob os maridos de suas irmãs, experimentando a sensação de não pertencer àquele lugar, definitivamente.
A campainha retiniu, exigindo que atendessem ao chamado, na porta da frente.
— Chegaram! — Lídia, a irmã mais velha, anunciou com voz eufórica. Ela lançou um olhar de esguelha para Vicky, que não entendeu o gesto.
A mãe, Vera, encaminhou-se à porta para receber sua prima Goreth e o filho dela, Fábio, com beijos em seus rostos e abraços apertados.
— Louvado seja o senhor! Minha querida prima, que bom que vocês aceitaram nosso convite. Entrem. — A senhora os recebeu com palavras religiosas e lhes deu passagem para que adentrarem o recinto e serem vistos pelos demais presentes.
— Goreth! Há quanto tempo não nos vemos! — O senhor Jaime, pai de Vicky, ergueu-se do sofá, enviou-lhe um largo sorriso e, em seguida, olhou para o rapaz que a acompanhava. — Meu Deus, este é mesmo o Fábio? Gente! Está um homem feito! — estendeu a mão para apertar a do rapaz e ficou mais impressionado com a pressão vigorosa que recebeu.
— Fábio já está crescido, Jaime. Você queria o quê? Que continuasse aquele menino magrinho e respondão? — Goreth declarou e o rapaz fingiu uma cara de bravo, mas acabou rindo, por se ver relembrando de sua época de garoto.
— Ai, como estou feliz de tê-los aqui hoje. Veja que maravilha, prima, minhas filhas estão todas aqui comigo. Você soube que as duas mais velhas casaram e já têm filhos, não foi? — Vera falou com orgulho e chamou a atenção dos convidados para as moças no recinto.
— Eu soube e fiquei feliz. Estes belos rapazes são seus genros? — Goreth inquiriu apontando os homens, que a olhavam com simpatia.
— São sim... e estes pequenos são nossos netos. A maiorzinha é Anícia, este garotão é Joãozinho... e o bebê que está vindo se chamará Lucas.
— Que bênção! Agora só falta casar a sua caçula. — A prima de Vera olhou diretamente para Vicky, que se incomodou, mas disfarçou com um sorriso anêmico.
— É verdade. Mas rezo para que ela logo encontre um bom rapaz para conquistar seu coração. — Vera e Goreth piscaram uma para a outra, num gesto de cumplicidade. Lídia e Raquel fizeram o mesmo. Os maridos apenas sorriram, assim como o fez o seu pai. Fábio, no entanto, permaneceu indecifrável.
Vicky olhou-o de soslaio e notou que ele a analisava com olhos fixos e atentos. Achou tudo muito curioso, mas preferiu desconsiderar sua primeira impressão.
Passado o momento efusivo de chegada dos visitantes, Vera solicitou que todos se dirigirem à outra sala, onde a mesa estava posta com um farto e esmerado almoço. Pares foram formados e Vicky foi colocada ao lado do primo, o que só aumentou sua desconfiança sobre um possível complô. Tal suposição foi agravada quando a conversa, durante a refeição, direcionou-se para a mudança da tia Goreth e do seu filho para esta cidade e a consequente transferência do curso de engenharia civil de Fábio para a faculdade em que ela estuda.
— Ai, Goreth, que bom que você resolveu vir morar perto de mim. Vocês moraram tanto tempo longe de nós. Senti muita pena de você quando o César faleceu, te deixando com um filho adolescente pra criar sozinha. — Vera confessou para a prima, que sorriu, resignada, e olhou para Vicky depois.
— Vicky, não é maravilhoso? Fábio e você estudarão na mesma faculdade. Poderão se ver todos os dias. — A pitada de malícia na voz e nos olhos escuros da tia trouxeram gastura para Vicky.
— Ah! Sim... É sim. — Ela respondeu, tentando ser o mais gentil possível, embora algo nesse diálogo a inquietasse muito, bem como o persistente olhar de Fábio a analisá-la.
— Sabe, tia Vera, antes eu nem estava de acordo com a nossa mudança para esta cidade... Mas agora eu acho que estou começando a gostar. — O rapaz de pele morena não desviou os seus olhos esverdeados de Vicky, ignorando o constrangimento que lhe causava.
Esteve por todo o almoço um clima de conversas sugestivas e olhares sinuosos. Vicky só teve alguma folga um pouco mais tarde, quando estavam reunidos na sala conversando tão animadamente entre si que nem a viram sair sorrateiramente pela porta da frente. Ela foi encostar-se na centenária árvore da família localizada à frente da varanda, para organizar os pensamentos agourentos. Pela ânsia de refrear o sofrimento emocional de alguma forma, nem que fosse através da dor física, adentrou com a mão pela camisa rendada amarela e arrastou as unhas crescidas numa parte da barriga, rasgando a pele até sentir o ardor e a umidade, ciente de ser o seu sangue a escorrer em gotas parcas, que depois ela disfarçaria ao máximo para ninguém perceber. Experimentou um tipo de prazer por conseguir, em meio à dor infligida, distrair a mente da sua amarga realidade. Olhou para o céu límpido, apenas com umas nuvens ali e acolá, comprimiu os olhos, sentindo o frescor do vento em seu rosto acompanhado de duas grossas lágrimas provenientes da vontade de voltar ao seu mundo, sem saber qual era ele.
— Vicky... Vicky! — Lavínia chama a atenção da amiga, achando sua expressão compenetrada, perdida em algum ponto da parede do quarto.
Vicky volta à presente realidade, observando a amiga como quem quer conversar sobre suas angústias, mas é impedida por sua personalidade reclusa.
— Lavínia... — fala com voz fraca e, em seguida, traceja um sorriso, levantando o rosto para impor em si alguma perseverança. — Sim, você tem razão... Tudo vai dar certo.
No dia seguinte, ao fim da tarde...
Lavínia caminha pelos corredores da faculdade a passos tranquilos enquanto tenta desdobrar-se em atenções para os seus acompanhantes, um de cada lado, os irmãos Pâmela e Pietro Cazeviel.
— Então, Lavínia. Você não quer ir amanhã lá pra minha casa de novo pra gente estudar mais a matéria? Sabe que na próxima semana terá prova teórica, não é? E você ainda tem que se esforçar bastante para acompanhar o conteúdo que já foi dado. — Pâmela anuncia, olhando-a diretamente.
— Bom, mas amanhã é sábado, Pam, e eu não quero... i-incomodar. — Lavínia fica meio nervosa, ao sentir o olhar firme de Pietro sobre si.
— Hum... É claro que você não vai incomodar. Aliás, ao contrário disso... você apenas atenderia o desejo do meu irmãozinho aqui que está louco para saber mais sobre você. — Ela pisca, tanto para Lavínia como para o irmão e ambos ficam envergonhados.
O comportamento ousado de Pâmela assemelha-se demais ao de Louise. A garota simpática de cabelos dourados e cacheados é colega de curso de Lavínia e, desde que soube do seu retorno às aulas, mostrou-se solícita em ajudá-la a recuperar o tempo perdido, repassando-lhe, com disposição e boa vontade, toda a parte teórica, que ela perdeu enquanto esteve sumida, e sem lhe encher o saco com mil e uma perguntas sobre a sua tragédia particular. Lavínia, então, viu-se, ao longo destes dias, indo em visitas diárias pela manhã à casa de Pâmela, onde foi oficialmente apresentada ao irmão dela, Pietro, pois ela o conhecia de vista, porque ele estuda também no horário da tarde, fazendo o curso de direito.
— Pam! Deixa de ser atrevida, garota! — Depois de dar bronca na irmã mais nova, Pietro lança em Lavínia seus olhos muito verdes, assim como os de Pam. — Desculpe o jeito antipático dessa aí e, se você quiser ir para a nossa casa amanhã, realmente não incomodará ninguém. Sua presença é bem-vinda sempre. — faz questão de ser formal, embora haja em sua voz um traço perceptível de alegria. Repentinamente, ele estende a mão e a passa em uns fios, no alto da cabeça de Lavínia, deslizando até próximo ao seu ouvido. Ela, surpresa, acompanha com os olhos o gesto carinhoso e sorri ao ver na mão dele uma pequena folha verde que foi parar nos seus cabelos pela força do vento. — Então, Lavínia, você vai? — Pietro pergunta, simulando naturalidade, e Pâmela controla a vontade rir.
— E-Eu vou. — Ela responde, gaguejando um pouco.
— Ok! Agora vamos logo embora porque eu tô morrendo de fome. — Pam corta o clima de paquera e vai logo dando beijos no rosto da amiga, de um e outro lado das faces, para se despedir, puxando o irmão pelo braço, tencionando ir para o estacionamento da faculdade. — Vem, Pietro. Ah! Se eu soubesse dirigir, eu te deixaria aí dando em cima da minha amiga, pelo tempo que quisesse, mas como eu não sei...
Lavínia sente as faces ficarem em brasa, porém, deixa-se vagar no perfil do rapaz bonito, enquanto ele lhe diz com os lábios um tchau mudo e segue com a irmã colada em seu braço. O que ela sabe sobre ele, até agora, é que tem vinte e cinco anos, é formado em português, está no curso de direito e pretende atuar nesta área comum à maioria dos integrantes de sua família. “Quem sabe?” Lavínia reflete que será bom aproximar-se mais destes irmãos divertidos e talvez ser algo mais dele. Involuntariamente, começa a enumerar as diferenças entre Pietro e Henry. Um ainda mora com os pais, é jovem, inteligente, agradável e sem malícia aparente, tem uma beleza que salta aos olhos, cabelos castanho-claros e pele um tanto bronzeada, que contrasta com os olhos cor de esmeralda viva. Henry, por seu lado, é experiente, alvo, loiro, bem-sucedido financeiramente, sinuoso, irônico, perspicaz e consegue fazer uma mulher sentir-se nua somente fixando nela os seus penetrantes olhos azuis. Além disso, seu porte majestoso e gestos firmes o dotam de um poder de atração quase sufocante.
Como que por sinistra coincidência, ao olhar para o outro lado da quadra de esportes, a uma distância de alguns metros, Lavínia tem uma visão que lhe deixa estática. O coração acelera e a respiração começa a falhar, obrigando-a a respirar pela boca. “É o carro dele!”. Apura mais a vista e percebe que os vidros estão levantados dificultando ver o interior do veículo. Sua mente não consegue raciocinar com clareza, pois a emoção toma conta dela. Entre curiosa, ansiosa e magnetizada, começa a dar passos irrefletidos na direção da mini van cinza. Vai-se aproximando e se aproximando...
Subitamente, uma mão se põe em seu ombro e a puxa para trás.
— Vivi! Para onde você tá indo? Não recebeu minha mensagem? Aff! Cansei de esperar e vim te buscar. — Louise fala sem parar devido à sua habitual euforia.
— E-Eu recebi... — Lavínia responde e quando olha novamente na direção no carro, este havia sumido.
— Nossa! Você tá pálida e suas mãos estão suando frio. Tá passando mal, Vivi? — Louise observa o semblante alterado da amiga, ao passo que lhe segura as mãos, sente a temperatura e nota suas pupilas dilatadas.
— Lou, e-eu acabei de ver o ca-carro do Henry aqui. — anuncia em quase sussurro.
— Onde? — Louise inquire, lançando olhos caçadores a todos os lados.
— Ali... de-depois da quadra, mas não está mais lá. — respira fundo para diminuir o nervosismo.
— Vivi, se você quiser, hoje mesmo eu te acompanho até uma delegacia e você o denuncia por assédio. — Louise quer ajudar, mas argutamente prevê qual a resposta que receberá à sua sugestão.
— Não! Quer dizer, não é preciso isso... Lou, eu decidi não denunciá-lo. Eu sei que ele não vai me fa-fazer mal. Eu sei! — Lavínia desvia os olhos da expressão incrédula de Louise. — E afinal... eu nem te-tenho mesmo certeza de que era ele.
— Como também não sabe se aquelas ligações com o número desconhecido eram dele? — Louise diz, em tom de desafio.
— É isso mesmo. Talvez eu esteja apenas ficando neurótica... e te-tendo alucinações! — solta baforadas de ar, passa as mãos pelos cabelos e impõe uma postura de quem não quer ser contrariada em sua conclusão.
— Ok, Vivi. Não vou ser chata e ficar te dizendo o que você deve fazer... Vamos. Vem comigo porque o Dico está nos esperando onde eu te falei na mensagem.
Louise resolve não contradizer o pensamento de Lavínia sabendo que sua amiga, mesmo não sendo mais nenhuma criança, é ainda muito imatura e inexperiente quanto a avaliar e lidar com os próprios sentimentos e, certamente, está confusa. Por mais doloroso que seja, considera que é preciso que ela aprenda por si mesma qual o melhor caminho a seguir em sua vida.
.Elas andam apenas uns poucos metros e chegam ao quiosque-lanchonete, um entre os vários que existem na faculdade e que disponibilizam um lanche rápido. Trata-se de um ponto comercial pequeno, rústico, que atende os clientes, em sua maioria estudantes, num espaço aberto. Há bancos e mesas feitos de concreto e madeira envernizada, bem como árvores enormes rodeando o ambiente, que o torna sombreado, ventilado e agradável.
Louise havia deixado Dico sozinho na mesa, quando foi buscar Lavínia. Agora ela suspira encantada, ao vê-lo sentado em um dos bancos esperando-as, e não se surpreende ao notar que ele está acompanhado de Jonas e de Rafael. Os dois garotos gostam de Dico e, não raro, estão à sua volta. Isto ela percebeu depressa. Jonas é o rapaz com quem ela quase transou na festa de aniversário do Dico e que a fez ficar enojada e penalizada por conta do porre que ele tomou, fazendo-o adormecer no chão do banheiro. Felizmente tudo foi esquecido e transformado em começo de amizade. Rafael, o Rafa, é o primo misterioso de Dico. Ele é filho da sua tia bruxa e líder da república vizinha à dele. Rafa é um rapaz que aparenta ter idade inferior a Dico, sua pele é um pouco mais clara e os olhos são de um castanho-escuro bonito. Possui traços bem-feitos, assim como Dico, sendo mais baixo, com corpo menos robusto e, também diferente de Dico, possui uma espécie de inquietação no olhar, um jeito desconfiado de ser, que impacienta um pouco a quem o analisa. Dico e ele não são tão próximo como parentes, contudo, mantém uma relação amistosa. Sem contar que Rafa trata-o com respeito e o considera uma inspiração como líder, embora não diga abertamente. O único problema é que Dico suspeita que o primo esteja envolvido em algum lance censurável, pois, mesmo não tendo trabalho fixo, o que não lhe falta é dinheiro. No entanto, não quer ser um familiar importuno, prefere ficar à margem disso.
— Hum... Parece que eu não posso te deixar só que logo surgem os outros mosqueteiros. — Louise parodia, sorridente, enquanto se senta ao lado do namorado, que passa um braço por seu ombro, puxando-a para um beijo suave e rápido.
— Oi, Louise! — Eles falam em uníssono, fazendo-a rir mais.
— Oi, Jonas. Tudo bom com você, Rafa? — cumprimenta ambos e depois olha para Lavínia, que se havia sentado no banco próximo a ela. — Vivi, o Dico você já conhece, mas deixa eu te apresentar... Estes são Jonas e Rafa, amigos do Dico. Gente, esta é minha melhor amiga, Lavínia.
Lavínia cumprimenta Dico e os rapazes, ficando um tanto constrangida, ao ser observada pelos dois, com olhares maliciosos, mas opta por desconsiderar isso.
— Dico, este aí é o jornal de hoje? — espontânea, Lavínia pergunta ao namorado da amiga, vendo o tabloide nas mãos de Rafa.
Dico está ajudando-a em sua busca por emprego, visto que tem a assinatura dos melhores jornais da cidade.
— É, sim. O Rafa quis dá uma olhada nele, mas já ele te entrega.
— Não, gata, se quiser olhar, fique à vontade. — Rafa fala, todo simpático, querendo bancar o sedutor.
— Não, tudo bem... Você já está com ele em mãos, então pode olhá-lo primeiro. — Ela replica em tom alegre, achando engraçado o modo como ele falou e internamente se sentindo grata por voltar à sua normalidade emocional.
— Vivi, você ainda não encontrou nada interessante nos classificados? — Louise pergunta, curiosa.
Lavínia faz bico de amuo e acena negando.
— Tá procurando trabalho, gatinha? — questiona Jonas, que também pretende insistir na linha de galanteador.
— Estou. — Ela confirma.
— Olha, não sei se você vai se interessar, mas tem um chegado meu que é dono de uma casa noturna. — Rafa intervém. Lavínia, Louise, Dico e até Jonas levantam as sobrancelhas, intrigados com o que Rafa tem a propor. — Não, gente! É sério! O cara contrata garotas pra trabalhar lá. O local é o máximo. É um tipo de boate, bar e casa de espetáculo.
— E que trabalho seria? — Lavínia pergunta, para surpresa geral. Acontece que ela já está começando a sentir as dificuldades advindas da falta de dinheiro. Tem que pagar o aluguel da república, contribuir com os gatos alimentícios, pagar a mensalidade da faculdade, entre outros gastos pessoais.
— Bom, tem as garotas que ficam como garçonetes e as que dançam em cima do palco. — Rafa dá um risinho cínico, ao visualizar a loira se apresentando em uma dança sensual.
— E você saberia dizer se as ga-garçonetes de lá ganham bem?
Louise escuta a pergunta de Lavínia, franzindo o cenho e achando um absurdo que a amiga aceite submeter-se a este tipo de trabalho, sem necessidade alguma, uma vez que tem pai rico e que está disposto a lhe dar tudo para que apenas estude e se forme na profissão à qual se propôs, mas, por pura teimosia, está recusando a sua ajuda financeira.
— Eu acho que ganham sim, embora as dançarinas ganhem bem mais, porque, além do salário, elas se beneficiam com as gorjetas que os clientes lhes dão... Tem caras que ficam tão loucos que jogam notas altíssimas pelo palco. Eu mesmo já fiz isso. — declara, como se tal ato fosse motivo de orgulho e digno de um verdadeiro conquistador de corações. Ele retira, de dentro da sua mochila, um cartão e lhe estende para que pegue. — Como eu disse, o dono de lá é um chegado meu e ele me dá esses cartões porque sabe que eu conheço uma porção de garotas aqui na faculdade. O cara só pega mulher bonita... e nesse quesito, você já estaria contratada. — Rafa dá uma piscada de olho para Lavínia e ela apenas estuda o cartão em sua mão, contendo o nome do local, o endereço, e-mails e telefones.
— Eu vou pensar sobre isso... Obrigada pela dica, Rafa. — Ela guarda o cartão na bolsa.
Segundos depois, Rafa e Jonas voltam a folhear o jornal juntos e, de vez em quando, riem de algo com que se deparam. Lavínia igualmente volta a ficar mais tranquila e risonha, conversando com Louise e Dico, puxando um assunto qualquer.
De repente, algo na sessão da coluna social faz os rapazes voltarem a ficar com cara de pervertidos.
— Quando eu crescer, quero ser igual a esse cara aí. — declara Jonas em tom quase invejoso, admirando e lendo em voz alta o que está escrito na folha à sua frente. — Diz aqui... “Empresário rico e elegante é sempre flagrado ao lado de beldades famosas”. Esse tal de Henry Sorelle sabe o que é bom! — ri, pilhérico.
— Ah, que bobagem! Eu também ando na noite, tenho dinheiro e mulheres sempre que eu quiser. — Rafael exibe ar de desdenho.
Apenas Louise consegue identificar o semblante visivelmente atônito na face da amiga.
— Me dá esse jornal aqui, por favor! — Louise praticamente arranca das mãos deles o jornal e, sutilmente, convoca a amiga para as duas confirmarem ser mesmo uma reportagem frívola, sobre as badalações noturnas, envolvendo Henry.
Os rapazes apenas riem e não ligam para a postura meio agressiva da namorada de Dico, pois já haviam intuído a sua personalidade intempestiva. Não demora e eles se voltam a outra distração, paquerando umas garotas, numa mesa ali adiante.
Lavínia não tira os olhos atentos do jornal.
— É ele mesmo? — Louise inquire com voz baixa, apenas para a loira.
— É. — Lavínia anui, com olhar perdido e triste.
— Uau! Ele é lindo. — Louise expressa e Lavínia revira os olhos pensando que esse comentário é desnecessário, não ajuda em nada. — Ai, amiga... Desculpa. — percebe a falha e volta a se concentrar em ler o que há escrito.
Na reportagem, pode-se ver Henry ao lado da atriz de origem italiana, Ticiana Di Sant, que está divulgando o seu mais recente filme, em visita ao país desde a semana passada, para onde vem, de tempos em tempos. A atriz é reconhecida no meio artístico por encenar, quase que como de praxe, em papeis eróticos e alguns verdadeiramente adultos. É alta, apenas alguns centímetros a menos que Henry, tem olhos e cabelos escuros, ondulados e na altura dos ombros, magra, seios fartos, lábios carnudos e pele clara.
— Viu? Eu não te falei? Não era ele! Ele está mesmo co-conseguindo seguir com a vi-vida... deixando de lado essa loucura de vingança e... me esquecendo na companhia de outras mu-mulheres. — Lavínia cochicha, em tom meio raivoso, sem se dar conta de que transparece ar de ciúme.
Louise somente torce o lábio e acha tudo bastante duvidoso. Ela entrega o jornal para que Lavínia leia toda a reportagem e fica com pena, ao ver sua amiga tão perturbada, ciente de que nada pode fazer, além de dar conselhos.
— Algum problema, anjo? Posso ajudar? — Dico pergunta, solícito, para Louise, pois pressente a cumplicidade agoniada das duas garotas.
— Não, meu bem... É uma questão delicada... uma provação difícil pela qual minha amiga vai ter que passar sozinha. — Louise segreda ao namorado e sorri para descontrair, adorando ver como ele é generoso, sempre afável.
Dico lança-lhe um olhar mais envolvente.
— Hoje à noite, a gente poderia ir para um local mais reservado... só nós dois. O que acha? — circunda o braço em sua cintura, trazendo-a para mais perto, convidando-a obviamente para irem a um motel.
Louise pensa um pouco e quer tirar uma dúvida.
— Por que que não deixamos esse programa para amanhã que é sábado.. ou para o domingo? É que hoje tô meio cansada. — boceja para reforçar sua desculpa, inventada na hora.
— Louise, eu já te falei... Eu estou participando de um curso de extensão, nos fins de semana. Por enquanto, não dá. — assevera, embora sua voz mostre certa hesitação.
— Onde está acontecendo esse curso de extensão? — Louise exibe um olhar de desconfiança.
— Olha, anjo, vamos deixar essa conversa chata sobre cursos para outro momento. Isso não tem importância agora. — acaricia-lhe a nuca, cheira e beija seu pescoço, fazendo-a ficar com os pelos eriçados e arfar.
— Dico... — Louise pronuncia seu nome, sabendo que seria difícil resistir aos seus toques afetuosos.
— Tem certeza que está cansada? — Dico compreende que precisa ser mais persuasivo quando nota Louise ainda relutante em aceitar seu convite. Primeiro, ele analisa ao seu redor. Surpreende Rafa e Jonas enviando olhares insinuativos para umas moças a umas duas mesas dali e Lavínia muito concentrada na leitura do jornal. Portanto, decide agir de modo mais arriscado. Discretamente, captura a mão de Louise por baixo da mesa e a escorrega em sua calça jeans até chegar ao monte elevado no meio das pernas, sem tirar os olhos dos dela. — Jura mesmo que está cansada? — repete a pergunta arfando um pouco, rente a sua boca semiaberta.
— Ai, Deus! Dico, isso é jogo sujo. — Louise anuncia, excitada, ao sentir a ereção do moreno na palma da mão.
Ele abre um belo sorriso, experimentando uma pré-excitação por saber que ela seria toda sua novamente mais tarde, em algum motel. Sua mente, entretanto, o avisa de que está sendo omisso e covarde por não abrir logo a situação complicada na qual está enfiado até o pescoço. Tem medo e um medo que cresce a cada dia em que está ao lado dela. Não quer perdê-la por nada. Fará o que for preciso para continuar esse namoro, pois a verdade é que está perdidamente apaixonado. Por outra lado, também reconhece em Louise um mulher ativa, independente, destemida, que não gosta de empecilhos em sua vida, mesmo que tenha demonstrado receio quanto a ceder à relação. Mas ele se ilude, pensando que brevemente poderá resolver a tal questão e se dedicar de corpo e alma para Louise.
[...]
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