[HIATUS] Mudanças impuras
39 Perturbações sentimentais
Notas iniciais

(Proposta de imagens representativas de Dayse e Aline)
***
“Se o homem fosse perfeito, seria Deus; e as pretensas contrariedades a que vós chamais contradições são os ingredientes necessários de que se compõe o homem”. – Voltaire
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Quando Dico estaciona o carro na frente do portão de ferro cinza e muro pintado de bege, referente à república das garotas, ele olha para a namorada, muito quieta ao seu lado, e sente que os seus problemas irão piorar, ainda mais.
— Posso saber o que está pensando? Você parece tão séria. — Ele pergunta, com voz fraca.
— Estou pensando como um pai não percebe quando seu filho está sendo maltratado. — Louise é curta e grossa. Mas, ao dizer tais palavras duras, ela não o encara diretamente. Ela prefere ficar apreciando uma árvore, que pode ser vista adiante, através do vidro do para-brisa do carro.
— Acha que sou o culpado pelo o que aconteceu com o Rubinho? — questiona, abatido. Depois de uns segundos em silêncio, volta a falar, com voz embargada de emoção. — Eu sei que está parecendo que eu fui omisso ou cego... por não ter reparado na violência que o meu filho sofreu... Só que eu garanto a você, Louise, que isso nunca aconteceu antes. Ele estava fisicamente intacto, sem roxos nem hematomas, quando estava comigo, no fim de semana. Mas agora...
Lágrimas escorrem pelo rosto do moreno, que não contém o sentimento de dor. Ele também desvia os olhos e os direciona para fora do carro, para além da janela, querendo não se encher de remorso, mas sem conseguir.
— Não estou te culpando pelo que houve, Dico... Isso não. — Louise também não sabe como se expressar adequadamente, ante o tumulto emocional que experimenta.
— E por que está assim, Louise? Por que está tão séria? Nem consegue me olhar nos olhos... Por quê? — Dico torna a olhá-la e não se conforma com a resposta medíocre que ela lhe dá.
— Dico... Não se angustie demais pelo que houve com o Rubinho... Você não teve culpa direta. Só penso que deve estar mais consciente a partir de agora com o que se passa na vida do seu filho e com o tipo de tratamento que ele está recebendo, por parte dos que convivem com ele diariamente. — Ela o aconselha.
— Eu sei, Louise. Não vou mais permitir que me afastem do meu filho... Eu quero saber tudo o que se passa com ele. Eu quero protegê-lo... para que a agressão que ele sofreu nunca mais se repita. E eu vou honrar essa promessa, nem que eu precise vigiar cada passo da Míriam. — Dico anuncia, aguerrido.
— Sim, você deve fazer isso mesmo... Mas, pelo que você falou, de não ter visto antes nenhum hematoma ou roxo, podemos deduzir que foi a primeira vez que essa lunática fez isso com ele. — Louise está com uma expressão distante, meio tristonha.
— E será a última vez também, disso eu vou me assegurar com toda certeza. — Ele se aproxima dela. — Mas, e quanto a nós, meu anjo? Venha aqui. Por favor, não fuja do meu olhar... Não fique assim.
No entanto, Louise afasta-o com a mão, empurrando-o delicadamente para trás.
— Não. Dico, por favor... Eu... Eu preciso de um tempo! — Louise fala, sem olhá-lo. Ela está com ar de amargura e agastamento.
— Precisa de tempo? Louise, você está terminando comigo? Está pondo fim ao nosso namoro? — Dico solta as perguntas e sente uma compressão do peito, apavorado, com medo de escutar a resposta que o machucará demais.
— Eu só não estou conseguindo mais lidar com tudo isso. Não tô terminando com você. Estou apenas pedindo um tempo, Dico... Um tempo! — Louise, por fim, desabafa o que vem à sua mente confusa. A verdade é que, mesmo estando afetivamente conectada a ele e apesar de ser uma garota bastante voltada à promiscuidade sexual, se existe algo que a confunde é questão envolvendo tiranias, pois Louise é do tipo justiceira e detesta ver criaturas inocentes sendo agredidas, seja pelo que for. Além do mais, ela agora realmente acha agora que precisa refletir sobre os problemas que terá de enfrentar para permanecer ao lado do lindo moreno.
Dico simplesmente a observa, desolado. Neste momento, ele se sente destruído por dentro, visto que jamais imaginou sofrer tanto e numa única noite.
— Ok... Eu aceito. Você terá o tempo que precisar. Mas eu quero que você escute o que vou te dizer. — Dico estende a mãe e a põe sobre o queixo de Louise, forçando-a gentilmente a lhe olhar nos olhos, tristes e lacrimosos. — Eu descobri que eu te amo, Louise... E sei que nós podemos dar certo juntos. Eu sinto isso e por isso quero que também pense com calma... Por favor, não desista de nós!
Louise ouve o que ele diz e sente o coração comprimido. Entretanto, opta por seguir com sua postura evasiva, pelo menos agora, que as emoções estão em efervescência total. Ela acena positivamente. Com movimentos lentos, mas decididos, abre a porta do automóvel e o deixa para trás.
Dico fica olhando-a até que ela entre pelo portão cinza e o feche, sem se voltar para ele, que verte lágrimas doloridas, de remorso e consternação. Ele aciona o veículo e parte em retirada para sua república, incerto sobre o que virá a seguir, mas determinado a não se enfraquecer tão facilmente, pois nutre, em seu íntimo a esperança de que essa tempestade de angústias logo vai passar.
[...]
Após o fim do seu expediente na lanchonete, Manu volta para casa. Enquanto entra na estreita sala da república, ela pensa em como seu dia foi estranho e cheio de novidades. De manhã, foi obrigada a ver Vicky de conversa prolongada e compenetrada com o primo, Fábio, que se mostra cada vez mais íntimo dela, algo que a incomoda demais. Não se conforma, pois realmente acredita que Fábio é heterossexual e está encantado por Vicky. Ela também acha que Vicky está deixando-se levar por conta da pressão que sofre, sobretudo, de sua família preconceituosa e intolerante. Entretanto, imagina que existe algo bizarro no comportamento agora alegre, sem sintomas de esmorecimento, que Vicky apresenta. “Por que ela anda tão feliz? Será que está começando a gostar do Fábio? Oh! Meu Deus! Só falta agora ela descobrir que é bi.... Que droga!”. De fato, ela não teve mais paz, desde que presenciou a pose de felicidade manifesta de Vicky, o que somente agrava sua desconfiança azucrinante. Um tempo atrás, na Lanchonete do Raul, por exemplo, ela permaneceu distraída, mas conseguiu dissimular bem, pois não quis que Dayse percebesse sua feição meio agoniada. Tentou sorrir e não mostrar sua preocupação. Manu, porém, não sabe que Dayse, por seu lado, nada observou de peculiar em si, por estar igualmente com os pensamentos um pouco atravancados por sua tensão pessoal. Por mais que quisesse negar, não seria capaz de esconder de si mesma que a proposta feita por Aline de conversarem a perturbou mais do que deveria. De tal modo, tanto Manu como a Dayse não perceberam os indícios de crise interior uma da outra e buscaram fingir atitudes normais, para não terem que dar conta de uma situação conflitante entre elas também. Manu não quis programar saída qualquer com Dayse, mesmo sabendo e ficando feliz por a outra ter ganhado o carro de presente dos pais dela. Disse que estava um tanto afadigada, queria descansar. Marcariam algo para o fim de semana, possivelmente.
Os pensamentos da ruiva são interrompidos no exato momento em que avista novamente Vicky sentada no sofá assistindo a algo na televisão. O sorriso contente e gracioso está intacto.
— Oi, Manu! Então, como foi no trabalho? Esteve tudo bem? — cumprimenta Vicky, já querendo transmitir bom humor e interesse por tudo que se relacione à vida da ruiva, como lhe indicou Fábio.
— Ah! É... Hum... Foi tudo do mesmo jeito de sempre, ora... Mas foi bem, sim. Obrigada por perguntar. Onde estão as outras meninas? — Manu responde, primeiro com certa impaciência e a seguir sendo mais gentil e questionando sobre as demais colegas, para mudar de assunto. Ela está ainda em pé, à lateral do sofá onde Vicky encontra-se, e sente que há mesmo algo de estranho neste comportamento todo feliz da outra e isso a está deixando louca de curiosidade, por achar que a culpa disso é de Fábio, que está talvez conseguindo atrair a morena para ele.
— A Lavínia foi para o trabalho, na boate, e a Louise está no quarto, acho que ela foi dormir... E eu estava sem sono e resolvi vir assistir um pouco. Manu, olha, eu fiz a sopa. Até já esquentei agora há pouco, pois eu calculei que você estivesse chegando. Então, vá lá e se sirva. Eu aposto como você vai gostar. — Vicky dá outro belo sorriso e Manu fica outra vez desconfiada, apreensiva. No entanto, ela obedece, vai à cozinha, serve-se da sopa. Coloca uma porção dela em um prato encovado, juntamente com uma colher, e volta para a sala, onde se senta no outro sofá, não querendo ficar muito próxima de Vicky, evitando, assim, que a morena lhe avalie com mais precisão. No fundo, Manu está com medo de imaginar que o amor de Vicky tenha esmorecido de vez e que, neste momento, ela procure estabelecer um clima amistoso por querer ajeitar o terreno para a entrada de Fábio, como o mais novo relacionamento hétero, normal, como os pais dela sempre sonharam.
— Está gostando da sopa? Eu caprichei, viu... Fiz exatamente como você gosta. E aí? O que achou? — A morena questiona, com olhos grandes e curiosos.
— Está boa, sim... Obrigada. — Manu anuncia, com voz baixa, e se incomoda com o riso que Vicky solta.
— Já estou contando duas vezes... — declara a morena, em tom brincalhão.
— Como? Duas vezes em quê? — pergunta Manu, quase se engasgando com a sopa quente, que está mesmo uma delícia, mas que não está conseguindo aproveitar tanto, por conta da ansiedade.
— Que você me agradece... Isso desde que pôs os pés aqui. — conclui Vicky, mostrando uma bela expressão, meio brincalhona.
— Ah! — Manu torna a se calar, querendo disfarçar a inquietação. Ela termina de comer a sopa, sempre com a sensação de alguma estranheza nos gestos risonhos da outra, que hora em vez puxa qualquer assunto para conversarem, obtendo de Manu um papo não mais que monossilábico.
Quando, por fim, termina de comer a sopa, Manu volta à cozinha. Lava o prato e a colher, pois é função de todas as moradoras contribuir com a limpeza do ambiente, em cada cômodo. Posteriormente, atravessa a sala, onde observa os olhos de Vicky seguindo-a e vai para o quarto, pretendendo descansar o corpo e a mente, após um banho tranquilizante, pois se sente mesmo exaurida, por tantas dúvidas. Ela retira a roupa e pega sua toalha, indo para a suíte, a fim de banhar e escovar os dentes, preparar-se, deste jeito, para dormir. Toma banho, enrola-se na toalha, escova os dentes e penteia-se, faz tudo de forma quase mecânica. O cérebro está dominado por pensamentos adversos, por isso que o corpo opera por si mesmo fazendo as tarefas habituais. Assim que sai do banheiro, no entanto, assusta-se ao ver Vicky, que remexe na cômoda. Manu tenta novamente não demonstrar sua agonia. Ela logo supõe que a morena esteja somente buscando alguma roupa dela, uma vez que seus pertences permanecem ali no quarto, apesar de ter passado a dormir no outro cômodo. Por isso, ela espera Vicky pegar o que quer da cômoda, achando que em seguida ela sairia do quarto. Contudo, espanta-se outra vez, quando Vicky simplesmente passa por ela, com expressão risonha, e entra na suíte. “Ué! Há muito tempo que ela não entra nesse banheiro. Por que está fazendo isso agora?” Manu balança a cabeça, querendo não se abalar ainda mais. Veste seu conjunto de pijama, short e blusa, apaga a luz do quarto e se deita na cama, sem tirar os olhos da porta encostada da suíte, com plena atenção ao som de chuveiro, que vem de lá. O coração dela está inquieto, acelerado. Por mais cansada que esteja, não consegue deixar o sono acalmá-la, como deveria. Em nenhum momento, porém, passa por sua cabeça a ideia de ir até Vicky, de buscar uma explicação para a postura estranha dela, pois além de tudo há o seu orgulho a dizer-lhe que pode ferir-se novamente. Se permitir que pensamentos maliciosos a dominem, ou melhor, se acreditar que Vicky está tentando seduzi-la outra vez, não se acha segura quanto à atitude que deve tomar. Manu não consegue esquecer a dor que sentiu ao ser largada por ela, não se conforma que Vicky tenha dado fim ao namoro delas de modo tão brusco, aparentemente fácil, e que a tenha conduzido aos braços de Dayse, com quem agora se sente em débito, por tê-la resguardado da solidão. Deste modo, quando Vicky sai da suíte, enrolada na toalha e com pingas d’água caindo ali e acolá, fazendo-a lembrar o que houve da última vez em que surgiu assim, Manu desvia os olhos e os fecha, logo fingindo dormir. Não obstante, fica nervosa, com o peito aos saltos devido à respiração falha, obrigando-a a buscar ar com a boca entreaberta.
Vicky percebe o sono fingido, a agonia da ruiva e exibe um sorriso, pelos cantos dos lábios. Ela caminha, graciosa, pelo quarto, na semiescuridão, e vai de novo à cômoda, de lá separa uma camisola rendada em tons róseos. Mesmo com vergonha, retira a toalha e fica complemente nua, tencionando demorar-se muito no momento de vestir a peça delicada, a fim de mostrar-se despudorada e charmosa, outra dica de Fábio.
Manu tem os olhos semicerrados e consegue visualizar toda a cena, mesmo que através da penumbra advinda da luz acesa da suíte, experimenta um enorme desejo de atacar a morena, de jogá-la na cama e enchê-la de beijos. Mas permanece na mesma posição, somente como observadora. Ela percorre o corpo desnudo da morena e fica extasiada com as formas bem feitas, volumosas. “Oh! Deus! Isso já é tortura!” Pensa consigo e suspira encantada, ao vê-la ajustar a camisola rendada entre os seios grandes e se mover docilmente, soltando as madeixas encaracoladas, que estavam presas num coque.
— Vicky... — Manu chama, tentando ser o mais insensível que dá, mas sem garantir muito êxito nisso.
— Hum? O que quer, Manu? — Vicky pergunta, com voz carinhosa. E, juntamente com suas palavras meigas, dá uns passos na direção da cama da ruiva, que rapidamente se senta, tensa.
— O que você tá fazendo nesse quarto? Não tinha feito a troca com a Lavínia e passou a dormir lá, com a Louise? — questiona friamente Manu, desviando outra vez os olhos da visão que lhe é fascinante e insolente ao mesmo tempo. Percebe que está excitada, confusa e por demais irritada.
— Sim, é verdade. Eu e ela tínhamos feito a troca de quartos, sim, mas eu entendi que isso é bobagem, uma infantilidade à toa... Então resolvi voltar. Afinal, esta é a minha cama e minhas roupas ainda estão aqui, assim como quase tudo que é meu. — responde Vicky, dando ênfase à última expressão, insinuando que o “tudo que é meu” abrange a ruiva.
Manu faz algo que Vicky minimamente previu, pois não quis admitir tal hipótese. Ela respira fundo, reúne sua almofada e lençol. Levanta-se com os objetos em mãos e se encaminha à porta.
— Manu... Pra onde você vai? — olha-a com expressão de algum espanto.
— Vou dormir no sofá. — declara Manu, sucinta.
— Mas por quê? — a morena tenta aproximar-se, mas Manu ganha mais espaço, indo mais para trás. Ela abre a porta e olha de relance para Vicky.
— Por que eu quero, caralho! Me deixa em paz! — replicando tais palavras grosseiras, ela sai e fecha a porta, deixando Vicky um pouco decepcionada. Entretanto, ela se lembra das palavras de Fábio sobre a possibilidade de ser rejeitada, no começo. Assim, suspira conformada e se deita na cama. Repete mentalmente que elas voltarão a ficar juntas e serão muito felizes, assim que os mal-entendidos forem todos solucionados.
[...]
— Cheguei! — anuncia Dayse, assim que se embrenha pela residência, pondo suas chaves no pendurador específico, acoplado à parede, próximo da porta de entrada. Ela ri com a visão que presencia. Seus pais, ambos cochilando, cada qual numa posição cômica, em frente à TV ligada. Sua mãe está na poltrona velha, com os utensílios de tricô e os óculos sobre as pernas, e seu pai, recostado ao sofá, com uma almofada enorme por detrás dele. “Como são fofos!”, pondera, afável, pois ama muito os pais idosos, ao passo que desliga a televisão.
— Mãe... — toca no braço de dona Helen, suavemente, acordando-a.
— Dayse, quando você chegou, filha? Nem ouvi você entrar. — Dona Helen ajeita-se na poltrona e olha, carinhosa, para a filha e depois para o senhor Augusto, rindo por vê-lo mal posto no sofá. — Hum... Acho que cochilei, assim como ele... Não somos mais que dois velhos dorminhocos!
— Mãe! Que bobagem! Vocês são os pais mais queridos deste mundo e já trabalharam demais na vida... Agora deixe de tolices. É melhor chamá-lo para irem dormir onde é apropriado... Na cama! — dá um beijo na bochecha da mãe e esta se levanta, pondo o que há nas pernas de lado e indo acordar o marido. Entretanto, antes de executar a última ação, dona Helen olha outra vez para Dayse, que já se encaminhava na direção da cozinha, à procura de comida.
— Dayse... Filha, a Aline está esperando por você há quase uma hora. — anuncia a senhora, em tom educado.
— Onde, mãe? Onde a Aline está? — questiona Dayse, lançando olhos por toda a extensão visível da casa e franzindo o cenho.
— No seu quarto, ora... Ela disse que você mesma recomendou que a esperasse lá.... que vocês terão uma conversa de reconciliação ou algo assim.
— Quer dizer que ela falou pra senhora sobre conversa de reconciliação e se enfiou no meu quarto? Ah, não... Eu, hein! Que ousadia! — Dayse desabafa, mais para si mesma.
— Bom, eu não entendi muito bem, mas não vi nada demais em deixá-la ir para o seu quarto... Fiz mal? — fala a mãe, apreensiva.
— Não, mãezinha. Pode deixar que com essa aí eu me entendo. Boa noite. — Dayse dá um aperto carinhoso no ombro da mãe e se vira para ir ao encontro da sua ex-namorada.
— E você não vai jantar antes de ir lá falar com ela, filha? — dona Helen pergunta, vendo Dayse se afastar.
— Eu perdi a fome, mãe. Mas se eu sentir depois, eu venho e faço um lanche rápido. Não se preocupe. Boa noite! — Dayse anuncia, sem olhar para trás, pois sua concentração está, neste instante, voltada para Aline, em seu quarto.
Ela segue seu rumo e deixa dona Helen para trás, que se conforma e volta a se aproximar do marido a fim de chamá-lo para irem ao aposento deles. Assim que Dayse entra em seu quarto, assusta-se ao ver Aline deitada em sua cama, mas o susto não é por conta de ela estar acomodada e sim por estar praticamente desnuda, trajando somente uma calcinha rendada vermelha. A gêmea, de fato, está totalmente à vontade, de bruços, com o bumbum para cima e com os cabelos compridos, lisos e escuros a escorrer pelas costas nuas.
— Aline! Oh, Deus! Não basta mentir pra minha mãe e se enfiar no meu quarto? Ainda tem que tirar a roupa e se postar na minha cama, como se fosse a coisa mais natural do mundo? O que diabos pensa que está fazendo? E se minha mãe ou meu pai resolvem vir aqui e te pegam desse jeito, não acha que seria abusar demais da hospitalidade deles? — solta as perguntas, sentindo o sangue ferver em suas veias, ainda mais porque não consegue evitar de achar a gêmea perigosamente libertina. Quer demonstrar somente a raiva que está sentindo. Ela põe a sua bolsa sobre a mesma cadeira onde estão as vestes de Aline e volta a encará-la, com grande esforço.
— Ah! Dayse, não brigue comigo assim, poxa! Primeiro, eu não menti pra sua mãe, eu só exagerei um pouquinho... Mas não é verdade que vamos ter uma conversa? Depois, eu tirei a roupa porque senti muito calor e não vi problema em ficar só de calcinha. Eu sei que seus pais nunca entram no seu quarto, sem bater na porta antes. Você se incomoda? Afinal, você já me viu sem roupa muitas vezes... e nunca reclamou, estou errada? — Aline fala, fazendo expressão de bobinha sensual. Ela se posiciona de joelhos sobre a cama, empinando o bumbum para trás, erguendo ainda mais os belos seios, enquanto afasta as negras madeixas lisas, para que Dayse visualize melhor suas formas bonitas.
— É melhor você parar com essa encenação ridícula, Aline! Olha, eu tô cansada e suada. Por que não me poupa disso e diz logo o que quer, pra você voltar pra sua casa... e eu poder tomar o meu banho e ir dormir? — Dayse libera as palavras com certa grosseria, pois se sente nervosa com a visão do corpo nu de Aline diante de si.
A gêmea percebe o incômodo de Dayse, por meio da respiração acelerada e a boca entreaberta, e decide levantar-se da cama, indo ficar próxima dela, mostrando-se mais, embora esteja preocupada também. O fato de elas terem a mesma altura ajuda a gêmea manter-se cara a cara com ela.
— Dayse... Volta pra mim! Eu ainda amo você, nunca te esqueci. Eu sei que eu errei feio, mas me perdoa... Por favor! — Aline abandona a postura sexy, implorando para ser atendida em seu pedido. Lágrimas começam a se formar nos olhos escuros e a gêmea morde o lábio inferior, tentando controlar a emoção, pois é difícil deixar-se ver tão vulnerável e, mais uma vez, em autêntica súplica de atenção ao seu amor e arrependimento.
— Aline... Pensei que já havíamos resolvido isso. Nós decidimos ser apenas boas amigas, não se lembra? — Dayse evita, a todo custo olhar para Aline, pois se sente agoniada, ao vê-la com os olhos lacrimejantes.
— Eu não decidi nada disso! Quem resolveu que seria assim foi você! Foi você que me julgou sem dó e me condenou à condição de simples amiga... Mas eu não quero ser só sua amiga. Eu te amo, droga! Eu quero ser mais que isso. Por favor, Dayse, fique comigo. Eu sinto tanto a sua falta! — joga-se nos braços de Dayse e dá vasão ao choro comovido.
Dayse não impede o abraço, mas não retribui. Fica imóvel, mesmo sentindo vontade de devolver o gesto emocionado.
— Aline, por que está agindo assim? Puxa vida! Você agora está com a Sarah... que é uma boa moça e está completamente apaixonada por você. Não me coloque nesta posição difícil. Não vá trair sua nova namorada! Seria querer consertar um erro cometendo outro, não percebe isso? — Dayse compreende o quanto seria doloroso para a Sarah descobrir a traição de sua amada.
— Eu não estou traindo ninguém, Dayse... A Sarah me deixou. Ela mesma percebeu que eu não a amava, que eu não conseguia corresponder o amor que ela me dava... Eu tentei, mas não pude. Não pude... porque eu só amo você. Só você! — Entre lágrimas e olhares apaixonados, Aline busca a boca de Dayse para beijar.
— Aline, não... Você tá confundindo tudo! Fica calma! Pare com isso! — Apesar das palavras de rejeição, Dayse já começa a ficar excitada, porque Aline a acaricia no pescoço, dando beijos delicados nesta região.
— Dayse, me deixe ficar com você hoje. Eu sei que sente falta dos meus carinhos... dos meus beijos... Diga que sim. — A gêmea ainda consegue tocar com os seus os lábios da outra, mas é afastada outra vez.
— Chega, Aline! Ah, puxa vida! Mesmo que você já não esteja mais com a Sarah, deve lembrar também que eu, ao contrário, não estou só... Eu estou com a Manu. — Dayse diz, já experimentando um anseio intruso de satisfazer ao estímulo que lhe é dado, mas resiste. Ela desvia o rosto, em cada momento que Aline investe, tentando beijá-la. Dayse começa a ofegar por conta da aflição.
— Vocês nem são namoradas de verdade! Você a apresentou como amiga, no dia em que a levou na casa da minha mãe. Então, não deve fidelidade a ela ainda, não é? E o Chris falou... — Aline estanca, percebendo a mancada que cometeu. De repente, ela se recorda que prometeu ao irmão que não contaria nada sobre a confissão que lhe foi feita por Dayse.
— O que foi que o Chris te falou? — Dayse fica muito séria, pois já desconfia qual é a resposta.
— Não! Ele não falou nada de importante... Ele... — Aline procura na mente uma desculpa qualquer.
Dayse segura Aline pelos braços e a afasta, de modo a arrostá-la, ameaçando-a com o olhar aborrecido.
— Diz, Aline! O que foi que ele falou pra você? — A inquirição é feita em volume alto.
Mesmo tremendo pela ansiedade e vendo que não teria jeito a não ser contar o que seu irmão lhe segredou, Aline olha para Dayse com certa arrogância, como quem sente algum prazer pelo que vai pronunciar.
— Que você nunca deixou de sentir atração por mim, que fica nervosa na minha presença, mesmo não conseguindo me perdoar por eu ter decepcionado você, no passado. — Aline solta os termos de modo apressado e com euforia, pois também quer mostrar que pode impor-se, ante os sentimentos escondidos que existem entre elas.
Assim, ouvindo em voz alta o que há dentro de si, do que sente por Aline, Dayse solta-a e fica olhando-a, com expressão um pouco reflexiva.
— Aquele viado linguarudo! Tomara que queime a língua, por falar o que não deve! — solta, usando termos chulos e agressivos. Não há, contudo, raiva de verdade na voz de Dayse, apenas alguma frustração por sentir-se exposta de tal modo, por meio da declaração. Ela ama o Chris como se fosse um irmão e entende que ele não tenha conseguido guardar segredo para Aline, pois sabe que os gêmeos são muito unidos. Tem consciência de que o erro foi seu, por ter confiado seus mistérios sentimentais para ele, justo para o irmão dela.
— Não, Dayse... Não fique brava com o Chris. Fui eu que o obriguei a me contar tudo o que você disse para ele sobre mim. Ele relutou bastante, não queria falar. Ele te ama e morreria de remorso se você o desprezasse por ter contado pra mim o que sabe. — Aline apela em nome do irmão e Dayse, apesar de tudo, acha isso um gesto bonito. De fato, ver a gêmea tão aguerrida defendendo Chris, faz Dayse liberar um fraco riso.
— Acontece que eu também amo aquele viado linguarudo... É como um irmão pra mim. Eu que falei demais. Agora sei disso. — anuncia, respirando fundo, sem perceber a cara de felicidade feita por Aline.
A gêmea volta a se colar em Dayse e passa os braços ao redor de sua cintura, olhando bem nos olhos.
— Então... Pare de fingir que não sente nada. Dayse, olhe para mim, veja como estou carente de você. — suplica, enquanto torna aos beijos no rosto e pescoço dela.
Tanta apelação e gestos lascivos terminam minando as forças de Dayse, que não podendo mais lutar contra a excitação, deixa-se levar por ela. Por fim, retribui ao beijo de Aline. Passa os braços pelos ombros nus e a aperta ainda mais, intensificando a carícia. Aline geme de prazer, por enfim, receber o que tanto almejou, desde o término do namoro. Elas se acariciam e Aline a ajuda e se despir, enquanto vão as duas em direção à suíte. Dayse puxa-a com delicadeza, a fim de refrescarem-se e espantarem o calor, que agora exala por seus corpos.
— Aline, não pense que isso é uma reconciliação, ok? Você quer estar comigo agora, então tudo bem, mas não crie expectativas, estou sendo sincera... Eu tô gostando de verdade da Manu... Se quiser, é assim que vai ser... O que me responde? — arremata Dayse, olhando para a gêmea, que estagna um momento.
Ambas já estão nuas e embaixo do chuveiro desligado. Aline olha para Dayse e avalia a sua opção. Entende que não há outra saída além de acatar as condições impostas por Dayse e rezar para que sua intuição não a engane. A gêmea aciona o registro do chuveiro e faz uns pingos d’água caírem sobre elas e sorri, maliciosa.
— Que seja como você decidir. — Aline beija-a nos lábios, em resposta positiva. Na verdade, está cedendo a essa alternativa somente por achar que logo tudo se reverterá a seu favor. Ela tem confiança de que Dayse voltará a ser apenas sua e de mais ninguém.
A partir daí, não há recusas. Dayse entrega-se de vez. Põe as duas mãos sobre o rosto de Aline e enfia a língua na boca alheia com gosto, ao passo que se esfrega em sua pele eriçada de desejo. Aline é ainda mais ousada, pois direciona, sem demora, a mão deslizando e indo se pôr entre as pernas de Dayse, em busca de sua intimidade já lubrificada, pela excitação. Dayse ofega entre os lábios de Aline, gostando e depressa repetindo o gesto, também à procura de explorar as partes íntimas da gêmea. Assim, elas se acariciam e se estimulam, enquanto a água as lava e afresca. Demorando-se, sem ligar para mais nada de suas vidas fora da suíte, ou do quarto. No entanto, sabendo que têm muito que conversar e ajustar, nesta relação tão incerta quanto a que Dayse tem com Manu.
[...]
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