[HIATUS] Mudanças impuras
32 O redespertar da vingança
Notas iniciais
Cinco horas atrás.
Após a saída de Louise com Dico e o filho dele, as demais meninas igualmente encontram cada qual um caminho para seguir neste domingo ensolarado. Vicky recebe, logo cedo, uma ligação dos seus pais, que a intimam a comparecer em sua casa. Eles lhe dizem que seu primo, Fábio, também estará lá, juntamente com sua tia Goreth e que será uma atitude muito gentil de sua parte recepcioná-lo e estimulá-lo, visto que na segunda-feira ele começará a frequentar a mesma faculdade dela, só que fazendo o curso de engenharia civil. Os primos estarão, portanto, em contato diário a partir desse dia. Ou seja, Vicky é induzida a obedecer, saindo da república com destino a ficar horas angustiantes em companhia de Fábio, que mais uma vez, comportar-se-á de maneira enigmática e analítica, e de sua família, que persistirá em fazê-la sentir-se inadequada.
Manu também resolve ir visitar os pais, aos quais tanto ama e que, mesmo assim, tem-se mostrado, nos últimos dias, como uma filha por demais negligente, o que é mais adequada à relação de Louise com os pais dela. Portanto, finalmente Manu terá a chance de bater um longo papo com sua mãe, que é ainda sua confidente e incentivadora. Enfim lhe atualizará sobre os eventos recentes ocorridos em sua vida, inclusive sobre a sua situação com Vicky e quanto ao seu romance indefinido com Dayse.
Assim, a república estaria entregue às moscas não fosse por Lavínia, que, entre todas é a única que decide não sair, enquanto não é preciso. Ela permanecerá a maior parte do domingo em casa mesmo, recebendo ligações dos pais, de Pietro e as estranhas chamadas, que desconfia, sem ter certeza, de serem provenientes do celular de Henry. Ela aproveita o tempo distraindo-se como pode: assistindo à televisão, visitando a internet pelo notebook, lendo e imaginando se poderia ao menos obter algum contentamento na função de atendente, lá na boate. Afinal, supõe que as pessoas que trabalham em um local como esse, e as que o frequentam, são no mínimo interessantes. O transcorrer do tempo para Lavínia é, assim, um pouco permeado de estresse por ficar divagando sobre sua posterior vida decomposta em estudante de artes visuais numa respeitável e tradicional faculdade, por um lado, e como balconista de uma casa noturna, por outro.
Com a chegada da noite, aos poucos, as garotas retornam de seus respectivos passeios dominicais. Louise é a primeira a chegar. Mal ela entra na república e logo conta para Lavínia tudo o que lhe aconteceu durante a sua saída com Dico e o pequeno Rubinho.
— Meu Deus, Lou. Que mulher louca é essa tal de Míriam! Coitado desse menino! Imagina ter uma mãe que não se importa em soltar palavrões na sua frente e de ofender o seu pai, querendo impedir você de vê-lo, de conviver com ele e de conhecer as pessoas que fazem parte da vida dele. Que absurdo! Ela deveria ser a primeira a querer preservar o equilíbrio emocional dessa criança. Independentemente de qualquer coisa, mãe que é mãe não pode esquecer de pôr o filho em primeiro lugar. — Lavínia transmite seu julgamento, fazendo Louise encher-se de orgulho e simpatia, ao escutar as palavras que dizem exatamente o que ela própria pensa a respeito dessa situação.
— Pois é, Vivi. E o pior, ou melhor, é que o menino já tá começando a me aceitar. Eu sei disso porque, durante o passeio, ele até me chamou de “tia Lúze” algumas vezes... mesmo me olhando desconfiado também. Ele é um fofinho! É um pingo de gente tão charmoso e cheio de olhares como o pai. — Louise sorri ao recordar como o pequeno foi, aos poucos, entregando-se à descontração do passeio e permitindo que ela se aproximasse com seu bom humor, fazendo-o ver que a ela não representa ameaça ao convívio familiar dele. Ela ainda se anima ao lembrar as expressões infantis e cheias de ingenuidade de Rubinho, enquanto passeava pelo zoológico de mãos dadas com o seu pai e com a amiga especial dele. De fato, Louise dá a entender que realmente gostou do menino e que está disposta a aceitá-lo de coração aberto, caso seu relacionamento com Dico prossiga.
Lavínia, ciente do prazo que a amiga havia estipulado para que Dico pudesse convencer sua esposa a assinar os papéis do divórcio, aconselha-a a ter paciência e torcer para que tudo se resolva da melhor forma, o que Louise decide acatar.
Vicky também volta para casa. Ela passa pelas amigas, sentadas no sofá, e as cumprimenta, com olhos entristecidos e aparência de quem está prestes a desabar de tanta dor, Lavínia e Louise depressa inferem que a visita feita pela morena à casa dos pais foi uma crucificação, por motivos que ainda lhes são desconhecidos, pois Vicky não se abre sobre suas preocupações, prefere morrer aos poucos, isolando-se e se deprimindo cada vez mais. Sem demora, ela vai direto para o quarto e lá permanecerá até o dia seguinte, quando terá que rever Fábio, na faculdade, e auxiliá-lo em seu primeiro dia ali, onde se encontrarão quase todos os dias da semana.
Manu é a última a chegar, mas surge com cara de plena alegria, senta-se no outro sofá e conversa com Louise e Lavínia. Relata-lhes sobre o dia agradável que teve e como ama os seus pais imensamente por serem sempre gentis e compreensivos. Mas se esquiva quando as amigas tentam tocar no assunto da relação mal concluída entre ela e Vicky.
O tempo passa rápido, logo Lavínia tem que se preparar e sair rumo ao seu novo emprego, deixando a república às oito e vinte da noite, sem saber de nada sobre o que o destino lhe reserva, para agitar ainda mais a sua existência tão recheada de imprevistos.
Na boate Dans le bar concert Claude, a noite está apenas começando e as pessoas já lotam o vasto recinto. O som eletrônico é meticulosamente oferecido aos fregueses, promovendo um fundo musical estimulante, assim como os pequenos feixes luminosos multicoloridos, que são taticamente acionados nos pontos em que devem estar, ou seja, na parte onde ficam mesas e cadeiras, e no centro da casa, chamando os frequentadores para se arriscarem na pista de dança. Nas regiões adjacentes ao tablado, o sombreamento se faz presente de acordo com a conveniência, permanecendo sem destaque por tempo pré-determinado. Porém, a luminosidade é mais intensa no bar, enfatizando os movimentos do bartender, dotando uma superior atratividade às bebidas suspensas nas prateleiras de acrílico e, por fim, na entrada, oferecendo boas-vindas a quem surge em busca de prazer e diversão neste ambiente exuberante.
Lavínia está tentando adaptar-se à atmosfera frenética e às pessoas, que almejam um pronto atendimento. De modo geral, esforça-se para mostrar eficiência no serviço que lhe foi devidamente repassado por uma atendente que trabalha na casa há quase cinco anos. A loira consegue, gradualmente, ir acompanhando o ritmo de trabalho que é apresentado pelas demais balconistas da casa noturna. Ela anda de lá para cá, anotando bebidas e as trazendo para os solicitantes, sempre que é convocada ou, quando ela mesma percebe a necessidade, prontifica-se em atendê-los. Fica contente por haver uma refrigeração automática no recinto, pois, do contrário, estaria suada dos pés à cabeça tamanha agitação exigida pelo ofício, embora as vestes que usa sejam muito curtas e possuam um molde extremamente ousado, deixando boa parte de sua pele alva, sedosa e macia à exposição de olhares atrevidos. Com efeito, o que verdadeiramente causou desagrado imediato em Lavínia foi o kit farda que lhe entregaram assim que chegou em seu local de trabalho, tendo que substituir a veste que usava por um dos conjuntos de peças de roupas do kit que, na sua opinião, equivale a um combinado de vestimentas muito extravagantes. A explicação que lhe deram foi a de que se trata de uma exigência da boate que todas as atendentes usem trajes chamativos, de modo a exibir beleza e estímulo visual aos clientes da boate, o que ela, portanto, foi obrigada a acatar sem reclamações adicionais.
Assim, a loira está usando uma sandália preta de salto mediano, uma saia rodada de cor rosa-pink curta, uma blusa escura frente única de helanca, na qual, em sua parte dianteira existe uma fenda entre os seios, dotando-os de evidência um tanto lasciva. Ou seja, esta blusa é super colada ao corpo e lhe deixaria com as costas totalmente desnudas não fossem os cabelos compridos estarem soltos. Também há, rente ao seu pescoço, uma gravata-borboleta, que é na verdade um tecido prateado bem costurado, que tem aspecto de gargantilha como um adorno elegante e chamativo, principalmente por ser feito a partir de um tecido que brilha em contato com a luz do ambiente.
Lavínia não se dá conta do quanto está sensual e atraente, pois sua atenção volta-se, com exclusividade, ao seu trabalho. No entanto, após horas transcorridas, ela está menos eufórica e até já se permite uma folga, indo aproximar-se do bar e ficar apreciando, distraidamente, as prateleiras acrílicas que tanto gostou de ter visto na boate.
Súbito e sem intenção para tal, ela escuta a conversa das outras atendentes que se encontram a pouca distância dela.
— Você viu quem acabou de chegar? — fala a jovem de cabelos cacheados.
— Ai, meu Deus! Que homem! Vou ter um ataque cardíaco. — solta a baixinha, sorridente.
— Há três pessoas com ele. Prestou atenção? As mulheres eu conheço... mas não aquele rapaz.
— Sim. Eu também conheço as mulheres... Uma, a que está grudada no pescoço dele, é Tayna Sander, a modelo que vive fazendo propagandas na TV. A outra é Isadora Abranches, aquela que participou de um reality Show no ano passado. Já o rapaz, desconhecido, deve ser o acompanhante dela.
Até aquele momento, Lavínia somente ouve, achando engraçado que as atendentes estejam tão empolgadas com a badalação dos clientes famosos e se mantém de costas, a fim de não evidenciar que está participando do bate-papo delas.
— Hum... Você parece saber muito sobre a vida deles.
— Bom, eu sei porque eles são mesmo figuras públicas... mas me interesso principalmente por ele, que, de vez em quando, aparece em revistas, jornais... e aqui na boate. E porque um homem assim não costuma passar despercebido... se é que você me entende. — Os olhos da baixinha brilham com um toque de malícia.
— Olha, eu também já li algo a respeito desse homem... e eu sinto muito te informar, mas um empresário rico e lindo como esse jamais te daria uma chance. Afinal, Henry Sorelle não sai com qualquer uma, colega.
O coração de Lavínia falha no exato instante em que ouve o nome Henry Sorelle ser pronunciado. Não mais dá atenção a nada do que elas dizem, seu cérebro estanca e ela pressente o perigo. A respiração se torna um ato forçoso e os olhos violáceos procuram, nas laterais do estabelecimento, a saída de emergência, visto que pretende escapar de mansinho, sabendo que depois, quando lhe perguntassem por que havia saído assim sem avisar, teria que criar uma desculpa convincente, mesmo que tivesse de mentir para não perder o emprego. É lógico que ela sabe que a própria vida trataria de, mais cedo ou mais tarde, colocá-la frente a Henry. Entretanto, sempre que fosse possível, evitaria o reencontro, pois igualmente tem consciência de que jamais estaria suficientemente preparada para encará-lo. Por esta razão, caminha nervosamente querendo estar o mais longe dali. Contudo, quando já tem avançado uns poucos metros, uma mão masculina posta-se em seu ombro, impedindo-a de continuar em movimento.
— Aonde você pensa que vai? — A voz do homem interroga e ele parece observar seus gestos nervosos.
— E-Eu... — Lavínia não consegue raciocinar direito, sua voz não quer sair.
— Ok! Não interessa... Lavínia, eu quero que você, por favor, atenda os clientes que acabaram de ocupar a mesa número onze. Trata-se de uns fregueses muito ilustres, o tipo de gente que pode dar bastante lucro e notoriedade para esta casa. — O senhor Jean Claude faz a solicitação em tom de ordem.
— Mas não se-seria melhor... que eles fo-fossem atendidos por uma pessoa mais... experiente que eu, já que são fre-fregueses tão importantes? — Por mais que a loira se esforce, sua fala termina por sair vacilante e alterada.
— Não vejo problemas no fato de eles serem atendidos por você. Vamos, mocinha, encare isso como um teste. Veja como se sai diante de celebridades que visitam a minha boate. Coragem! Vá lá e dê o seu melhor! — O chefe a observa com olhos incentivadores, pois deseja que ela se habitue completamente à atmosfera noturna, com as suas intensidades de eventos, ostentações, gente afamada e a vibração efervescente e dinâmica, pois tem alguma certeza que somente assim ela pode vir a ser tentada por esse mundo depravado, mas lucrativo.
— Si-Sim, senhor. — responde, sucinta, tentando esconder o seu pânico.
Lavínia acha-se sem ter mais como fugir, muito menos tem sangue-frio e raciocínio tranquilo para elaborar uma escusa que a ajude a não precisar fazer o que agora é obrigada. Além disso, ingenuamente acredita que o seu chefe, e dono da boate, irá fiscalizá-la enquanto mostra seu trabalho. O que Lavínia desconhece é que o senhor Jean Claude tem mais o que fazer do que ficar observando os movimentos de suas atendentes, mesmo que seja os de uma bela loira como ela.
De todo modo, a pressão sentida por Lavínia é como uma tortura psicológica. Ela vai andando, envergonhada, e buscando ser o mais discreta, enquanto retira o lápis e a pequena caderneta do bolso que existe na lateral da minissaia rosa-pink e se direciona para a mesa a qual irá atender Henry e os seus compartes farristas desta noite. Torce, reza e pede intimamente a todos os santos que ele não a perceba, que se volte integralmente para a conversa entre seus amigos na mesa e que fique satisfeito por estar acompanhado de uma bonita e alta loira, que ostenta um visual chamativo, mantendo as madeixas curtas, num estilo Chanel.
Henry está sentado numa postura tranquila, com as pernas levemente separadas e com um dos braços passados por cima da cadeira da loira de cabelos curtos ao seu lado e parece entediado, enquanto fuma seu cigarro, liberando a fumaça pelos cantos dos lábios, quase fechando os olhos azulados, para direcioná-los a qualquer canto da boate, no entanto, sem fixá-los em nada, dando involuntariamente mostras do seu sexy-appeal despropositado e evidente, o que também pode ser constatado na elegância das vestes custosíssimas que traja. Usa um paletó preto de corte mais jovial, com dois botões de mesma cor, por cima de uma camisa cinza-escura que, na região acima do tórax, possui dois botões prateados expostos, devido à abertura. Veste também uma calça de tom igualmente enegrecido e sapatos perfeitos em limpeza e polimento. Enfim, tudo contrasta bem com sua pele alva e realça tanto os olhos azuis como seus cabelos louros, que agora estão sutilmente mais crescidos, com alguns fios caindo de modo negligente sobre a testa reta e o induzindo, de vez em quando, a passar a mão para ajeitá-los para trás.
Quando Lavínia divisa-o, ela sente o coração se comprimir mais dentro do peito, precisando buscar um autocontrole nos recônditos do seu ser para não dar meia volta e sair correndo, tão grande é o impacto da visão sobre si. A sorte é que ela vem se aproximando pelas costas dele e a conversa na mesa está bastante animada, especialmente porque Isadora não para de falar sobre um convite que recebeu para atuar num seriado, como atriz coadjuvante, mas que, para ela, representa uma chance de mostrar o seu talento cênico.
— Boa noite, se-senhoras... e senhores. Em que po-posso servi-los? — Conquanto sua cabeça pareça girar devido à emoção, Lavínia ainda consegue pronunciar as palavras que foi orientada a reproduzir quando se dirigisse aos fregueses da boate. Ela tenta manter o olhar fixo na pequena caderneta e no lápis, postos nas mãos para anotar os pedidos, e se encontra em pé atrás de Henry.
Mesmo através do barulho característico da boate, Henry sente prontamente como se descargas elétricas atravessassem-no, pois nem precisa contornar o corpo para saber de quem é a voz suave, gentil e com traços de uma singular gagueira nervosa. Por isso, ele fecha os olhos e experimenta o prazer de absorver este som que lhe é tão maravilhoso, para depois abri-los e direcioná-los ao alvo almejado. Quando, por fim, seus olhos se encontram, a sensação que os invade é a de que as demais pessoas se tornam invisíveis como num passe de mágica, só restando os dois ou como se tivessem sido transportados para um universo paralelo onde não houvesse outros habitantes. E essa troca de olhares persiste até o momento em que Isadora estica o braço e põe a mão direita à frente do rosto dele, estalando os dedos para trazê-lo de volta, pois perceptiva como é, logo estranha a situação.
— Ei, gatão! Acorda! — Ela ergue as sobrancelhas, fazendo um trejeito no rosto e lhe dirigindo os olhos verdes muito claros numa mensagem muda de quem diz:” Qual é o problema?”
O transe é desinstalado, porém, Henry permanece silencioso e seu cérebro fica à mil, já pensando numa estratégia para poder conversar com Lavínia a sós.
Mais uma vez Isadora toma a iniciativa e fala por todos, anunciando seus respectivos pedidos de bebidas. Para Henry e André, seu acompanhante, ela diz que lhes traga doses de Whisky e para ela e Tayna, porções de Brandy. Mesmo tremendo as mãos demais, Lavínia anota os pedidos, vira-se e anda, a passos incertos e ansiosos, rumo ao bar, onde as bebidas seriam preparadas, colocadas em uma bandeja e, só depois disso, ela retornaria para fazer a devida entrega das doses aos clientes.
Henry respira fundo e olha de soslaio para as costas da loira. Os cabelos longos e em tons de prata balançam ao sabor dos seus graciosos movimentos, deixam ver a pele alva e macia, pela abertura traseira da blusa. Isso, junto como o remexer da saia rosa e das pernas bem feitas, fazem-no agir prontamente. Ele se levanta, com a desculpa de ir ao toalete e caminha apressado. Apenas Isa percebe toda a sua movimentação instigada pela moça loira e se lembra do que ele lhe confessou, há algum tempo, no apartamento dela, sobre o intenso amor que está nutrindo por uma tal mulher. E ela intui que é a jovem atendente a mulher mencionada por ele.
Já percebendo uma distância razoável dos companheiros de mesa, Henry apressa o passo ainda mais e agarra Lavínia pelo pulso, impedindo-a de ir ao destino que ela se propunha. E embora ela se debata e lute para ter o braço libertado, é quase arrastada à força até o local mais reservado que Henry avista na boate.
No minuto seguinte, Lavínia vê-se prensada na parede. Eles ficam meio escondidos entre este paredão e uma larga e comprida coluna de acrílico.
— Me solta! Me so-solta agora, Henry! — Ela exige, agitando-se muito e sentindo dor pelo aperto forte em seu pulso.
— Ah! Então você ainda se lembra do meu nome, não é, Lavínia? Que bom porque, sendo assim, eu não preciso me apresentar novamente. — olha-a diretamente, enquanto profere as palavras regadas de troça.
— O que você quer? O que pre-pretende com isso? — evita olhá-lo nos olhos e, como ele solta o pulso que prendia, ela tenta deslizar pela lateral, mas, no mesmo instante é barrada, visto que ele ergue os dois braços, à altura dos ombros dela, e os coloca na parede, aprisionando-a o mais que pode.
— O que eu pretendo? Nesse momento, é algo muito simples... Eu quero saber o que diabos você está fazendo aqui. — Henry continua de olhos fixos em cada expressão ou movimento que ela faz.
— Não é óbvio? Estou... trabalhando! — divulga e imediatamente se assusta com a gargalhada forçada que ele libera.
— Vamos ver se eu escutei bem... Quer dizer que a filha do empresário Gregory Albuquerque, o presidente da consultora empresarial Giant Solution está trabalhando em uma casa noturna? Que piada de mal gosto é essa, Lavínia? Diz pra mim por que é que você tá fazendo isso? — Agora a impaciência, mesclada à dúvida, toma conta de Henry.
— Porque... eu quero! — Mais um vez ela se agonia e tenta afastá-lo. Quer fugir dos seus braços e das suas perguntas inconvenientes.
— Você quer, Lavínia? Quer atender mesas numa boate, vestida numa roupa que te deixa quase nua? — Não desvia os olhos críticos dela.
— Que problema há nisso? É um trabalho digno co-como outro qualquer... Eu quero a-apenas ter meu próprio dinheiro. Só isso! — Esta resposta dela faz Henry rir novamente, desta vez com um traço de desconfiança.
— Como vai o convívio entre você o seu estimado pai, hein, Lavínia? Será que estou sentindo cheiro de problemas nesta relação tão perfeita? — O sarcasmo é gritante.
— Eu e meu pai nos a-amamos muito e não há problema algum... em nosso convívio! — A despeito do nervosismo, consegue ser firme.
Henry fica sério e passa a olhá-la mais seguramente. Dá a entender que está refletindo sobre o que ela disse. Ele resolve mudar de assunto.
— Você pensa em mim... às vezes? — O tom de voz começa a ficar grave.
Ela se enerva um pouco mais, desvia os olhos para a direção do bar, para confirmar se não estão sendo observados. Teme que isso aconteça e se complique em seu primeiro dia de trabalho.
Henry detém o olhar sobre o pescoço macio entremeado pela gravata-borboleta e pelas madeixas loiras, vai-se aproximando, chega a encostar o nariz, inalando o cheiro delicioso da sua pele e já se sentindo ébrio de desejo. A mão esquerda acompanha o movimento, toca-lhe suavemente.
Lavínia solta um gemido queixoso e o empurra, interrompendo a carícia.
— Não! Eu não penso em você... e você não de-deve pensar em mim! Faça o-o que é correto! Siga a sua vi-vida... como e-eu estou fazendo! — Há uma mensagem implícita nas palavras.
— O você quer dizer com isso? Está saindo com alguém? — Henry olha-a através de pálpebras semicerradas.
— Sim...Estou! Ele é um... rapaz gentil, bom e honesto! — Por algum motivo, as palavras soam um pouco constrangedoras.
Um novo sorriso surge na face de Henry, exibindo ar de chacota.
— Por acaso está se referindo àquele rapaz nerd almofadinha que mais parece um pinguim-surfista? — joga, ofensivo.
Logo a imagem de Pietro surge na mente de Lavínia e a faz arregalar os olhos de espanto.
— Era você! No ca-carro que eu na fa-faculdade. Você não po-pode continuar com isso! É errado, Henry. Pare de me se-seguir. Pare de me espionar! Pietro está entrando na mi-minha vida... e é melhor que seja a-assim. — apregoa.
Agora sério, Henry aproxima mais seu rosto ao dela.
— Preste atenção ao que você está fazendo. Está cometendo uma grande injustiça. Ou será que esse rapaz já sabe que você vai apenas iludir e destroçar o coração dele? Negue o quanto quiser, Lavínia, mas a verdade é que você e eu sabemos muito bem de quem você realmente gosta. — A denúncia sugestiva deixa a loira com os pensamentos em ebulição, trazendo à tona a lembrança do sofrimento que Pietro experimentou quando perdeu para o câncer sua namorada e os efeitos censuráveis que Henry provoca em si, mesmo contra a sua vontade.
Por seu lado, Henry permanece admirando sua face delicada, seus olhos assustados, fixos em algum ponto distante e a boca rosada, umedecida no lábio inferior, entreaberta, convidando-o, mesmo sem intenção, a explorá-la. Assim, ele não mais tem como refrear a vontade e, aproveitando-se da distração dela, coloca a mão entre o queixo e a mandíbula e a beija. Dois gemidos baixinhos ecoam, pois tanto Henry dá vasão ao prazer por tocar e sugar os lábios cobiçados, como Lavínia desprende um lamento, que escapa por seu nariz, ao passo que luta para se livrar do gesto íntimo, devasso.
— Não! É... errado! Para...! Meu pai te-tem razão no que me di-disse sobre você! Ele tem ra-razão! — Ela solta as palavras, com amargura na voz, contorce-se, move o rosto, buscando impedi-lo de continuar beijando-a.
Henry continua rente à bela face, que está agora contraída pela dor emocional.
— O que aquele desgraçado andou falando de mim pra você? — A voz baixa, repleta de veneno e fúria, a fazem ver a intensidade dos sentimentos negativos que Henry ainda alimenta por seu pai.
— Que eu de-devo manter você lo-longe de mim... que você é um ma-manipulador... que é no-nocivo pra a minha vida. — Ao compreender o que ela acaba de proferir, um brilho quase doentio perpassa pelo olhar dele.
— Eu sou nocivo pra sua vida? Eu? Eu??? — O tom de voz dele se altera significativamente. Lavínia sente o corpo tremular.
Súbito, alguém os flagra.
— Algum problema aí, Lavínia? — Carlão, o negro musculoso que é o líder dos seguranças na boate e que recepcionou a quando ela veio em busca de emprego, questiona, enquanto olha a cena, que lhe parece uma briga de namorados. Com efeito, ele só sente que deve ter certeza de que o homem que está pressionando-a contra a parede não é, na verdade, apenas um tipo cliente atrevido e que a está atormentando com cantadas incômodas.
— Não te ensinaram a não se meter onde não é chamado? — Henry desencosta-se do corpo de Lavínia, fecha o cenho, os punhos, e se dirige diretamente a Carlão, deixando evidente que em nada se encontra intimidado pela figura do segurança da casa noturna.
Percebendo que o clima pesado entre eles pode evoluir para a agressão física, já que Carlão dá dois passos adiante aproximando-se com expressão muito séria, enquanto Henry não move um músculo e nem desvia o olhar enfurecido, Lavínia é que age rápido e se põe ao meio deles, de frente para o segurança.
— Está tu-tudo bem, Carlão. Eu e e-este... homem aqui somos co-conhecidos e só estávamos co-conversando um po-pouco. Mas eu já estou vo-voltando ao meu se-serviço. Não há problema algum... Po-Pode acreditar. — fala em tom de quase súplica. Ela faz isso porque teme que Henry seja mesmo capaz de partir para a luta corporal, por estar irado e não se importar em, provavelmente, sair com algumas lesões, contanto que as imponha também ao adversário.
Carlão avalia as palavras ditas pela loira e duvida um pouco da veracidade delas. Porém, um barulho atrás dele o faz perceber uma confusão mais adiante, que certamente equivale a uma briga de verdade entre dois fregueses embriagados. Deste modo, ele somente a olha outra vez, meneia a cabeça levemente e os deixa, a fim de ir apurar o que aconteceu para desencadear a contenda acalorada em andamento no centro do salão de dança.
Vendo-se livre da prisão-parede, Lavínia tenta novamente afastar-se de Henry o mais rápido, no intuito de seguir os passos de Carlão e voltar ao seu trabalho. E mais uma vez, tem o pulso agarrado, fazendo seu corpo retroceder por meio de um solanco e ir de encontro ao peito másculo.
— Não! Me deixa em paz. Me solta, seu doente! Eu tenho que vo-voltar ao meu serviço... Será que você não entende isso? — Lágrimas começam a se formar nos olhos dela. Está nitidamente aflita.
— Fica calma, Lavínia! Eu já vou te soltar e você vai poder voltar a atender mesas como se fosse uma subalterna qualquer, que não tem pai empresário rico, que pode custear cada necessidade sua. Mas, antes disso, quero que uma coisa fique bem clara...
Henry puxa-a com brusquidão pelo pulso cativo e o torce, pondo-o nas costas dela, na parte que se inicia a coluna vertebral, fazendo com que seus corpos fiquem muito colados. Antes que ela tenha tempo de pensar em qualquer gesto de rejeição, ele invade com a outra mão por seus cabelos, firma-a em sua nuca, imobilizando ao máximo os movimentos de sua cabeça e a beijando com violência com seus lábios sequiosos. Submerso em autêntico desejo, Henry enfia a língua na boca macia, rompendo as vãs tentativas dela em não deixá-lo penetrá-la desta forma libertina. Por uns segundos, porém, a razão de Lavínia se mostra danificada, visto que sente o mundo dentro de sua cabeça girar e um estonteamento amortecer sua luta, enquanto investe buscando mais cantos para explorar, soltando e arrancando dela gemidos incontidos, ele faz questão de lhe mostrar como esse músculo ardente e molhado é hábil em subjugá-la à invasão desprovida de embaraço ou culpa. O beijo arrebatador ganha um ingrediente a mais, o líquido salgado e característico, as lágrimas de Lavínia, que não consegue impedir que estas venham e lhe dificultem superiormente a respiração, obrigando-a a queixar-se em lamúrias pelas narinas meio obstruídas pelas secreções todas que se formam devido ao choro.
Bruscamente como iniciou o beijo, Henry encerra-o e, ao mesmo tempo em que busca controlar os batimentos cardíacos, a respiração e a vontade de continuar subjugando-a ao seu desejo, olha fixamente em seus olhos lacrimosos, afrontando-a com firmeza.
— Nossa conversa está apenas começando. — Dito isto, Henry abandona-a ao canto da parede e lhe dá as costas, caminhando de volta à mesa de onde se havia retirado, fazendo com que Lavínia sinta-se confusa e entorpecida por tanta agonia, pelo remorso que a envolve num redemoinho doloso, incessante. Ela se mantém parada, arquejante, tentando recompor-se física e emocionalmente, à medida necessária para retornar ao seu serviço.
Henry caminha como se fosse um robô, apesar de, por dentro, estar fervendo de emoções diversas. Ele tem agora o orgulho ferido, o corpo vibrando por causa do desejo refreado e, mais que tudo, uma fúria imensa, que perturba o seu juízo e o impede de se acalmar.
— Henry, querido... Como você demorou! Achei até que tivesse se perdido a caminho do toalete. — Tayna diz, com sutil zombaria, assim que o vê em pé diante da mesa.
— Eu encontrei um amigo quando voltava para cá e ficamos de conversa por um tempo. Olha, não sei quanto a vocês, mas eu quero ir pra outro lugar. Não estou gostando daqui. O som é ruim, o espaço é mal dividido e o atendimento é péssimo... pois vejo que as bebidas que foram pedidas ainda nem foram entregues. — A agitação além do normal presente em Henry é percebida, mais uma vez, apenas por Isadora.
— Bom... Mas lembre-se, querido, de que foi você mesmo que nos chamou para virmos a esta boate... e até disse que frequentava às vezes e que gostava do local. — Tayna rebate e o olha como quem não entende o seu aborrecimento.
— Mudei de ideia, Tayna... Mas se você está apreciando o ambiente, então fique. Por mim, não há problema nisso. — A considerável agressividade dele causa um mal-estar em todos.
— Ei! Tudo bem, gatão! Então diga você para onde sugere que a gente vá... para que possamos continuar nossa diversão em paz, sem transtornos ou mal entendidos? — Isa sugere, com voz brincalhona, olhando-o pelos cantos dos olhos verdes, sempre captando sua energia alterada.
— Podemos ir pro seu apartamento, Isa. Mas, antes, podemos passar em algum local que venda bebidas, compramos o que quisermos e recomeçamos a nossa festa. O que acham? — O tom menos irritado anima os companheiros, que prontamente concordam.
Eles vão embora da boate.
Quatro horas depois, estão no apartamento de Isadora. A madrugada de domingo para segunda-feira prossegue. A festinha particular já mostra o seu efeito, pois metade dos farristas se acha em estado avançado de embriaguez. Tayna, a modelo, não acostumada ao uso de bebidas alcoólicas, termina por ficar bastante bêbada, rindo de tudo e se jogando ao pescoço de Henry para lhe arrancar beijos demorados, o que ele permite unicamente para esquecer Lavínia, nem que seja por umas horas. André, o acompanhante de Isadora, também é jovem e inexperiente quanto a ingerir misturas alcoólicas e, num afã de se exibir como um expert em folias, toma uísque e o combina com vodca, o que o faz ficar com os movimentos bambos progressivamente, apesar de ele relutar com obstinação.
Após muita falação sobre assuntos diversos, agitação e música alta, com direito a danças eróticas por parte de Isadora, que realmente gosta de se destacar em meio às pessoas, o clima vai, de pouco em pouco, esmorecendo. O primeiro casal a ir para o quarto é justamente Isa e André, que já saem rumo ao ninho de amor aos beijos molhados e se acariciando sem vergonha alguma por fazer tais gestos íntimos na presença dos demais. Tayna oferece-se descaradamente a Henry, dando a entender que deseja entregar-se a ele nesta noite, por isso quase faz um strip-tease em plena sala alheia, induzindo-o a levá-la para o quarto de visitas, o que ele faz, mas, quando estão no recinto em questão, não vão além dos beijos mais intensos e premiados com carícias de parte a parte, uma vez que ele inventa um mal-estar qualquer e ficam conversando banalidades até que a loira de cabelos curtos conforma-se, entedia-se e cai em sono profundo.
Henry sai do quarto, volta à sala, joga-se no sofá de estofado vermelho-carmim, tendo à mostra o tórax meio escassos pelos, visto estar nu da cintura para cima, com as pernas esticadas e cruzadas, com os pés postos, um sobre o outro, em cima da mesinha de centro. Sua expressão está perdida em algum ponto do teto, enquanto fuma soltando baforadas leves e escuta a canção melosa que ecoa, advinda do aparelho de som, que está na estante mesclada a ferro e madeira.
Isadora, que sai do seu quarto, vestindo apenas um robe de renda vermelho quase translúcido e calcinha de mesma cor, depois de se ter satisfeito sexualmente com André, surpreende-se com a imagem de Henry, concentrado em seus próprios pensamentos, como se não tivesse acabado de deixar na cama uma bela mulher, que ela imagina logicamente estar no cômodo ao lado.
A desatenção do loiro é tamanha que só se dá conta da presença de Isadora quando esta se senta ao seu lado no sofá.
— Tá certo, gatão, acho que agora nós podemos conversar, ou melhor... você pode ir começando a me confessar o que eu já percebi por mim mesma. — Os olhos verdes de Isadora se lançam sobre ele com a firmeza.
— Do que você tá falando, Isa? Por que não volta pro seu quarto e vai dar atenção ao seu brinquedinho sexual dessa noite? — Apesar de as palavras terem um fundo petulante, ele as diz com um sorriso triste escapando pelas arestas dos seus lábios.
— Olha, meu bem, eu não preciso te lembrar que o seu humor negro não funciona comigo. Então vou ser direta e dizer o que eu acho que está acontecendo. — toma dos dedos dele o cigarro, dá um trago, libera a fumaça no ar e o devolve. — Eu te conheço há muitos anos, estou acostumada com o seu temperamento forte, cínico e arrogante, mas nunca, nunca mesmo, eu te vi tão abalado como hoje. — Ao notá-lo silencioso, apenas se afundando mais no sofá, ela continua: — E sabe desde quando eu percebi o seu comportamento totalmente alterado? Quando aquela jovem loirinha veio nos atender na mesa... lá na boate. — Observa-o remexer-se, inquieto, e arremata: — Pode confessar o que eu já sei, Henry. Aquela menina é o seu grande amor! Eu tenho quase certeza... só preciso que você confirme. Vamos, Henry, confesse de uma vez. Isso vai ajudar a liberar essa coisa que tá agora te matando por dentro.
— Sim! É ela! Pronto? Acabou com a sessão no divã? — Súbito, ele se ergue e fica em pé, andando de um a outro lado na sala estreita, como uma fera enjaulada.
— Não. Não acabou... por isso traga sua bela bunda de volta aqui pra esse sofá e tente se acalmar, pra gente poder conversar. — Ao ouvir a ordem, Henry apenas respira fundo e a olha com os olhos em total estado de euforia.
— O que mais quer que eu fale, Isa? Quer que eu te conte como é difícil pra mim ver a Lavínia e não ter permissão para que ela seja minha de verdade e... como foi um tormento encontrá-la naquele lugar, ter que me controlar para não arrastá-la de lá e fazê-la se entregar a mim, mesmo à força? É isso que você quer ouvir? — A perturbação dele, evidente por meio de suas palavras em tom exasperado, a assusta um pouco, mas depressa ela se restabelece.
— É isso aí... Que bom que você resolveu se abrir e até mencionou o nome dela. E qual é o problema? Por que não pode ficar com ela? Ela é casada ou tem namorado? Me explique isso porque eu não estou entendo. — inquire, confusa.
— Eu e ela temos a mesma mãe biológica! — A frase dita assim, em tom alto e firme, fazem Isadora ficar boquiaberta por uns instantes, assimilando o sentido e a implicação dela.
— Oh! Meu Deus! Ela é sua irmã? — Ela acorda para a clareza das ideias. Põe a mão sobre a boca semiaberta e fica com olhar um tanto pasmado.
Depois de tirar um longo trago do cigarro e soltar a fumaça para o alto, sem tirar os olhos da expressão que ela faz, Henry torna ao sofá, repentinamente menos inquieto, como se tivesse tirado um peso das costas.
— Está preparada para ouvir toda a verdade e saber onde a Lavínia entra na vingança que eu planejei contra aquele empresário? — A esta pergunta Isa meneia positivamente a cabeça e aceita o resto do cigarro que ele lhe entrega, colocando-o entre os lábios para finalizá-lo.
A partir daí Henry segreda tudo para Isa, que permanece quieta, somente escutando e se espantando mais algumas vezes. Ele fala, inclusive, sobre a forma como se aproximou de Lavínia, do disfarce e do sequestro. Enfim, revela-lhe todos os eventos desde o dia em que abordou a loira pela primeira vez, na biblioteca da faculdade em que ela estuda, ao último momento, com a inquietante conversa que teve com ela na casa noturna. E lhe segreda ainda a recente decisão que tomou.
— De novo com essa história de vingança? Henry, você tinha desistido... Por que isso agora?
— Eu nunca disse que tinha desistido. Apenas falei em adiar. Mas agora chega de atrasar o inevitável! Eu quero retomar a vingança de onde paramos. — As feições de Henry demonstram fúria e um traço de mágoa.
— Henry, eu posso ser uma mulher fútil e exibida, mas retardada eu não sou... eu sei que você tinha sim desistido dessa vingança infeliz... assim como eu tenho certeza de que foi algo que a sua irmazinha falou, na conversa que vocês tiveram lá na boate, que te fez mudar de ideia. Eu até posso apostar como o foco da sua retaliação agora é outro. — Isadora expressa.
Henry desvia os olhos por uns segundos.
— Isa, não interessa os motivos que me fazem retomar essa vingança, o que importa de verdade pra mim, nesse momento, é saber se você vai ou não me ajudar. E então... Vai ou não vai continuar como minha parceira? — Ele exala determinação.
— Se você não se importa com o fato de que muita gente, inclusive a loirinha, tenha nos visto juntos... então, pra mim também não tem problema. Eu sempre estive e sempre estarei do seu lado. Nunca esqueça isso. — Isa declara.
— Eu te amo, Isa. — Henry diz, espontâneo.
— Eu sei que me ama... não do jeito que eu gostaria, não é? Mas eu me conformo com esse amor que você pode me dar. — Ela enxuga uma lágrima teimosa que escapuliu de seus olhos, respira fundo, inflando mais ainda os seios siliconados, e sorri, mostrando que está mesmo satisfeita com a posição de amiga que tem ocupado na vida dele.
[...]
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