[HIATUS] Mudanças impuras
28 Entre afagos e surpresas
Notas iniciais
— Não vai mesmo me falar sobre o tal curso de extensão que você está fazendo... aos fins de semana? — Louise pergunta, insistindo sobre o assunto, pela terceira vez na noite.
Já passa das nove horas e eles estão em um motel qualquer escolhido por ele. Acabaram de se entregar outra vez ao prazer de unir os corpos, com desejo e sofreguidão. Ela está deitada sobre o busto moreno, nu, liso e suado de Dico, encarando-o com expressão de curiosidade.
— É um curso extra referente ao que faço, de publicidade e propaganda... Eu já te falei. Vamos mudar esta conversa para uma melhor. — acaricia os sedosos cabelos curtos e fala com calma, buscando convencê-la de sua sinceridade. Mas, ao ver a expressão de dúvida mesclada a uma postura relutante de Louise, Dico procura, na mente, uma saída para esta pressão psicológica. Não se sente ainda preparado para lhe revelar os seus problemas pessoais e, a despeito disso, tem esperança de conseguir resolver a tal questão, antes de dizer tudo a Louise. Pensa que só o que é possível a ele no momento é fazê-la ver o quanto a quer. Portanto, abraça-a mais forte. Com sensualidade, emaranha-se em seu corpo, fazendo-a deitar-se as costas no colchão, invertendo as posições. Fica por cima e vai depositando beijos suaves por sua pele, numa trilha erótica que começa nos seios e colo, passa pelo pescoço, pela face, corada devido ao frêmito instigante, chegando aos lábios úmidos, entreabertos. Suga-os com gosto, promovendo um barulho característico do friccionar de peles e bocas molhadas, enquanto o falo se enrijece gradativamente, mostrando toda a sua animação renovada.
— Tô começando a achar que você está fugindo desse assunto. — Louise anuncia com voz quase esvanecida, sentindo os pelos do corpo eriçarem-se de excitação, tentando manter o cérebro ativo entre uma carícia e outra.
— Por favor, anjo, esquece isso. Não sei por que você está assim desconfiada sem motivos. Não estou fugindo de nada, só não quero falar de chateações à toa. Tudo que eu quero agora é sentir você. Quero que seja minha de novo. — Mal acaba de falar, com voz afetuosa e rouca, segura o seu rosto entre as mãos, volta a beijá-la ardorosamente, para comprovar o desejo que o consome.
Louise vê-se aquiescida e começa a crer que sua desconfiança é mesmo uma tolice sem razão de existir, pois é baseada unicamente em seu instinto. Resolve, então, apenas aproveitar as carícias e intensificá-las, contente por notar que ele está enrijecido outra vez. Enlaça-o com os braços, pondo uma mão sobre as nádegas firmes, avançando os quadris para se aderir mais, e a outra em sua nuca, massageando e pressionando aquela região. Brinca com a língua dele topando-a na sua. Chupa-a e quer provar sua capacidade de tolerar bem o sufoco e Dico fica totalmente estimulado. Sente o membro rijo latejar abaixo de ambos.
— Melhor pôr essa camisinha logo... Não tô mais aguentando... — solta, entre os beijos e a roçadura gostosa dos corpos. Não obstante, quando ele estende a mão para pegar o outro preservativo de cima do criado-mudo, Louise, num impulso, impede-o.
— A gente pode fazer sem a camisinha... se você quiser. Pelas minhas contagens, não há risco agora. Minha menstruação é regular. — De repente, ela experimenta a vontade de senti-lo plenamente.
Dico olha-a, sem desviar, para ver se ela tem certeza do que acabou de dizer e se sente deslumbrado ao obter a confirmação, através do seu sorriso travesso e do movimento de abrir mais as pernas, evidenciando o convite sexual.
— Oh, meu anjo lindo. Eu quero, sim! Quero sentir você sem impedimento algum. — Ele nem pensa duas vezes, pois acha a proposta dela maravilhosa, ainda mais com ela mesma lhe dando permissão e garantia de não haver perigo.
Ambos voltam a se estimular com beijos tórridos, esfregando os corpos já transpirados, antes da penetração. Dico desce a mão até encontrar sua intimidade intumescida e molhada, contente por vê-la tão excitada desta forma. Louise igualmente busca tocá-lo, mostra que tem muita atitude, pois ela arqueia o corpo, sem liberar o membro hirto dele, e inicia a penetração lentamente, arrancando um gemido quase torturante por parte do moreno, ao senti-la livre, apertada e quente. Não resiste a isto por muito tempo e a invade completamente para começar os movimentos frenéticos de vai e vem, que, no caso deles, parece uma luta para ver quem comanda mais, quem acaricia mais, quem fascina mais, quem beija e suga mais. Uma guerra que, ao fim, os dois saem vitoriosos. E ele faz questão de parar os beijos durante o bailado lascivo apenas para sorrir-lhe e deixar óbvia a sua felicidade por tê-la como namorada e amante perfeita.
Dico e Louise ficam, desse modo, saciando-se no corpo um do outro, com cobiça desmesurada, até chegarem ao ápice do prazer, numa sintonia preenchida de toques e carinhos, que irão calar provisoriamente as suspeitas dela e os temores dele.
[..]
É noite. Henry caminha um tanto apressado. Traja sapatênis marrom, jeans, blazer cinza escuro e, abaixo deste, camisa azul. Impaciente, remexe nos cabelos áureos, dá outro trago no cigarro e solta a fumaça pelo canto dos lábios másculos, enquanto passa por uma avenida repleta de letreiros luminosos pendurados no teto, a maioria piscando neon, verde, vermelho e prata nos múltiplos pontos comerciais abertos – bares, boates restaurantes, etc. – com o intuito de atrair olhares admirados que conduzam a gastos financeiros em prazeres fúteis e efêmeros. Há muitas pessoas indo e vindo de alguma balada e também demonstram pressa. Pode-se, de tal modo, sentir o frenesi na atmosfera de forma quase palpável. Vê mulheres lindas, algumas garotas de programa, que se aproximam dele ou simplesmente o chamam querendo um pouco da sua atenção, convidando-o a lhes acompanhar. Ele rejeita todas e continua sua andança noturna, sem se deixar convencer por nenhuma. No entanto, gosta de saber-se atraente a estes olhares femininos e, ao menos, retribui-lhes mostrando os dentes bem alinhados, com um sorriso gracioso, um olhar furtivo.
De repente, ele estanca. Seu coração dispara num ritmo frenético em questão de segundos, ao ver uma moça de costas. Os cabelos compridos, lisos e prateados, os traços delicados do corpo, usando um vestido róseo simples e rendado, fazem-no ficar em estado de êxtase imediato. “Lavínia?” Ele ainda não tem certeza de ser ela, pois a moça permanece direcionada para o lado oposto ao dele. Apenas quando ela resolve virar-se é que ele tem a apetecida confirmação. A garota move o rosto em sua direção e o vê. Logo fica assustada, tenta correr, mas Henry, agora próximo o suficiente, agarra-a pelo antebraço e a puxa para si.
— Me deixa em paz! — Ela grita, agoniada, tentando livrar-se dos braços possessivos.
Ele não a libera. Porém, não mais estão no meio da rua e sim em um quarto estranho, de um local também desconhecido. Lavínia não está mais subjugada ao abraço apertado dele, mas deitada em uma cama. Tem as pernas e os braços esticados, um de cada lado, aprisionados, nada menos que, por uma estranha força sobrenatural e, à medida que se debate e tenta soltar-se, experimenta a forte pressão mágica nos pulsos e nos tornozelos.
— Henry... Me solta... por favor! — começa a implorar. Algumas lágrimas se formam e querem molhar o bonito rosto, emoldurado pelas madeixas louras caídas displicentemente sobre a cama.
— Você é tão linda, meu amor. — E tudo o que ele consegue falar. Henry está fascinado com o corpo alvo, bem moldado e totalmente nu à sua frente. Desta forma, ele, igualmente desnudo, vai aproximando-se da cama, permitindo que o desejo o comande. Desenha os contornos das pernas dela com beijos, ao passo que desliza suavemente as mãos por toda a extensão até chegar à altura dos quadris, tateando-os com alguma pressão. Afunda a boca no ventre feminino, explora a pele, com os lábios e a língua, e aspira o aroma delicioso. Sente um frisson eletrizante trespassar-lhe o corpo, alheio às suas vãs tentativas de fuga ou de súplicas. Vai subindo e subindo... Alcança os seios. Suga um, enquanto os dedos bolinam no outro, cingindo os bicos, tornando-os salientes. Seu membro ganha vida e ele olha para baixo a fim de confirmar a ereção. E, enquanto busca, sôfrego, a boca da loira para beijar, começa uma masturbação modesta com a outra mão.
Lavínia choraminga e se contorce inutilmente. Vira o rosto, buscando escapar do gesto íntimo, todavia, ele segura firme o seu queixo.
— Nunca mais fuja de mim! — admoesta, mirando-a no fundo dos olhos, mas recebe em troca um olhar gélido, indiferente e distante, o que o espanta demais. Fica confuso com tamanha frieza, entretanto, decide concluir a reprimenda. — Você é minha, entendeu? É minha!
Sem perder tempo, cola a boca formosa à sua, procurando explorar os cantos dela com a língua exigente, fazendo-a ver a magnitude do seu desejo. Ela geme, arqueja e retribui ao beijo de forma involuntária. A excitação aumenta. Ele experimenta o falo inteiramente hirto, latejante. Quer penetrá-la e se ajeita sobre ela com esta intenção. Contudo, quando está prestes a fazê-lo, a loira some no ar, como fumaça levada pelo vento.
— Não! — Henry pragueja dando socos violentos no colchão vazio. A frustração é absurda, dolorosa.
Inconsolável, levanta-se e corre rumo à saída do recinto. Está novamente na avenida movimentada, usa as mesmas roupas e outra vez avista Lavínia, um pouco mais adiante, em meio a um pequeno alvoroço de gente. Achega-se, nota que ela traja uma única peça de roupa, uma túnica vermelha e diáfana, deixando ver o corpo desnudo e branquinho abaixo do tecido fino, que esvoaça enquanto ela gira em torno de si mesma. Subitamente, ela sai do chão, fica suspensa, flutuando acima da cabeça das pessoas. Henry observa tudo, pasmado, exasperado, principalmente porque homens riem, contemplam-na, erguem os braços para tentar alcançá-la, como se fosse uma espécie de deusa para ser adorada. Ela ri maliciosamente e volta a enviar a Henry um olhar empedernido, despojado de sentimentos bons.
— Como ousa me tratar assim? Volte agora! — Ele rebate, enciumado.
Deseja aproximar-se dela e a levar para si, para longe dos olhares cobiçosos. Porém, quanto mais ele corre mais ela se distancia, forçando-o a desgastar-se fisicamente a cada tentativa sem sucesso.
Um som estrídulo invade sua cabeça e ele a balança na tentativa de parar o barulho, que continua a soar de maneira ininterrupta.
Dessa forma, Henry acorda e se vê inteiramente suado, dos pés à cabeça, embora esteja descoberto e usando somente uma cueca branca. “Que droga de sonho foi esse?”, interroga para si mesmo. A respiração está falha, por isso, ele puxa o ar com a boca, procurando recompor o fôlego. Passa a mão sobre a testa e afasta uns fios que estão colados, devido ao forte suor.
O celular prossegue tocando, exigindo que o atendam.
Lê o nome na tela do aparelho e não contém o riso, pensando que apenas Frida poderia impedi–lo de continuar sonhando com Lavínia. Ele fica mesmo contente, pois, afinal, ela o salvou no momento em que o sonho se tornou um pesadelo angustiante.
— Bom dia, mãezona. Posso saber por que me honra com sua ligação tão cedo? — vê a hora no seu relógio, em cima da mesinha de cabeceira e solta, bem-humorado, a despeito do sonho inquietante que acabara de ter.
Frida, que havia preparado um implacável sermão, a fim de liberar sua cólera por ele a ter deixado sozinha naquela casa grande e por demorar a dar notícias, viu-se desarmada, ao escutá-lo chamando-a de “mãezona”. Resolve substituir a bronca pela lamúria.
— Ai, Henry! Você me abandonou aqui, filho. Não está cumprindo a sua promessa de fazer ao menos uma refeição comigo... todos os domingos. Você se instalou nesse apartamento aí e me esqueceu. — fala com voz chorosa.
— Ah, não seja dramática. Eu não a abandonei, só tenho estado um pouco ocupado com umas questões pessoais aqui. — explica de forma rápida.
— E quando vem me ver? — segue com o tom de queixa.
Ele pega, de cima do criado-mudo, a cartela de cigarros e o seu isqueiro. Acende um, antes de lhe dar a resposta que a alegraria bastante.
— Ok, dona Frida, você venceu. Passarei o dia de amanhã inteirinho ao seu lado e faremos todas as refeições juntos, portanto, pode agora mesmo parar com essa voz de choro. — A despeito de as palavras terem saído um tanto bruscas, ele as disse querendo apaziguar o coração dela.
— Oh, filho, que bom! Prometo fazer tudo o que você gosta para que coma bastante, porque eu até aposto como não tem se alimentado direito, não é? — Henry ouve o que ela diz e olha para a uma fatia de pizza que pernoitou em um prato raso por cima do criado-mudo.
— Não se preocupe. Estou comendo muito bem. — contesta sarcasticamente.
— Diminuiu o uso do cigarro? — interroga, preocupada e ciente dos hábitos nada saudáveis que ele tem adotado.
— Quase nem fumo mais. — solta uma baforada de fumaça de lado, fazendo uma expressão engraçada.
— É sério, menino! Você tem que se cuidar, como fazia antes. Lembra que você gostava de comer muito, de tomar aqueles shakes e de frequentar a academia quase todos os dias?
— Assim como me lembro de você me aconselhando a ter cuidado para não virar um armário de músculos. — ri, com algum cinismo.
— Henry. — pronuncia o nome dele em tom grave, solicitando-lhe atenção.
— Diga. — algo o alerta para a mudança de tema a outro mais sério, por isso ele franze o cenho.
— Voltou a vê-la? Você a deixou em paz mesmo, não foi? — lança, com evidente apreensão na voz.
— Frida, sobre isso, você realmente não tem com o que se preocupar. Olha, é melhor a gente deixar pra conversar mais depois, está certo? É que eu terei que sair daqui a pouco e ainda não me preparei. — trata logo de cortar o assunto para encerrar a ligação, deixando claro que não irá responder nada que diga respeito a Lavínia.
Frida não insiste, porque observou sua irritação imediata.
Assim que se despedem, Henry permanece ainda uns minutos deitado na cama, fumando o restante do cigarro e refletindo sobre o sonho estranho que teve com Lavínia. Lamenta consigo que todo o seu esforço para ocupar a mente com múltiplas distrações, fosse trabalhando à beira da exaustão ou saindo com uma mulher diferente a cada noite, não o estivessem realmente ajudando a tirá-la dos seus pensamentos. Porém, sabe que não há muito o que possa fazer, a não ser alimentar a esperança de que, um dia, ela volte a ser sua de verdade.
[...]
Dayse estaciona o Chevrolet prateado em frente à habitação simples, endereço fornecido por Manu referente à sua república. Fica um pouco receosa antes de sair do carro e tocar a campainha, mas quando o faz, não demora nada, Manu surge para recebê-la de forma simpática e um tanto agitada. Ela está com as madeixas rubras presas em um rabo de cavalo, deixando a franja em destaque sobre a testa alva. Mostra-se jovial numa jaqueta alaranjada aberta, por cima de uma camisa branca com o slogan da banda Beatles na frente, que dá ênfase ao colar artesanal com pingente rubro, saia jeans e tênis cinza.
— Oi, Dayse. Bom dia. — A ruiva vai dizendo enquanto abre mais o portão, dando à outra uma visão da área interna do domicílio.
— Bom dia. Então, podemos ir? Já está preparada? — Dayse pergunta, em tom de ansiedade, enquanto busca os lábios de Manu para dar um selinho. Esta se mostra meio constrangida, porém, aceita o gesto de carinho.
— Só vou dar outra escovada nos dentes. É que acabei de tomar o meu café da manhã. Por favor, entra e espera. Não demoro nada. Eu prometo. — Manu segura-a pela mão, puxa-a para que entre. Não vendo outra opção, Dayse obedece sem queixas.
Assim que entram na sala simples algo inusitado e incômodo acontece. Elas se deparam com Vicky, que acabara de acordar. Ela seguia na direção da cozinha quando foi surpreendida pela visão de Manu e Dayse no meio do compartimento.
Todas ficam com demonstrações de susto e constrangimento.
O primeiro olhar de Vicky é imediatamente voltado para as mãos dadas das garotas diante de si, fazendo seu coração pulsar feito um desvairado e experimentar o gosto amargo da separação e do despeito.
Manu age no impulso e solta a mão de Dayse, sem pensar que foi um tanto brusca e precipitada, causando em Dayse um estranhamento súbito. Mas Dayse prefere não dar muita importância a isto, pois tem ciência de onde está entrando. O que a afronta inadvertidamente é a sensualidade natural de Vicky que, mesmo sonolenta e sem maquiagem, exala graciosidade. Assim, sem se conter, Dayse faz uma avaliação minuciosa, em poucos segundos, da sua rival e o que vê deixa-a um tanto abatida, com a sensação de mais uma desvantagem. Vicky tem os cachos escuros soltos, em cascatas pelos ombros e costas, enquadrando o bonito rosto amorenado, com suas bochechas um pouco acentuadas, a boca proporcional ao nariz, ambos medianos e bem moldados. Porém, o que mais se destaca na face de Vicky são os olhos grandes, negros e expressivos, com cílios alongados. Está usando, por cima do corpo de formas exuberantes, camiseta branca baby look de mangas curtas e róseas, short jeans e chinelas.
Vicky igualmente não perde a oportunidade de analisar essa que agora usufrui da companhia da ruiva, atentando-se a todos os detalhes. Ela observa os cabelos tingidos de verde, que caem lisos e repicados até os ombros, os olhos agatinhados, castanhos, o nariz reto e a boca estreita, firmemente fechada, que parece harmonizar-se com sua postura altiva e segura, como a de alguém que é inabalável em relação a tudo o que faz em sua vida, sem dar muita margem a hesitações, evidenciando um tipo de audácia natural. Nota ainda que Dayse é magra e exótica. Traja blazer feminino escuro, com extremidades em detalhe branco e franzido destacando a cintura fina, calça jeans e mini bota verde-escura de cano curto.
Ao fim de uns tortuosos segundos, as adversárias já se têm avaliado o suficiente.
— Bom dia. — Dayse força um cumprimento educado.
— Bom dia. — Vicky também se obriga a responder e engolir a aflição que está sentindo. Em seguida, desvia os olhos, baixa a cabeça e reinicia sua ida à cozinha, resignada em a sua condição de ex-namorada.
Manu, do mesmo modo, disfarça o abalo interno, enquanto assiste Vicky dar-lhes as costas, ao passo que sente o olhar oblíquo e um pouco melindrado de Dayse sobre si.
— Bem... Dayse, fique à vontade. Sente-se aí no sofá que eu venho logo. Eu estou super ansiosa pelo nosso passeio. — tenta demonstrar ânimo.
— Ok. E vê se não demora mesmo, está bem? — Dayse sorri, pois também quer descontrair o clima.
Menos de vinte minutos depois, elas estão a caminho do primeiro destino escolhido por Dayse, o centro de apoio e atendimento educacional, social e psicológico para crianças e jovens carentes. Trata-se de uma ONG da qual Dayse faz parte, como voluntária.
— É um tipo de escola? — A ruiva questiona, ao enxergar a placa enorme com os dizeres Sóis do Amanhã sobre a edificação larga, com um muro que a rodeia e forma uma passarela comprida em suas laterais.
— Pode-se dizer que é um suporte escolar, uma forma de empreender a inclusão social das crianças e adolescentes pobres desta comunidade. — Dayse responde, enquanto sai do carro, sendo imitada por Manu, e aciona a trava do veículo.
— E o que você faz aqui? — O tom de voz alegre da ruiva denuncia o aumento de sua curiosidade.
— Calma! Logo você vai saber. — Dayse não contém o riso ao ver a expressão pueril de Manu.
Elas seguem para a abertura do centro, observando várias pessoas também adentrarem o lugar. São crianças conduzidas por seus responsáveis, adolescentes diversos e adultos, que são os demais voluntários ou organizadores.
Dayse, sempre muito simpática, cumprimenta a quem vê pela frente, pois já é bastante conhecida e querida ali. E, após passar pelo que Manu identifica como sendo a “diretoria”, Dayse pega uma espécie de fichário e volta a seguir pelos corredores, incitando-a a lhe seguir, buscando a sua relativa sala, onde encontra uma turma contente por vê-la.
— Bom dia, pessoal! — Ela saúda em tom de festa os jovens abancados em seus assentos, formando um semicírculo.
Todos os rapazes e as moças têm junto a si um violão e uma tablatura, que nada mais é que um bloco de papéis retangulares contendo notações musicais e que orientam onde se deve pôr os dedos no instrumento.
— Bom dia, professora! — A animação dos jovens é contagiante. Manu fica admirada pelo clima amistoso do ambiente.
— Gente, hoje trouxe comigo uma amiga. É a Manu, que veio nos prestigiar com sua presença, portanto, quero que se empenhem bastante e lhe mostrem o quanto já sabem, ok? — Dayse fala com firmeza e simpatia, causando imediato consentimento por parte dos alunos, que riem e olham diretamente para a ruiva.
Alguns mais maliciosos, já articulam um “Hum...!” com os lábios em sinal de desconfiarem sobre a orientação sexual da professora Dayse.
Manu apenas dá um sorriso acanhado, sentindo-se um tanto deslocada. Todavia, Dayse faz com que se sente numa cadeira ao seu lado, olhando-a afetuosamente e depois, volta-se outra vez para os estudantes.
— Vamos começar com qual canção? Querem escolher? — pega seu violão.
Enfim, a aula tem início e Manu, encantada, simplesmente observa o ensino de violão dado por Dayse, questionando consigo o que mais esta moça teria para lhe mostrar de suas habilidades adoráveis. Ela percebe que os jovens são esforçados, tentam acompanhar cada acorde sem desistir ou se abater quando falham. Dayse é paciente, gentil e didática.
— Pessoal, o que vocês acham de tocarmos uma música em homenagem à minha amiga aqui? — pergunta sem tirar os olhos de Manu, que fica com vontade de abrir um buraco no chão e nele se enfiar, de tanta vergonha.
Os estudantes riem e aprovam sem demora a sugestão.
— Mas, como a amiga é sua, você que tem de escolher a música, professora. — diz um jovem moreno e franzino, todo boa-praça e de olhos vivazes.
— Está certo. — folheia o bloco de papéis até encontrar a que quer oferecer à ruiva. — Abram na página dezesseis, por favor.
Eles obedecem e sem demora, Dayse começa a tocar o violão. Os alunos acompanham com os olhos fixos na tablatura, para imitarem quando fossem solicitados. Manu fica extasiada, ainda mais porque Dayse solta a voz numa demonstração de um novo talento, o vocal. A música selecionada é In my life do grupo Beatles, uma menção à imagem gravada na camisa que a ruiva está vestindo e aos seus sentimentos por ela.
“There are places I remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall... “.
Ao fim da apresentação, Manu está confusa, agradecida e emocionada. Dayse também não está diferente, ela beijaria a ruiva agora mesmo se não estivessem em plena aula de violão e com dezoito alunos de olhos fixos nelas.
Os aplausos fazem o recinto adquirir um clima eufórico. São assovios, risos e pedidos de bis. Todos adoraram ver a apresentação empolgada da professora. E, minutos posteriores, quando ela dá por encerrada a lição do dia, alguns alunos vão pessoalmente dar-lhe os parabéns e até pedem que traga Manu outra vez, pois atribuem a inspiração e a aula maravilhosa à sua presença. Manu somente sorri, amável, mas nada promete. Acaba sabendo, através da própria Dayse, que ela dá aulas na instituição às terças, quintas e sábados, das nove às dez da manhã.
Elas saem do centro Sóis do Amanhã com Manu quase não acreditando quando Dayse lhe diz que a levaria agora para conhecer a sua banda de rock.
[...]
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