[HIATUS] Mudanças impuras

40 Não desistirei de nós


Notas iniciais
Abençoados leitores, confesso que, nestes dias, tenho empreendido uma luta interna para não desanimar ainda mais na escrita. Assim, forcei-me a escrever (digitar), a fim de provar que a apatia pode ser combatida com vontade de fazer força e disciplina. Todavia, como humana, admito que não seja nada fácil. Enfim, venci a etapa e lhes entrego este capítulo com muito prazer e torço de coração que o apreciem. A música que Dico oferece à Louise é de JASON MRAZ - I WON'T GIVE UP (Não vou desistir) Tradução Tenham uma boa leitura. OBS.: Querida Estrela de Rubi (Autora do belíssimo Yaoi “Vítima Do Amor”), mais uma vez agradeço-te pela maravilhosa betagem, apoio e amizade. ***

Já passa da meia-noite e Louise está deitada, olhando para a parede que recebe uma sutil iluminação advinda do abajur entremeado nas camas dela e a de Lavínia, que neste momento está vazia, pois Vicky voltou a dormir no quarto que lhe cabe e a loira está na boate. Louise não vê, porém, nada ante si, porque sua mente está longe. Pensa em como foi-se envolvendo de todas as formas com Dico, como ele se tornou uma parte tão importante na sua vida e está, gradativamente, modificando-a, especialmente agora, devido à situação complicada com a esposa e o filho, arrastando-a, mesmo sem querer a reflexões essenciais sobre si mesma. Não chora, mas experimenta um pesar que a faz ficar abatida, depressiva. Com efeito, ela sente que Dico é honesto quando diz querer resolver seus problemas para ser feliz ao lado dela, mas receia que o moreno não seja capaz de se livrar efetivamente deles e termine por levá-la a se encher de esperanças vãs. Está alarmada com a possibilidade de ele não ter pulso firme para dar rumo certo à própria vida e tolere que Míriam o prenda e o envolva sinuosamente, sem chances de fuga, num emaranhado de dramas e conflitos, sempre utilizando o Rubinho como pretexto. Duvida um pouco da força de vontade de Dico, da sua capacidade de se impor frente às dificuldades e se torne um bom-tolo nas mãos da esposa alucinada. Por outro lado, entende que não possui razões legítimas para cobrar. Ela mesma nunca foi apta para garantir um ajuste na relação precária que tem com sua família. Ainda carrega dentro de si medo de que o amor a consuma, destrua suas energias e a frustre mais quanto a saber-se querida de verdade. Desde criança, quando morava com os pais e o irmão, Hugo, o seu maior medo sempre foi o de não ser plenamente amada, a pessoa mais importante na vida de alguém.

Louise ainda está divagando sobre o que a inquieta, quando escuta o som da chegada de uma mensagem no seu celular. Ela estica o braço, apanha o aparelho e dá um sorriso triste ao notar que se trata de SMS vindo do celular do moreno. Então, passa os dedos pela tela e começa a ler o que há escrito. Seu coração dispara ao ver que se trata da letra de uma canção romântica, na íntegra, traduzida, exprimindo os sentimentos de Dico.

“Quando olho em seus olhos

É como observar o céu à noite

Ou um belo nascer do sol

Há tanto que eles carregam

E assim como as velhas estrelas

Eu vejo que você chegou tão longe

Para estar bem onde você está

Quão velha é a sua alma?

Não vou desistir de nós

Mesmo que os céus fiquem furiosos

Estou te dando todo meu amor

Ainda estou olhando para cima

E quando você precisar do seu espaço

Para navegar um pouco

Eu estarei aqui pacientemente esperando

Para ver o que você vai encontrar

Porque até as estrelas, elas queimam

Algumas até mesmo caem sobre a terra

Temos muito a aprender

Deus sabe que valemos a pena

Não, não vou desistir

Eu não quero ser alguém que vai embora tão facilmente

Estou aqui para ficar e fazer a diferença que eu puder fazer

Nossas diferenças fazem muito para nos ensinar como usar

As ferramentas e os presentes que temos. Sim, temos muita coisa em jogo

E no fim, você ainda é minha amiga, pelo menos, tínhamos intenção

Para funcionarmos, não terminarmos, não queimarmos

Tivemos que aprender como nos virar sem o mundo desabar

Tive que aprender o que tenho, e o que eu não sou

E quem eu sou

Não vou desistir de nós

Mesmo que os céus fiquem furiosos

Estou te dando todo meu amor

Ainda estou olhando para cima

Ainda estou olhando para cima

Não vou desistir de nós

(Não, não vou desistir)

Deus sabe, sou difícil, ele sabe

(Eu sou difícil, sou amado)

Temos muito a aprender

(Estamos vivos, somos amados)

Deus sabe que valemos a pena

(E nós valemos a pena)

Eu não vou desistir de nós

Mesmo que os céus fiquem furiosos

Estou te dando todo meu amor

Ainda estou olhando para cima

Ainda estou olhando para cima”

Abaixo das mensagens, que montam a letra, há apenas a frase Eu te amo, anjo, seguida do link por meio do qual ela acessa e ouve a canção, que se faz ouvir pelo quarto e a emociona demais.

Louise desaba em lágrimas de vez, pois percebe que não tem a menor chance de negar o amor que ela também sente. Fecha os olhos lacrimejados, abandona-se ao belo som que a invade de sensações prazerosas e abraça sua almofada, beija-a como se fosse Dico, para depois rir de forma boba, ao se dar conta de que está sonhando acordada. Não importa o quão difícil sejam os caminhos até que eles encontrem a harmonia juntos, ela compreende depressa que ficar longe do seu namorado é agonia maior e impossível de suportar.

Assim que a música chega ao fim, ela disca o número dele e espera.

— Você é um filho da mãe! Isso não se faz, Dico... É covardia! Como ousa me mandar essas mensagens tão lindas e essa música que eu adoro? E como eu posso ficar longe de você depois de ler e escutar isso? — libera, assim que ele atende. A voz dela está embargada pelo choro emocionado e pela raiva fingida, querendo impor um tom de reprimenda.

— Olha, Louise, eu peço desculpas. Mas você sabe que no amor e na guerra vale tudo. — Dico sorri só para si, ao perceber que ela gostou das mensagens e mais ainda por intuir que acertou em cheio na escolha da música. Entretanto, o coração do moreno está temeroso, pois não sabe se Louise irá encarar a sua atitude como um ímpeto desonesto, um desrespeito ao tempo pedido por ela. Por isso, ele se cala e espera qualquer reação, a partir deste instante.

— Pois saiba que você venceu e me ganhou! Esqueça que eu pedi tempo... porque eu não consigo ficar longe de você nem mais um dia sequer... Eu também te amo, Dico. — Louise tem dificuldade de falar, a emoção é aguda. Seu rosto está banhado de lágrimas e ela se sente vulnerável, mas disposta a arriscar, mesmo não estando completamente tranquila sobre sua nova decisão.

— Oh! Louise! Eu gostaria tanto que você estivesse perto de mim agora, só pra te encher de beijos. — Ele declara, com voz de lamento.

— Escute o que vou dizer, Dico. Eu estou recuando na minha decisão de pedir tempo porque agora eu quero acreditar que nós dois venceremos juntos todos os problemas, os seus e os meus... Eu quero, eu realmente quero ter fé que isso é só uma etapa ruim, mas que vai passar e depois poderemos sorrir disso, quando olharmos para trás. — Louise anuncia, em tom esperançoso.

Dico respira aliviado e fica exultante ao constatar a sintonia de pensamentos deles, pois ele chegou à mesma conclusão que ela, desde o instante em que a deixou na república, horas atrás.

— Sim, Louise. É isso mesmo, estamos apenas atravessando uma fase difícil, mas que podemos superar juntos... Eu preciso de você do meu lado, anjo. Não sei mais ficar sem o seu apoio, sem o seu calor... o seu carinho... — Dico revela, também emocionado.

Três segundos de silêncio transcorrem.

— Que filho da mãe! Você não poderia estar num curso melhor, sabia? — Ela solta, quebrando a calmaria, fungando, secando as lágrimas com a palma da mão e rindo, pilhérica.

— Por que está falando isso? — Dico pergunta, exibindo um risinho de quem já sabe a resposta.

— Porque você vai ser um ótimo publicitário e propagandista... Que lábia absurda que você tem! — Louise fala, quase recriminando-o por tê-la feito retroceder na decisão tomada.

— Vou encarar o que disse como um elogio. — divulga, bem-humorado.

— Ah! Mas é claro que vai... Ok. Tá certo! — Louise fica um instante calada, pensando em como está com vontade que o tempo passe rápido para poder voltar a encontrá-lo.

— Louise. — chama por ela e também demonstra estar pensativo.

— Diga. — incita-o a falar.

— Você se incomoda se eu aparecer aí, de manhã? Eu poderia te dar uma carona para o seu trabalho... Prometo que não vou te atrasar em nada. É que eu tô com muita vontade de te ver e não gostaria de esperar até à tarde, na faculdade. O que você me diz? Posso ir? — expõe o pedido e aguarda. Na verdade, Dico quer estabelecer uma rotina de convívio mais próximo com Louise, a fim de que ela vá, aos poucos, perdendo o medo de sonhar com um futuro de união firme entre eles, a despeito de qualquer empecilho que surgir, ao longo da relação.

— Bom... Tudo bem, pode vir. Venha bem cedo então, assim poderemos tomar o café da manhã juntos. — responde, o mais calma que consegue. Entretanto, o coração de Louise descompassa de felicidade, tão-só por se imaginar ao lado dele, à mesa pela manhã, como um verdadeiro casal. Tal visão lhe parece um sonho bom.

— Vou até passar numa padaria antes e comprar uns pãezinhos quentes, eu prometo... Ah! E eu levo o jornal. Não fico sem as notícias do dia. — Há doçura na voz do moreno.

Louise suspira, entendendo que vai amanhecer um caco-humano porque não irá conciliar o sono tão cedo após esta conversa, que a está deixando super ansiosa pelo encontro matutino com ele.

Depois de mais acertos, eles se despedem, com palavras suaves de ambas as partes. O tempo do qual Louise disse necessitar é rapidamente esquecido e ela pensa somente em fortalecer os laços que os unem, nem que tenha que derrotar a si mesma e sua forte tendência a negar a própria felicidade, por medo de se ferir.

(Proposta de imagem representativa de Jocasta — Anna)

***

A noite de trabalho na Dans le bar concert Claude, para Lavínia, está sendo mais tranquila do que ela havia previsto, pois já se mostra adaptada ao serviço que presta, acostumada à abordagem dos fregueses às mesas, sempre com um sorriso feliz e agradável, desconsiderando os olhares maliciosos e os constantes gracejos de homens e mulheres, que é obrigada a aturar. Entretanto, ela sabe que a ausência de agastamento e nervosismo deve-se, sobretudo, ao fato de que Henry não apareceu e, pela hora avançada, supõe que não irá aparecer. Portanto, a loira consegue relaxar, ficar menos apreensiva, à medida que os minutos passam sem que ele surja em sua área de visão. Ela perdeu metade da noite olhando o movimento de pessoas que adentravam pela boate, sempre assustada com a ideia de vê-lo entre estas e respirando aliviada a cada vez que isso não ocorria.

Assim, após ter atendido a uma mesa e perceber que poderia ter um instante de folga, Lavínia até se sente tentada a assistir à apresentação de uma das moças que dançam no palco, ainda mais por saber que quem virá a seguir é Jocasta, a negra de ascendência francesa, de olhos agatinhados e corpo escultural, que é em si mesma um show à parte, pela sua elegância e altivez na postura. Jocasta é anunciada e solicitada ao palco. Ela se exibe andando a passos ensaiados. As luzes dos holofotes acompanham cada gesto seu, em cima do tablado. Chega, experiente e graciosa, expondo sua fantasia de medusa erótica, com cobras feitas de tecido sintético, um microvestido cinza-claro com lantejoulas, sandália escura de salto alto, maquiagem primorosa e uma desenvoltura para a dança que deixa Lavínia boquiaberta. Por certo que a loira fica impressionada com a apresentação de Jocasta, que mesmo sendo apenas uma dançarina de palco nesta casa noturna, manifesta algo a mais em sua performance, um talento extraordinário para a consciência e o controle corporal. Lavínia depressa identifica o lado artístico em sua dança e fica em êxtase devido aos movimentos bem feitos. Há harmonia nos gestos do corpo com o ritmo da música selecionada, um erotic lounge, que mescla sensualidade e bom gosto ao estilo sonoro, que estimula a negra airosa a despir-se pouco a pouco. Os seios fartos estão à mostra e eles balançam junto com o remexer da cintura fina e Lavínia não vê a apresentação da bela mulher como algo pornográfico, nem quando ela fica completamente nua, fazendo rodopios que oscilam entre lentos e ágeis, pondo as pernas para o ar, sem ligar de se exibir despudorada aos olhos de expectadores, entre os quais pervertidos emitindo palavras obscenas em alto tom de voz, enquanto lançam notas de dinheiro para que ela as recolha.

Ao fim da atuação, aplausos e assovios são escutados. Jocasta retira-se, elegante, sem constrangimento algum por desfilar nua, voltando por onde veio, uma abertura atrás do palco, com uma escadinha e um corredor adiante que leva ao setor onde as dançarinas aprontam-se e aguardam para se apresentar, cada a qual em sua vez.

Lavínia não resiste à vontade de ir dar os parabéns pelo maravilhoso desempenho dela. Deste modo, observa se não há a chamada de atendimento a alguma mesa e, vendo que ainda não, vai à parte da boate que nunca havia ido antes. Ao entrar na sala não muito ampla, mas bem estruturada, ela fica admirada com o que vê. Primeiro, a forte iluminação do recinto, os inúmeros espelhos acoplados às paredes, mesas contendo materiais de beleza em geral, cadeiras, roupas e adereços diversos, dependurados por todos os lados. As mulheres riem e conversam de modo alegre, enquanto se aprontam ou se desmontam. Porém, ao observarem a jovem atendente entre elas, algumas a contemplam com suspeita e Lavínia nada entende deste olhar torto que lhe enviam. Quando ela enxerga Jocasta mais ao fundo sentada, frente ao espelho grande, e coberta por um robe de seda estampado verde-claro, caminha, meio envergonhada, pelas demais moças e se aproxima dela.

— Co-com licença. E-Eu posso tomar... um pouco do seu tempo? É que eu achei a sua apresentação linda demais. Eu nunca vi alguém dançar desse jeito e... foi maravilhoso... — gesticula bastante, buscando palavras na mente para expressar sua admiração, mesmo com certo acanhamento, mas se interrompe porque a outra se vira na cadeira e a arrosta um instante. Jocasta olha-a obliquamente, mas sem ar convencido, apenas com um traço de fadiga.

— Hum... Gostou da minha dança ou de mim? — dá um risinho irônico. — Olha, loirinha, você é jovem e bonita, mas não vai obter de mim o que quer, ok? Eu gosto de homem. Não sou lésbica.

A dançarina segue passando o algodão embebido no demaquilante cremoso sobre a pele brônzea do seu rosto para retirar os excessos de maquiagem.

— O quê? Não! Eu ta-também não sou lésbica... Na verdade eu só apreciei mesmo a dança, fiquei impressionada com o seu ta-talento e... resolvi vir aqui pra te dar os parabéns. Foi muito artístico, realmente. Desculpa se dei uma impressão errada... E eu também não quis incomodá-la... — sente-se acanhada em dobro e pensa em sair dali.

— Não. Sou eu que devo pedir desculpas. Estou parecendo o que não sou, uma homofóbica, e agora vejo que fui eu que interpretei mal a sua abordagem. — Jocasta estende a mão de modo amistoso. — Muito prazer, meu nome verdadeiro é Anna.

— Oh! O prazer é meu, Anna... Eu me chamo Lavínia. — profere, menos nervosa.

— Você gostou mesmo da minha dança? Jura que achou artística? — parece agora atenta à resposta que receberá da loira.

— Juro pelo que você quiser... Eu jamais vi alguém dançar com tanta paixão. Foi lindo mesmo. Pra mim, sua dança é pura arte. — Lavínia expõe e Jocasta, que é na verdade Anna Roux, abre um largo sorriso.

— Puxa! É a primeira vez que chamam a minha dança de arte... Aliás, pra ser honesta, nunca elogiaram a minha apresentação, sem haver intenções maliciosas por trás... sem que quisessem me levar pra cama depois. — Os olhos agatinhados dela ganham uma expressão pensativa.

— Pois agora você sabe que existe alguém que aprecia a sua dança e não quer te levar pra cama. — Lavínia ri, brincalhona. — Bem, eu preciso voltar, Anna... É que eu ainda estou na minha hora de serviço... Então...

— Por que você não dança no palco também, Lavínia? Olha, com esse corpo bem feito e esse rosto de anjo, eu te asseguro que muitos caras tirariam até o último centavo do bolso apenas pra te ver lá cima. — Jocasta afirma e Lavínia fica completamente enrubescida, pasmada, ao imaginar-se nua em cima do tablado da boate.

— Eu? Não! E-Eu não conseguiria... não sou assim. Eu não poderia aceitar dinheiro para me expor. — admite e não percebe a cara de censura que Anna faz imediatamente.

— Que interessante. Não vê o quanto está sendo contraditória? Você acabou de elogiar a minha apresentação... E agora me julga como uma prostituta? — Anna é rápida em sua análise e sua entonação firme faz a loira ficar sem graça.

— Oh! Peço mil perdões... Eu não quis o-ofender... Eu... — percebe o erro que cometeu, tenta redimir-se.

— Veja bem, eu comecei como você, loirinha. Eu atendia mesas, até que me deram o conselho que eu vou te dar, como brinde, porque eu suponho que você é assediada o tempo todo... — Anna olha para Lavínia, de baixo para cima, e sorri, um tanto maldosa. — A verdade é que enquanto você tenta ser profissional e simpática com os clientes, a maioria só pensa em sacanagem... Nesse tipo de lugar, nunca vão te dar o respeito que você quer e merece.

— Eu se-sei disso, mas...

— Escute primeiro. Depois você pode falar. — Anna dá a entender que não terminou de expor o seu ponto de vista. A loira fica calada. — Acha que meu sonho é dançar nua para uma plateia de pervertidos, que me jogam dinheiro, como se eu fosse apenas uma carne de primeira? Acredite, eu tenho um objetivo maior nessa vida, como acho que você também tem. Mas eu me fiz umas perguntas e agora eu as faço a você. Se você tem mesmo que passar um período trabalhando nessa boate, o que é mais compensador? Será que vale mais ser assediada no chão, enquanto atende mesas e ganha uma merreca, ou ser assediada no palco, onde ao menos existe algum lucro de verdade, sem precisar se cansar tanto?

Jocasta silencia-se e encara Lavínia, aguardando uma réplica.

— E-Eu... não sei o que dizer, Anna... — mostra-se um pouco confusa.

— Tudo bem. Não precisa responder pra mim... Apenas pense sobre isso e veja se não está sendo puritana demais e perdendo a chance de se beneficiar com a beleza que possui. Afinal, não somos tão diferentes quanto você acredita. Você vende sua imagem, mesmo sem perceber, quando anda de uma mesa para a outra, atraindo olhares cobiçosos e eu vendo a minha, enquanto danço e tiro a roupa, sem deixar nada para a imaginação destes mesmos olhares que te desejam.

Lavínia sente-se agoniada e Anna percebe o que provocou nela. Contudo, não se arrepende de ter dito o que disse, já que foi sincera e avalia a realidade que a rodeia da forma como a descreveu.

— Eu pre-preciso ir, Anna... — vai-se pondo no caminho da porta, ao passo que se despede da outra. — Depois, num outro dia, posso vir e conversaremos mais. Foi realmente uma linda apresentação... e um prazer conhecer você.

— Está certo, Lavínia. Eu te agradeço por ter-se dado ao trabalho de vir aqui só pra me parabenizar... E não se assuste muito pelas coisas que eu te falei. É que o destino, quase sempre, nos empurra a situações que nunca pensaríamos ter que suportar, não é mesmo? E saber lidar com as pressões da vida é uma questão de sobrevivência... até podermos alcançar o nosso sonho dourado.

Anna dá um sorriso gentil, deixa Lavínia ir e volta à sua ação de demaquilar o rosto, frente ao espelho, pensando no quanto ainda falta para realizar o seu investimento futuro, a sua própria escola de dança.

Lavínia deixa o setor das dançarinas com expressão pensativa, distante, e acaba topando em outra colega, uma baixinha jovial, que vinha com uma bandeja em mãos, que por sorte estava vazia.

— Ah, puxa! Paula, sou uma desastrada... me desculpa. — sustenta a amiga atendente, antes que vá ao solo, pois ela também parece absorta e eufórica, com ares de irritação.

— Não, tá tudo bem... Eu é que me distraí e não vi você passando aí, porque tô com vontade de matar um sujeitinho atrevido que fui atender agora há pouco. — A baixinha de cabelos longos, castanhos e ondulados solta sua raiva de uma vez.

— É... Tem cliente que não perde a oportunidade de nos atormentar com seus cinismos... e falta de respeito. — Lavínia diz, queixosa, lembrando-se das palavras de Jocasta.

— Pelo que vejo, não sou só eu que estou irritada, querendo que o tempo passe logo pra me livrar disso, por hoje, e voltar ao aconchego do lar. — Paula fala, olhando para a colega e rindo, com ar pilhérico.

— Falando em tempo... Paula, pode me dizer que horas são? — pergunta a loira, pois observou o relógio no pulso da atendente baixinha.

— Um hora e vinte minutos... Você sai que horas?

— Às duas... Que chato! Pensei que estivesse mais perto disso. Ainda falta mais de meia hora. — Lavínia libera as palavras de lamúria e Paula ri novamente.

— Bom... está mais perto que eu. Só saio às três da madrugada... — A baixinha meiga desvia os olhos da outra e os lança para a entrada da boate, suspira encantada, por ver quem está chegando, e torna a falar. — Mas se eu tivesse um homem tão lindo assim como amante, eu juro que não reclamaria de mais nada nessa vida... passaria os dias com cara de felicidade eterna.

Súbito, Lavínia sente o coração se apertar no peito e quando olha na direção apontada, com a cabeça, por Paula, observa Henry, que já a notou e se aproxima a passos calmos e decididos, sem desviar os olhos de águia.

Desacompanhado de amigos ou de namoradas famosas, aparenta a bonança que não possui, na realidade, visto que está fatigado, carente e estressado. Está vindo de uma reunião na sua empresa, onde gastou horas revendo planilhas de contas, sugestões de funcionários e ideias inovadoras para aumentar os lucros da Sorelle’s Technical Marketing. Veio direto da empresa e nem passou no apartamento para trocar a roupa, por isso ainda está de terno cinza e gravata escura, que mesmo sendo de um corte mais moderno, ao estilo italiano, trata-se de uma vestimenta formal, exigida pela ocasião no trabalho. Ele se senta a uma mesa, não muito afastada do balcão do bar, abre o botão na frente do terno, afrouxa a gravata e espera, já à procura de cigarro e isqueiro, nos bolsos, sem ligar para o frêmito que provoca entre algumas moças ao seu redor, que se sentem facilmente atraídas pelo belo homem.

“Ah, não! Ele veio. Que droga! Agora sim minha noite está arruinada.”, Lavínia fala para si, ao passo que busca entre as mesas alguém que necessite do seu atendimento e fica contente ao ver um freguês com a mão estendida para o alto, fazendo sinal para chamá-la.

— Paula, vá lá e atenda o cliente que chegou... Fi-fique com ele... Por mim, ele é todinho seu... e eu vou atender àquele outro ali... que está me chamando. — Com rapidez, sai para atender o tal cliente que mencionou, deixando Paula em êxtase, pois irá atender o ídolo, que sempre vê nas revistas e nos jornais.

Minutos depois, quando Lavínia vem voltando para anunciar ao bartender o pedido de bebida solicitada pelo comprador que a chamou, ela se surpreende ao notar a baixinha recostada no balcão, olhando-a com expressão séria.

— O que foi, Paula? Po-por que está me olhando desse jeito? Aconteceu a-alguma coisa? — fica com um pressentimento ruim.

— Aconteceu sim... e nem sei dizer se é algo bom ou não. — Paula responde, olhando de soslaio no rumo da mesa ocupada por Henry. — O bonitão ali exigiu não ser atendido por ninguém... além de você.

— Como assim? Por quê? — sente a aflição querendo dominá-la, bem mais por saber que ele as observa, enquanto falam dele.

— Ele alegou que, na última vez em que esteve aqui, foi você que atendeu à mesa em que ele estava com os amigos dele e disse que o seu atendimento foi péssimo... da pior qualidade, mas agora está sendo gentil e quer te dar uma chance para atendê-lo bem, como deveria ter feito antes. — repassa tudo o que lhe foi dito pelo cliente lindo e ofega, resignada, ao mesmo tempo, sentindo dó da colega loira, ao vê-la muito nervosa. — Pode ir lá falar com ele, Lavínia. Eu levo esse seu outro pedido. Melhor não deixar o empresário esperando, pois deu pra perceber que, além de tesudo, é também mandão e arrogante... Vá logo! Antes que ele te meta em confusão, por reclamar do seu atendimento.

Ao escutar as palavras da colega, que lhe puxa a nota do pedido, a loira passa o dorso da mão, agora livre, sobre a testa, afastando as madeixas lisas e enxugando o suor que começa a se formar, devido à ânsia e a aporrinhação. No entanto, experimenta ainda uma raiva enorme por ele a estar envolvendo numa calúnia.

— Que mentiroso descarado! — pronuncia, num sussurro, mais para si mesma.

Ademais, Paula não a escuta, pois já vai levando a bebida do outro freguês, mostrando o seu melhor sorriso e refletindo que o seu príncipe encantado pode surgir a qualquer momento e quando menos esperar. Por isso, nunca deve abdicar do seu modo simpático de ser.

Lavínia puxa o ar para os pulmões e tenta não tropeçar nas próprias pernas, enquanto caminha ao encontro de Henry, que permanece com o olhar fixo nela, fumando, exibindo uma postura aparentemente relaxada.

— O-O que pe-pensa que está fazendo, hein? Por que não pe-permitiu que minha colega o atendesse... e ainda inventou mentiras sobre mim? — interroga-o, falando de forma grosseira, mas vacilante também, pois nota que ele a olha, impassível, e isso a incomoda muito.

— Se eu apenas tivesse dito que gostaria de ser atendido por você, teria vindo me atender? — Henry pergunta, de modo sucinto.

— Hã? Lógico que não! Mas... — replica, impaciente.

— Então agora você entende perfeitamente por que eu fiz isso. — pode-se notar o sorriso escondido por trás dos olhos semicerrados dele, enquanto diz as palavras com moderado escárnio.

— Po-Por que você veio? Vá embora, Henry! Eu não quero e não vou te a-atender. — evita olhá-lo, querendo que ele se sinta mal recebido e desista de perturbá-la.

Ele dá outro trago no cigarro e sorri, pelo canto dos lábios, sem deixar de avaliar cada gesto dela.

— Ah! Lavínia, como uma simples balconista, você tem muito a aprender... Não é assim que se trata um freguês rico e disposto a gastar bastante para usufruir dos prazeres que a casa oferece. — apregoa, ao passo que meneia a cabeça, em sinal de negação e mais deboche.

— Sabe o que vou fazer? Vou te de-denunciar... ao dono deste estabelecimento, por assédio... e...

— E pretende, assim, que eu seja expulso daqui. — Henry completa a sentença dela, ergue as sobrancelhas e abre mais os olhos, fingindo-se de surpreso.

— Isso mesmo! Vou fazer co-com que te expulsem... pra que nu-nunca mais volte a me pe-perturbar. — arremata, mas antes de dar um único passo, Henry solta uma gargalhada, fazendo-a tremer de nervoso.

— Bom, se vai mesmo falar com o francês, por favor, transmita a ele um recado meu. Diga-lhe que gostei muito da reforma que ele fez na boate. Ficou excelente! Mas, antes de me banir do seu estabelecimento, que ele ao menos pague o que me deve. — Com uma dicção impecável, emanando frieza, Henry faz as pernas da loira tremularem. Contudo, ela não quer render-se ao medo de enfrentá-lo. Apoia as duas mãos sobre a mesa, à testa dele, e lança um olhar de completa crítica sobre, que fica contente por poder vê-la mais de perto.

O desejo de Henry é beijá-la e encerrar a conversa aflitiva. Mas ele se contém e permanece somente apreciando os traços bonitos do rosto dela, os olhos em tom violáceo, que mostram apreensão, o nariz arrebitado e a boca entreaberta, deixando à amostra a mínima fileira de dentes alinhados.

— Mentira! — Ela libera a acusação, entredentes, sentindo as têmporas latejarem, pela ânsia, e o trazendo de volta dos pensamentos evasivos.

— Ah! É mesmo, Lavínia. Você não sabe que eu e o Jean Claude estudamos na mesma escola... em turmas diferentes, por certo, mas nada disso impediu que nos tornássemos bons colegas... E, uns meses atrás, quando ele precisou de uma ajudazinha na reforma da sua casa noturna, adivinha quem lhe estendeu a mão? — Um sorriso luminoso surge na face de Henry e a loira pensa que ele se assemelha a uma fera, que seduz a sua caça para depois devorá-la.

— Vo-Você tá mentindo de novo, Henry... Eu não a-acredito numa única pa-palavra que sai da sua boca! — Mesmo sentindo-se muito agitada, Lavínia tenta encontrar um bom revide que a ajude a não ser aprisionada à situação ultrajante para a qual ele a conduz.

— Se não acredita no que eu digo, só há uma forma de descobrir a verdade, não é? Vá até o francês, Lavínia, e elimine a sua dúvida. — ordena e fica avaliando os indícios de nervosismo dela.

Vários segundos passam-se sem que Lavínia mova-se do lugar onde está. Seus olhos estão baixos, demonstram um distanciamento da realidade, os lábios tremulam e ela não consegue decidir-se quanto ao que deve fazer.

Henry observa toda a aflição dela e sabe que não pode recuar, visto que desconhece outra forma de tê-la junto a si. Por tal razão, não lhe dirá que não está mentindo quando disse que ele e Jean Claude são velhos conhecidos, que de fato frequentaram a mesma escola, porém, o francês já lhe pagou o que devia e no prazo acordado pelos dois. O que interessa, no entanto, é que ela creia no seu blefe e não se recuse a estar com ele, nem que seja atendendo-o.

— Po-Por que está fazendo isso, Henry? Co-como você pode ser tão... descarado e maldoso? — vendo-se sem muita chance de escapar da cilada, tira as mãos da mesa, pondo-se em postura ereta e desvia os olhos ao vê-lo sorrir, maquinalmente.

Henry fica ciente de que ela não terá a audácia de ir ter com o francês, a fim de não correr o risco de incomodar o patrão com falácias mal-intencionadas.

— Façamos o seguinte, Lavínia... Você pode continuar fingindo que não compreende os meus motivos. Também não precisa me contar por que decidiu arranjar trabalho numa boate, sem ter uma real necessidade para isso... contanto que me dê o bom atendimento que eu estou exigindo. Não é tão complicado assim, é? — inquire e joga a fumaça para o alto, sem afastar os olhos dela.

Lavínia põe as madeixas loiras para trás, remexe na gravata-borboleta prateada, rente ao pescoço, dando sinais de agonia e sufoco, puxa o ar para os pulmões, conformada, procura de força e coragem para em seguida retirar a pequena caderneta e o lápis do bolso, na lateral da minissaia rosa-pink.

— Em que posso servi-lo? Qual vai ser o pedido? — fala, enfim, tentando impor o máximo de profissionalismo em sua postura, e identifica o olhar de regozijo que Henry lança sobre si.

Propositalmente, ele leva a ultravida de uns bons segundos, perdendo-se nela, com a caderneta e o lápis a postos, impacientando-a com requinte de crueldade, achando o decote existente na blusa escura de helanca que ela veste exagerado, o que provoca em si o imediato mal-estar de ciúmes. Todavia, ele realiza, por fim, o seu pedido, uma dose de uísque.

Provando que pode ser competente e prática, quando o contexto demanda tal ação, Lavínia vai ao bartender, repassa o pedido a este funcionário responsável pelo preparo das porções alcoólicas e volta para entregar a Henry a bebida que ele solicitou.

— Está aqui o seu pedido, senhor. Quando terminar esta dose... e quiser outra, estarei ali, próxima ao bar... Faça sinal co-com a mão e eu virei atendê-lo. — gagueja menos desta vez, impondo mais controle aos nervos.

Enquanto a loira lhe dá as costas e segue na direção que mencionou, Henry toma um gole após outro, ao passo que permanece fumando e a encarando com ar de seriedade. Após uns instantes, o som da boate parece mais alto, são colocadas músicas remix, uma morena de seios grandes, na mesa ao lado, não para de lhe lançar olhares e sorrisos, mas ele parece alucinado ou magnetizado, pois somente o que enxerga é Lavínia e pensa que o que sente por ela é um tipo de maldição da qual ele tenta e não consegue se livrar. Não passam nem dez minutos e ele a chama outra vez e de novo a loira é obrigada a atendê-lo com o máximo de sangue-frio e competência que pode, mas quando termina de depositar o copo na mesa, ele lhe prende o pulso, fixando nela um novo olhar.

— Senta comigo, Lavínia. Eu não gosto de beber sozinho... me faz companhia, por favor! — Henry pede e seu clamor sai grave e afetuoso, causando na loira o arrepio na espinha e a dificuldade para respirar, no mesmo instante.

— Se... não gosta de be-beber só, não de-deveria ter vindo a-acompanhado? — Ao passo que busca soltar o pulso aprisionado, Lavínia expõe a pergunta, com voz hesitante, mas agressiva.

Henry aperta, com firmeza, essa região do braço dela e a puxa um pouco mais, para que o olhe nos olhos e escute o que tem a dizer.

— Não fale assim, Lavínia. Não seja tão intransigente. Você deve supor que é muito fácil para mim arranjar companhia. Bastaria escolher qualquer nome feminino da minha lista telefônica... ou simplesmente olhar para o lado, sorrir para alguma mulher disponível, aqui mesmo onde estamos. Mas nenhuma delas seria quem eu realmente quero comigo... nenhuma seria você.

O pasmo que acomete Lavínia é tão intenso que ela se emudece, sentindo o coração saltar feito um louco dentro do peito, sobretudo porque, de repente, uma coincidência extraordinária acontece. Os ouvidos de ambos são invadidos com o toque de uma música que marca um momento muito importante para eles.

“Do you still believe

Você ainda acredita (Ah, ah, ah, oh)

In you and me?

Em você e eu? (Ah, ah, ahh, oh)

Are we all we could be? (Ah, ah, ah, oh)

Somos tudo o que poderíamos ser? (Ah, ah, ah, oh)

Is it meant to be?

Está destinado (a ser) assim?

My heart is beating in a different way

Meu coração está batendo de uma maneira diferente

Been gone such a long time

Já se foi tanto tempo

I don't feel the same

E eu não me sinto o mesmo

My heart is beating in a different way

Meu coração está batendo de uma maneira diferente

Been gone such a long time”

Já se foi tanto tempo

Will you miss me

Você vai sentir a minha falta (Como eu, como eu, como eu, oh!)

When there's nothing to see

Quando não houver nada para ver? (Como eu, como eu, como eu, oh!)

Tell me how did this come to be

Me diga, como isso aconteceu? (Como eu, como eu, como eu, oh!)

And now there's no hope for you and me

E agora não há mais esperança para você e para mim

É Mission, numa versão remix, mais agitada e de forte batida sonora, da banda Indie britânica The XX. Esta canção serviu de trilha sonora, quando Lavínia perdeu a virgindade nas mãos de Henry, na época em que ainda estava sendo mantida por ele, em prisão domiciliar.

Lavínia vê-se sendo transportada, em memória, para aquele dia e experimenta a sensação de quem está em perigo iminente e não sabe exatamente o que fazer para se proteger. Ele mesmo não acredita em tamanha coincidência, também se surpreende bastante. Abre um sorriso quase deprimido e a olha no fundo dos olhos.

— Escuta, Lavínia! Essa música... Você se lembra dela, não é? Nossa! Até parece uma mensagem pra nós dois. — anuncia e fica apreensivo, pois ela arqueja densamente, como um afogado buscando o ar, com os olhos meio vidrados, fixos no nada. Está em pânico, isso é óbvio. — Lavínia, o que você tem? Fala alguma coisa.

Aos poucos, ela volta a si e quando torna a olhá-lo, há cólera, mesclada a desespero, em sua expressão.

— Solta... o meu braço... ou eu juro... que vou gritar... e-e eu não me importo mais co-com as consequências... Me solta, seu miserável! — A voz dela não é mais que um sussurro intimidante.

Por algum indicativo na expressão irada que ela mostra ou por notar um sintoma de aversão explícita, Henry intui que ela tende a cumprir com sua ameaça e libera seu pulso, para então segui-la com o olhar, vendo-a afastar-se e se misturar às pessoas, que dançam no salão, sob os feixes de luzes coloridas. Ela segue caminhando e indo para longe dele, cada vez mais.

Lavínia, na verdade, somente anda e anda, sentindo o mundo inteiro girar dentro da sua cabeça, querendo encontrar um lugar ali onde possa parar um pouco e pensar, temendo desvairar sem retorno. Dá mais uns passos e chega ao banheiro feminino. Há duas moças que a observam e se entreolham, questionando-se o que ocorre para que esta bela moça esteja chorando de forma tão sofrida. Porém, Lavínia adentra por uma das divisórias sanitárias e fecha a porta, impedindo, assim, que elas a interpelem e questionem as razões de seu pranto incontrolável. Lá dentro, ela permanece em pé, amparada à porta, com as mãos postas nos ouvidos, tapando-os e rezando que a música acabe logo, pois é uma emoção insuportável o que esta canção suscita nela e a faz querer evaporar-se, para não mais sentir esta dor. Ela chora muito e lastima a vida, por estar impondo a ela uma provação com a qual não sabe se tem forças para lutar contra, sempre que for preciso. Porém, gradativamente, vai-se acalmando e deixando o corpo entregar-se a um letargo bem-vindo, uma vez que se sente cansada, esgotada demais.

Atenta-se à ausência de vozes e constata que está sozinha no toalete, para seu alívio. Abre a porta e anda à pia, onde gira o registro da torneira e reúne uma quantidade de água nas mãos, jogando-a sobre o rosto. Após isso, enrola um pouco do papel-toalha, enxuga a face úmida e evita olhar para seu próprio reflexo, no espelho em sua frente. Atemoriza-se com o que ele pode lhe mostrar sobre os anseios perversos que carrega em seu íntimo. Respira fundo novamente e sai do vestiário. Olha para os lados, anda, um tanto zonza, depara-se com Paula, a atendente baixinha e meiga.

— Lavínia, você não foi pra casa? Já passou da sua hora, menina. O que ainda está fazendo por aqui? — Paula pergunta e nota algo estranho no comportamento avoado da loira.

— Paula, o-onde ele está? — desconsidera a fala da colega e continua buscando Henry, mas sem vê-lo em canto algum.

— O tesudo arrogante? — ri, mas nota a expressão compenetrada de Lavínia e fica séria também. — Bom... Ele me chamou, depois pediu e fechou a conta. Eu acho que ele foi embora. Ei, houve alguma coisa entre vocês? Lavínia, esse homem te assediou? Você parece tão pálida. Está se sentindo mal? — Mesmo estando em um espaço da boate onde a iluminação é mais fraca, Paula observa o aspecto alterado de sua colega.

Lavínia balança a cabeça, como um autômato, negando e ficando com vontade gritar, de falar em voz alta os dizeres que retumbam na sua mente: “Sim, ele é o motivo de toda a dor que eu sinto!”. Mas não consegue emitir uma única palavra.

— Não... Eu tô bem... E-Eu vou indo, Paula... Tchau... e até amanhã. — volta a andar, largando sua colega com dúvidas sobre a sinceridade da resposta que lhe foi dada.

Lavínia caminha agora na direção de um estreito corredor, onde fica uma saleta, na qual há uns armários, destinados a guardar os pertences dos funcionários que precisam deste uso, pois podem manter suas bolsas e outros acessórios em segurança e os podem resgatar, ao fim do expediente, por meio das chaves correspondentes, que lhe são fornecidas. Ela adentra na chamada sala dos armários e procura o número que lhe pertence, já remexendo no bolso da minissaia rósea a fim de ter à mão a sua chave. Assim que recolhe sua bolsa, coloca-a sobre os ombros e fecha o armário. Ouve barulho, atrás de si, da porta sendo aberta e encostada, e quando se move para ver quem entra na sala, leva um tremendo susto ao ver Henry, que está muito sério, com expressão de preocupado.

— Ah, não! Mais que droga! O que você fa-faz aqui? Não ti-tinha ido embora? Não po-pode entrar nesta área! Ela é... re-reservada somente aos funcionários... Sai da-daqui agora! Sai! — segura firme a alça da bolsa e fala em tom de raiva e ansiedade, mostrando rejeição.

Henry mostra-se surdo ao jeito indelicado com que ela se dirige a ele e tão-só nota as evidências da sua aflição. Observa o nariz e os olhos avermelhados, a voz meio anasalada e os gestos trêmulos, enquanto tenta em vão disfarçar os indicativos do seu descontrole emocional.

— Você não quis sentar comigo, nem pra me fazer companhia... Me largou sozinho à mesa... e ainda me ameaçou. Então eu fiquei preocupado com você... — vai falando, em tom ameno, e diminuindo a distância entre eles, dando passos em frente, devagar, com olhos fixos nela. — Mas sabe o que eu acho? Eu acho que você teria menos motivos para chorar se parasse de lutar contra o que sente. Já pensou nisso, Lavínia?

Ela meneia a cabeça em negativa, mais uma vez sentindo a pressão das emoções em turbilhão, como se estivesse em um pesadelo que a persegue, incansável.

— Oh! Meu Deus! O-Olha pra você! Henry, se-será que não consegue escutar... o que você mesmo diz e-e ver o quanto isso é... errado? Não é possível... que você não sinta nenhum re-remorso, nenhuma culpa pelo que fez co-comigo... pelo que me fez fa-fazer? — Lavínia não resiste à vontade de tocar no assunto que a atormenta, desde o dia em que ele lhe contou sobre ela ser adotada e filha de Abigail, que também é a mãe biológica dele.

— Remorso? Culpa? Isso me adiantaria de quê, Lavínia? Eu tentei não me apaixonar por você. Eu garanto que fiz o que pude. Eu quis te ver só como um objeto que eu usaria pra atormentar o canalha do seu pai... — chega logo a centímetros do rosto dela, parece sentir a mesma aflição, o mesmo desgosto. — Mas eu não consegui! E, no fim das contas, você não é nada pra mim, nunca foi nada... além de ser a mulher que eu desejo com loucura.

Sem poder conter a atração que o invade, Henry prende-a entre os braços, vence os protestos dela, empurra-a contra o armário de ferro e a beija impetuosamente. Desta forma, presa ao corpo que a envolve e com os lábios forçosamente colados aos dele, Lavínia trava uma batalha interna, experimentando os sentidos todos em pane geral. Henry não desiste, mesmo notando que ela tenta manter a boca fechada, movendo o rosto para os lados, na ânsia de impedir o gesto íntimo. Mas ele prende o queixo delicado com uma das mãos e o circunda, pressionando-o um pouco e a fazendo agoniar-se em busca de ar, abrindo involuntariamente os lábios para dar, assim, sem querer, passagem à língua que adentra com gosto e fervor incontido. Ela solta lamúrias e contestações, fungando e pranteando baixinho, porém, sem poder contê-lo em sua investida ousada, ao passo que ainda faz uma inútil tentativa de empurrá-lo com os punhos cerrados e postos sobre o peitoral rígido. Ele geme de prazer e avança mais, coagindo-a a bailar no mesmo ritmo da sua boca, que se movimenta sem domínio algum ou um ínfimo embaraço que seja, confirmando que não pretende retroceder em sua vontade de fazê-la ser sua outra vez, nem que tenha de subjugá-la até a exaustão e a rendição.

— Não...! Para! Henry, não... — Lavínia suplica, quando finalmente ele a permite respirar.

— Você quer! Admita que sente o mesmo que eu... Eu sei que você gosta de mim... e não é como irmão. — olha-a fixamente e anuncia, sem dó nem piedade, mesmo observando-a tão aflita.

Henry volta a segurar o rosto macio e a sugar-lhe os lábios trêmulos, mas, desta vez, a loira fica completamente imóvel, paralisada, com a boca frígida, quase sem vida, e seus olhos exibem uma aparência que é de pura consternação. Quando ele se afasta outra vez e a encara, analisando seus gestos de horror, os olhos vazios, o peito arfando de modo frenético, compreende que ela está em estado de choque, como agora há pouco, quando o deixou sozinho na mesa.

— Lavínia? Ei! Por favor, não fique assim... Tente respirar com calma... Não me deixe tão preocupado, meu amor... Que merda! Droga! — Henry fala, irrequieto, olhando-a detidamente. Ele passa a mão por sua face macia e suada e a libera de vez, afastando o corpo, deixando-a com espaço suficiente para receber mais ar e poder, desta forma, respirar melhor. Entretanto, com a raiva que está nutrindo por não saber como aproximar-se dela ou lhe mostrar o seu afeto, sem parecer um monstro, uma aberração da natureza, como alguém que existe apenas para afligi-la, ele fecha o punho e, com toda força, soca o armário, promovendo um grande barulho, que ecoa pelo recinto e invade o ouvido de Lavínia. Ela solta um pequeno grito e começa a chorar, descontrolada. — Me perdoa, meu amor... Me perdoa! Eu não sei o que fazer pra você entender o que eu sinto... Como eu posso fazer isso? — volta a abraçá-la e fica minimamente feliz por vê-la dar ares de alguma agitação, mostrando que saiu do estado de transe, apesar do choro emocionado.

— Henry... eu te imploro. Me deixa em paz... So-Some da minha vida... por favor! — põe a cabeça no ombro dele, tentando conter as lágrimas indesejáveis, mas permanece com os braços estendidos ao lado do corpo, sem retribuir o abraço apertado que ele lhe dá.

— Nunca! Eu nunca vou desistir de você, entendeu? — Ele declara, em tom obstinado.

— Como você po-pode ser... tão egoísta? Eu não... eu não quero isso pra mim! Eu quero uma vi-vida normal. A vida... que vo-você não pode me dar... mas o Pietro sim... ele pode me mostrar...o-o que é amor pu-puro, bonito e... correto. — falando o que vem à sua mente, por fim, Lavínia enfrenta-o, com palavras duras, que lhe parecem verdadeiras.

Henry respira fundo e se afasta outra vez, para olhá-la, experimentando o gosto amargo da sua repulsa.

— Então você prefere viver uma ilusão? Vai mesmo trocar o que existe entre nós, por achar sujo, pecaminoso, para se entregar a uma relação de mentira? — Este questionamento dele conduz Lavínia a uma reflexão rápida, sinistra e ofensiva. Ela ergue a cabeça e o arrosta, com um olhar de quase piedade.

— Você re-realmente... acha que sabe de tudo... que controla e ma-manipula tudo e todos, não é? Mas não sabe... não sabe o que pode a-acontecer. Você se engana, pois... na verdade não consegue co-controlar nada... nem a si mesmo! — expondo tal pensamento, Lavínia reúne coragem, liberta-se e passa por Henry, que fica pasmo, por uns segundos.

— Eu vim hoje e venho amanhã e depois, e depois... e depois... Eu virei pelo tempo que for preciso. — Ele decreta, vendo-a abrir a porta e sair, largando-o sozinho novamente.

[...]

Notas finais
Nossa mãe do céu! Este capítulo me emocionou, gente! Bom, acho que foi bem longo, alias, o mais longo que postei até aqui. Queridos leitores, não me deixem sem um pequeno comentário, por favor. Eu fico pulando de felicidade quando leio, nem que sejam umas duas palavrinhas de nada. Olha, eu sei que ainda parece que está tudo uma "bagunça" sem jeito, mas eu prometo que tentarei dar rumo adequado (Vejam que não estou prometendo agradar todo mundo, vai...) e espero que possam compreender como a trama irá seguir, a partir de agora. Beijos estalados nas bochechas de todos vocês, queridos e até loguinho! ❤ (❁ ⁀‿⁀❁) ♥ ❤ ❤