[HIATUS] Mudanças impuras
15 Desejo e orgulho
Notas iniciais

(Proposta de imagem representativa de Dayse)
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— Eu quero esse X-Tudo aqui... e pode dizer pra capricharem no bacon frito e no presunto. E você querida, o que vai querer? — profere o homem com porte físico de um lutador de Jiu Jitsu, que ora olha para a mulher à sua frente ora fixa os olhos no cardápio em suas mãos, avaliando o que mais pedir.
Até esse momento Manu não diz nada, só fica em pé anotando o pedido dos clientes e aguardando mais solicitações por parte deles. Ela, que quase sempre se mostra risonha e falante no seu ambiente de trabalho, está agora quieta e reflexiva, mas isso não é percebido pela maioria das pessoas presentes na lanchonete, pois só estão interessadas em ser prontamente atendidas para comerem e conversarem em paz.
— Bom... Eu quero um X-Frango, mas com pouca maionese, por favor. — divulga a mulher que mais parece uma modelo de revista, por ser loira, sorridente e possuir um corpo bastante longilíneo.
— Uhum. Ok. E o quê mais? — Manu olha apaticamente para eles e espera.
— Errr... Trás um refrigerante de um litro, pode ser qualquer um. — Ele afirma. — Ah... e, enquanto aguardamos o pedido, trás uma cerveja pra mim, que também pode ser qualquer uma bem geladinha, e uma água de coco pra ela.
O aparente lutador de jiu jitsu lança um olhar para a mulher diante dele e sorri de forma boba, presunçoso de si por acertar o seu gosto, ao vê-la balançar a cabeça em sinal de aprovação.
— Está certo. Por favor, aguardem só um instantinho, que eu já volto. — Manu diz distanciando-se. Ela atravessa as demais cadeiras e mesas, todas repletas de gente com fome e sede, tanto de comida e bebida, como de algo mais para nutri-las além do corpo, a saber, o espírito, visto que vêm igualmente no intuito de se sociabilizar, trocar ideias, paquerar, firmar relacionamentos, por meio de uma saída descontraída, e desanuviar os problemas comuns ao cotidiano de todos. Para tal, as pessoas, decididamente, saem de suas casas querendo estar em um local agradável e de bom atendimento. Na Lanchonete do Raul há isto e um pouco mais, ela possui um som musical ao fundo, de bom gosto, advindo de caixas sonoras espalhadas pelo local, há dois televisores Led exibindo vídeos musicais diversos, estrategicamente postos para abranger o campo de visão da plateia presente. É um ponto comercial razoavelmente amplo, com espaço único no qual se localizam as acomodações destinadas ao público-cliente, dez conjuntos de mesas e cadeiras, bem distribuídas e numeradas. O teto é forrado de gesso, em branco-gelo, nele existem cinco lâmpadas dicroicas embutidas. As paredes possuem um amarelo-queimado que brilha por causa da sua tintura a óleo. Há dois banheiros, um feminino e um masculino, todos limpos, à medida do possível. A parte referente ao feitio dos lanches é separada por um balcão amadeirado e pintado de vermelho-claro, que esconde mais adiante uma portinhola que conduz à pequena cozinha improvisada.
Manu adora trabalhar nessa lanchonete, estar em um ambiente cheio de gente diversa a cada dia e ser útil em sua função de atendente, assim como gosta dos colegas de trabalho, por considerá-los simpáticos e educados, na maior parte do tempo. Por estar muito meditativa, ela não consegue fixar os olhos diretamente em nada, acaba topando em sua colega de trabalho, outra atendente, e quase a faz derrubar a bandeja que está em suas mãos, com os pedidos dos seus respectivos clientes. Dayse arregala seus belos e agatinhados olhos castanhos, tonalidade contrastante aos seus cabelos lisos, repicados, pintados de verde, na altura dos ombros. É uma figura bela, magra e exótica.
— Manu! Cuidado por onde anda. Tá com a cabeça na lua, garota?
Apesar das palavras de repreensão, Dayse está feliz em ter um contato qualquer com a ruiva que a deixa em chamas cada vez que esta lhe lança um olhar, mesmo que seja totalmente desinteressado, de simples gentileza ou de pura educação. Há muito que ela vem tentando saber mais sobre Manu, chamar a sua atenção, pois tem uma suspeita de que a ruiva gosta de mulheres, assim como ela, que é uma lésbica assumida e orgulhosa de si. Orgulho este que adquiriu através da sua família, que sempre foi o seu maior incentivo para seguir em frente e não se amedrontar ante os obstáculos que surgissem em sua vida. Nem seu pai, um pacato comerciante, vindo de uma cidadezinha interiorana, nunca ousou discriminá-la ao saber de sua condição sexual, pois para ele em primeiro lugar vem a felicidade da sua filha e, embora tenha ficado um pouco triste por achar que ela "não lhe dará netos", prefere respeitar o seu jeito de ser e torcer para que o mundo a acolha sem tantas objeções, devido ao preconceito ainda presente nesta sociedade dita como moderna. Deste modo, sob os cuidados paternos e dos demais familiares próximos, Dayse tornou-se uma moça ativa e ousada que, quando encontra alguém que lhe interessa, não mede esforços para ter sucesso na conquista.
— Desculpa, Dayse... foi sem querer. — Manu diz e continua seu caminho em direção à portinhola de onde os pedidos anotados são entregues ao chapeiro de lanches, que os recebe para fazer exatamente o que tem escrito.
— Toma aqui, senhor Alfredo. É da mesa nove. Por favor, me dá uma bandeja limpa aí. — entrega o papel a ele, pega a bandeja que ele lhe entrega e retrocede para buscar no freezer a cerveja e a água de coco solicitadas pelo casal de clientes.
Quando abre a porta do enorme freezer vertical, encostado à parede, ela se atrapalha e termina por deixar dois refrigerantes caírem no piso, fazendo barulho. A sorte é que eles vêm em embalagens de plástico e não quebram.
— Ah, merda! Que droga! — esbraveja baixinho, tendo total consciência do motivo que a faz estar desastrada nesta noite de serviço, ou seja, a briga que teve mais cedo com Vicky.
— O que há com você hoje, Manu? É sempre tão eficiente e alegre, mas hoje não... Aconteceu algum problema? Está parecendo que algo lhe incomoda. Olha, se você quiser alguém pra conversar, eu estou aqui, se eu puder ajudar em algo, é só dizer. — Dayse assusta Manu, primeiro por surgir de repente a seu lado e depois por fazer observações zelosas, ajudando-a a recolher os refrigerantes caídos e lhe oferecendo apoio, mesmo sem saber do que se trata.
Manu olha-a por um instante.
— Não é nada de mais Dayse, só tô meio sonolenta... é que ontem dormi mal... e acho que isso tá me afetando agora. — desvia-se dos olhos curiosos dela, com a escolhida cerveja e a água de coco em mãos. — Eu vou lá... deixar isso na mesa nove.
Contudo, parecendo estar a coordenação motora inábil, ao erguer uma das mãos para ajustar os pedidos na bandeja, Manu quase deixa tudo ir ao chão.
— Ai, meu Deus! Deixa eu te ajudar, menina. Que coisa! — Dayse outra vez a auxilia e a olha detidamente. — É óbvio que você não está nada bem. Está distraída demais! Quer que eu entregue os pedidos pra você?
Manu solta um sorriso anêmico, grata por ela estar querendo ajudá-la de verdade, mas também constrangida por já ter percebido, há dias, os olhares penetrantes que lança sobre si, deixando claro o seu real interesse.
— Obrigada, Dayse, mas não precisa. São meus clientes... e eu é que devo atendê-los.
— Bobagem! Ninguém precisa saber... Me dá isso aqui, deixa comigo. — Dayse tenta tirar a bandeja das mãos de Manu.
— Não, Dayse... eu já disse que eu é que vou atendê-los. Solta, por favor. — A ruiva não está com raiva, apenas gosta de cumprir suas funções adequadamente e se incomoda ao imaginar-se em dívida com a colega que é atraente ao ponto de lhe constranger. Confusa e amargurada como está, devido ao seu relacionamento confuso com Vicky, é capaz de não ter forças para combater às investidas discretas da moça de beleza singular.
— Meninas! Parem com isso e se decidam de uma vez quem vai atender ou não os clientes, porque, se vocês não perceberam... o senhor Raul não tira os olhos daqui, ou melhor, de vocês. — A voz que surge na cena é de Ruth, outra atendente. Trata-se de uma linda e jovem negra, que possui olhos pretos e muito vivos.
As duas garotas que disputam a bandeja, olham para Ruth e em seguida na direção em que se encontra o senhor Raul, sentado a uns poucos metros de onde elas estão. Ele conversa com um cliente, amigo seu, que costuma vir com frequência à lanchonete, mas não deixa de fiscalizar o trabalho de seus funcionários.
Dayse e Manu analisam o semblante do senhor Raul e percebem que ele lança sobre elas um olhar de crítica.
— Se ele tivesse olhos de raio X, estaríamos todas fuziladas neste exato instante. — Dayse ri de seu próprio pensamento e faz também as duas outras garotas rirem junto com ela. Nesse ínterim, é rápida e consegue tomar a bandeja das mãos de Manu. — Pode deixar, Manu. Ninguém mais vai saber que eu te ajudei. — divulga baixinho, com olhos de menina traquina. Ela não espera pela reação da ruiva e sai apressadamente, deixando Manu pasma.
— O que deu nela? Virou uma workaholic do dia pra noite? Ou você a está explorando? — Ruth olha diretamente para Manu. Sua visão sensível já captou o clima de paquera no ar, pelo menos no que se refere à Dayse, que demonstra evidente atração pela ruiva.
— Explorando? Eu? Ruth, eu não sei o que você quer dizer com isso, mas também não me interessa. Eu acho que ela só quis me ajudar porque... porque me viu meio distraída... atrapalhada... foi só isso. — Não gosta de ser alvo de tanta atenção, por isso se engasga um pouco com as palavras.
— Ai, Manu... Não fica com raiva de mim não, eu não tenho culpa se sou uma ótima espiã e vejo tudo com esses meus olhinhos observadores. — Ruth, porém, não confessa o que percebeu claramente, ou seja, que Manu gosta de mulheres e Dayse gosta de Manu. A ruiva nunca deu incentivo aos inúmeros pretendentes que sempre tentam algo com ela, querendo saber o seu telefone, o que ela faz quando não está trabalhando na lanchonete e se eles têm alguma chance de começar um romance com ela. Manu, na verdade, mostra-se constantemente arredia e até chateada por causa do constante assédio que sofre. Já Dayse, desde o início, vem declarando a sua condição sexual, portanto, nenhum engraçadinho que costume vir à lanchonete ousa abordá-la com conversas maliciosas, sabendo que seria uma atitude inútil.
O restante da noite de serviço para Manu transcorre sem que ela possa mesmo conseguir concentrar-se em nada direito. Dayse, no entanto, está o tempo todo disposta a auxiliá-la, sempre que a vê prestes a cometer uma falha qualquer. Ao fim do expediente, ela se oferece para escoltar a ruiva até perto de sua república, pois ficaria em um ponto próximo dali, a fim de pegar a condução que a levaria de volta para casa. Manu fica meio desconfiada e um tanto irrequieta, porém, não protesta, afinal de contas, Dayse foi seu anjo ao longo noite e o mínimo que poderia fazer para retribuir sua gentileza, seria acompanhá-la à parada de ônibus.
As duas garotas caminham pela rua chuvosa, iluminada por lâmpadas de postes. A chuva não é mais tão forte e sim uma leve garoa, que, no entanto, é o suficiente para molhar quem se atrever a sair pelas ruas sem uma proteção. Unidas por um silêncio mútuo e pesado, estão debaixo do guarda-chuva de Manu, centradas cada qual em um objetivo diferente. Dayse quer aproveitar ao máximo a presença da ruiva junto a si e Manu está louca de vontade de chegar na república, para encontrar Vicky e fazer as pazes com ela.
Quando finalmente chegam à parada de ônibus, Dayse decide quebrar a aparente calmaria.
— Ainda bem que você se lembrou de trazer guarda-chuva. — Dayse fala, grata por estar pertinho da ruiva, podendo sentir-lhe o cheiro e a pulsação.
— Como eu esqueceria, se venho a pé para o trabalho? Você é que eu pensei que não precisasse disso... porque imaginei que sempre voltasse de carro com o seu pai.
— E é isso mesmo, só que ele está com febre por causa de uma gripe e não pôde vir me buscar hoje. Mas... sabe... eu até gostei que ele não tenha vindo, pois só assim pude ficar com você um pouco mais... e fora do trabalho. — sorri, exibindo os dentes em uma expressão enamorada nos olhos.
— Dayse, eu... — fica sem graça e sem saber o que dizer.
— Manu, eu tenho que te perguntar uma coisa. Você tem alguém? Quero dizer... você tem um namorado? — Dayse faz a pergunta mais para saber o quanto pode ir a fundo em sua abordagem. Ela teme que Manu seja como as pessoas que se escondem reprimindo sua condição sexual, por motivos variados.
— Não tenho namorado... eu tenho uma... — A ruiva não consegue concluir a frase, pois lembra que Vicky não quer que mais ninguém saiba da relação amorosa delas.
— Uma namorada? É isso quer dizer? — Dayse fica alerta.
— Não, não é isso que eu quero dizer... eu quero dizer que eu tenho uma vida muito ocupada para essas coisas de namoro. — trata logo de arquitetar uma mentira.
— Ah! Que alívio, ou melhor... então eu ainda tenho alguma chance, não é? — Dayse diz sem cerimônias e deixa a ruiva mais uma vez constrangida.
— Dayse... o que você está dizendo? Eu...
— Manu... por favor, me diz. Você gosta de meninas como eu... não é?
— Bem... É... Eu...Sim, eu gosto. Mas...
— E eu gosto de você, pronto, falei. — solta através de um suspiro aliviado.
— Dayse! Puxa, eu... eu nem sei o que dizer.
— Não diga nada... só entenda que eu gosto de você e que isso não é de agora e, sim, desde de que te vi pela primeira vez.
— Mas...
— Tudo bem, eu entendo que te peguei de surpresa... pode ficar tranquila, que não vou te assediar, incomodar, nem nada assim. Mas, se possível, eu quero que aceite este bilhete que eu escrevi na semana passada, e apenas hoje tenho coragem de te entregar. — Dayse tira de dentro da bolsa, que mantém junto ao seu corpo, um papel dobrado, tendo à frente dele letrinhas miúdas, com a mensagem: “Para a ruiva mais linda que eu já vi ”.
Manu não vê opção a não ser aceitar.
Ao vê-la sem ação, Dayse resolve tranquilizá-la mais uma vez.
— Manu, não precisa ler agora não... na verdade, até prefiro que leia depois e pense um pouco sobre o que eu escrevo aí... tem também o número do meu telefone caso você queira me ligar, pra conversar sobre qualquer coisa... qualquer coisa mesmo.
— Tudo bem... eu leio depois. — Manu põe o bilhete no bolso da calça jeans e volta a ficar calada, com os bochechas vermelhas, olhando a avenida, o movimentos dos veículos e rezando para que a condução venha logo.
O constrangimento de Manu, de fato, só tem fim quando o ônibus surge, fazendo com que Dayse despeça-se e siga seu rumo.
Ao adentrar em casa, minutos depois, Manu encontra Vicky e Louise postas no mesmo sofá. A morena está sentada e tem em cima de suas coxas as pernas esticadas de Louise, que dorme com um livro didático referente ao seu curso de educação física sobre o peito, sem ter noção de que, ao estar com as pernas sobre as coxas de Vicky, tenha provocado um incômodo imediato na ruiva. Esta finge nada ver, mas olha diretamente para Vicky, que simula indiferença, olhando apenas para o que se passa na televisão ligada.
Manu vai para o quarto, coloca a sombrinha aberta em algum canto do chão para deixar escorrer os pingos d’água, volta e se encaminha à cozinha, pois, embora a fome tenha passado, assim que viu o rosto inexpressivo de Vicky, resolve forçar-se a comer algo. Ela faz uma vitamina de banana e adiciona alguns cerais, para que tal lanche lhe sirva de janta rápida. Com o copo de plástico verde em mãos, ela volta à sala e se aproxima de Louise.
— Acorda, Louise. Sai daí e vai dormir no seu quarto! — sacode-a pelo ombro com a uma das mãos.
— Hum? Ai! O que foi? Me deixa em paz, poxa! — Louise não gosta de se ver sendo acordada com brusquidão, por isso, mesmo sonolenta, resmunga.
— Vai pro seu quarto, aqui não é a sua cama. Anda! Levanta logo daí! — continua com voz de ordem.
— Ah! Tá, tá... Tô indo. Ô estresse esse seu, viu? O que te deu hoje, garota? Eu, hein! — Porém, Louise sabe o motivo da irritação da ruiva, assim, ela apenas se levanta do sofá, carregando consigo o livro que estava lendo antes, dá um “Boa noite!” enfezado às namoradas e vai para seu próprio quarto, preparar-se para recair em sua cama, muito mais aconchegante.
Vicky permanece muda, só observando Manu de viés. Ela se senta no espaço do sofá deixado pela saída de Louise, depressa forçando uma postura mais amena.
— O que você tá assistindo? Algum filme? — tenta puxar assunto, enquanto toma a vitamina aos goles apressados, deixando ver, sem querer, o seu estado um tanto eufórico.
— Não, não é um filme. — Vicky contrai os lábios num meio sorriso, porque a palavra "filme" acaba fazendo-a lembrar-se da tarde divertida que teve ao lado de Louise e Dico.
— Qual é a graça? Tá rindo de quê? — pergunta, curiosa.
— De nada, não é nada, Manu! Olha... quer saber? Também tô com sono, então boa noite! — levante-se e se afasta, deixando a outra chateada, visto que tinha planejado em sua mente fazerem as pazes, mas na prática tudo parece bem mais complicado. Ela busca se concentrar no que passa na televisão, embora seja uma novela, que nem entende o enredo, pois não se interessa por romances novelescos. Termina de ingerir a vitamina e fica mais uns minutos pensando que seria melhor deixar Vicky de lado nesta noite, dar-lhe desprezo, como ela sempre faz consigo. Afinal, tem o seu amor próprio.
Ela se levanta, vai à cozinha para organizar a pequena bagunça que fez e lavar o que sujou de comida. Ao fim, sente-se confiante da decisão tomada, de não tentar nada com Vicky nesta noite. Depois de constatar que todas as portas e janelas estão fechadas, desliga a televisão com o controle remoto, sai apagando as luzes, à medida prossegue ao quarto. Quando entra, busca o interruptor, acende a luz e vê a morena deitada na cama dela, embrulhada em seu lençol que lhe cobre a base do tronco, deixando à mostra as pernas delgadas, levemente abertas. Os olhos de Manu não se negam a passear pelo colo farto, pelos cachos escuros, que se espalham em cascatas avolumadas ao redor de si, enfeitando a almofada e se harmonizando com o belo rosto. Observa que ela parece estar dormindo, pois olhos estão fechados, com expressão de aparente tranquilidade.
Manu suspira e sente um fio de desejo querendo fazê-la retroceder em sua postura fria. Contudo, reluta, vai à suíte, acende a luz, volta ao quarto para reapertar o interruptor, deixando-o na penumbra. Torna ao banheiro, toma um banho, escova os dentes e entra novamente no quarto. Constata que Vicky não havia mudado de posição. Tira da cômoda um pijama, que é um conjunto de short e blusa, ambos de algodão e em tons de cinza, com um desenho de uma boca feminina, carnuda e vermelha na frente da camisa. Veste-se, deita-se na cama, puxa o lençol para cima do corpo, cobrindo, em especial a parte dos ombros e o pescoço, região onde mais sente a friagem noturna. Obedece, deste modo, o ritual noturno de costume. Apesar disso, sua cama parece conter espinhos, uma vez que não consegue parar de se mover tentando em vão achar uma forma de conciliar o sono, que não vem de jeito algum. Bufa várias vezes, impaciente. Olha outra vez na direção da cama de Vicky, podendo observá-la através da luz que vem da porta entreaberta do banheiro, que sempre é deixada acessa, hábito que as duas adotam por gostarem de ter o recinto parcialmente clareado, imitando o efeito de um abajur.
Manu percebe, um tanto exultante, que a respiração de Vicky está irregular e aposta que não está mesmo dormindo. Vê-se outra vez perdida nas curvas tentadoras dela. Parece-lhe que, ao contrário do seu corpo, que está frio, em consonância com o tempo lá fora, o de Vicky alastra um abrasamento através de sua pele trigueira e apetitosa. Sente uma vontade cada vez mais intensa de ter seu corpo aquecido pelo de Vicky. Inicia uma luta interna entre manter-se impassível ou entregar-se de vez ao desejo traiçoeiro que a faz perder a noção de tudo, até de sua estima própria. Experimenta raiva de si mesma, por causa do seu tumulto sentimental. Quer, a todo custo, que o sono venha e lhe tire da agonia, impedindo-a de agir contra a decisão estabelecida.
Vicky move-se, afasta mais um pouco o lençol que a cobre, expondo novas partes do seu corpo atraente, deixando ver a camisola rendada de tom róseo, aderida ao corpo bem feito e lhe ressaltando as formas exuberantes. Ela tem agora o rosto plenamente virado na direção de Manu e continua se exibindo como se agisse de propósito para seduzi-la, mas seus olhos continuam cerrados, aparentando indiferença ao que lhe provoca, enquanto libera suspiros quase inaudíveis. Move-se de novo, ajusta uma das mãos entre a bochecha e o pescoço, revelando um aspecto algo angelical.
O coração de Manu dispara num frenesi incontido. Ela respira fundo e solta baixinho palavras desconexas de injúria, irritada consigo mesma, enquanto cede ao comando irresistível do seu desejo. Ergue-se e segue ao encontro da namorada a passos como os de um sedento indo em busca de um oásis no deserto. Senta-se na cama dela e passa um dos braços ao redor de seu tronco, olhando-a detidamente.
Vicky não move um músculo, até então.
Manu não se deita de imediato, rezando ainda para que alguma força sobrenatural a atalhe no último momento. Porém, sua respiração fica cada vez mais desacertada à medida que se aproxima do rosto de Vicky, ao ponto de poder sentir-lhe o odor de pasta dental advinda de sua boca semiaberta.
— Vicky. — Sua voz não é mais que um sussurro.
Vicky abre os olhos, mas deixa-os quase espremidos enquanto respira precariamente. Olha para Manu e faz uma expressão algo infantil ao se pôr na figura de uma menina teimosa, que também não quer dar o braço a torcer.
— O que você quer? Continuar a briga de mais cedo... continuar me humilhando, ou me lembrar o quanto eu sou fraca? Fala pra mim, Manu, o que é que você quer? — exige, entre chorosa e enraivecida.
— Sabe muito bem o que eu quero... Ah, vamos pular essa enrolação toda, porque você também sabe que, no fim, eu sempre consigo. — Manu achega-se mais, respirando sofregamente, com a boca salivando de vontade de beijar Vicky, não se importando mais em preservar o seu orgulho diante de tamanho desejo.
— E é assim, porque eu sou uma fraca e não consigo dizer não? É isso? — magoada e ressentimento, Vicky sente os olhos se encherem de lágrimas, mas se controla, não os desvia de Manu, pois quer provar a si mesma que pode encará-la e fazê-la ver a sua altivez.
Ao notar o cenho fechado de Vicky, a ruiva fica com uma excitação tremenda por achá-la atraente com esta aparência de falsa determinação, semelhante à que ela mesma gosta de impor, mas que não vale nada à força dos sentimentos que nutrem uma pela outra.
— Oh, minha fracotinha linda! — dá um sorriso malicioso e a beija, porém, Vicky imediatamente começa a lutar para se livrar do contato íntimo.
— Nunca mais me chame assim! — chateada, Vicky empurra Manu. Esta lhe envia como resposta outro sorriso, mais desaforado que o anterior, já querendo beijá-la novamente.
Mas, de repente, Vicky dá um tapa no rosto de Manu, deixando-a meio desatinada pela ação violenta, com a face corando no mesmo instante. Imediatamente, a morena acorda para sua ação irrefletida.
— Manu... perdão... eu...— O espanto dela é evidente, já que nunca imaginou que seria capaz de revidar às provocações de Manu agredindo-a dessa forma.
Manu, impulsiva e irritada, arranca abruptamente o resto de lençol que encobre Vicky e se monta sobre seu corpo, prensando-a na cama sem obter reação alguma, pois a encontra meio estática. Em seguida, Manu apoia os braços, um de cada lado, nas laterais de sua cabeça.
— Fraca, fraca, fraca...! — repete várias vezes.
Vicky levanta as mãos e tenta tapar os ouvidos, mas Manu a impede, segurando-lhe os pulsos e os afundando sobre a almofada, rente a seu rosto contraído, sem cessar a ladainha.
Os olhos de Vicky agem por si e começam a lacrimejar.
— Para... Manu... para de dizer isso. Por favor! — dardeja a súplica.
Manu atende ao pedido, ciente de que sua resposta hostil, na verdade, se deve à forma como elas têm conduzido o namoro, sempre em meio a pontos de vista antagônicos, o que, inclusive, pode ter culminado no ato bruto de Vicky, assim como os seus próprios que, não raro, são explosivos, exagerados. Só que a vontade de tê-la para si, de dar e receber carinho sempre fala mais alto que qualquer desavença que surja entre elas. Assim, sem desprender os braços de Vicky, a ruiva altera num piscar de olhos a atitude de carrasca para a de apaixonada. Torna a olhá-la com avidez.
— Tudo bem... eu já parei. E agora? Quer que eu saia de cima de você e vá pra minha cama? — perscruta-lhe a feição confusa, podendo compreender claramente que Vicky tem vontade de dizer que sim, que se afaste de si, que a deixe em paz, mas a excitação inoportuna também lhe é aparente. — Então? O que me responde, hein? — precipitada, Manu deposita beijos em sua boca entreaberta e experimenta o corpo de Vicky acendendo-se, como se, com suas palavras insolentes, atiçasse uma fogueira contendo madeira seca, pronta a queimar ao menor indício de fagulha.
O beijo se intensifica quando Manu enfia a língua dominadora na boca de Vicky, forçando os lábios de ambas a dançarem num ritmo sonoro com as bocas irrigadas de saliva, estimulando-a.
— E aí, quer que eu saia já? Fala! — persiste.
Vicky meneia a cabeça negando. Ela já está muito excitada, entregue ao próprio desejo de ter Manu junto a si.
— Não. — sussurra.
— Então pede pra eu ficar com você. Pede. — A ordem mostra-se mais como uma carícia. — Vamos, Vicky, quero que peça pra eu ficar com você esta noite.
— Fica. — Vicky convida, rendida.
Manu libera um sorriso que faz franzir um pouco os arredores do seu nariz arrebitado, produzindo em Vicky um frêmito na espinha. Ela sempre achou Manu muito linda, mais ainda quando sorri assim.
As palavras não são mais necessárias. Elas se beijam com renovada intensidade. As mãos não se mantêm paradas, bolinam seus corpos por cima das roupas, buscando tirá-las. Em questão de segundos, estão totalmente nuas e se amando sofregamente. Movem-se de forma sensual e invertem as posições, ficando Vicky por cima e Manu por baixo, deliciando-se por ter o corpo bem moldado sobre si. Devora-lhe a boca, enquanto desliza uma das mãos sobre os seios fartos, apertando e torcendo suavemente os bicos. Vicky geme de prazer. O frisson de Manu também é enorme, beija-a esfomeadamente. Elas chegam ao clima algumas vezes apenas com a união dos corpos em movimentos eróticos.
— Eu te amo demais! — Manu expressa. Ela sente aflição ao imaginar que a relação delas pode sofrer algum abalo realmente grave.
Vicky fica igualmente comovida, pois compartilha do mesmo temor.
Minutos depois, as duas parecem anjos dormindo o sono dos puros. Há em suas faces restos de lágrimas, mas suas expressões não mais denunciam agonia. Em seus sonhos nada nem ninguém é capaz de atormentar o seu relacionamento.
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