[HIATUS] Mudanças impuras
16 O princípio do precipício
Notas iniciais
Às oito horas e trinta minutos da manhã de domingo, o carro desliza lentamente pelo bocado de terra, formando uma alameda estreita. É na verdade um caminho desmatado, rua arborizada dos lados, através da qual podem ser visualizadas algumas casas aqui e acolá, ao longo dela. Exibem-se construções de luxo moderado que servem às famílias que almejam habitar numa região tranquila, pouco movimentada, embora possua todos os benefícios de um bairro normal, tais como posto de saúde e policial, bem como acesso à localização através de numeração, indicando cada residência.
Frida está sentada no banco traseiro de um taxi que pegou assim que saiu da estação de trem. Para ela, é engraçado que ainda exista trem nesta cidade para a qual voltou, após estar longe por dois dias em visita à sua prima adoecida, pois o crescimento de novos e modernos meios de transporte invade cada vez mais, em exigência à pressa e ao estresse da modernidade. Ela olha para fora da janela do automóvel e reflete que, de fato, Henry tinha razão ao dizer que ela deveria afastar-se um tempo da loucura que estão vivenciando. Foi bom ter-se distanciando da obsessão incontrolável dele por uma vingança que pode certamente arruinar não apenas o senhor a quem ele atribui todo o seu ódio, mas também a si próprio. No entanto, a vingança de Henry sempre foi em parte sua, uma vez que ela igualmente sempre sentiu alguma raiva por Gregory Albuquerque, apesar de tê-lo visto poucas vezes em sua vida e mesmo que ele nunca lhe tenha dirigido mais que umas poucas palavras. O velho empresário conseguiu fazê-la nutrir sentimentos negativos a seu respeito, inicialmente por ter-se envolvido secretamente com Abigail, sua amiga de infância, sua confidente e amor secreto, tornando-a a sua amante e depois, por ser o responsável por causar no seu filho adotivo um trauma agudo, profundo, incurável. Por estes motivos, Frida resolveu ajudar Henry, fechando os olhos para o que poderia brotar de maligno a partir disso. Todavia, quando viu Lavínia, frágil, inocente, sendo usada como instrumento para as suas artimanhas, a senhora de cabelos grisalhos estremeceu de medo pela jovem, pelo seu inevitável desgosto quando souber da podridão provocada pelas ações de seu valioso pai, quando se vir engolida por fatos que a envolvem diretamente, quando descobrir, por fim, que sua vida é uma farsa montada.
Os pensamentos de Frida são interrompidos quando o carro estaciona em frente ao endereço dado ao taxista que, depois de receber o pagamento pela corrida, sai do carro e a ajuda, abrindo-lhe a porta traseira e lhe entregando sua bagagem retirada do porta-malas. Assim que o táxi se afasta, ela dá um suspiro pesado antes de fixar os olhos na casa, através dos portões gradeados. Sente-se ao mesmo tempo feliz e triste por ter regressado. Feliz por rever seu querido Henry, supondo que ele já a tenha perdoado, tornando a ser o bom filho que sempre foi, e triste por ter que vê-lo prosseguir em sua represália insana, sabendo que nada pode fazer. Ela teme que ele perca a noção dos limites e acabe extrapolando em suas atitudes, em especial, com Lavínia. Rezou bastante desde que deixou a casa para ir na sua viagem, continuou orando nos dias em que esteve fora e agora faz uma oração em pensamento para que tudo tenha estado bem, mesmo sem a sua presença.
Frida retira do bolso, do vestido florido e discreto, as suas chaves. Ela abre o cadeado do portão, prossegue à porta da frente, também a abre, e entra. Estranha de imediato o silêncio, mas desconfia que talvez Henry tenha saído, como faz algumas vezes, mesmo no domingo, para ir à empresa alegando ter que cuidar de qualquer detalhe técnico com algum cliente indisponível durante a semana. Pensando assim, ela fecha a porta atrás de si e continua passando a vista por todo o ambiente. Vê que tudo se encontra aparentemente no mesmo lugar. Não há grande bagunça para organizar ou sujeira para polir. Imagina que, ao contrário disso, deve estar repleto de roupas para lavar na máquina. Segue pensando nos afazeres domésticos aos quais está acostumada e se direciona ao seu quarto, no térreo, localizado um pouco além das escadas, meio ligado à sala de estar. Coloca sua mala na cama e volta a fazer a revista ao local. Lembra-se de Lavínia e reflete que é melhor ir vê-la logo, saber se está acordada, se tem fome e, quem sabe, até possa tentar, mais uma vez, manter um contato ameno e saudável com esta que para si é quase uma criança. Ri fraco por tal pensamento, enquanto sobe as escadas, já com a chave do quarto de Lavínia em mãos. Mas, quando está próxima dele, ela percebe, surpresa, que está aberto e que não há sinal da moça, o que constata ao vasculhar canto por canto do quarto.
O coração da senhora começa a palpitar e ela sai novamente, agora em direção ao quarto de Henry, a uns escassos metros dali. Sua testa começa a transpirar involuntariamente, assim como as mãos, e ela não sabe – ou se nega a querer saber – porque experimenta uma agonia pré-impacto a invadir-lhe o corpo. Vai aproximando-se, a cada passo sua aflição aumenta e sua respiração se torna falha. Quando está em frente ao quarto dele, nota a porta semiaberta. Ela a empurra aos poucos até ver o que tanto estava temendo: Henry e Lavínia, ambos nus e abraçados sobre a cama, dormindo como dois simples amantes. Lavínia encontra-se acomodada por cima de Henry, sua cabeça repousa um pouco abaixo do seu peitoral, deixando ver seu rosto juvenil, alvo e de feições delicadas. Suas mãos de dedos finos dispõem-se languidamente sobre o tórax dele, que sobe e desce, em consonância com sua respiração pausada. Os cabelos da loira caem de lado, expõem a coluna esbranquiçada, e suas nádegas estariam completamente à mostra não fosse o edredom amassado a cobrir-lhe parcialmente. Já Henry tem apenas o corpo de Lavínia como coberta, impedindo-a de vê-lo totalmente nu. Está com o rosto virado para o canto esquerdo e tem uma expressão tranquila de quem não sente remorso algum por estar cometendo um crime contra toda e qualquer moralidade. Os braços dele decaem de lado a lado, com as mãos presas aos braços da jovem, quase enfiadas por dentro de suas axilas, como se para prendê-la, caso resolvesse fugir.
Imediatamente, Frida tem a respiração suspensa. Ela tapa a boca pelo susto, tentando não gritar de pavor ao analisar tal obscenidade grotesca. Sua cabeça meneia, negando o que os olhos veem e ela não consegue controlar as palavras que saem por impulso e indignação:
— Não... não pode ser... Meu Deus! Não! — descontrola-se e repete aos berros os “nãos”.
Os amantes, desta forma, acordam e ficam muito assustados, olham para Frida buscando assimilar o que ocorre. E ela permanece exaltando-se a cada vez que abre a boca para esboçar sua negação.
Henry respira fundo e não perde tempo. Coloca Lavínia, agora estática pelo assombro, de lado e se levanta, sem ligar em se mostrar a Frida como veio ao mundo. Pega a cueca que está logo ali no chão e a veste apressadamente. Seu rosto está lívido, não pelo espanto de ter sido acordado de modo brusco, e sim porque está com raiva de ver Frida agindo como uma fanática religiosa, uma beata hipócrita. Por outro lado, ele a compreende, sabe os motivos de seu horror e se obriga a ser rápido, antes que ela diga o que não deve na presença de Lavínia. Na verdade, ele tem consciência que infelizmente o sonho dourado acabou neste exato momento e que a realidade nua e crua rebate com força por meio da figura repressora de Frida, fazendo sobrar a pior parte para a sua amada.
— Frida! Fica calma. Mas que droga! — Ele experimenta a raiva crescer e não se importa em se mostrar agressivo.
Ao ouvir a ordem, Frida controla-se um pouco. Os olhos da senhora, porém, não se desgrudam de Lavínia e vê quando Henry puxa a garota pelo braço para erguê-la. Em segundos, Lavínia está nua e de pé, sendo tratada como uma marionete sem vida. Ele pega o edredom de cima da cama e o joga sobre os ombros trêmulos dela por trás, cobrindo-a por completo, do pescoço para baixo.
— Henry... — A voz da loira não é mais que um sussurro. Pelo traço frio no comportamento dele, ela prevê o que viria a seguir. — Por-por favor... O que é isso? O-olha... pra mim! O que vo-você vai fazer?
— Quieta, você também. Maldição! — emite novamente o tom violento com os olhos petrificados; está demudado pela ira.
Lavínia fica boquiaberta, sem ação diante da sua postura gélida e não enxerga que também há nele amargura e frustração.
Henry passa por Frida, vendo e tomando da sua mão a chave do quarto de Lavínia, já a arrastando pelo braço, sem dirigir-lhe mais nenhum olhar.
— Po-por favor... Henry... nã-não faz isso. Eu te imploro! De-de novo não! — Lágrimas começam a umedecer seus olhos.
Ele parece surdo aos apelos lamuriosos dela, pois a empurra quarto adentro e tranca a porta, dando duas voltas com a chave. Lavínia chora copiosamente, enquanto se vira para ficar com os braços levantados, os punhos cerrados e apoiados na porta fechada. O corpo dela se sacoleja devido aos soluços que vêm aos montes, fazendo com que o edredom caia e exponha outra vez seu corpo nu e trêmulo.
— Por quê? — pranteia alto, mesmo imaginando que ninguém mais a escuta.
Porém, do outro lado está Henry, que respira profundamente várias vezes e tenta controlar as emoções. Não há lágrimas em seus olhos, apenas um apagão temporário embrulhando seus pensamentos, forçando-o a buscar uma saída, rápido. Ele tem as mãos espalmadas sobre a porta e permanece mudo, com a cabeça baixa, apenas escutando o choro compulsivo de Lavínia e evitando pensar sobre o que lhe acabara de fazer. Na sua visão, não há muito o que possa fazer para que ela sofra menos, o risco ao qual se expõe é grande. Intui que poderia colocar tudo a perder de uma vez e ficaria sem nada de vingança e sem nada de Lavínia, e não quer abdicar de nenhum dos dois. Sua obstinação fala mais alto. No entanto, sente o precipício rente a si, querendo tragá-lo. Não deixará, não mesmo. Ele enche o peito de coragem, recompõe a postura e caminha na direção de seu próprio quarto, indo ao encontro de Frida, disposto a confrontá-la. Será capaz de fazer qualquer coisa para calá-la e se mantenha do seu lado, ou se afaste definitivamente de sua vida, caso seja preciso, mesmo que isso venha a lhe corroer a alma.
Ao vê-lo novamente, Frida vai logo soltando o que vem à mente, transtornada, sem se incomodar em observá-lo só de cueca e com expressão enfurecida:
— Como você foi capaz? Como? Henry... Filho, você tem noção do que fez? — está em pé, gesticulando bastante com os braços, em sinal de total exasperação, e evita a todo custo olhar na direção da cama desfeita.
— Sim, eu tenho. Eu amo a Lavínia, Frida. Amo!
— Não diz isso... Você vai pro inferno! — Mais lágrimas surgem nas faces da senhora.
— Por quê? Por que eu vou pro inferno, hein? — encara Frida com hostilidade. Não há nele qualquer sinal de incerteza ou temor.
Ela, incrédula, para de chorar e lhe olha constatando o quão sangue-frio ele consegue ser.
— A vingança é um mal, que pode ter justificativa e até perdão, se cometido por alguém que sofreu demais. Já o sequestro é um crime aos olhos dos homens, mas... mas... — Frida tem dificuldade em continuar o seu discurso, os lábios tremulam.
— Coragem, Frederica Monteiro. Continua! — esbraveja e parece, aos olhos de Frida, outro ser humano. Sua impressão estranha advém justo do fato de escutá-lo chamando-a por seu nome e sobrenome numa altivez irreconhecível.
— O incesto é um pecado mortal aos olhos de Deus. — manifesta, por fim, o que não inibe absolutamente a empáfia de Henry.
— O fato de Lavínia e eu termos nascido da mesma mulher, de correr em nossas veias o mesmo sangue, não nos faz irmãos.
— Como não? O que você tá falando? Meu Deus... Não entendo nada, nada! — Frida está exaltada e confusa.
— Estou falando que eu não vejo ela como irmã e sei que ela nunca me verá assim também, porque crescemos separados, não pudemos conviver de uma forma familiar e normal... — titubeia por uns segundos, mas se recupera. — Porque aquele desgraçado me roubou até isso. Ele a levou de nós, de mim, quando ela era somente um bebê. Mas você sabe disso melhor do que eu, não é, Frida? Porque foi você mesma quem me disse o que houve. Eu nem cheguei a vê-la nessa época. Só a vi pela primeira vez em uma imagem de revista anos mais tarde. Será que deu pra entender essa merda?
— Não, e eu não quero entender esse absurdo que você acabou de dizer. Eu só quero que me responda uma coisa. Ela já sabe? — Não tem mais lágrimas, elas secaram pela cólera que sente ao ver a insensibilidade estampada no rosto de Henry, mesmo frente ao assunto perturbador.
— Não, ela não sabe e você não vai falar nada pra ela porque, se você ousar fazer isso, eu juro que esqueço o que você fez por mim até hoje, me criando como se eu fosse o filho que você nunca teve. Eu juro que te odiarei pelo resto dos meus dias! — Seus olhos exibem um brilho intimidador e sua voz é cortante, chega a doer nos ouvidos de Frida. Ela sente medo de que ele cumpra a promessa que agora faz, por isso estremece enquanto busca ar para conter suas emoções.
— E... e por quanto tempo acha que vai conseguir esconder isso dela? — força um tom menos exasperado.
— Pelo menos até eu desmascarar o pai dela, até eu fazer ela ver tudo o que esse crápula fez com as nossas vidas e até eu ter certeza de que ela também me ama... como homem, ao ponto de suportar qualquer pressão pra ficarmos juntos.
Frida é obrigada a encostar-se à parede, devido à ânsia que as palavras de Henry lhe provocam, precisa colocar uma mão sobre os lábios para não gritar outra vez de horror. E, por incrível que pareça, o que mais a assusta é o fato de Henry parecer disposto a descartá-la de sua vida, como se ela fosse um pano de prato velho e sujo que não tem mais utilidade.
— Eu estou desconhecendo você, meu filho... nunca pensei em sofrer tanta decepção por sua causa, nunca imaginei ouvir tanta abominação saindo da sua boca. Eu sempre acreditei que você me amava como mãe e me respeitava desta forma... mesmo quando me dava ordens sem parar. E agora eu quero saber, Henry. Se eu disser pra Lavínia o que eu sei, você vai me virar as costas pra sempre? Vai mesmo me odiar... por toda a vida? Depois de tudo o que passamos nesses anos todos, um na companhia do outro. Você vai ser mesmo capaz disso? — A tristeza nos olhos de Frida é profunda.
É a vez de Henry ficar abatido por constatar que não, não poderia simplesmente desprezar quem deu tanto de si para criá-lo, para ajudá-lo nas horas mais difíceis de sua existência sofrida e que está ao seu lado sempre, inclusive ajudando-o em sua obstinada vingança, mesmo contrariando os seus conselhos, que visam unicamente o seu bem. No entanto, ele receia fraquejar perante Frida, pois ela poderia arruinar as já ínfimas possibilidades de ele ser feliz com Lavínia. Ele fica refletindo sobre qual melhor réplica lhe dar, ao mesmo tempo em que avista a sua bermuda jeans no chão e vai vestindo-a. Volta a olhá-la sabendo que ela não sossegará até obter uma resposta.
— Frida... Veja bem, você é a única que eu tenho como mãe... a única que eu amo assim. Você tem sido minha família, meu apoio mais precioso, minha cúmplice! — A esta altura, Henry está quase abraçando a chorosa senhora para tranquilizá-la. — E é por isso que eu sei que você vai continuar sendo isso para sempre, vai continuar me ajudando sem me impedir de fazer o que eu quiser e achar que devo, não importa o que seja... porque eu sei que você ora pela minha felicidade e torce para eu consegui-la, porque você é a minha verdadeira mãe!
Frida permite que Henry abrace-a, termina emocionando-se e derramando novas lágrimas, de satisfação por saber que ele a tem em tão alta estima, assim como ela o tem. E é por isso que o seu coração de “mãe” se acalma um pouquinho, experimentando o acolhimento do homem que, para si, representa os anos em que esteve entregue ao afeto genuíno e altruísta, pois este sentimento nunca implorou mais que o retorno do amor ofertado. Contudo, ela compreende que precisa fazer algo de imediato, nem que seja só para ganhar tempo e poder pensar melhor sobre como fará depois para livrar Lavínia das mãos pecaminosas do seu irmão. Deseja ao menos tentar salvar as suas almas corrompidas.
— Tudo bem, filho... fique tranquilo que eu não vou contar nada pra ela, mas eu só imponho uma condição em troca. Não a procure mais como mulher... até você mesmo criar coragem de falar a verdade pra ela. Não é justo você ir pro inferno arrastando a inocente. Ela tem direito a uma escolha. — Frida diz em tom suplicante, assim que o abraço é desfeito.
Henry revira os olhos e observa a senhora com ar de cansaço e, ao mesmo tempo, de impaciência.
— Mãe, eu sou ateu. Você sabe disso. Eu não acredito nessas fábulas religiosas, mas eu entendo a sua aflição, sei que você, sim, acredita fervorosamente num Deus bíblico, nos seus castigos divinos e sei lá mais no quê.
A palavra "mãe" dita raramente por Henry sempre tem o poder de amolecer ainda mais o coração da velha bondosa, e ela intui que não teria forças suficientes para empatá-lo de seguir fazendo o que ele se determinasse a fazer. Entende que só lhe resta rezar e rezar muito para que uma luz dos céus o ilumine e o faça ver seu próprio pecado se alastrando e envolvendo a garota ingênua.
— Não é só uma questão religiosa, Henry... — Ela busca novos meios de convencimento.
— Eu sei. — interrompe-a, pois pressente o rumo que a conversa tende a tomar. — Para a sociedade, isso é um ato condenável, amoral e pervertido. Eu sei de tudo isso. Mas ninguém está na minha pele, ninguém sabe o que eu vivi e passei pra chegar aqui e agora, ninguém sabe que eu não consegui, por mais que eu tenha tentado, evitar de me apaixonar pela minha própria irmã... até porque essa palavra “irmã” nada significa pra mim, nada mesmo. E, ironicamente, essa é a única coisa que eu lamento, Frida, eu lamento que esta palavra tenha perdido o seu real valor há anos. É triste, mas é verdade.
Frida avalia-o e percebe sinceridade em suas palavras. Ele tem a sua razão e ninguém poderá removê-la ou modificá-la, a não ser ele mesmo ou Lavínia, assim que souber a situação polêmica em que está metida. Ela o traz para novo abraço e fica calada, questionando-se sobre a gravidade da batalha que ele terá que enfrentar, antes de descobrir por si mesmo uma forma de libertação para o seu torturado espírito.
Depois de algum tempo abraçados, forçando o silêncio externo a predominar sobre o tumulto interior, ambos resolvem que é preciso voltar, na medida do possível, às suas ações habituais.
Frida é a primeira a cortar o silêncio.
— Aposto como ninguém nessa casa tomou café ainda. — fala em tom ainda meio alterado e lhe lança um olhar de característica repreensão maternal, conseguindo aos poucos manter a calma.
— E eu tô morrendo de fome... louco pra experimentar de novo as suas torradas quentinhas e amanteigadas. — O sorriso de Henry agora exala gratidão. Ele age por impulso e lhe dá um beijo afetuoso na testa.
— Então eu vou lá pra cozinha preparar o café da manhã... para todos nós. — A senhora diz, enquanto se encaminha à porta do quarto para sair. Ela não ousa tocar no nome de Lavínia, mas o “todos” a que ela se refere explicita a sua inclusão.
— Eu vou tomar um banho. Depois eu desço e te encontro lá embaixo pra você me contar como foi a sua viagem, como está a sua prima e tudo mais. — segue igualmente desconversando, afastando-se do contexto conflituoso de há pouco.
— Está certo, filho. — meneia a cabeça positivamente, não deixando o cérebro processar mais nada de ruim. Afinal, não quer acreditar que tudo está perdido, que não existe uma forma de resgatar a alma degenerada de Henry e a integridade moral, física e espiritual de Lavínia.
Frida sai e deixa Henry em suspiros profundos de alívio, por ela não ter sido um problema maior do que estava supondo que seria, por tê-la trazido a seu favor, o que fará sempre que for necessário. Entretanto, ao voltar o pensamento para Lavínia, ele entende que a sua situação não é menos que um caos infindável, pois a realidade amarga é que absolutamente não sabe o que fazer com ela agora. Senta-se na beirada da cama, encurvado, com os cotovelos apoiados em suas coxas, as mãos unidas com os dedos entrelaçados, sustentando a base do queixo, enquanto passa a refletir sobre seus últimos atos. Não bastasse tê-la feito se entregar a ele várias vezes nestes dois dias, ainda a trancafiou outra vez em seu “cárcere de luxo”, em razão disso, seria muito difícil não parecer um sádico sexual que só quis usá-la para obter prazer com seu corpo belo e jovem.
Ele bufa de impaciência, não querendo continuar enchendo-se de ideias atormentadoras. Levanta-se e tira a roupa para ir ao banheiro a fim de tomar um banho energizante. Talvez depois disto possa visualizar alguma alternativa.
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