[HIATUS] Mudanças impuras

41 Quando a razão fracassa, o impulso reina


Notas iniciais
Leitores queridos, devo outra vez pedir-lhes desculpas, devido à demora para postar o novo capítulo, mas peço ainda que compreendam que inspiração, vida pessoal e disposição para escrever nem sempre andam de modo harmonioso. Espero, porém, que este episódio os compense satisfatoriamente. OBS.: Não canso de agradecer à minha boa amiga, Estrela de Rubi, autora de "Vítima do Amor", pela betagem primorosa e o constante estímulo que me oferece.

Por volta de três da madrugada de quarta-feira, quando chega à frente da república, o automóvel estaciona e Lavínia paga ao taxista o valor da corrida. O senhor, que é careca e magro, de rosto igualmente emagrecido, com olhos fundos, mas de um azul muito claro e emoldurados por sobrancelhas espessas e grisalhas, sempre levantadas, possui também um nariz adunco e boca de lábios finos, configurando em si uma aparência tão bondosa, que em poucos seres humanos pode-se observar, a princípio, este traço.

— Muito obrigada, senhor Alberto. — Lavínia, já fora do carro, despede-se do taxista e mostra que tem boa memória, pois é a segunda vez que ele a traz de volta para casa. Ademais, ela o trata afavelmente e disfarça sua agonia, já que não quer incomodar os outros com seus dramas pessoais.

— Até logo, moça... E, lembre-se que, na maioria das vezes, eu estarei ali por perto da boate. Assim, se precisar dos meus serviços e eu puder trazê-la, pode confiar que o meu taxímetro é alinhado e só cobra o valor correto. Ah! E pode me chamar como os familiares e os amigos me chamam, de Bebeto... Seja caridosa e me ajude a não me sentir tão velho. — O homem idoso fala, com bom humor, brincalhão. Ele ri, divertido, e espera, disposto a partir somente após vê-la dentro da residência, em segurança.

— Está certo... Então, tchau, Bebeto. Até logo. — Ela acena, gentil, encosta e fecha o portão à chave, fazendo o homem se sentir tranquilo para seguir seu caminho, em busca de novos clientes.

Lavínia dá uns poucos passos e logo chega à sala, acende a luz, experimentando o cansaço físico e mental achegar-se com mais força. Imediatamente, porém, espanta-se ao ver Manu deitada no sofá, enrolada num lençol.

— Que droga! Apaga essa luz, Lavínia! — A ruiva solta a queixa, com ares de agitação, ao passo que puxa e cobre o rosto com o lençol.

— Hum? Ah, desculpa, Manu... Eu já vou apagar. Mas... Mas por que você tá dormindo no sofá? — indaga e fica olhando para o lençol, na altura que sabe estar, escondido por baixo, o rosto da ruiva.

— Eu tô dormindo neste sofá duro e incômodo por sua culpa, branquela! — Manu baixa o lençol até o queixo expondo parte do rosto e fala, rabugenta, ostentando seu mau humor.

— Mi-minha culpa? Como assim? O que eu fiz? — admira-se, sem compreender do que a ruiva a acusa.

— O que você fez? Eu já digo o que você fez. Você destrocou de quarto com a Vicky... Agora ela tá lá! Você está me obrigando a dormir no mesmo quarto com a minha ex-namorada, enquanto eu estou tentando me acertar com outra garota... Deu pra entender o meu problema ou quer que eu desenhe? — Manu explode as palavras, joga o lençol de lado e se senta no sofá, ao passo que, acerbada, gesticula muito, um tanto caricata.

Lavínia acomoda-se na ponta do sofá, olhando-a, boquiaberta e ainda tentando assimilar tudo o que ela falou.

— Manu... a Vicky me pediu pra destrocarmos de quartos e eu aceitei sim... porque é lá que estão as coisas dela. Ela sempre dormiu no mesmo quarto com você, só passou uns dias dormindo com a Louise. Ela quis voltar. — Lavínia busca uma forma mais adequada para dizer o que pensa ser preciso. — Ela está realmente se esforçando, Manu... A Vicky está mudando e eu acho que ela está fazendo isso pra te reconquistar.

— Você está se referindo ao fato de ela agora andar com um sorriso bobo na cara? Pra mim, essa mudança tem mais a ver com o Fábio, o primo intrometido dela. — diz, chateada, e fica encafifada com o riso que vê Lavínia liberar, sem querer. Lavínia pensa que é muito bom ter amigas que lhe dão motivos para rir, mesmo em ocasiões nas quais estas querem apenas discutir de maneira acalorada sobre suas preocupações, que a seu ver são menos sobrecarregadas que as dela, e acha bonitinho observar a ruiva toda cheia de dúvidas e ciúmes. — Você tá achando graça disso, branquela? — Manu questiona, exibindo uma mágoa simulada.

— Ai, Manu, me desculpa. Mas o que você está insinuando não tem o menor sentido. A Vicky nunca teve olhos para mais ninguém. Ela é completamente apaixonada por você! Será que você não enxerga isso? Mas, sabe... eu acho que ela não vai te atacar e nem te forçar a ficar com ela... — Lavínia levanta-se, respira fundo e, antes de deixar a ruiva e ir preparar-se para dormir, lança-lhe um olhar de reprimenda. — Portanto, faça um favor à sua coluna... vá dormir na sua cama e tente você não atacar a Vicky!

Prevendo a reação embravecida de Manu, a loira se distancia para se manter em segurança, rindo travessamente por ter cedido ao desejo de inflamar ainda mais a outra, que lança chispas pelos olhos e ejeta uma exclamação de raiva. No entanto, surpreendentemente, ela recolhe o lençol e a almofada para, conformada, voltar ao quarto e à visão que tanto a aflige, à morena deitada na cama ao lado da sua. Quando abre a porta, com cuidado, tentando não promover barulho, Manu adentra pelo recinto, de escassa iluminação, vagarosamente, pé ante pé, até abeirar-se à sua cama e se deitar nela, soltando um suspiro descansado, por experimentar o conforto do colchão sob suas costas. Entretanto, sua calmaria relaxante é imediatamente abalada, assim que Vicky dá sinais de estar também acordada.

— Manu... — Ela chama, num sussurro delicado.

— Não, Vicky! Sem conversas, ok? Vamos dormir porque teremos aulas pra assistir daqui a poucas horas... E eu tô morrendo de sono! — impõe o máximo de naturalidade. Move-se para o sentido oposto ao que se encontra a morena, quase enterrando o rosto no travesseiro, ciente de que apenas continuaria agoniando-se se cedesse em olhá-la. Ademais, prefere usar a mesma falta de explicações com que se retirou para voltar à comodidade da sua cama. Minutos depois, enfim, Manu consegue dormir e Vicky, que antes não conseguia conciliar o sono, igualmente se deixa levar pela soneira bem-vinda, por ficar mais calma vendo que a ruiva abandonou a ideia de ir dormir longe dela.

[...]

Horas depois, o sol já invade as arestas todas que a casa possui e espalha timidamente o calor da manhã, afastando o friozinho, enquanto pássaros, não muito ao longe, entoam seu canto devotado e bonito, alertando que o dia está apenas no começo.

Louise não se ergue da sua cama, na verdade, pula dela assim que o celular retine o som característico do modo despertador, antes da hora que está acostumada a levantar. Banha-se com esmero, seca os negros cabelos curtos e os penteia rápido, escova os dentes, veste-se com superior capricho. Escolhe um vestido tubinho estampado sem mangas, em tons de branco-gelo, cinza e azul-anil, umas delicadas sandálias beges de salto baixo. Nas orelhas, ela põe umas pequenas argolas prateadas e opta por usar uma maquiagem bem discreta, apenas base cremosa e brilho labial, sabor de menta. Está abrasada, irrequieta, no entanto, como boa amiga que é, atenta-se em se movimentar com cuidado, pelo quarto, para não atrapalhar o sono de Lavínia, pois sabe que ela precisa deste repouso depois de ter passado metade da noite acordada, servindo mesas, na boate, o que considera um ato de pura teimosia desnecessária, mas que não pode impedir, apenas estar próxima e servir de apoio fraternal. Ela envia um olhar dócil e amistoso para a outra, que dorme um sono profundo, como quem pressente que a loira ainda necessitará de seu ombro amigo, de seus conselhos e de sua fiel amizade.

Em seguida, Louise sai do quarto e vai à sala, abre a única e grande janela que há ali, permitindo que o sol entre de vez, para aquecer os móveis simples deste pequeno ambiente, decorado com graciosidade, em tons multicores, o que denuncia o predomínio feminino na república. Segue à cozinha, faz café, suco, torradas, ovos fritos e tudo o mais para deixar a mesa repleta de gostosuras, a fim de recepcionar Dico com o máximo de agrado. Literalmente, ela não mais se lembra da vontade que sentiu de estabelecer um tempo para refletir sobre os problemas no namoro deles, por conta do que presenciou na casa de Míriam, pela angustia que sentiu por causa do ocorrido com Rubinho. Acha agora que tudo se resolverá, com fé e pressão, que dará ao moreno, na ocasião que julgar adequada. E no minuto em que a campainha toca, Louise larga tudo e sai pouco menos que voando para atender ao chamado, imaginando obviamente que seja o seu formoso moreno que chegou. Mal ela abre o portão de ferro, mostra um largo sorriso, exultante, por confirmar sua suposição, e se joga nos braços de Dico, que a agarra pela cintura e a beija, fogoso, mostrando logo que estava com a mesma ansiedade, o mesmo desejo de vê-la e de tê-la em seus braços, como agora.

Sem deixar de beijá-la, o próprio moreno vai conduzindo-a para o interior da residência. Ele levanta a parte inferior da perna para trás e empurra o portão de leve, com a sola do sapato, a fim de fechá-lo. Louise sorri entre os lábios dele, provocante, e pressiona a língua para dentro da boca alheia, ao passo que o envolve mais com os braços em seus ombros e pescoço, enroscando-se com gosto no corpo do rapaz, fazendo-o pensar em como poderia conformar-se com o tempo que ela quis pedir, ficar longe dela e suportar a falta que sentiria destes seus gestos desinibidos e afoitos.

— Bom dia... bom dia... Bom dia! — Louise cumprimenta-o efusivamente, ainda abusando da boca querida, de segundo a segundo, ao passo que tenta abrandar as batidas do coração.

— Bom dia... lindo dia, meu anjo. — Ele responde, entre beijos e ofegos de júbilo.

Em ato contínuo, Louise sente o movimento atrás de si e percebe tratar-se de um saco plástico, contento pães diversos, que ele equilibra junto ao jornal amassado.

— Oh! Que fofo... Você passou mesmo na padaria antes de vir pra cá. Mas não precisava fazer isso, Dico. — Por fim, ela encerra a sessão de beijos e segura a mão do moreno que está livre, conduzindo-o para dentro da casa, em direção à cozinha.

— Tá tudo bem. Eu quis trazer os pães e, como eu te disse no telefone, não fico sem as notícias do dia. — Alegre, mostra também a folhagem dobrada.

Louise acrescenta os pães aos restantes de comidas postas à mesa e eles se sentam lado a lado, iniciando a refeição da manhã. Ela se admira consigo mesma, ao estar infinitamente feliz por poder aproveitar a presença dele, nesta ação tão simples e habitual, fato que evidencia sua mudança interna, constante e gradual, a partir da presença de Dico em sua vida, forçando-a, sem perceber, a dar valor aos detalhes pequenos e os achar muito significativos. De fato, meses atrás, Louise jamais se imaginaria “presa” a um relacionamento estável, tranquilo, que não fosse somente baseado em atração sexual e encontros furtivos, com vários homens, um seguido do outro, sem entregar-se ao que ela chamava de “sentimentalismos bobos e inúteis”. Refletindo sobre tais mudanças, Louise morde uma fatia de pão amanteigado, sorrindo. Dico baixa o jornal e lhe devolve o gesto ditoso, para depois voltar à sua leitura, sem deixar de se deliciar com o gostoso café da manhã.

Minutos depois, eles ouvem movimentos de passos, caminhando na sua direção. São as ex-namoradas, Vicky e Manu, que surgem à frente deles, devidamente vestidas para irem à faculdade, e com aspectos de terem dormido pouco, embora tentem disfarçar este incômodo para não terem que admitir os motivos que as deixaram insones. Contudo, Louise não percebe as marcas arroxeadas sob os olhos das jovens, pois está feliz demais neste momento para observar com acuidade qualquer coisa além do bonito moreno ao seu lado.

— Bom dia, meninas! Sentem-se... Olha, Vicky, eu já preparei tudo e espero que vocês não se incomodem com a presença do Dico... Ele veio tomar café com a gente, tudo bem? — Louise fala, nitidamente alegre.

— Bom dia. Claro que está tudo bem, Louise... O Dico é muito bem-vindo aqui, sempre. Não é mesmo, Manu? — Vicky abre um sorriso simpático e olha para a ruiva, convocando-a a ser também amistosa com o namorado da amiga delas.

— Sim... Não há problema algum, ao contrário, penso que o homem que conseguiu agarrar a Louise, num namoro, por mais de quatro semanas, merece todo o meu respeito e consideração... e um troféu pela bravura. — A ruiva pisca um olho para a Louise, que lhe devolve uma careta engraçada, com a língua para fora, mostrando, que não se irritou com a declaração irônica.

— Então, sendo assim, eu fico feliz... porque eu pretendo mantê-la agarrada nesse namoro por tempo indefinido. — Dico também entra na brincadeira e Louise abre a boca, maravilhada pelo que ele disse, mas apenas ri alto, sendo seguida, nesta empolgação, por todos.

Assim, as meninas se juntam ao casal e naturalmente começam a se servir do que há na mesa. O clima é muito doméstico, agradável, mas, após uns minutos, Dico, põe sua xícara vazia sobre a mesa, fecha o jornal, dá por encerrada a sua refeição e repara que Louise também acabou a sua.

— Então... Vamos, Louise? — Dico convida, olhando-a, com expressão compenetrada.

— Mas, Dico, ainda está um pouco cedo... Não podemos esperar uns minutinhos mais? — Louise faz beicinho, querendo continuar curtindo o momento família da república que, em sua opinião, para ser perfeito falta apenas a presença de Lavínia, óbvio.

— Não, não podemos... Veja, é que teremos que passar antes num lugar para eu pegar uma encomenda. É uma questão do meu estágio. Você não entenderia bem. — dá a explicação, com ares de lisura e certa impaciência. — Sinto muito, Louise, mas temos que ir agora. — volta a olhá-la com firmeza, demonstrando estar realmente com pressa.

— Ai, tá bem! Vou só pegar a minha bolsa e já vamos... Eu, hein, que correria! — Louise resmunga, entretanto, obediente, levanta-se e vai mesmo em busca de sua bolsa, que ficou no quarto.

— Dico, você deve ser um cara especial mesmo. Eu nunca imaginei que veria a Louise obedecendo ordens de ninguém... Caramba! Isso é demais! — A ruiva gargalha sonoramente, fazendo Vicky ficar ruborizada de vergonha e aliviada por Louise não ter escutado o que ela disse.

— Manu! — Vicky espingardeia a outra com os olhos, depois volta-se para Dico, com expressão de quem pede desculpa. — Não liga pra ela não, Dico, porque a Manu, às vezes, fala sem ter noção do quanto consegue ser inconveniente.

— Inconveniente? Eu? Olha quem fala? A garota que fez questão de voltar a dormir no seu antigo quarto... só pra ficar pertinho da inconveniente aqui. — Manu fala, encarando a morena e esquecendo a presença de Dico no local.

O moreno esconde o sorriso, achando interessante a discussão delas, pois nota um clima de paixão, por trás das faíscas dos olhares que lançam uma para a outra. De fato, Dico capta a atração que há entre as garotas e obtém a confirmação das confidências feitas anteriormente por Louise, que o deixou ciente do que se passa com as amigas dela, ali na república, como forma de mostrar fiança na discrição dele.

Louise volta à cozinha e flagra em andamento a contenda que se iniciou.

— Nossa Senhora! Eu saio por uns segundos e quando eu volto vocês já estão dando um show de bate-boca, na frente do meu namorado... — exclama Louise, fingindo que não está, em seu íntimo, contente por vê-las atracarem-se, como antes de terminarem o namoro. — Vem, Dico, já estou pronta para ir. E não dê ouvidos às brigas destas duas porque elas sempre acham uma forma de se entender, não é mesmo, meninas?

Depressa, Vicky e Manu reagem direcionando o olhar de fagulhas para Louise, que fica com vontade de rir alto mesmo, por conta da sincronia dos movimentos delas, mas se contém e puxa Dico pelo braço, a fim de saírem, deixando-as a sós, entregues ao constrangimento.

Dico conduz o Fiat vermelho pela avenida, calado, parece um tanto circunspecto, absorto.

— Puxa! De repente você ficou com uma cara tão séria... Parece que agora sou eu que estou vendo algo de estranho no seu comportamento. — Louise já sente certo desânimo, por conta da postura introspectiva dele, neste instante. Todavia, por não compreender o que o faz ficar assim tão quieto, ela decide não mais puxar conversa, prefere olhar para algum ponto, no interior do carro, próximo às suas sandálias, na parte de baixo, começando a imaginar coisas. Pensa que talvez Míriam tenha ligado para ele, depois que eles se falaram ao celular, enchendo-o de novo com problemas e envolvendo o pequeno Rubinho, e que somente agora ele tenha resolvido demonstrar alguma perturbação. A mente de Louise, na verdade, inicia uma série de hipóteses, mas ela não se convence de nenhuma delas, pois viu a alegria estampada na face dele, logo mais cedo, o que não combina em nada com o modo de ele agir agora.

De repente, ele vira numa curva e vai mais lento, quase parando, o que impulsiona Louise a interromper a reflexão e erguer a vista, curiosa em saber a direção que o automóvel está seguindo e se espanta com o que vê adiante, a poucos metros.

— Dico!!! — grita, escandalosa, quando enfim percebe o que está acontecendo.

O moreno não se contém mais em sua dissimulação, solta uma gargalhada e a olha, buliçoso. Eles estão perto da entrada de um belíssimo motel, que ele havia escolhido previamente para levá-la, como presente-surpresa. Ele pensou em tudo, desde chegar bem cedo na república dela, inventar que teria uma encomenda do estágio para buscar, saírem a tempo de quem sabe não se atrasarem em seus respectivos trabalhos e na repentina mudança de postura, a fim de confundi-la e aumentar a emoção da surpresa.

— Louise, desculpa, mas eu quis mesmo fazer uma surpresa. Não queria que você desconfiasse de nada, meu anjo. — permanece rindo, vendo-a menear a cabeça, incrédula, mas em êxtase, com o coração já aos saltos, de alívio, pré-excitação e euforia.

— Ai! Que diabinho safado! É assim que você quer? Tá a fim de me enganar, montar armadilhas pra mim? — Louise questiona, achegando-se, com voz sussurrante, buscando mostrar-se rancorosa e lasciva. Sem vergonha alguma, escorrega e enche a mão no meio das pernas dele, por cima da calça jeans e pressiona atrevidamente o membro semiereto. — Espero que tenha aproveitado muito o café da manhã e se alimentado bastante porque, do contrário, não vai ter forças pra ir trabalhar... depois que eu te der o troco que você merece. — dá uma mordida suave na ponta da sua orelha, causando-lhe um imediato arrepio.

Dico suspira apaixonado, pondo a mão sobre a dela, que o massageia em sua calça, estimulando-a no gesto ativo. Mas ele também lamenta, com antecipação, pois tem consciência de que, na realidade, seu plano não será perfeito, pois é provável que vá chegar atrasado ao trabalho. Louise certamente não o deixará livre antes de sugar suas energias, até vê-lo esgotado e mais deslumbrado, com sua capacidade de entrega plena ao prazer.

[...]

O quarto ainda está silencioso, com mostras de início do dia, através da leve friagem que ainda predomina no ambiente. Contudo, Dayse vai, pouco a pouco, espantando a sonolência e a preguiça, abrindo os olhos, remexendo-se, esticando os braços e soltando bocejos. Quando, por fim, desperta-se e se dá conta de quem está com ela na cama, solta um clamor lastimoso e se senta, passando as mãos pelas madeixas verdes, lançando outro olhar sobre Aline, que ainda dorme densamente, sem perceber que é observada, com este olhar de exasperação e arrependimento pelo que houve entre elas, à noite passada. Entretanto, os olhos de Dayse vão além, apreciando as formas da gêmea, que encontra-se totalmente nua, e ela pensa que até dormindo Aline consegue ser tentadoramente voluptuosa. A moça de cabelos longos, pretos e lisos tem a pele limpa e alva, belos seios, quadris que mostram um bumbum arredondado e pernas longas, bem feitas. É uma jovem charmosa. De fato, entende que tudo em Aline convida a certo erotismo aguçado e ela usa isso como se fosse uma arma de conquista, não entendendo o quanto pode tornar-se banal, pervertida e repulsiva, justo pelo mau uso que faz do fascínio natural que há nela, proporcionado pelo seu admirável corpo, por não saber valorizar-se como ser humano, algo mais que um pedaço de carne bonito. Pensando desta forma, Dayse levanta-se e, sem acordar a gêmea, vai à suíte, onde faz sua higiene habitual completa. E ao retornar para o quarto, enrolada na toalha de banho, flagra Aline despertando-se também. Porém, comporta-se como se não a estivesse vendo, de propósito, ignora sua presença. Anda até seu guarda roupa, abre-o e vai escolhendo uma roupa qualquer para vestir.

— Hum... Bom dia! — Aline espreguiça-se, senta-se na cama e depois olha para Dayse, manhosa. — Ah! Puxa! Por que não me acordou para tomarmos banho juntas de novo? Seria maravilhoso.

Sem dar a mínima para as palavras de Aline, Dayse joga a toalha sobre o cabideiro amadeirado que vê à frente, não se importando de ficar desnuda ante os olhos vigilantes da outra. Seleciona calcinha bege, camisa branca de listras horizontais em tons violeta e short jeans azul-claro. Vai vestindo-se de modo quase mecânico, numa calmaria perigosa.

— Dayse? Ouviu o que eu falei? Ei! Eu tô aqui, ó... Não tá me vendo aqui não? — ergue-se da cama, impondo ar de descontração, anda até Dayse, contornando-lhe o corpo, agora vestido, e se mostrando bem de frente para ela. — O que foi? Não vai falar comigo? — fica agoniada, por ver a expressão gélida que Dayse demonstra.

— Vista suas roupas! — Dayse, por fim, resolve falar, dando a ordem, com voz firme, grosseira e direta.

— Dayse... — Aline permanece parada, sem ação, por conta do susto, ao verificar que a cólera de Dayse regressou e com mais força, esta manhã.

— Eu mandei você se vestir, Aline. Agora! — Dayse esbraveja, enquanto reúne as vestes da gêmea, que repousavam sobre a poltrona, arremessando-as no rosto dela, com violência.

— Não precisa me tratar desse jeito, Dayse... Eu não mereço isso! — começa a pôr a calcinha vermelha e o vestido elastano acinzentado curtíssimo, sem desviar os olhos de Dayse, fazendo cara de injustiçada, com expressão chorosa.

— Não merece? Você é muito cara-de-pau, garota! Sabe como eu tô me sentindo agora? Você tem ideia do quanto eu tô chateada comigo mesma pelo que aconteceu entre nós? — questiona, desgostosa, exaltada.

— Mas... não era assim que você parecia estar se sentindo ontem... enquanto se esfregava em mim, gemendo de prazer... — Aline avança, anunciando o que para a outra é uma triste verdade. Possessa de ódio, Dayse empurra-a, com força, para trás, fazendo a gêmea tombar, quase caindo, por conta da agressão física, e se espantar outra vez, quando tem seus tamancos, de saltos medianos, arremessados sobre si. — Ótimo. Vai me bater agora também? Só tá faltando isso, não é, Dayse? Vamos lá, pode me bater... Eu deixo! Faça o que quiser comigo. Mas não me trate como se não tivesse gostado do que houve... porque nós duas sabemos que você gostou, tanto quanto eu. — inicia um choro ressentido, ao passo que se defende como pode.

Dayse controla ao máximo a vontade de esbofetear Aline, ainda mais por sentir-se amargurada quanto às suas palavras perturbadoras, pelo que ela a faz sentir.

— É verdade que você tá merecendo apanhar na cara por ser tão cínica... mas eu não vou te dar esse gosto não, Aline. — Dayse respira fundo e se aproxima da gêmea, enfrentando-a com um olhar frio, apático. — Na verdade, eu nunca mais caio nesse seu joguinho ridículo de sedução... e sabe porquê?

— Não, eu não sei... mas quero ouvir o que você tem a dizer. — Aline responde, tentando prender o choro e fungando. Ela prefere ver até onde vai a fúria de Dayse. Quer entender por que está sendo tratada com tanto desprezo, visto que tudo o que inventa é movido pelo desejo de ter o seu amor de volta e, assim, não abre os olhos para compreender que está utilizando métodos muito reprováveis.

— Porque quando eu acordei, agora há pouco, e te vi do meu lado, nua e linda, com esse seu corpo bem feito... tudo o que eu senti foi nojo, raiva e frustração! — Dayse para um instante e olha para a face abismada de Aline. — Porque eu lamentei pelo que eu não fiz... que era ter expulsado você, ontem mesmo, assim que eu pus os pés no meu quarto e te vi...

— Dayse... — Num fiapo de voz, Aline busca falar algo, sem saber exato o que quer articular, com o cérebro entrando em parafuso, por causa da dor emocional.

No entanto, Dayse é tomada de uma raiva imensa e uma ânsia de soltar o que está engasgado na sua garganta há muito tempo.

— Eu entendi que você continua a mesma garota ignorante. Não mudou em nada a sua mente tapada. Você continua com os seus joguinhos eróticos baseados apenas em promiscuidade, na falta de caráter, de decência! Imediatamente lembrei por que eu terminei o nosso namoro... e não foi apenas porque eu te vi beijando outra garota, mas porque eu enxerguei esses seus defeitos nojentos...

— Por favor, chega, Dayse... Não fale desse jeito comigo! Não seja cruel assim com quem é capaz de tudo por você. Não maltrate quem tanto te ama. — Aline passa a chorar e implorar, buscando uma forma de encerrar a briga, de acalmar os ânimos, de evidenciar o amor que nutre por ela.

— Quer mesmo que eu acredite que você me ama, Aline? Acontece que eu não acredito mais... não depois de ver o quanto você pode ser baixa, vulgar, sem escrúpulos! — Dayse fala, doída, pois sente uma emoção forte ao expor o que pensa da garota que um dia foi a sua maior paixão.

— Tudo o que eu quero é que você me veja... que me ame. Se eu errei, foi por te amar demais, Dayse! Eu não consigo te esquecer... não consigo seguir com a minha vida e nem encontrar outra que me faça sentir o que eu sinto por você. Como pode duvidar do meu amor? Como? — Aline inquire, em meio aos soluços que libera.

— Eu duvido sim, Aline, porque é difícil entender como alguém que parece não amar nem a si mesma pode amar outra pessoa. A falta de amor próprio que eu vejo em você, pelo seu modo de agir, é o que me faz duvidar desse amor que você fala sentir por mim... E isso me obriga a te comparar com a Manu, por exemplo... — Dayse toca no nome da ruiva e isso faz Aline empertigar-se e olhá-la com mágoa aumentada.

— Não ouse me comparar com aquela garota! Não faça isso! — Aline aflige-se muito, mas tenta ser forte para suportar o que Dayse irá falar sem que possa impedir.

— Eu não imagino a Manu se comportando de modo indecente como você, entrando na minha casa, mentindo pra minha mãe e se enfiando no meu quarto, pra tentar me seduzir de qualquer jeito... sem ligar para o fato de que eu já havia dito que não iríamos nos reconciliar... de que o meu desejo era de sermos somente amigas e nada mais. — impiedosamente, Dayse mostra sua admiração pela ruiva e sua decepção por Aline.

Apesar de se sentir rendida, aborrecida e humilhada, Aline ergue a cabeça e olha no fundo dos olhos de Dayse.

— Você vai voltar pra mim. Eu vejo isso agora bem claramente... porque, mais cedo ou mais tarde, você vai entender que essa menina aí não te ama como eu... — Neste instante, Aline percebe que atingiu um ponto importante, no seu discurso, pois Dayse desvia os olhos e fica nervosa. Então, ela tem ânimo para falar mais. — E eu vou provar pra você que o meu amor é verdadeiro e que eu posso, sim, mudar e me tornar alguém melhor, alguém digna de merecer o seu amor.

Dayse ainda abre a boca para replicar algo mais, contudo, ouve batidas à porta do quarto.

— Dayse! Filha... Posso entrar? — Dona Helen pergunta, com voz elevada e perfeitamente audível, do outro lado da porta.

Dayse caminha à porta e a abre.

— Pode entrar, sim, mãezinha... Bom dia. — afasta mais a porta, convidando a mãe a ingressar no interior do recinto, desconsiderando outra vez a presença de Aline. Contudo, a senhora avança somente dois passos e permanece próxima à soleira da porta aberta.

— Bom dia, querida. — A senhora deposita um beijo na face da filha, carinhosa, e em seguida olha para a gêmea, com ar dócil, enviando-lhe um olhar risonho, quase maternal. — Bom dia pra você também, Aline.

Dona Helen, na realidade, está mesmo acreditando que o fato de Aline ter pernoitado com Dayse significa que elas estão em fase de reconciliação, o que também denota que a outra garota, a ruiva, talvez não seja a nova namorada e sim, apenas um caso fortuito. Na reflexão da senhora, como pessoa compreensiva que é, pode ser melhor assim, pois, embora Aline seja cheia de complicações, metida a rebelde sem causa, é filha da sua vizinha, a Naira, que já conhece há anos. E ela viu a peleja de Naira para criar os filhos gêmeos, sozinha, depois que o marido dela, um delegado federal, foi morto tragicamente, observa-a como mãe guerreira e boa influência na vida dos filhos, mesmo se portando como uma mulher abusivamente moderna, em sua opinião, casada com um rapazote anos mais moço do que ela. Além disso, viu Dayse, Aline e Chris crescerem juntos, sempre brincando e mantendo contato amistoso uns com os outros. De tal modo, não se opõe a esta reconciliação, mas não quer tomar partido acentuado, pois sabe que a decisão final cabe à sua filha, só Dayse pode dizer com quem ela prefere ficar. Análise esta que é partilhada pelo pai idoso, o senhor Augusto.

— Bom dia, dona Helen. — Aline cumprimenta a ex-sogra com um sorriso acanhado. Ela puxa e repuxa, com as mãos, a roupa para baixo, já pensando que não foi boa a escolha deste vestido tão curto, ainda mais depois de ter acabado de ouvir o quanto está agindo de modo indecente e vulgar. Mas apenas Dayse nota a vã tentativa da gêmea em mostrar alguma compostura e prende o riso cáustico.

— Meninas, eu vim dizer que estou de saída... Vou ao comércio para comprar umas frutas, verduras e algo mais que está faltando na cozinha. — começa a falar o que tem a dizer, com ar de boa disposição e ânimo.

— E o papai vai com você, mãe? Precisam que eu os leve no carro? — Dayse pergunta, afetuosa, dando a entender que sempre estará à posição para os idosos pais.

— Não, minha filha, não precisa. Vou aqui pertinho e não irei trazer tantos sacos na mão, posso me virar só, não se preocupe... E seu pai não vai comigo não, ele nem está em casa, saiu bem cedinho... disse que ia pescar com uns amigos. — A senhora ri, pois sabe que o marido é um péssimo pescador, que só aceitou tal programa porque gosta de estar com os amigos anciãos, em conversas sobre os períodos em que eram jovens.

— Uhum. Tá certo... Ele foi se encontrar com os amigos dos bons tempos! — Dayse ri também, seguindo o gesto contente da sua mãe. — Mas, mãezinha, tem certeza de que não precisa que eu vá com a senhora?

— Não, minha filha, eu já disse que não é preciso. Olha, na cozinha, eu deixei a mesa preparada pra vocês tomarem o café da manhã... Acho que coloquei muita coisa boa, então vão lá e se fartem de comer com gosto. — vira-se e faz menção de sair do quarto, mas lembra-se de algo e volta a pôr os olhos sobre as jovens. — Ah! E aproveitem pra convidar o Chris, que chegou agora há pouco e está na sala esperando por vocês.

— O Chris está aqui? — Aline, enfim, torna a falar, indaga o óbvio. Na verdade, ela não quis fazer uma pergunta e sim uma exclamação de contentamento, pois sabe que seu irmão é um aliado e encara a sua visita ali como algo positivo, a seu favor.

— Está sim. Bom, eu vou indo... Até logo! — Dona Helen, desta vez, segue seu caminho, sem mais interrupções. Todavia, ela percebe os passos das jovens atrás de si, que a acompanham na direção da sala. Lá chegando encontram Chris bem acomodado no sofá, com as pernas elegantemente cruzadas e o seu belíssimo ar aristocrático, de aspecto físico tão admirável quanto o de Aline. A senhora cumprimenta o rapaz novamente e sai da casa, rumo aos afazeres a que se destinou, deixando todos os jovens se olhando e formulando cada qual sua perspectiva de pensamento.

— Oh My God! Tell me please! Quem morreu? — Chris levanta-se do sofá, pondo a mão dramaticamente sobre o peito. — É... porque, pelas faces de vocês, parece que estão voltando de um enterro e não de um quarto. — conclui, forçando voz de assombro, mas rindo com vontade logo a seguir.

Aline, carente de apoio, joga-se nos braços do irmão e fica ali, ainda compondo o seu papel de magoada. Porém, mantém-se controlada, somente olhando de viés para a outra.

— Não, Chris, ninguém morreu, mas bem que eu deveria matar uma parte específica do seu corpo. — Dayse anuncia, com voz ranzinza.

— What? Não entendi. — Chris fica sem alcançar de imediato sobre o que Dayse quer dizer.

— A sua língua, Chris! Eu deveria matar a sua língua, já que você não consegue manter preso na boca o que eu te conto em segredo. — Chris, então, baixa a vista e encara Aline, que fica com expressão chorosa, mesmo sem verter lágrimas. Depressa ele entende que Aline o delatou, falando sobre o que Dayse lhe expôs em confidência.

— Peço perdão, Dayse... Mas ela é minha irmã. E você também sabe como ela é chata, crazy e muito teimosa quando quer conseguir algo da gente. — fala, sincero, lançando olhos de recriminação à irmã.

Dayse solta um brado entre resignado, tedioso e agastado.

— É! Eu sei! Que se dane! Quer saber? Por hoje, chega de estresse! Agora a única coisa que eu quero matar de verdade é a minha fome... Então, ou vocês me acompanham à cozinha para tomarmos o café da manhã em paz... ou podem ir pra sua casa. O que decidem? — questiona, encarando os gêmeos e esperando a resposta.

— Poxa vida! Mas como vou me sentar à mesa assim, sem lavar o rosto, sem enxaguar a boca? Você nem me deixou fazer isso, Dayse... Devo estar com mau hálito. — Aline diz, com voz de queixa, rompendo o abraço no irmão e pondo a mão sobre a boca, soprando de leve.

— Fique tranquila, Aline... porque o que fede em você não é a sua boca e sim o seu caráter. Mas, se quer lavar a boca antes de comer então pode ir fazer isso na sua casa, eu não me importo... Vamos, Chris! — Dayse arremata, em tom pacífico, mas cortante. Em seguida, ela puxa o melhor amigo pelo braço, evidenciando que já o perdoou e deseja que ele, sim, a acompanhe no café da manhã.

— Espera, green lady, a chata vai com a gente também. Vem, Aline. Let's go! — Chris é ligeiro, agarra a mão da sua irmã gêmea e a convoca para ir junto.

Apesar de sentir-se massacrada em seu orgulho, Aline permite que Chris arraste-a na mesma direção para a qual é puxado por Dayse. Deste modo, os três vão, em comboio, para a cozinha. E o irônico é que, no momento em que compartilham a refeição matinal, instala-se, até mesmo entre Dayse e Aline, uma atmosfera boa, pacífica, sem mais olhares de crítica ou de reprovação, pois, embora elas saibam dos seus conflitos e traumas a resolver, são também amigas de infância e vizinhas, o que as faz conseguir abafar, quando necessário, as contendas, a fim de não tornar o convívio forçoso algo insuportável.

[...]

Notas finais
Confesso que este capítulo foi dividido em dois, o outro seguirá breve, pois tive receio de demorar mais ainda e de terminar por colocar um capítulo exagerado, do tipo enjoativo... Hahahaha... Deixem comentários, façam esta autora mais feliz. Bom, até a próxima e muitos beijos.