[HIATUS] Mudanças impuras

42 Em meio à babel de ardis, há sofreguidão


Notas iniciais
Gente! Graças senhor que estou postando este capítulo, viu. Olha, eu garanto que fiz de um tudo para não demorar uma eternidade, mas foi mesmo impossível. Que vidinha esta a nossa cheia de atrapalhações e chatices para resolvermos!!! Enfim, digo-vos que fui obrigada, novamente, a dividir este capítulo, torná-lo dois, o outro que virá há alguns dias terá, porém, título diverso deste. Espero de coração que gostem e lhes asseguro que as emoções fortes estão chegando e antes de melhorar de vez irá piorar e muito, para determinados personagens. Boa leitura! OBS.: Obrigada, Estrela de Rubi, minha beta querida e autora de "Vítima do Amor".

Nem bem Vicky e Manu colocam os pés na faculdade, logo são avistadas por Fábio, que se afasta do grupinho de estudantes com quem estava conversando, aproxima-se delas e as saúda, com exagerada simpatia, já prevendo as despontas de incômodo oferecidas pela ruiva, ao se voltar em especial para a morena.

— Vicky! Minha prima linda! Tudo bom com você? — Ele faz questão de beijar demoradamente as bochechas enrubescidas dela, que fica meio sem graça, mas aceita o gesto de saudação espevitada e evita olhar para Manu, que está ao seu lado.

— Tudo bom sim e você? Como está, Fábio? — A morena pergunta, meiga, com um sorriso de boas-vindas para o primo, dando margem para esticar o diálogo e fazendo a ruiva revirar os olhos e bater um pé no chão, de plena impaciência.

— Estou ótimo, obrigado, até já fiz amizade entre o pessoal da minha turma. Acho que agora eu tô conseguindo realmente me enturmar e não me sentir um estrangeiro aqui. — Fábio declara e depois, maroto, lança seus olhos cor de caramelo na direção da ruiva. — Olá, Manu.

— Oi. — A ruiva libera o cumprimento, de modo seco e arrogante. De fato, os olhos de Manu parecem fuzilá-lo, enquanto que por violento impulso estica o braço e encontra a mão de Vicky, entremeando seus dedos aos dela e a mantendo chegada a si. Gesto que não deixa de ser observado por Fábio.

Vicky surpreende-se ao sentir a pressão dos dedos da ruiva sobre os seus e experimenta um arrepio na espinha, mas controla a emoção, percebe que ela está nitidamente precavida e enciumada.

— Bom, minha querida prima, eu adoraria ficar aqui conversando com você, mas eu tenho um teste de física pra fazer daqui há pouco e acho que vou pra sala logo, estudar um pouco mais... antes do professor chegar. — Como sinal de despedida, Fábio volta a tomar o rosto da prima entre as mãos e o beija, de um e outro lado, com um sorriso perverso, ao notar o olhar homicida de Manu para si. Depois, ele se afasta uns passos e olha para trás. — Também foi prazer reencontrá-la, ruivinha.

— Volta aqui, seu descarado, e eu vou te mostrar quem é a ruivinha! — Não se contendo mais em sua cólera, Manu cospe as palavras de intimidação.

Fábio, sossegado, olha para trás, pisca um olho para Vicky, a fim de mostrar que não se chateou, e dá um esplêndido sorriso.

— Um dia eu vou fazer você me pedir muitas desculpas por me tratar como se eu fosse um inimigo seu, Manu... Mas, hoje não, ruivinha. Tchauzinho!

Manu ainda se move meio que avançando na direção seguida por ele, mas Vicky, aproveitando que estão de mãos entrelaçadas, traz a ruiva de volta, puxando-a com alguma dificuldade.

— Manu, por favor! Para de implicar com o Fábio. Poxa! Ele é uma boa pessoa, entenda isso de uma vez. — Vicky atesta, com voz firme.

— Lógico que você vai defender o seu primo safado... Eu acho que você tá é se apaixonando por ele, deve ser por isso que ultimamente fica sorrindo como uma boba. — A ruiva acusa, desgostosa.

Vicky, então, aperta suavemente a mão que prende a sua e fixa seus olhos nos de Manu, atitude ousada diante do contexto, pois estão no meio do pátio da faculdade, em presença de muitos estudantes, que poderiam notar este gesto afetuoso.

— Pois eu acho que nem você acredita no que acabou de dizer... porque um dia você falou pra mim que me conhecia tanto que quase podia ler a minha mente. Então eu acho que você sabe exatamente por quem eu sou e sempre fui apaixonada. — Com estas palavras, Vicky, enfim, consegue a atenção total de Manu, que por pouco não a beija sem ligar para mais nada, deixando-se levar pela emoção. Ela observa os olhos de Vicky perguntando-se quando foi a última vez que ela pôde tocá-la com carinho, com amor, sem conflitos, ofensas ou discórdias, por isso sente saudade, uma saudade dolorida, mas boa também, fazendo-a morder o lábio inferior, sorrir e aproximar o rosto apenas para captar, no olhar da morena, a veracidade por trás do que ela diz.

Entretanto, imediatamente Vicky corta o clima, parece dar-se conta de onde estão e, nervosa, desprende rápido a mão da outra e quase corre rumo à sala de aula. Manu a segue com as palavras dela ecoando como uma bela canção em sua mente, o que com certeza irá distrai-la durante as aulas que terão de assistir e, principalmente, fora destes domínios estudantis, em sua vida particular.

A algumas salas e corredores dali, está Fábio que igualmente luta contra a falta de concentração para os estudos. Na realidade, por toda a manhã, ele ficou na expectativa de ver Rafa, nem que fosse de longe e somente para tentar amenizar o mal entendido que ocorreu entre eles, na última vez em que se viram, quando saíram juntos, de balada em balada, e foram parar num motelzinho beira de rodovia, mas culminando numa briga chata, logo após o momento do sexo gostoso que tiveram. O período letivo matutino, porém, tem fim sem que Fábio veja em canto algum o bad-boy. Ele sai da sala de aula, caminha pelos corredores e espaços abertos da faculdade, também não vendo outra vez a sua prima nem Manu. E como é mais de meio dia, conjectura que elas já foram para casa. Direciona-se à parte indicativa ao refeitório, onde irá almoçar, pois pretende ficar por mais umas horas ali, estudando na biblioteca e, sobretudo, torcendo para que o Rafa apareça no período vespertino. Ele intui agora que o garoto deve estudar à tarde e foi em razão disso que não o viu pela manhã.

Desse modo, Fábio faz sua refeição e vai descansar um pouco, saboreando uma maçã verde, sentado em um banco, abaixo de frondosas árvores, com intenção de, a seguir, ir à biblioteca para ler mais sobre o conteúdo de uma disciplina, mas isso, na verdade, é apenas um pretexto para continuar no instituto educacional, a fim de, quem sabe, ver o menino que não sai do seu pensamento. Contudo, antes de completar os dez minutos, que ele decidiu como tempo de descanso, abancado sob as árvores grandes e ricamente folheadas, eis que surge a visão que tanto estava desejando ter. Ao longe, ele distingue a figura de Rafa entre os demais alunos, que chega caminhando num passo leve e jovial, com o vento a bater em sua cútis pouco trigueira, em seus cabelos escuros, lisos e com encurtadas ondas rebeldes. Vem com o mesmo olhar de tal maneira intimidador, a mesma expressão de soberba quanto aos atributos pessoais, como quem leva consigo a eterna postura de um rapaz marrento, subversivo e, ao mesmo tempo, galanteador. Fábio segura o ar nos pulmões e o solta pela boca semiaberta riscando na face um sorriso discreto, num gesto de deleite, ao passo que os olhos se entrefecham e passam a analisar o comportamento de quem lhe causa tamanho interesse. Vê o bad-boy achegar-se a duas jovenzinhas bem bonitas, que estão recostadas a um canto de parede, e ficar puxando papo enquanto elas fazem sinais de agrado e charme, mexendo nos cabelos, dando risadas frouxas, manifestando que o conhecem e gostam da abordagem que ele lhes faz de modo desinibido e falante. Súbito, uma delas, a que é loira, da mesma altura que ele, ergue a cabeça em sua direção e lhe dá um selinho nos lábios, o qual Rafa corresponde com um riso sacana para depois continuar papeando alegremente.

Sempre se atentando às feições de Rafa, Fábio coloca as sobras da maçã verde dentro do saco, que traz consigo, amarra reservando de lado, no banco, para jogar na primeira lixeira que encontrar depois. Então, ele busca o celular na parte da frente de sua mochila-pasta e começa tranquilamente a imaginar qual mensagem deve enviar ao jovem brigão, a fim de que ele leia a anedota ainda em presença das moças. Raciocina um pouco, até que se decide pela melhor frase: “Daqui posso ver a sua cara de falso garanhão. Enganando as pobres meninas? Que coisa feia, hein, Rafa.” No entanto, quando Fábio está prestes a enviar, o garoto se despede das estudantes e torna a caminhar, indo na direção do vestiário masculino, o que o faz pensar melhor, abrir um novo sorriso, desistindo de remeter a SMS e vendo a boa ocasião de se aproximar dele. Ligeiro, deita a mochila-pasta sobre o ombro, pega o embrulho plástico, põe-se em pé e marcha ao encalço do menino. Ao se aproximar do vestiário, ele diminui a velocidade do caminhar e adentra o recinto com cautela premeditada, ouvindo as vozes de outros rapazes e a de Rafa, que dialoga amistosamente com eles. Sendo assim, Fábio prossegue com calma para a lixeira abaixo da pia e, após jogar nela o saco que tinha em mãos, passa a molhar estas, ficando de costas, querendo estar despercebido e ganhando tempo, para saber o que eles falam, para ver se há alguma chance de ficar a sós e conversar com Rafa.

O bad-boy se encontra com o corpo e o rosto virado para a direção oposta à que Fábio está, por isso não o vê nesse instante. Os três rapazes estão de frente para ele e riem baixinho, dando a entender que o assunto versa sobre algo que querem manter em sigilo. Mas Fábio já desconfia sobre o que seja e não se surpreende ao flagrar a troca dos tais pacotinhos de drogas por dinheiro, que é entregue a Rafa num aperto de mão.

— É isso aê, Rafa! A gente se topa por aí depois, ok? — Um dos rapazes anuncia, deixando claro que está de saída, junto com os outros dois moços que o acompanham.

— Valeu, brother... Té outra hora! Precisando de mais é só falar. — Rafa diz, animado, ao passo que acena com a cabeça, despedindo-se de todos.

Para a felicidade de Fábio, ele e o traficantezinho ficam a sós, por fim. O garoto vai a um dos mictórios, começa a abrir e baixar a calça jeans com gestos espontâneos, mas leva um susto, quando finalmente vê Fábio postado em pé, no mictório ao lado do seu, já baixando também a calça e fixando nele seus lindos olhos cor de caramelo.

— Porra, Fábio! Vai matar de susto o capeta lá no inferno! — Rafa desata o berro, pronunciando o nome do outro com firmeza, esclarecendo que lembra muito bem a quem se refere.

— Oh! Rafa! É você? Que coincidência te encontrar aqui, cara... Olha, foi mal. Desculpa por te assustar assim, não fiz de propósito. — fazendo-se de ingênuo, Fábio procura ser agradável — Mas, então... Tudo bom com você?

Rafa nada responde de imediato, ele procura recompor-se do espanto, porém, fica obviamente nervoso, suas mãos tremem de forma sutil, enquanto quer transmitir uma conduta apática ante a chegada dele, baixando a cueca e expondo o membro a fim de urinar. Entretanto, seu rosto fica corado, os olhos se desviam para qualquer ponto, na parte de baixo, e a maldita urina não quer vir, por conta da ansiedade que experimenta agora.

— Você tá me seguindo, seu imbecil? — Rafa olha-o de soslaio, questiona em tom de acusação e fica um pouco aliviado, pois seu sistema urinário resolve funcionar, permitindo-o desafogar a bexiga.

— Quem sabe, Rafa... Talvez eu queira me explicar, pedir desculpas por não ter escolhido melhor as palavras que te falei, lá no motel, e por ter te ofendido... sem querer. Enfim, eu posso estar apenas querendo mudar a má impressão que você ficou de mim. — diz, com voz suave. Ele age com movimentos estáveis, folgados, desce a cueca e mostra seu membro robusto, apesar de estar em repouso, logo urinando sem constrangimento algum, retesando o quadril e dando a Rafa uma boa visão “dele”.

— Não vai adiantar, Fábio... Eu sei o que você tá tentando fazer... e eu não tô mais afim. — O esforço que o bad-boy faz para não olhar para o membro de Fábio é notório, mas ele consegue. — Eu já decidi... Não quero mais saber disso. Já bastam os problemas que eu tenho. Eu não quero mais confusão!

O garoto está pensando na sua mãe, que jamais aceitará como filho um homossexual, e no estresse que é viver com medo de sair prejudicado, tanto por causa de sua condição sexual adversa como pelos tráficos das substâncias ilegais, que faz para manter luxos e saídas noturnas, as baladas e as mulheres que usa para manter o disfarce.

— O que você quer dizer com isso, Rafa? Que vai deixar de ser gay? Acha que é simples assim? — Fábio sorri, irônico, vendo os olhos do garoto lutando para se desviarem do seu membro exposto.

— É sim! Pra mim não parece tão complicado. Eu posso muito bem encontrar uma bela garota e gostar de estar com ela, de... de beijá-la e... e todo o resto... Eu já transei com uma mulher antes e até achei bom. — Rafa argumenta, com voz um tanto vacilante, sentindo-se agoniado ao ver Fábio de frente para si segurando o seu membro másculo e, com o maior atrevimento, ajeitá-lo pondo-o dentro da cueca, subindo a calça e fechando o zíper, sem desviar dele os olhos um segundo sequer.

— Você é gay, Rafa! É gay! Não dá pra fugir disso nem que você queira muito... É até uma idiotice tentar fazer isso. — Fábio comenta, com algum ar de chacota. Mas, apesar de a voz dele ter saído pacífica, Rafa sente a fúria dominá-lo e ele fecha o cenho.

— Acontece que o único idiota... o único otário que eu vejo aqui é você, que tá achando que ainda vai rolar algo entre nós. Mas não vai! Por isso, pode ir mostrar esse troço que você carrega no meio das pernas pra outro porque, se depender de mim, o teu pau vai atrofiar... por falta de uso! — replicando deste modo grosseiro, exibindo seus nervos aflorados, Rafa põe o próprio membro na cueca, sobe e fecha a calça jeans. Ele anda à pia, abre a torneira e começa a lavar as mãos.

Fábio, que agora tem uma expressão indolente, experimenta a sensação de que está sendo, na verdade, desafiado e logo não quer dar-se por vencido, visto que ama rebater uma provocação. Assim, ele se aproxima de Rafa, valendo-se que ele está ocupado em assear as mãos, praticamente cola a boca em seu ouvido.

— Pois eu te garanto que, até o fim dessa tarde, o meu pau vai tá tão enfiado em você que eu nunca mais vou precisar te lembrar como é bom transar com um homem. — As audaciosas palavras cochichadas fazem Rafa sentir um frêmito na espinha.

— Vai sonhando... Idiota! — Rafa contesta, dá uma cotovelada nele empurrando-o e só não parte para a luta corporal porque entram dois rapazes no vestiário, quebrando o clima de conflito instalado.

Fábio volta a se achegar a ele, sabendo que não irá se atrever a nada ante os rapazes, e põe as mãos abaixo da água que ainda escorre, na mesma pia em que o garoto lava as suas, encarando-o e sorrindo de modo lascivo, para depressa afastar-se, enviar-lhe mais um olhar lascivo e sair do toalete, deixando o garoto confuso e irado.

Já fora, Fábio distancia-se um pouco de modo a esconder-se por trás de uma coluna quadrada de cimento. Rafa sai do toalete, ajeita a mochila nos ombros e para, a fim de procurá-lo, lançando olhos por todas as direções. Não o encontrando, decide seguir o seu caminho. Ele anda pelos corredores, agora com a cabeça baixa, como quem está mergulhado em algum pensamento. Passa por outros alunos, sem lhes falar, e entra numa sala de aula.

A partir daí, Fábio, que o escoltava de longe, aproxima-se de uma estudante simpática e lhe sorri.

— Oi. — fala com a moça, de modo folgazão.

— Oi! — A estudante responde, contente por achá-lo lindo e adorar a investida dele.

— Você estuda nesta sala aí? — pergunta naturalmente.

— Sim, estudo, meu nome é Vanessa. Muito prazer! — A jovem de cabelos cacheados e negros, como seus olhos, não perde tempo em se apresentar e parecer bem atrevida ante o belo rapaz de porte másculo.

— Ah! Sim, o prazer é meu, eu sou o Fábio... Ei! Qual é o seu curso? — prolonga a inquisição, sempre amistoso.

— Eu faço o curso de química. Olha, eu tenho aula agora, preciso ir, mas... toma aqui o meu cartão pessoal... — estende-lhe um pequeno papel grosso e retangular, contendo números de telefone, e-mails e o nome dela. — Me liga, bonitão... e eu posso fazer mais do que te responder algumas perguntas. — sorri, maliciosa, e o deixa a fim de entrar na sala.

Fábio, satisfeito com a pequena informação que obteve, volta na mesma direção em que veio, e parte para a biblioteca, com o intento de esperar o período letivo da tarde acabar para pôr em prática o estratagema que já visualiza em sua mente.

[...]

— Elisa, eu sabia que ela poderia, sim, ter uma melhora... Eu fico tão feliz por saber que a prima Lúcia está conseguindo vencer essa doença horrível. — Frida fala com sua prima, irmã de Lúcia, que está combatendo um câncer de mama, que descobriu há alguns meses e desde então tem sofrido muito, mas agora, com o devido tratamento quimioterápico, a doença está regredindo.

A mãe adotiva de Henry está sentada no sofá e tem o celular em mãos enquanto fala com a prima e assiste, na TV, a um canal que gosta bastante e aguarda começar o programa que expõe as confusões e os conflitos que acontecem nas famílias, bem como todo tipo de alvoroço na vida particular dos convidados participantes do Falando com a Joyce, regido pela apresentadora Joyce Santos, uma mulher que ama exibir uma polêmica para obter audiência ao seu programa.

— Pois é, Frida, parece que a medicação tá dando certo mesmo... Graças a Deus! — Elisa diz, risonha.

— Sim, graças mesmo. — A senhora concorda com a prima e presta atenção ao ver ser iniciado o programa sensacionalista. A apresentadora Joyce Santos surge na tela da televisão e começa a falar sobre o que será exibido em seu programa, quem serão os convidados, e o tema abordado, que será a Violência contra a mulher.

— Ei, quando você vem nos visitar de novo? — pergunta Elisa, um tanto cerimoniosa.

— Vou quando Deus me permitir, prima. — Frida responde e olha para a TV, ao ver entrar no palco do programa uma mulher que ela já viu algumas vezes, por ser amiga de anos de Henry, Isadora Abranches. Frida fecha o cenho questionando-se o que Isa está fazendo num tipo de programa controverso como este.

— Mas quando vier, venha para passar ao menos uma semana, deixe de viver se preocupando com esse rapaz, o filho da falecida Abigail, que você criou como seu filho... Eu sei que ele agora é um homem feito e bonito, pois deu pra notar isso pela fotografia que você nos mostrou, quando esteve aqui. — Elisa ri, lembrando do rosto lindo e adulto de Henry, visto pela imagem que Frida lhe apresentou.

— Sim, ele é... Bem crescido já, mas sempre me dá muita dor de cabeça, como se ainda fosse o mesmo garotinho que eu adotei, depois que a minha querida amiga morreu... — Frida olha de novo para o rosto de Isadora na tela da TV e tem um pressentimento. — Elisa, eu preciso desligar, falo com você outra hora... Eu te ligo assim que der... Beijos, prima.

— Está bem... Ligue mesmo, eu ficarei esperando. Beijos. tchau!

Agora Frida dá total atenção à fala de Isadora Abranches, que é entrevistada pela apresentadora Joyce Santos. Esta mulher lhe dirige perguntas querendo obter as minudências da tragédia que a devastou. O assombro vai apoderando-se de Frida, gradativamente, quando entende que a amiga de Henry está anunciando publicamente, com abundância de detalhes, que sofreu violência sexual praticada pelo pai de Lavínia, o presidente da Giant Solution, o senhor Gregory Albuquerque. Imediatamente a senhora pega outra vez o celular e disca o número de Henry, mas é obrigada a ligar inúmeras vezes até constatar que ele não irá atendê-la, neste momento, provavelmente esquivando-se de lhe dar explicações. Assim, ela não tem dúvidas de que existe o dedo nefasto dele por trás desta acusação que Isa lança, sem dó, sobre o velho empresário. E ela, portanto, sabe que a vingança prometida por Henry começou.

[...]

Na república das garotas, algumas horas antes....

Lavínia acorda bem tarde, nesta quarta-feira, atende às ligações do seu pai, da sua mãe e do seu namorado, Pietro. Fica ainda remoendo tudo o que houve entre ela e Henry, sentindo-se cada vez mais angustiada, sem saber como fazer para afastá-lo de sua vida, como expulsá-lo da sua mente. Ela conta para sua melhor amiga a respeito do ocorrido na boate e ouve novas críticas, pois Louise sempre mantém sua opinião de que Lavínia deve, nesta etapa de sua existência, dedicar-se somente aos estudos, visto ter um pai rico, que pode sustê-la de tudo que precisar, ao que a loira não quer debater e fica calada mesmo. Depois, ela vai para a faculdade sozinha porque Louise diz estar indisposta, cansada demais, por ter acordado mais cedo que de costume e ainda ter gastado seu vigor no motel, com o seu formoso moreno, para em seguida ir à clínica odontológica desempenhar seu serviço de atendente.

Quanto a Manu e Vicky, a morena dá-se conta de que, desde que voltaram da faculdade, o comportamento de Manu está diferente, a ruiva passa a lhe olhar mais, séria e pensativa, mas não tenta nada de ousado nem quer retomar a conversa sobre Fábio ou sobre o que Vicky disse, insinuando que ela é e sempre foi a sua única paixão.

Neste instante, em meio à tarde ensolarada, todas estão em casa, especificamente na sala, menos Lavínia.

— Louise, eu não entendo por que você prefere ficar cochilando no sofá e não vai logo pra sua cama... Eu, hein! — Manu faz o comentário azedo em voz alta. Vicky sorri discretamente pensando como ela, que está sentada ao seu lado, pode estar criticando Louise por esta tirar uma soneca no sofá, quando a própria ruiva quis fazer do sofá a sua cama também.

Manu e Vicky, assim, dividem o mesmo sofá, ao passo que Louise encontra-se deitada no outro, com o controle remoto da televisão sobre sua barriga, que pega ora em vez, para mudar de canal, quando tem a sonolência interrompida, esporadicamente.

— Nossa, Manu, deixa de ser chata! Tá tão bom aqui. — Mais uma vez ela ajusta a almofada atrás de cabeça e muda de canal, zapeando a TV, buscando algo interessante para assistir.

— Mas, Louise, não foi você quem disse que ia faltar às aulas de hoje por estar sem forças e precisar dormir, porque você e o seu namorado foram, de manhã cedo, antes de ir pro trabalho, para um motel chique e lá fizeram sexo até se fartarem? — A ruiva questiona, em tom sarcástico, repetindo o que a escutou dizer para Lavínia, na hora do almoço, diante de todas, que estavam sentadas à mesa.

— Fui eu quem disse isso, sim, porque é verdade... — Ela ri suspirando apaixonada, ao relembrar os momentos de prazer que teve com o Dico. — Mas como eu não estou acostumada a dormir à tarde, eu prefiro mesmo ficar no sofá, sossegada e assistindo à TV... Aff! Manu, vê se me deixa em paz e vai se aprontar, que deve estar quase na hora de você ir pra lanchonete.

— Eu não vou hoje. — responde de modo abreviado.

Vicky, que até então mantinha-se quieta tentando ler o livro que tem sobre as pernas, encara Manu, virando o rosto para o lado.

— E você não vai por quê? — pergunta, olhando-a com seus negros e grandes olhos, perscrutando o que a faz querer ficar em casa.

— Ah! É que eu tô com uma dor de cabeça que não passa... Acho que eu dormi mal. — explica cordialmente, surpreendendo a morena. No entanto, a ruiva passa os dedos pelas madeixas rubras, na altura das têmporas, e evita olhá-la, pois não quer admitir que Vicky é o motivo de sua insônia, de sua dor e a verdadeira razão de estar sem condições físicas e emocionais para ir trabalhar.

— Hum... Mas, então é melhor você ligar avisando, né... E, além disso, aquela garota que trabalha com você... e com quem você tá saindo... pode querer saber o porquê de você não ir. — A insinuação de algum ciúme na morena é óbvia.

— É... Eu... Eu até já enviei uma mensagem pra ela. A Dayse tá sabendo que eu não vou poder ir trabalhar hoje. — fala, medindo as palavras. — Agora só falta ligar diretamente para a lanchonete e justificar a minha ausência...

Em hipótese alguma, Manu dirá que Dayse ficou muito preocupada quando lhe disse sobre a sua enxaqueca repentina e que se ofereceu para, após cumprir seu expediente na lanchonete, ir visitá-la na república. E esta situação indesejada a ruiva contornou com astúcia, dizendo que não gostaria de ser vista com feições de adoecida.

— Oh! Meu Deus! Gente, vejam o que tá passando aí na televisão... — Louise, de repente senta-se no sofá, em posição de alerta, totalmente desperta, e solicita a atenção das amigas.

— Credo, Louise! É esse programa que só mostra baixarias, confusões e briga entre as pessoas... Por favor, muda o canal, tira dessa porcaria... — Manu recrimina a escolha de canal feita por Louise, sem perceber ainda do que se trata.

Vicky põe a mão sobre o peito antessentindo algo de grave na expressão de assombro que Louise mostra.

— Fica quieta, Manu, presta atenção! Estão falando sobre o pai da Vivi... o senhor Gregory Albuquerque... Escuta! — Ao dizer isto, Louise aumenta bastante o volume da televisão e todas passam a ouvir e compreender a seriedade do que é divulgado em rede nacional.

Elas assistem à mulher de seios siliconados e olhos verdes contar, emocionada, para Joyce Santos, o que houve entre ela e o empresário milionário, em um hotel de luxo, após um evento proporcionado pela corporação Giant Solution, com o intento de auferir clientes investidores, predispostos a contratar os seus serviços de consultoria empresarial.

— Isadora, tente se acalmar, respire fundo... e nos diga como conheceu o empresário Gregory Albuquerque? — Joyce segura a mão de Isa e a estimula a continuar dando o seu depoimento.

— Bom... inicialmente eu o conheci como todo mundo, através dos meios de comunicação... de reportagens, jornais e revistas que tratam sobre os negócios empresariais... — Isadora permanece de cabeça e tronco rebaixados, como a demonstrar sua prostração emocional.

— Ok. E depois, como vocês se aproximaram um do outro? Quando passaram a ter um contato mais íntimo? — A apresentadora segue inquirindo.

— A primeira vez que nos vimos cara a cara foi numa festa, ou melhor, num desses eventos de executivos, onde frequentam empresários e pessoas que têm algum interesse no tipo de serviço oferecido pelas firmas... ou as que queiram aprender algo sobre a área de consultoria e marketing... como eu... — Isa começa a falar como teve os encontros iniciais com o presidente da Giant Solution.

— Hum... Mas estes eventos não são exclusivos e necessitam de convites para entrar? — Ao ouvir o questionamento com um fundo de dúvida nas palavras de Joyce, Isadora estremece um pouco, porém, logo se lembra de algo a responder para salvá-la de uma contradição.

— Bom... É... que eu tenho um amigo que é também um microempresário e ele tem acesso a estes convites e me repassou alguns por saber do meu desejo em me tornar uma consultora de marketing... — Para arrematar de modo mais convincente, Isa resolve apelar. — Olha, não é porque eu sou ex-participante de um reality show que eu não tenho uma honra para preservar. Eu mereço respeito como todo mundo! Eu gostei dele, sim, e percebi que ele se interessou por mim também. Mas eu jamais esperei que aquele senhor cortês fosse capaz de fazer isso comigo...

Isadora Abranches, assim, consegue montar a imagem de vítima ao passo que vai revelando as minúcias do suposto abuso sexual, sempre entre lágrimas ou exclamações de lamentos.

As meninas entendem o drama enorme que será quando a loira amiga souber o que está por vir de ruim, pernicioso, para abalar mais ainda a sua paz de espírito, bem como a retidão da distinta família Albuquerque.

— Gente! Será que o pai da Lavínia fez mesmo isso que essa mulher tá dizendo? — Manu corta o silêncio lúgubre que se abate sobre todas, que estão pasmadas, e ousa expor a questão complexa.

Vicky continua quieta, chocada, mas Louise olha para a ruiva, aborrecida com a pergunta que ela fez.

— Claro que não, Manu! Tá na cara que isso aí é uma mentira deslavada, uma calúnia, das piores. Olha bem para o modo como essa mulher se comporta! — Louise aponta com o dedo na direção da tela da TV, na qual se pode ver Isadora, sentada numa poltrona, de frente para outra, onde se encontra a apresentadora. — Eu reconheço os sinais dessa mentirosa a quilômetros de distância.

— De que sinais você tá falando, Louise? A única coisa que eu vejo é que ela tá chorando e contando detalhes do que sofreu. — A ruiva diz, com agonia e preocupação, querendo compreender o que Louise está enxergando como traços de mentira nos gestos da mulher.

— Observem... Ela não encara a apresentadora, mexe o tempo todo nos cabelos, contorce os lábios mais para um lado. Além disso, vejam que ela faz cara de coitadinha, geme, funga, esfrega o nariz e quase não pisca os olhos, para forçar as lágrimas de crocodilo... Ela tá mentindo descadaramente! — Louise enumera os indicativos de falsidade que visualiza em Isadora.

— Ok... Mas, se ela está mentindo, então qual é o objetivo dela? Por que se expor desse jeito e inventar coisas tão terríveis que podem devastar a imagem pública e a vida particular desse senhor? — pergunta Manu, ao passo que estende o braço e acolhe a mão de Vicky, para consolá-la, vendo-a em pleno estado de mudez, ansiedade e compaixão.

— Está óbvio que ela é uma oportunista inescrupulosa que quer aparecer na mídia, ficar famosa de qualquer jeito, nem que seja envolvendo o nome de um inocente em meio a uma acusação falsa de estupro. — explica Louise, já buscando da mesinha de centro o seu celular. Embora ela também desconfie da participação de um cérebro por trás desta traiçoeira denúncia, não consegue ver relação nítida e direta entre a ex-participante de reality show e o jovem empresário Henry Sorelle. Opta, assim, por ajuizar com cautela e, afinal, não descarta a possibilidade de tratar-se de uma espantosa coincidência.

— E pra quem você vai ligar? Pra Lavínia? Ai, meu Deus, será que ela já tá sabendo disso? Será que a família dela já avisou? — Manu especula, vendo Louise com o celular na mão.

— Duvido muito... Desde que ela reapareceu, tudo o que eles fazem é proteger a Vivi. Eles ligam pra saber se ela está bem, se está segura e tranquila... e só. Não querem dar preocupações a ela... — Louise solta um suspiro agoniado, volta a olhar para Manu. — E eu não vou falar sobre isso com ela por telefone, vou esperar ela chegar da faculdade... É com o Dico que quero falar agora...

— Vai ligar pro seu namorado, justo agora, nesse momento de aflição? — A ruiva fica um tanto indignada, pois não compreende a atitude de Louise.

— Não é isso, Manu... Deixa de pensar bobagem! Acontece que o Dico tem a assinatura de um jornal bem conceituado e de circulação nacional. Eu quero saber se esse escândalo vai estar nele amanhã... porque hoje tudo o que podemos fazer é ficarmos atentas a tudo que passar na televisão... — justifica Louise.

— Ah! Desculpa, Louise... É que isso já tá me deixando aflita e confusa, de verdade. — A ruiva emite suspiros de inquietação.

— Louise, você acha que essa denúncia vai render falatórios e se alastrar nos meios de comunicação, como os jornais, os telejornais em geral e a internet? — A voz de Vicky por fim se faz escutar e a pergunta que ela libera externa ansiedade e receio, que não é somente dela e sim de todas, neste momento.

— Tomara que não, Vicky... Vamos torcer que essa calúnia fique restrita a este programa asqueroso. — Mas, na realidade, Louise sente que isso vai render, sim, e muito. Ela liga para Dico, conta para ele tudo o que viu e ouviu, deixando clara a sua ideia de que se refere a uma história inventada por uma alpinista social. Em seguida pede que ele venha no dia posterior, e bem cedo, lembrando de trazer o jornal, sem falta. Louise, no entanto, encerra a ligação sem dizer da sua desconfiança com relação a ter um mentor por trás disso, pois quer ter certeza absoluta antes de culpar quem imagina ser esta pessoa. Igualmente, ela pretende esperar Lavínia chegar da faculdade para soltar a bomba em cima da amiga e ampará-la quando ela desmoronar. Neste instante, ela sabe que a loira nem sonha com o que está acontecendo e mais tarde irá encontrar-se com Pietro, no quiosque-lanchonete de costume.

Ciente da perseguição obsessiva que Henry tem feito, Louise faz uma oração silenciosa pedindo que Lavínia aproveite bastante a companhia do namorado dela, que retorne à república de coração aberto e resignado para poder suportar a dor que irá sentir, ainda mais se sua suspeita estiver certa e o empresário lindo e louco for a mente escondida nos bastidores desta cilada perversa.

[...]

Notas finais
Oh! Meu Deus, tadinha da Lavínia!!! Será um tormento para a loira quando souber que pai, o senhor Gregory, está envolvido numa acusação de estupro. Nem quero ver!!! Hahahahaha... Quanto às ex-namoradas, Vicky e Manu, que situação é essa em que uma "morre" de ciúme da outra??? Pra mim, parece mais que tá com cara de reconciliação e volta de namoro, será??? Uau, e o Fábio está "com o diabo no corpo" só de tesão pelo garoto marrento e mal-humorado. O que esse lindo de olhos amarelos vai inventar para atrair o Rafa, hein??? Já o nosso belo semideus deve estar apenas assistindo e aguardando o correr do escândalo. Eita moço lindo e louco mesmo, viu. Hahahahaha... O que vocês acham que vai acontecer agora? Digam-me. Comentem, please. Beijos e até breve, meus queridos.