[HIATUS] Mudanças impuras
2 Encontros e dúvidas
Notas iniciais
Quatro semanas se passam após a primeira conversa entre Lavínia e o homem que agora é o paquera com quem ela vem saindo e tendo pensamentos de firmar namoro.
Ela está sozinha no quarto, que divide com Louise, olhando-se no espelho, ainda indecisa se aquela roupa é mesmo adequada para o quarto encontro com Diego, com quem já havia ido duas vezes ao cinema e uma a um almoço em um restaurante popular, nada dispendioso ou glamouroso. Portanto, a programação até ali ocorrera sem muita graça e durante o dia. Mas agora iriam ter um encontro noturno, num restaurante sugerido por ele, o que lhe parece ter um significado diferente.
A jovem pondera sobre a imagem que vê refletida. Mede um metro e sessenta e cinco, tem vinte anos, corpo esguio, seios medianos, pele alva. Os cabelos são compridos, lisos e loiros, exibindo uma franja não muito espessa, que a seu ver está sempre precisando ser aparada. O rosto fino e simétrico possui traços delicados e os olhos são de um azul diferente, pois tendem a uma coloração incomumente violácea.
Ainda pensa sobre a própria aparência quando vê entrar pela porta sem cerimônia alguma a sua amiga Louise, a garota extrovertida de vinte e três anos, com cabelos escuros, muito lisos e curtos.
Louise vem ofegante e eufórica, como sempre.
— Aff, Lou! Até parece que vai tirar o pai da forca. — brinca Lavínia, ainda agoniada com as próprias dúvidas.
Louise ignora o comentário indo direto para a sua cômoda, remexe-a por dentro e tira de lá dois vestidos.
— Fala, Vivi... Qual dos dois? O vermelho ou o azul? — coloca-os à frente de seu corpo alternadamente, exibindo-os. — Nossa! Você tá um arraso! — expressa sinceramente quando, por fim, resolve mirar seus olhos negros na direção de Lavínia, deixando-a orgulhosa de si e de sua escolha.
A loira traja um Scarpin preto de salto mediano, uma saia reta justinha na altura do joelho, contendo estampas diagonais pretas e uma camisa bege de tecido delicado, com mangas longas, dobradas de modo a se ajustar e ficar um pouco acima do cotovelo. A forma em V emoldura os seios, deixando o colo um tanto à mostra e convidativo.
— Só precisa ajeitar melhor esse cabelo. — assevera Louise.
— Acha que eu devo prendê-lo? — pergunta envolvendo as madeixas em um coque no alto da cabeça.
— Talvez só uma parte. — Dessa vez quem fala é Manu, a ruiva, entrando no quarto e fazendo um “fiu fiu” com os lábios em aprovação ao visual da amiga, mas logo se arrependendo ao levar um safanão na testa da sua namorada de cabelos escuros e cacheados, que a acompanha.
— Assanhada! — Vicky repreende a ruiva, depois se volta para a loira. — Hum! Lavínia, ela tem razão... Talvez se prender só uma parte do cabelo com aquela fivela bonita que você tem, vai ficar uma princesa. — propõe e aceita com agrado o olhar de ciúme de Manu.
Lavínia fixa um instante o olhar sobre as amigas e ri consigo lembrando quando veio morar com elas e as circunstâncias que proporcionaram, aos poucos, conhecê-las.
Quase um ano atrás, tudo era novidade para Lavínia. Estava ingressando na faculdade, saía de casa definitivamente para morar na república que uma colega lhe havia indicado e não sabia quem eram ao certo as garotas com quem dividiria o novo lar. Elas, por sua vez, já se conheciam um pouco porque habitavam ali há algum tempo. Logo de cara gostou de Louise, achou-a divertida, sincera, mesmo se opondo ao seu excesso de desinibição quando se referia aos namorados com quem já havia se relacionado. Louise, por seu lado, também sentiu uma simpatia instantânea por Lavínia, chamou-a de “boneca de louça”, apelido que lhe deu por considerar sua aparência de alguém frágil, que a qualquer momento se quebraria. Então, Louise fazia questão de chocá-la com suas aventuras, sempre deixando claro que tinha enorme prazer em fazê-la ficar corada ao relatar as suas mais ousadas experiências sexuais. Não era fiel, tinha até orgulho disso, e gostava de dar notas de zero a dez ao desempenho de cada homem com quem saía.
Quanto às outras, Manuela e Victória, no início, Lavínia nem se deu conta de que rolava um lance entre elas, achou, ingenuamente, que o fato de andarem sempre tão juntinhas era porque apenas se davam muito bem, inclusive, foi bastante traumática a forma como descobriu que havia, sim, algo a mais naquela amizade-grude. Um dia quando entrou no quarto que ambas dividiam a fim de pegar umas roupas para pôr na máquina de lavar, uma de suas funções na casa, viu as duas garotas nuas, deitadas na cama, aos beijos e se acariciando. Nunca, nem em seus sonhos mais loucos, pensou que veria uma cena daquelas, ao vivo e em cores. Imediatamente saiu do quarto, vermelha como um pimentão, lamentando aos céus ter-se esquecido de bater à porta antes de entrar. Depois as meninas vieram ao seu encontro e lhe explicaram a sua verdadeira situação. Elas se gostavam e estavam desejosas de assumir o namoro. A verdade é que não demorou para Lavínia achar as duas umas fofas e torcer para que continuassem sempre juntas.
— É, acho que vai ficar bom. — Lavínia diz balançando a cabeça para voltar à realidade, começando a apresentar indícios de ansiedade.
— Não sei por que tá nervosa... pra mim esse carinha aí é gay. — Louise diz abertamente o que pensa, pois a amiga havia lhe confessado que em momento algum, até agora, Diego tentou ao menos beijá-la.
Porém, mesmo dando total liberdade a Louise quanto às suas questões pessoais e também achando estranho que Diego não tivesse tentado nada de mais ousado com ela, a loira não gosta do comentário maldoso da amiga.
— O vermelho é extravagante demais e o azul, muito curto. Escolha outro se não quiser parecer uma periguete desesperada pra dar. — despeja, referindo-se aos vestidos que Louise lhe havia mostrado antes. Sabe que ela também tem um encontro marcado para a noite com um ficante qualquer e quer devolver o “troco”.
— Ah, sua virgem frustrada! — Louise tenta parecer brava, mas não aguenta e começa a rir, fazendo todas caírem em gargalhadas.
Ainda estão rindo quando o celular de Lavínia toca.
Ela faz “sh” com o dedo sobre a boca, pedindo para as amigas fazerem silêncio, pega o celular sobre a cômoda e atende.
— Já estou aqui na frente. — vibra a voz grave do outro lado do telefone.
— Uhum! Tô saindo. — Lavínia afirma e desliga em seguida. Seus olhos permanecem fixos em seu reflexo definindo os últimos preparativos. Prende uma parte dos cabelos com sua fivela dourada, permitindo ver melhor os brincos pequenos de ouro e a correntinha também de ouro, com um pingentinho em formato oval, tudo presente do generoso e querido pai. Finaliza o look com uma maquiagem simples, apenas base, rímel incolor nos cílios e sobrancelhas, dando-lhes uma maior espessura e contorno adequados. Usa um batom rosa-queimado e, por cima deste, um brilho labial para tornar os lábios mais volumosos.
“Como é tímido!” Pensa revirando os olhos e apanhando sua bolsa Clio Style de festa charmosíssima em tom vermelho-sangue. Uma coisa que Lavínia logo notou em Diego foi o seu comportamento retraído. Gostaria de apresenta-lo às amigas e até ao pai, que já está sabendo do seu paquera, mas ele sempre dá uma desculpa, diz que é melhor deixar para outra ocasião, que está meio envergonhado, que receia não ser aprovado por elas e por ele como seu pretendente, que é melhor aguardar mais um tempo para se sentir menos inseguro. Entretanto, no final das contas, Lavínia convence-se de que tudo é efeito de legítima timidez.
[...]
Fora da casa, Diego está encostado no carro, com os braços cruzados e o olhar concentrado, sério. Ao ver Lavínia se aproximar, ele abre um sorriso e a observa por uns instantes, demonstrando clara aprovação.
— Você está linda! — elogia, espontâneo.
— Obrigada... e você também não está mal. — Ela brinca.
Ele usa sapatênis escuro, uma calça jeans, de cor igualmente escura, e uma camisa de mangas compridas em tom de vinho, que ela considera contrastar perfeitamente com a sua pele clara.
Diego dá a volta no carro e abre a porta para que Lavínia entre. Ela, mais uma vez, fica encantada com os seus gestos cavalheirescos. “É mesmo um gentleman!”, admira-se abrindo um sorriso de gratidão, enquanto entra no carro.
Ele dirige todo o trajeto até o restaurante falando sobre temas rotineiros, alegres, diz que tinha visto o filme em cartaz dessa semana e imaginou que Lavínia gostaria de ver, conta-lhe, por alto, como é a sinopse e ela responde que certamente o veria depois. Lavínia comenta alguns fatos engraçados sobre o convívio com as suas amigas e companheiras de república, fazendo Diego rir bastante e mostrar total interesse ao que ela diz.
Quando chegam ao local desejado, Lavínia percebe que se trata de um ambiente agradável, aconchegante. As cadeiras e as mesas são de madeira e as paredes, revestidas com uma tintura que imita um tecido cru amarronzado. Há pequenas palmeiras espalhadas pelo local que balançam ao sabor do vento. As luminárias ficam penduradas no teto, como se estivem suspensas no ar, completando o cenário um tanto rústico. O som também a agrada bastante, pois indica uma música suave, com toques de teclado e violão, sendo acompanhados pela belíssima voz de uma jovem cantora.
Diego trata de encontrar uma mesa mais reservada ao fundo. Sentam-se e o garçom se aproxima para entregar os menus. Diego pede peixe grelhado, arroz integral acompanhado de verduras e legumes refogados em azeite. Lavínia gosta da opção e pede o mesmo.
— Querem alguma bebida enquanto esperam o prato? — pergunta o garçom, diligente.
— Uísque. — informa Diego, anunciando também que o tipo pode ficar à escolha da casa, ao passo que olha para Lavínia como quem aguarda a sua vez.
— Vinho branco. — fica um pouco envergonhada e omite o fato de que realmente não é muito fã de bebidas alcoólicas, mas pondera que a ocasião merece para relaxar e aproveitar melhor o que a noite promete.
O resto do tempo passa tranquilamente. Comem, conversam mais sobre os assuntos afins: livros, cinema, música e cultura em geral. Diego deixa Lavínia surpresa ao expor o seu conhecimento sobre cantores e canções, principalmente do gênero pop, rock e romântico dos anos cinquenta, setenta e oitenta. Revela-lhe que possui em seu apartamento um precioso acervo musical, que estaria à disposição dela ao tempo que desejasse.
Quando Diego resolve pedir a conta, faz questão, como em todos os outros encontros, de pagar, mesmo sob a insistência sincera de Lavínia em querer dividir as despesas. Ela acha um absurdo que, nos dias de hoje, alguns homens ainda não se sintam à vontade em repartir os gastos financeiros com suas amigas, parceiras ou namoradas, mas não quer bancar uma militante feminista, então aceita a situação.
Minutos depois, caminham de volta ao carro de mãos dadas. Por alguma razão, o silêncio se instala entre eles pela primeira vez na noite. Optam por somente apreciarem o vento fresco no rosto e a companhia um do outro.
Já bem próximo ao carro, Diego solta a mão de Lavínia.
Ela pensa que ele vai abrir-lhe a porta para que entre, como das outras vezes, porém, ao contrário disso, Diego passa os braços em volta da sua cintura e a puxa para si, o que a surpreende.
Lavínia vê-se presa entre ele e o carro. Seu coração acelera rapidamente.
Com uma das mãos, Diego retira os óculos e os põe em cima do carro, sempre a mantendo junto a si num abraço forte, olhando-a sem desviar, como se estivesse avaliando-lhe os traços, fascinado.
Lavínia experimenta um dedo polegar largo passear por sua face e os outros se firmarem em seu pescoço com alguma pressão, puxando-a para mais perto até colar os lábios. Portanto, o primeiro beijo acontece, não exatamente de maneira suave e romântica, como ela esperava que fosse, mas sim intenso demais.
Diego invade a boca de Lavínia com a língua buscando a sua para sugá-la mais e mais, com sede licenciosa e inadequada, fazendo o beijo se tornar tão absorvente que ela pensa que ele a está tentando sufocar.
Ela chega mesmo a ficar assustada ao se ver presa no abraço possessivo, enquanto sua boca é explorada exageradamente.
Contudo, tão súbito como começou, assim também tem fim o beijo deplorável. Diego a solta de forma um pouco áspera e ambos passam a buscar ar com a boca aberta.
— Desculpa. — As palavras dele denunciam alguma irritação, enquanto ele pega de volta os óculos de cima do carro e os coloca de novo na cara, com movimentos rápidos, impacientes mesmo, como se, de fato, se recriminasse pelo que fez ou pelo modo como fez.
“Será que ele é bipolar?”, questiona-se internamente Lavínia.
Um silêncio sepulcral invade o lugar e ela se sente incomodada.
— Va-vai mesmo me emp-emprestar aq... aqueles DCs? Po... podemos ir ao seu apar... tamento pegar agora. Eu fiquei mui-muito curiosa. — esboça um enunciado gaguejante demais, pelo nervosismo, sem pensar ao certo no que diz. A intenção é unicamente quebrar o silêncio horrível que se instalou, mas se arrepende de suas palavras imediatamente, pois conclui que talvez não seja a melhor opção, uma vez que ele acabou de se comportar de uma forma muito excêntrica.
Porém, já é tarde, o convite foi emitido.
— Claro. Vamos, sim. — consente abrindo a porta do carro para Lavínia entrar. Em seguida, ele próprio entra e dá a partida, ao mesmo tempo em que volta a puxar conversa como se nada tivesse acontecido.
Por sua vez, ela fica menos falante porque está desconfiada e insegura, fixando o olhar mais para fora do carro, observando os outros veículos em movimento na estrada, as casas e apartamentos ao redor, embora totalmente consciente da presença do ser ao seu lado, para quem lança olhares de soslaio de vez em quando, questionando-se o que mais pode vir a descobrir sobre sua personalidade.
“Por que ele me beijou de modo tão impulsivo? Estava nervoso, por isso perdeu a noção e o controle?” Estas e outras dúvidas invadem o pensamento de Lavínia, que nem se dá conta quando chegam à frente do prédio luxuoso onde reside Diego.
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