[HIATUS] Mudanças impuras
31 O coração sofre o que os olhos veem
Notas iniciais
Louise volta para a república e conta a Lavínia e às outras meninas, aos prantos e, simultaneamente, enfurecida, tudo o que concluiu a partir dos fatos apresentados desde a ligação terrivelmente perturbadora até o momento em que surpreendeu Dico, na república dele, junto com a criança.
— Lou... Eu sei que ele não de-deveria estar lá na república, já que tinha te falado que iria participar de um curso de extensão e isso é um bom motivo para você desconfiar de tudo o mais sobre o que ele disse... Mas... Como você tem certeza de que essa criança que você viu é mesmo filho dele? — Lavínia pergunta querendo fazer Louise analisar tudo com calma. Também pretende saber se a amiga não está sendo precipitada, com pré-julgamentos devido à ligação estranha que recebeu.
— Como eu tenho certeza? Eu te digo como. — Louise pausa o choro, sentindo muita mágoa apenas ao se lembrar da face do pequeno garotinho. — Nem seria preciso fazer teste de DNA pra constatar a paternidade... O menino é a cara dele!
— Ah! Puxa! Que safado! Tomara que as bolas dele apodreçam e caiam! — A indignação da ruiva se manifesta em alto tom de voz, mesmo que ela só estivesse, até aquele momento, escutando as descobertas desagradáveis de Louise.
Lavínia e Vicky olham-na atravessado, repreendendo-a pelo comentário, mas somente Vicky parte para a bronca.
— Manu! Fica quieta. Não piora a situação, dizendo essas coisas você só põe mais lenha na fogueira!
Manu cala-se, percebendo que, de fato, não deve contribuir para aumentar a angústia, agora tão grande, de Louise. Esta continua chorando, bufando e soltando palavrões para liberar a sua ira irrefreável, enquanto Lavínia fica rente a si, tentando em vão consolá-la. Manu e Vicky trocam olhares de ansiedade e compaixão. Permanecem em silêncio e perto para dar ao menos um apoio moral à colega.
Súbito, a campainha retine, acompanhada pelo barulho de batidas fortes no portão. Todas escutam e se assustam.
— É ele! Esse impostor teve a coragem de vir até aqui... depois de tudo o que me fez. — Louise tem plena certeza de que quem bate no portão é Dico, que vem para querer justificar o injustificável, na sua opinião. Então ela olha para Lavínia e suplica: — Por favor, Vivi... Vai lá e manda esse sujeito ir embora... porque eu sou capaz cometer um crime se o vir. Diz que eu não estou aqui... inventa qualquer coisa, mas manda ele ir pro inferno e me esquecer de vez!
Lavínia olha para a amiga, pasmada com tamanha raiva que ela demonstra e sente um pontada de amargura, pois nunca pensou em vê-la assim devido a um desgosto amoroso. Sem mencionar que Dico estava mostrando-se muito apaixonado, do tipo namorado grudento, o que ela pôde notar ao vê-los juntos, na faculdade, com sua postura de quem não conseguia ficar perto de Louise sem querer abraçá-la e beijá-la a cada minuto. Tragicamente, agora, ela se vê na tarefa infeliz de mandar Dico ir-se embora a pedido da sua melhor amiga, sentindo que seria difícil olhar no rosto do rapaz e fazer isso. Contudo, respira pesadamente e vai atender ao chamado da pessoa que bate no portão e toca à campainha com desespero.
— Lavínia, eu preciso falar com a Louise. Faça o favor de chamá-la pra mim. — A voz de Dico mostra nervosismo, enquanto solicita a presença de Louise, sem ao menos cumprimentar a loira, quando esta lhe abre o portão.
— Di-Dico, ela não está a-aqui. Sinto mu-muito... Volte o-outra hora. —anuncia, segurando o portão numa abertura mínima. Ela é tão péssima mentirosa e suas palavras saem tão vacilantes que Dico tenta ao menos que ela lhe confesse que Louise está, sim, dentro da casa, entocada e sem querer falar com ele, pois precisa ter a confirmação antes de tomar a atitude que delineia como a mais adequada diante do contexto.
— Eu te imploro, Lavínia. Chame Louise pra mim! — insiste olhando-a no fundo dos olhos e deixando que ela veja como os dele estão lacrimejantes, exibindo verdadeiro sofrimento.
Lavínia sente o coração se comprimir de piedade ao notar a agonia dele e resolve ao menos amenizar a situação.
— Ela não quer te ver agora, Dico. Eu sinto muito... Espere até ela se acalmar um pouco. Po-Pode ser que depois... — recomenda em tom de rogo e termina, assim, por admitir que sua amiga está mesmo abrigada em algum lugar da república.
— Era só isso o que eu precisava ouvir, Lavínia... Obrigado! — interpela-a, põe as duas mãos em seus ombros e a faz ir para trás. Decidido a ver e falar com Louise, custe o que custar. com firmeza e determinação, mas sem uso de força bruta, desvia Lavínia do seu caminho a fim de garantir espaço para invadir a casa. Feito isto, não perde mais tempo, já que obteve a desejada informação de que Louise está ali, adentra à sala e se põe a olhar para todos os lados. Porém, reflete que seria invasivo demais ir também aos quartos em busca de sua namorada. Portanto, fica em pé e quando decide soltar a voz, esta sai como um grito para ser ouvido pela república inteira: — Louise! Nós precisamos conversar e eu não vou sair daqui... até que que você apareça e me escute!!!
Lavínia, não tendo mais como impedi-lo de modo algum, passa por ele cabisbaixa e segue em direção ao quarto, com lágrimas formando-se em seus olhos ao imaginar que Louise direcionaria sua cólera para ela, em detrimento de não ter cumprido sua missão com sucesso. Ao entrar no cômodo, flagra Louise com expressão de mais raiva ainda e fungando como um touro bravo.
— Lou... Me pe-perdoa, amiga! Eu não sei o que houve. Ele ficou me o-olhando com cara de ca-cachorro abandonado e... eu acabei co-confessando que você está aqui. Então, ele si-simplesmente invadiu a casa. Não pude impedi-lo... – Lavínia desanda a falar, nervosa, e tentando explicar como Dico foi esperto em manobrá-la.
— Tá certo, Vivi... Acalme-se! Pode deixar que eu mesma vou mandar esse farsante ir embora a pontapés! — Louise arremata, deixando claro que não ficou irritada com a loira, visto que ela já tem, por si mesma, provas do quanto Dico pode ser persuasivo quando deseja alcançar algo.
Ela sai do quarto e vai encontrá-lo de pé e em prontidão no meio da sala. Antes mesmo de pronunciar qualquer palavra, avança e golpeia, com os punhos cerrados, no alto do tronco dele, empurrando-o com força e o fazendo tombar um pouco para trás devido à violência com que é abordado.
— Sai daqui agora!!! Eu já te disse pra sumir da minha vida, não disse? O que tá fazendo aqui então, hein? — afronta-o com olhos irados.
— O que você foi fazer lá na minha república... quando eu havia dito que estaria num curso de extensão? Por que foi até lá? — Dico finge não a escutar e a questiona imediatamente, pois pretende entender melhor o que houve, no intuito de reunir argumentações imprescindíveis em sua defesa.
— Você tá preocupado em saber como eu descobri a sua farsa? Não tô acreditando nisso! Seu... Cretino! Safado! — ergue a mão e lhe dá uma bofetada certeira na face esquerda, fazendo esta região tornar-se avermelhada prontamente.
Dico suporta a agressão, resignado, por saber que ela está liberando seu estresse como deseja. No entanto, ele sabe que terá de mantê-la sob controle para que o escute.
— Louise, me responde o que eu te perguntei, por favor! O que te levou a ir até lá? Me responde... — segura-a pelos punhos, já que ela ainda continua meio surda ao que ele diz, com ânsias de matá-lo com suas próprias mãos. — Me responde, droga!
— A sua mulher me ligou! Ela me contou tudo, que você é casado... que eu sou só mais uma que você engana e que você e ela... têm um filho. Pronto! Tá satisfeito? Agora vai. Sai daqui. Vai embora! — debate-se a fim de se soltar, sentindo-se estranha ao perceber o quanto está magoada por causa da horrível situação e por observar o quanto esta mesma situação, parecendo-lhe de tal modo incômoda, delata o ardor dos seus sentimentos.
— A Míriam te ligou? Ah! Mas é claro... Aquela lá é uma louca! Tenho certeza de que ela mexeu no meu celular quando eu estava distraído. — fala mais para si, em tom de reflexão, ao passo que continua com os punhos dela presos. Ele inicia um retrocesso, em sua mente, para inferir sobre a ocasião em que Míriam pôde ter pego o seu celular, ao ponto de colher os números telefônicos através dos contatos ali inseridos ou até ter lido as mensagens românticas que ele enviou para Louise. Volta a fixar o olhar nela. — Louise... não sei exatamente o que ela te contou, mas você vai ouvir a minha explicação e vai entender por que eu mantive essa postura de... de não te contar sobre o meu casamento... e sobre o meu filho. Pode continuar me ofendendo e me agredindo se quiser, mas eu não quero e não vou te perder assim... sem ter a chance de me defender, de tentar fazer você enxergar o meu lado, de fazer você ver que é a pessoa mais importante pra mim nesse momento, que é a única mulher que eu quero ter na minha vida. A única que eu amo. A única!
Louise busca controlar a respiração, sente-se um tanto assustada e surpresa com o tom firme com que ele se defende e se declara.
Dico, vendo-a menos disposta a atos de agressão, solta-a, mas permanece analisando seus gestos ante o resultado das palavras que ele acabou de externar.
— Se eu sou a única, então... Quem é essa mulher? O que ela é pra você? O que ela representa na sua vida? — Louise passa de combativa a inquisidora, arrostando-o, enquanto tenta não demonstrar que a arenga dele lhe provoca a conhecida luta entre razão e coração.
— Ela não é mais que a mãe do meu filho. Nada mais que isso. – Ele também fica menos alterado, principalmente ao percebê-la cedendo, aos poucos, ao diálogo que ele propõe.
— Como é isso? Não tô entendendo. Afinal, ela é ou não é sua esposa?
— Infelizmente sim... embora estejamos fisicamente separados há quase dois anos. — Ele segue, gradativamente, explicando-lhe sua condição momentânea.
— Fisicamente separados? Ah, não! Você não quer mesmo que eu caia nessa sua conversa fiada, não é? — Louise ri de forma irônica.
— Quero, sim, porque é exatamente assim que é. Pra você ter uma ideia de como isso é complicado... saiba que eu nunca quis me casar com ela. Eu fui obrigado pela família dela a fazer isso.
— O quê? Você foi obrigado? Em que século acha que vivemos? No período medieval? Ah! Fala sério, Dico! — Ela volta a descrer de tudo o que ele diz.
— Acontece que eu estou falando sério. Eu e ela tivemos um tipo de namoro... desses rápidos, sem importância de verdade pra mim. Mas ela engravidou e aí eu descobri o pior... Eu descobri que ela só tinha dezesseis anos. Embora não aparentasse, era menor de idade, ao contrário de mim, que já havia completado os vinte. Os pais dela deixaram bem claro que me denunciariam como pedófilo, se eu não reparasse o meu erro... casando com ela.
Louise mostra-se menos avessa.
— Quer dizer que você casou por ceder a ameaça dos pais dela?
— Sim. Eu tive medo... medo de ser preso e, principalmente, medo de ter meu currículo profissional manchado devido a um processo de pedofilia.
— Aí você acatou a decisão deles e se casou. — Louise declara, concluindo a atitude tomada por ele diante da chantagem.
— Isso mesmo. Nós ainda ficamos juntos por dois anos e, nesse período, eu tentei fazer esse casamento funcionar da melhor forma possível. Eu tentei ser feliz com ela... tentei gostar dela e ser um bom marido. Até que chegou o dia em que eu não suportei mais as cobranças, as crises terríveis de ciúmes e o descontrole emocional dela, então eu saí de casa... e, como eu já estava fazendo o meu curso de publicidade e propaganda, resolvi ir morar na república, onde estou até hoje.
— Mas vocês ainda estão casados, não é? Quero dizer, não assinaram os papéis do divórcio, estou certa? — Louise tenta agora acompanhar o raciocínio dele.
— É verdade. Ela se recusa a me dar o divórcio e ainda usa meu filho como arma e escudo. Várias vezes já ameaçou afastá-lo de mim, de levá-lo para onde eu nunca mais possa vê-lo... Eu amo o meu filho, Louise. E já é muito difícil pra mim ficar com ele só algumas horas nos finais de semana... E isso quando ela permite. — Ao mencionar isto, Dico demonstra tristeza em seu olhar. — É isso aí, Louise, agora eu sou um livro aberto pra você. O que mais quer saber? Pergunte o que quiser e eu vou responder com sinceridade.
Louise reflete um instante e retorna à sua investigação.
— Por que não me falou isso tudo desde o começo? Por que me fez acreditar que você era solteiro... livre e desimpedido? — Novamente mostra-se irrequieta.
— Você quer que eu fale francamente? — Dico a encara com ar de desafio.
— É obvio que sim!
— No dia em que nos reencontramos lá na república... ou melhor, depois que nós transamos pela primeira vez, eu percebi o seu receio em se envolver através de um relacionamento sério. Logo eu compreendi que você sentiu medo de se envolver comigo e, por isso, inventou todo aquele papo de amizade pra me manter distante... pra me fazer desistir de você. Então eu pensei: “Puxa! Se ela já tá fugindo de mim sem ao menos saber dos meus problemas... se eu lhe contar, não terei a menor chance com ela.”
— E o que pretendia? Continuar me fazendo de idiota... e nunca me revelar sobre os seus problemas? Não acha que foi injusto me colocar no posto de amante sem eu ter consciência disso? Você não vê que foi pior o modo como eu descobri? — arma-se de novas indignações enviando-lhe olhos lacrimejantes. A verdade é que Louise começa a se ver instigada a reconhecer que não pode mais mentir para si mesma. Ela quer esse homem para si como nunca quis tanto algo na vida e terá que tomar uma decisão a respeito disso, pois tem noção de que não será fácil aceitá-lo em meio aos empecilhos, agora todos à mostra.
Dico, percebendo-a um pouco rendida e carente, achega-se e, enquanto uma mão se ergue para lhe tocar a face úmida, o outro braço a envolve sutilmente pela cintura, mesmo encontrando alguma ínfima tentativa de afastá-lo, através de frouxos empurrões.
— Não... Para com isso... — Ela sente a pulsação desacertar só pelo toque das mãos dele, afagando-a.
— Me perdoa, anjo. Você tem toda razão, agora eu entendo que, por medo de perder você, eu acabei enfiando os pés pelas mãos e te fiz sofrer. Mas, olha, nada disso muda o que eu sinto... Eu continuo firme nos planos que eu tenho em mente. — declara, ao mesmo tempo em que escorrega a mão para lhe massagear a nuca e na região adjunta a esta.
— E que planos são esses? — dá um suspiro e sente vontade de se largar à massagem que ele lhe faz, mas, por outro lado, quer amarrar todas as pontas soltas.
— Eu vou fazer a Míriam entender que é prejudicial... é doente tanto pra ela, como pra mim e para o nosso filho, manter essa farsa de casamento. Eu só preciso que você confie em mim... Que acredite na minha palavra e me dê um pouco de tempo para resolver essa história de vez. — pede, trazendo-a mais para si, unindo os corpos e a mantendo próxima ao ponto de sua boca ficar a centímetros da dela, segurando, com dificuldade, a vontade de beijá-la.
Louise analisa cada palavra que acabara de ouvir. Mostra-se cansada e ainda com um pé atrás. Porém, ao sentir a respiração meio ofegante de Dico e o desejo estampado em seu rosto, bem como a comichão enorme agindo sobre si mesma, fazendo-a experimentar arrepios atravessando seu corpo, ela apenas permite que ele se aproxime mais, até os lábios se unirem. Impulsos o fazem intensificar o beijo e querer provar a grandeza dos seus sentimentos por ela, razão pela qual, sem demora, Dico introduz a língua na boca de Louise, indo encontrar a dela já disposta à troca de salivas. Eles movem os rostos buscando a melhor posição para o encaixe ficar mais saboroso, enquanto ele emaranha os dedos às curtas madeixas, com firmeza, na parte detrás de sua cabeça, com receio de que ela se arrependa e o rejeite de novo. Neste momento em que as bocas se sugam em busca de avivar mais o prazer, os corações de ambos parecem pulsar em igual sintonia e o beijo só é encerrado porque o ar começa a ficar rarefeito. Então Dico abandona os lábios de Louise, mas em seguida lhe alcança o pescoço para mordiscar e chupar, promovendo nela novos frissons.
— Duas... — Por estar excitada, atordoada e gostando das carícias, Louise precisa de bastante esforço para falar e ser coerente.
— Duas? Duas o quê? — Ele descontinua o que faz e a olha pelos cantos dos olhos.
— Você tem exatas duas semanas para convencer essa mulher e me trazer os papéis do divórcio... assinados! — Os olhos de Louise agora lançam chamas, tanto de desejo como de determinação.
— Você é o animalzinho mais lindo e feroz de todo o mundo, sabia? — Ele sorri, satisfeito.
Louise também sorri com os lábios fechados, embora seu olhar ainda mostre alguma apreensão.
Após novos beijos apaixonados e mais conversa sobre o que ele tenciona fazer para se divorciar o quanto antes, Dico acaba expondo para Louise a sua recentíssima decisão: apresentá-la ao seu filho. Mesmo que ela mostre alguma desaprovação no começo, depois aceita, quando ele argumenta que seria necessário que seu filho fosse apresentado à sua atual namorada e provável futura esposa. Eles estabelecem uma espécie de acordo de paz provisória, um período em que ele tentaria obter a separação e introduzir Louise em sua vida completamente.
Dessa forma, Louise é persuadida a aceitar a ideia de que estariam todo o dia posterior, o domingo, juntos, Dico, ela e o filho dele, que descobriu chamar-se Rubens, o Rubinho, em passeio a algum local que seria escolhido visando que fosse uma programação agradável para todos.
[...]
Domingo chega. O sol brilha e dissemina seus primeiros raios nesta manhã lançando o tímido calor para aquecer tudo ao seu alcance e fornecer a coragem necessária ao que é vivo para enfrentar a estação que se reinicia, em um ciclo constante e irrevogável.
Henry tem uns sofisticados óculos escuros adornando sua face máscula e atraente. Dirige sua mini van flex, sentindo uma sensação saudosista ao adentrar pela via estreita e arborizada que o conduziria para sua casa. Deixou seu apartamento aos cuidados de uma diarista e, como o prometido, veio passar o dia de domingo ao lado de sua querida mãe postiça. Ele sorri pela aresta dos lábios, de modo escarnecido, enquanto o vento lhe acaricia a pele alva suavemente através dos vidros rebaixados, ao imaginar o pasmo de Frida quando o vir adentrar, de manhã bem cedo, pela residência a qual, segundo ela, havia abandonado.
Ele entra na casa. Mal dá dois passos e logo divisa o rosto surpreso e contente da senhora que o criou como se fosse um verdadeiro filho.
— Henry! — Frida diz o nome de quem tanto queria rever.
— Bom dia, Frida... minha mãezona dramática! — O loiro se aproxima e, após lhe dar um forte abraço, busca-lhe a testa a fim de ali depositar o seu beijo, gesto carinhoso e habitual.
— Dramática nada... apenas sei que, se eu deixar, você me esquece aqui... nesta que é a sua casa. — A senhora lança as palavras e, ao observar as sobrancelhas erguidas dele, em mostra de discordância, ela completa: — É isso mesmo, Henry. Porque agora você só quer saber daquele apartamento e... eu sei muito bem o que te prende lá.
— Frida, eu não vim até aqui para que você me dê lições de moral. É cedo demais e eu ainda nem tomei o meu café da manhã... Então, faça o que você me prometeu ao telefone. Encha-me com seus pratos deliciosos e não com suas palavras fora de hora. — Com seu típico ar de sarcasmo, passa o braço por seus ombros e a conduz, aprofundando-se no interior da residência, rumo à cozinha.
Assim, Henry passaria o dia em conversas diversificadas com Frida. Ela, após desistir de tentar fazer com que ele lhe assegure de que não mais persegue Lavínia ou a atormenta de alguma forma, muda o diálogo para si mesma, dando-lhe notícias sobre as sutis mudanças que animam sua idosa existência. Informa-lhe que continua indo, com frequência, à igreja da localidade e, por conta disso, terminou por fazer amizade entre as beatas, que a incentivaram a participar dos encontros religiosos que ocorrem invariavelmente em dois dias da semana, no período da manhã. Por sua vez, Henry apenas fala sobre fatos de cunho impessoal e se mostra feliz ao notar que a senhora está mais falante, animada e superiormente disposta ao convívio social, bem como aos pensamentos positivos, o que se manifesta em suas vestes floridas e em adereços que nunca a viu usar.
[...]
Assim que Dico liga avisando que passaria em minutos para pegá-la, Louise dá um suspiro, mas não de contentamento e sim de apreensão, visto que seria oficialmente apresentada ao filho dele. Sem querer, alimenta a desconfiança de que não seria simples ao pequeno, e nem para si mesma, esse convívio inusitado, pois embora ele seja apenas uma criança, certamente, pode não gostar de ver o pai íntimo de uma mulher que não é a sua mãe.
No entanto, assim que entra no carro de Dico e encontra os infantis, curiosos e grandes olhos de Rubinho, sentado na cadeirinha de proteção, no banco traseiro, olhando-a com a bênção da pura inocência, começa a mudar de visão e achar que, apesar de não ser fácil, poderia ir, gradativamente, fazendo nascer um afeto entre eles.
Dico planejou o passeio de modo meticuloso no intuito de promover uma efetiva e proveitosa aproximação entre sua namorada e seu filho. Por isso, fica feliz ao ver Louise se acomodar no banco do passageiro e, animado, vai ao encontro de seu rosto, tencionando colar seus lábios em um cumprimento que já se acostumou.
— Não, Dico! — Louise afasta-se dele imediatamente, alternando o olhar dele para o pequeno e enviando ao maior a mensagem de que não é conveniente tal demonstração apaixonada na presença da criança. Dico libera um sorriso compreensivo e aciona o motor do carro, movendo-o em direção ao passeio programado.
Ele encontra uma vaga, à céu aberto e no espaço próprio para isso, no zoológico da cidade. Sai do carro, ação que é imitada por Louise, e abre a porta traseira retirando, em seguida, Rubinho da cadeira bebê-conforto, sem antes, porém, pôr nas mãos infantis o seu amigo favorito do momento, a miniatura do homem de ferro.
— Filhão, lembra que eu te falei sobre a amiga especial do papai? — Dico interroga assim que coloca Rubinho no chão, ainda rente ao carro. O menino nada responde, apenas meneia a cabecinha de modo positivo, embora com olhos dotados de certa estranheza. — Pois então... Esta moça bonita aqui é essa amiga especial. Agora eu quero que você a cumprimente e seja bonzinho com ela... Pode fazer isso por mim? — completa, com voz terna, mas exigente. Novamente Rubinho acena concordando. Apesar disso, tudo o que ele faz é olhar para Louise e ficar encarando-a inexpressivamente.
Louise resolve tomar uma iniciativa mais avivada. Ela se aproxima do menino e se agacha à altura de seus olhos.
— Oi, Rubinho. É um prazer conhecer você. Meu nome é Louise. Eu soube que você é um menino muito inteligente, que tira notas boas, gosta de super-heróis e... — interrompe sua conversa delicada e simpática, fazendo o pequeno prestar atenção ao que ela faz pois, em movimentos expressivos, abre sua bolsa e remexe lá dentro. Quando encontra o que procura, tira uma barra comprida de chocolate, e a exibe para ele. — Sei também que você, assim como eu, gosta de chocolates... Olha, vamos fazer um acordo, ok? Se você me der um sorriso e um abraço... esta deliciosa barra de chocolate aqui é toda sua, você aceita? – Louise fica esperando e sorri discretamente ao vê-lo com os olhinhos fixos na barra de chocolate.
Rubinho, como a maioria da crianças, adora doces e massas em geral.
— Vai, filhão... Aceite esta proposta porque ela é boa de demais! — O incentivo do pai é o suficiente para fazer Rubinho achegar-se timidamente aos braços já abertos de Louise, acolher o beijo que ela lhe dá, devolver um beijo recatado e rápido em sua face contente, que, como cumpridora de sua palavra entrega-lhe a barra de chocolate, feliz, por ter conseguido quebrar o gelo inicial.
Felicidade maior, no entanto, pode-se ver no largo sorriso que Dico abre vendo as pessoas que mais ama na vida começando a se entender.
Depois disso, o tempo transcorre bem e com momentos de pura diversão para todos. Ao visitarem as alas do zoológico, eles se deparam com cenas, que aos olhos de Rubinho, são de plena admiração e fascínio. Ele fica impressionado com o tamanho do chifre do rinoceronte e com o potente rugido que o leão faz, bem como sente vontade de imitar os movimentos de abertura de boca do jacaré e de rir quando surpreende um macaco puxando as próprias orelhas e dando mostras de sorrir, enquanto põe a enorme língua para fora da sua boca amarronzada. Rubinho também presta bastante atenção quando a cobra rajada move-se sinuosa, roçando seu corpo liso em meio à arvore que lhe serve de cama.
Depois de apreciarem os animais e os seus comportamentos característicos, a fome chega para os visitantes aventureiros, satisfeitos e falantes, inclusive para Rubinho, que até esboçou um tia Lúze, para mostrar a Louise que ele já não a considera uma estranha.
Eles agora voltam pela mesma trilha em busca do carro de Dico a fim de irem para um restaurante, onde almoçariam juntos e teriam a oportunidade de comentar mais sobre suas impressões quanto ao passeio no zoológico. E nem sonham que essa alegria está prestes a ser brutalmente perturbada.
— Até que em fim. Achei vocês! Que merda você pensa que tá fazendo, hein Dico? Por acaso eu te autorizei a sair em passeio com o meu filho na companhia de... uma vagabunda qualquer? — A voz de Míriam surge em cena e os assusta prontamente.
De beleza existente apenas aos olhos de quem assim a enxergar, Míriam tem os cabelos, medianos e tingidos de louro, soltos ao vento e em seus olhos castanho-escuros há uma expressão de raiva absurda. Encontra-se, por certo, diante deles com ar de íntegro agastamento, enquanto tem os braços cruzados firmemente à frente de seu corpo esguio e mal proporcionado, visto que, da cintura para cima, parece dilatar-se igual a um cone. Seu carro pode ser visto a uns metros atrás dela, estacionado em local não autorizado e com as portas do motorista abertas. Sua primeira ação é a de tomar o menino das mãos do pai e olhar para Louise. Esta, por seu lado, exibe uma expressão firme, de desafio e destemor, como quem diz: “Se quiser briga, vai ter!”. A esposa embravecida, no entanto, inexplicavelmente, não lhe dirige a palavra de forma direta e Louise, mulher vivida e observadora, não custa em perceber que Míriam é uma pessoa que prefere causar danos a uma distância segura, pois possui essência de um ser covarde, do tipo que mais troveja que solta raios de verdade e, desde a ligação que havia feito para ela querendo lhe atormentar contando sobre sua relação com Dico, descobriu a personalidade aguerrida da amante do moreno, surpreendendo-se com suas respostas firmes e arrojadas.
— Míriam, estou com meu filho e em meu horário de visitas! Aliás, eu nem sei o que você está fazendo aqui... Como descobriu onde me encontrar? — Dico mostra-se encolerizado, mas busca controlar-se ante a presença do seu filho. Ele jamais gostou de sujeitar o pequeno às situações conflitantes que a sua demente mulher sempre impôs, em várias ocasiões.
— Não foi difícil descobrir. Fui na república e o Jonas me falou. — fala com voz de desdenho.
— E o que você fez para que ele te falasse? — É óbvio que Dico não acredita que Jonas tenha simplesmente lhe dado as informações sobre o seu paradeiro sem o uso de uma competente lábia.
— Não jogue sua irritação em cima de mim... mas no retardado do seu amigo, que acredita em tudo que lhe dizem. — A mulher libera um risinho troçado, exibindo seus dentes de hiena. O que ela não revelará é que, por querer confirmar o pensamento de que Dico estava com sua amante, havia mentido descaradamente para Jonas, dizendo-lhe que seu filho sofre de problemas cardíacos e que necessita, portanto, de uma medicação específica, devendo ser ministrada em dias e horários impreterivelmente definidos pelo médico dele. Jonas, inocente, acabou acreditando nela e lhe indicando onde poderia encontrar Dico. — Além do mais, eu sou a mãe do Rubens e tenho o direito de saber onde e com quem ele anda... E você, se quisesse agir como pai de verdade, não sairia de casa, abandonando sua família para estar agora acompanhado de uma puta a quem exibe publicamente como se fosse ela a sua esposa e não eu!
— Olha aqui, garota, se você tem algo pra me dizer, então se refira diretamente a mim e não com insinuações idiotas! — Louise não mais suporta ouvir as ofensas calada. Solta faíscas pelos olhos e encara Míriam sem desviá-los dos dela. Esta, por sua vez, devolve-lhe um olhar rebaixado e oblíquo, de quem se prepara para ser atacada a qualquer instante.
O clima fica tenso.
Dico, querendo esclarecer as coisas e tentar ser o mais honesto possível com a mãe do seu filho, decide cortar qualquer esperança que Míriam ainda alimente a respeito dele.
— Míriam, entenda, por favor, que embora eu ame o meu filho, eu e você nunca formamos uma família de verdade porque eu nunca te amei o suficiente. Pare de usar palavras agressivas contra a Louise... e aceite que ela está comigo agora e que é com ela que eu quero ficar ... porque ela é a mulher que eu amo... — Ele lhe diria mais verdades dolorosas se ela não o interrompesse de modo repentino, dando-lhe as costas, caminhando de volta ao carro e enfiando a criança, que a esta altura dos acontecimentos já chora chamando pelo pai, no banco traseiro sem delicadeza ou cuidado de lhe pôr ao menos o cinto de segurança.
Feito isso, Míriam encara Louise e depois Dico, com aspecto de megera amargurada.
— Pois fique de vez com essa vagabunda e se esqueça de mim e... do meu filho!!! — sem esperar por mais nada, ela entra, fecha a porta, e arranca com seu carro para o longe dos olhos perplexos de Dico.
[...]
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