[HIATUS] Mudanças impuras

10 Desabafo, reencontro e proposta indecente


Notas iniciais
Espero que gostem. Boa leitura!

Em frente ao espelho, Louise observa-se quase sem se analisar, veste uma sapatilha preta com spikes, um short saia assimétrico azul semelhante ao jeans, uma blusa regata vermelha sem estampas, estilo nadador, de tecido como o de helanca. E, para completar o seu look meio despojado, uma jaqueta jeans escura, bem costurada e muito bonita. Por se forçar a ser um tipo de pessoa prática, ela opta continuamente em adotar o que lhe é mais confortável, mesmo tendo a errônea impressão de que precisa sempre de muito capricho na maquiagem ou na vestimenta para ficar bonita.

Surpreendentemente, a moça de admiráveis olhos escuros é insegura. Ela não demonstra e não consegue, por uma problemática interna, reconhecer a sua beleza natural. Sendo assim, nunca está de fato satisfeita com o seu visual. Mas, por pura impaciência e frustração, não se alonga nos cuidados estéticos que imagina necessitar, porque sempre diz a si mesma que isso não importa.

Manu entra no quarto seguida por Vicky. A ruiva veste um short jeans surrado, uma camisa sem mangas de algodão branca e chinelas. Já a morena usa uma saia pregueada amarela e uma camisa em tom azul-claro, com botões na frente.

— Louise, ficou ótima a roupa que você escolheu! Você vai arrasar! — A morena transmite sinceridade e confiança.

— Acha mesmo que ficou bom? Ah! Mas não interessa, é o que dá pra sair no momento, não posso fazer milagres. — está meio duvidosa quanto ao elogio recebido. Ela termina de passar a base clara no rosto, o batom gloss vermelho e parece evitar um olhar mais apurado em seu reflexo.

— Eu tô dizendo, você tá linda, lindíssima mesmo! — Vicky destaca, enquanto se senta na cama vazia de Lavínia, achando que precisa dar uma ajuda para levantar a baixa autoestima da colega.

— Deixa de ser boba, garota! É claro que você tá bonita porque você é bonita. Não precisa ficar fazendo a Vicky encher o teu ego. — Manu detesta enrolação com palavras doces e tem a impressão de que Louise só age desta forma, menosprezando a própria aparência, para fazer charminho à toa e ouvir o quanto é bela. Ela odeia ver Vicky cair na armadilha e ficar enchendo a bola da outra, por isso trata logo de se postar em pé ao lado da namorada, olhando-a em repreensão, com os braços cruzados.

— Eu tô fazendo o quê?! — Louise levanta as sobrancelhas e sua voz de surpresa é evidente.

— Então, Louise... você não vai querer comer nada antes de sair... quero dizer, não vai jantar? — Vicky percebe o clima de ciúme e trata logo de mudar de assunto.

— Não, deve ter algo pra comer lá, afinal em festas de aniversário sempre tem salgadinhos, bolo...qualquer coisa, sei lá! Ela pega de cima da cômoda as chaves da motocicleta, o capacete cinza-claro e, após uns segundos pensando, resolve pôr o mini batom gloss na pequena bolsa tiracolo de couro que levará, junto com o celular e dois preservativos que estão na bolsa há alguns dias.

— Bem... eu acho que vou indo... — olha com ar de cumplicidade para as duas garotas, agora ambas sentadas na cama, como que precisando mais uma vez ouvir palavras de apoio.

— Vai lá, Louise! Vê se esquece um pouco os problemas e tenta aproveitar a festa. — Manu solta com voz mais amistosa do que pretendia.

— Isso mesmo, amiga, divirta-se bastante. Amanhã nos conte todos os mínimos detalhes, está bem? — Vicky arremata com bom humor por constatar que a sua namorada é, sim, afetuosa e preocupada com os outros, mesmo não querendo ser, pois tem a mania de se fazer de durona na maior parte das vezes, o que ironicamente combina muito com seu nome, Manuela Rocha.

No entanto, antes de Louise sair, ouve-se o som do toque de um celular vindo do quarto ao lado. Vicky, reconhecendo ser o seu, corre para atender.

— Aff! Aposto como é a família dela de novo. Eles não a deixam em paz, nem por uma hora inteira. — bufa a ruiva.

— Fica na tua, Manu, e vai com calma. Afinal você mesma disse, é a família dela, fazer o quê? Não tem jeito. — Louise diz num tom apaziguador, sabendo o suficiente sobre os problemas das duas.

— Um bando de preconceituosos! Hipócritas! Isso sim. — Há raiva na voz da ruiva.

Manu detesta ver que Vicky ainda é bastante influenciada pela família dela, que eles ligam praticamente todos os dias para saber como ela está na faculdade, se está gostando do curso de arquitetura, se arranjou algum namorado ou paquera, se os garotos de lá são bonitos, ou apenas comentam qualquer assunto tolo sobre algum evento atual. Quando se sentem insatisfeitos com as informações dadas pela filha, ou com seu tom de voz, eles a buscam pessoalmente na república para ir passar o fim de semana com eles ou a convocam para que ela mesma vá.

O que incomoda Manu, no final das contas, é que ela acredita que a família da Vicky vive a sondar de forma exagerada o comportamento da filha, para saber se ela não se tem desviado do caminho rigorosamente determinado por eles, os pais. Ela descobriu que são religiosos convictos e tradicionais, que jamais aceitariam uma filha lésbica. Além disso, são controladores ferrenhos, o tipo de gente que imagina poder escolher o futuro dos filhos por eles, sem consultá-los ou saber se é isso o que eles pretendem para eles próprios.

Na opinião negativa de Manu, os pais da Vicky sempre apelam para a conversa de que, por terem dado a vida a ela, o mínimo que ela pode fazer é seguir seus conselhos sem objetar. Manu considera, portanto, Vicky tola, passiva demais, pois sempre os atende e mente sem parar, principalmente sobre a sua sexualidade, dando a entender que gosta de rapazes e que é exatamente como eles querem.

— Manu, tenha paciência... no fim, ela sempre te escolhe. — Louise quer abrandar a ira da ruiva, não gosta de vê-la assim, pois sabe que é mesmo difícil para ela, que, ao contrário de Vicky, tem pais compreensivos quanto a sua condição sexual, abertos e modernos.

— Ah, escolhe, sim! Trancada no quarto comigo, entre aquelas quatro paredes, ou no máximo, deixando vocês aqui na república saberem o que há entre nós. Ela me escolhe, contanto que o resto do mundo não sonhe que somos um casal... contanto que seja um segredo nosso, que a faculdade não saiba e muito menos a família dela. Assim é que ela me escolhe. Eu sou uma idiota! — desabafa, hostil.

Como é que ela, tendo pais tão tolerantes que a incentivam a seguir apenas os passos ditados por seu coração, é agora obrigada a suportar viver um romance clandestino? Ela não entende e por isso sofre. Amar não deveria machucar. Assim sempre pensou Manu, até se apaixonar por Vicky.

— Eu sinto muito por você, Manu, mas vocês estão juntas há mais de um ano... Você já deveria saber que as coisas entre vocês não seriam tão fáceis, ainda mais sabendo como os pais dela são. Com relação a isso, a Vicky foi sincera contigo desde o começo, ou não? — Louise quer chamá-la à razão. Pois, se a morena desde o início confessou como os pais eram, Manu poderia não ter nem iniciado o namoro, ciente dos problemas que viriam com ele.

— Foi sim... é, isso é verdade. — Manu confessa, resignada.

— Então? Ouça o que eu digo, tenha paciência. Se ela te ama, ela vai ficar com você. Vai por mim, Manu, tá na cara que a Vicky ainda não tá preparada pra tomar uma decisão definitiva. Ela não tem forças para enfrentar tudo... o preconceito, as críticas, as acusações, os olhares maldosos e principalmente a raiva que a família dela vai sentir quando souber quem ela é. Veja o lado dela também. Eu sei que não é fácil, mas tente! — usa o tom mais firme possível, fazendo Manu respirar fundo e engolir a mágoa.

— Desculpa, Louise. Não queria te envolver nos nossos problemas. Já bastam os que temos nos preocupando com esse maldito desaparecimento da Lavínia. — Ao ouvir o nome de sua melhor amiga, Louise sente um aperto no coração, mas está decidida a não se deixar abater.

— Que é isso? E pra que servem as amigas? — sente-se compensada ao ver que suas palavras puderam tranquilizar, ao menos por enquanto, os ânimos acalorados da ruiva.

— Nossa, você ainda tá aqui?! — Vicky fala entrando novamente no quarto e se sentando ao lado de Manu, que evita lhe olhar para que ela não perceba a sua emoção, atitude inútil, pois o radar da morena é ativado no mesmo instante e ela capta tudo.

— Sim, mas eu já tô saindo. Só tava vendo se não tinha esquecido nada. Então tchauzinho pra vocês... e juízo! — diz a última frase olhando diretamente para Manu.

Assim, Louise sai, deixando as garotas em um clima meio tenso.

⊱✥✥⊰

Ao se aproximar, Louise pode ver muitas pessoas e carros estacionados na área em frente à casa, onde também decide deixar a sua motocicleta. Ela desce, retira o capacete, já se arrependendo de tê-lo trazido, pois andar com o trambolho nas mãos será um incômodo, mas agora não tem mais jeito. Enfia-o no antebraço esquerdo e passa as mãos pelas madeixas negras e lisas, enquanto caminha em direção à moradia.

Escuta som eletrônico alto vindo da república em questão, que está com as luzes todas acesas e vê mais pessoas na varanda, nos degraus que conduzem à porta de entrada, onde podem ser vistos uns balões dependurados, com as cores vermelho e preto. Alguns copos descartáveis já se encontram no chão e lenços com restos de comida também. Todos riem e conversam animadamente.

Louise procura enxergar entre as pessoas o rosto do garoto que a convidou para aquela festa, tentando lembrar-se do nome dele. Olha para um lado, depois para o outro e nada.

De repente, ela observa a aproximação de um rapaz. Ele tem pele morena, cabelos castanhos, lisos e bem curtos, um pouco espetados para cima, sobrancelhas negras espessas, bem-feitas e lindos olhos penetrantes. Parece ter pouco mais vinte anos e medir mais de um metro e setenta de altura, divididos num corpo jovem, atraente e viril. Veste camisa polo com listras largas e horizontais, nas cores azul-marinho, branco e cinza, com gola azul, calça jeans e tênis cinza-escuro.

“Lindo de viver!” Louise pensa imediatamente, ao vê-lo sorrir para ela, começa a imaginar que morreu e foi direto para o paraíso.

Súbito, ela experimenta uma sensação de Déjà vu, mas lhe parece absurdo sentir aquilo, pois tem certeza de nunca ter visto aquele rostinho lindo na vida, se isso tivesse acontecido certamente lembraria. A não ser que estivesse muito louca ou muito bêbada. Começa a imaginar, assustada, que a última opção é uma possibilidade, então retribui com um sorriso amarelo.

— Você parece perdida. — Ele fala com voz máscula e bem articulada, simpático.

— Mais ou menos. É... é... que estou procurando uma pessoa... e... — “Espero que ele não esteja aqui, porque você é tudo de bom e tem a voz mais linda do mundo!”. Admite que o que mais a atrai em um homem, além do fato de que tenha que ser bom na cama, é ter voz bonita.

— E por quem você está procurando? — Pelo modo como ele falou e a olhou, Louise quase teve a impressão de que ele queria ouvir: você!

— É... o Jonas! — “Lembrei!”. Ela fica feliz por não ter que lhe dizer que nem ao menos lembrava o nome de quem procurava.

Mas, antes de ele proferir mais alguma coisa, eis que surge às costas de Louise o tal Jonas todo sorridente.

— Louise, você veio. Que bom! — está entusiasmado por vê-la.

— Ah! Oi... Jonas! — Ela é forçosamente alegre.

Jonas beija-a de um lado e outro no rosto, realmente empolgado.

— Vejo que já conheceu o Dico. Ele é o aniversariante do dia e o nosso líder aqui... Cara legal pra caramba! — O garoto passa os braços ao redor dos ombros do mais velho e os pressiona amigavelmente, demonstrando sua admiração por ele.

Dico, por sua vez, parece um tanto surpreso ao saber que é Jonas por quem a bela garota procurava e a olha meio constrangido.

— Ela tava te procurando, mas agora já achou. Então, Jonas, por que não a leva para conhecer outras pessoas, se familiarizar com o ambiente e quem sabe beber ou comer algo? — fala com Jonas e depois se volta para Louise. — Foi um prazer falar com você... — faz pausa esperando que ela lhe diga seu nome.

— Louise... meu nome é Louise. — experimenta um calor estimulante tomar seu corpo ao dar a ele a mão para um aperto cordial.

— Agora, se me dão licença, vou falar com uns amigos que avistei há pouco. — diz já se afastando dos dois e se misturando às demais pessoas.

Louise assiste-lhe aproximar-se de dois rapazes que estão só um pouco mais adiante de onde ela e Jonas se encontram e se admira ao ver uma garota loira passar os braços ao redor de sua cintura e lhe depositar um beijo no rosto. “Deve ser a namorada dele”. Ela conclui mentalmente.

Após, vê-se sendo carregada para um canto onde há uma mesa razoavelmente espaçosa, coberta por um pano com estampas claras. Por cima dela há copos descartáveis, pratos e talheres plásticos, lenços de papéis, brigadeiros, salgadinhos variados, um bolo grande, já pela metade, bem no centro, enfeitado com as cores do time de futebol Flamengo. Há ainda alguns copos de vidro também, com cerveja e outras bebidas.

Jonas faz com que ela se sente em uma das raras cadeiras que estão desocupadas, sentando-se também ao seu lado.

— Diz aí, Louise, o que é que você quer beber?

— Pode ser refrigerante. — põe o capacete em um cantinho vazio da mesa. — Pra falar a verdade, eu tô mesmo é com fome... É que saí de casa sem jantar.

Jonas, então, diz-lhe que coma o quanto quiser das coisas gostosas que estão ali. Louise come um pouco e bebe do refrigerante gelado que ele busca na cozinha. Ele é atencioso e solícito, está feliz demais por ela ter vindo.

Entretanto, a sede por álcool de Jonas logo é percebida por Louise, que acha estranho um rapaz tão novo beber desse jeito. “Ele entorna os copos de cerveja como eu, os de refrigerante”, pensa, ao vê-lo encher até o topo mais um copo. Logo, porém, ela entra no clima e aceita também um pouco de cerveja.

— Pensei que fizesse o tipo antiálcool. — Ele fala, contente, por vê-la beber cerveja com gosto também.

— Eu? Não... Só não gosto de me exceder, ainda mais quando tô de moto. — sorri e aponta com a cabeça na direção do capacete sobre a mesa.

— Você é muito bonita e deve ouvir isso o tempo todo. — Jonas solta espontâneo e algo safadinho.

Louise desvia o olhar, agora achando graça na tentativa fraquinha dele de se exibir como um experiente galanteador.

Jonas, supondo que ela está interessada por ele na mesma intensidade que ele por ela, ousa aproximar o rosto e lhe dar um beijo, que é quase apenas um colar de lábios. Louise aceita a carícia. “O que importa! Eu tô precisando distrair a mente e esquecer os problemas.”, afirma para si mesma.

O selinho se torna um beijo de verdade e ambos ficam assim a se beijar de vez em quando, só parando para conversar alguma banalidade ou para ele voltar a entornar mais copos de cerveja.

Após uns instantes, Jonas cochicha-lhe algo ao pé do ouvido e se levanta, segurando a mão dela para que o acompanhe. Ela é rápida, pega o capacete de cima da mesa e o segue.

“Que é que tem? Eu quero transar e ele não parece tão ruim pra isso.”, reconhece que não tem nada a perder ao fazer sexo sem compromisso com um carinha simpático que lhe salvou a vida mais cedo.

Eles passam pelas pessoas e entram por um corredor, tendo uns poucos quartos distribuídos nos dois lados. Ali também estão algumas pessoas bebendo, conversando ou namorando. O quarto de Jonas fica no canto à direita. Há um casal agarrado e se acariciando, encostados na porta fechada.

— Será que dá pra irem transar em outro lugar? — A voz engorolada pelo álcool de Jonas consegue ser firme o suficiente para espantar os coitados, que se afastam praguejando baixinho.

Com movimentos lentos e um tanto desconexos, ele enfia a mão nos bolsos de trás da calça jeans, procurando a chave, não a encontra. Retira e enfia novamente nos da frente, também nada. Diz palavrões em tom baixinho e volta a meter nos bolsos da frente, dessa vez ele fuça bastante até encontrá-la.

Abre a porta e dá espaço para Louise entrar, entrando também ele em seguida. Acende a luz e fecha a porta.

Louise vai logo buscando um lugar para pôr o capacete, coloca-o sobre o criado-mudo ao lado de uma cama de solteiro, pois havia duas no quarto.

Voltam a se beijar mais animadamente.

Ele lhe tira a jaqueta, arremessa-a no chão, beija-a de novo e a abraça, fazendo-a reclinar-se na cama. Os movimentos dele, porém, são arrastados e atrapalhados, tudo efeito do álcool.

Vendo que ele não iria conseguir sozinho tirar a blusa dela, ela mesma o faz, assim como faz com a dele. Novos beijos molhados acontecem e, para Louise, a coisa começa a ficar interessante.

Mas, do nada, ele põe a mão por cima da calça, na região do seu membro, e faz uma cara engraçada, na verdade uma careta.

— Eu.. quero fazer... xi.. — As palavras saem com dificuldade devido à embriaguez.

— Você quer o quê? — Ela não entende muito bem o que ele quer dizer.

— Mijar! Eu quero... mijar. — Ele mesmo se irrita por ter de interromper o que estão fazendo por causa da sua bexiga cheia e sua voz soa um tanto contrariada. Completa: — Puxa! Desculpa, Louise. Eu... eu volto já... já. — sai de cima dela e cambaleia até à suíte do quarto. Entra, deixando a porta com uma pequena abertura.

Louise escuta seus movimentos desastrosos da cama, mas apenas ri. “Que menino trapalhão!”. Ela assume que se não estivesse tão necessitada de sexo, nem cogitaria ficar com um garoto como ele, pois Jonas definitivamente não é o tipo que lhe agrada. Considera-o muito moleque para ela, ao contrário do ser maravilhoso que a havia abordado assim que chegou na festa. “Que olhos lindos! Hum... E que voz!” Seu pensamento se volta para Dico. Ela ri novamente ao se imaginar fazendo sexo com ele. “Ai... aposto que seria bom!”. No entanto, ela está ali, com o bebum meninão, que não volta mais do banheiro.

— Ei! Cadê você? — quase grita, tentando fazer a sua voz não soar muito estridente. Percebe que Jonas está há minutos sem voltar de lá.

Não obtendo resposta, levanta-se e vai conferir.

Quando empurra a porta do banheiro, ela vê uma cena que a deixa enojada e quase com pena. O garoto está sentado no chão, ao lado do vaso sanitário, com as pernas esticadas, a cabeça encostada na pia e na parede. Tem a boca aberta e os olhos fechados. Dorme e ronca baixo. Mas o pior de tudo é que está com as calças arriadas até ao meio das pernas, com o pênis, meio duro meio mole, para fora e afogado na urina. Exageros à parte, está de fato molhado e a urina espalha-se manchando-lhe as calças por baixo e as pernas rentes ao piso.

Por um lapso de segundo, Louise pensa em chamá-lo, mas pondera mais um pouco e nota que é melhor não. Vai que ele, ao acordar, queira retomar o sexo interrompido e isso seria a última coisa que ela iria querer depois de tê-lo visto nestas condições deploráveis.

Devagarinho, sem fazer barulho, ela encosta a porta do banheiro. No quarto, busca e veste a blusa, depois pega do chão a bolsa, transpassa a alça sobre os ombros. Busca também a jaqueta, dobra-a e a acomoda ao antebraço. Tira de dentro da bolsa o batom gloss, desenrosca a tampa e passa a substância vermelha sobre os lábios. Ajeita os cabelos com os dedos.

Respira fundo, tira a chave da parte de dentro da porta. Abre-a notando que o som fora do quarto está mais alto do que antes. Fecha a porta com a chave e caminha pelo corredor de volta ao movimento mais intenso de pessoas na sala.

Procura com os olhos o moço lindão, que atende pela alcunha de Dico, olha para um lado e outro do ambiente e, por sorte, o vê encostado a um canto da parede, conversando com um rapaz de aparência interessante, cabendo no que se diz de um estereótipo de nerd.

Quase que por sortilégio, Dico nota-a e lhe sorri timidamente, porém, pensa em desviar o olhar, afinal, não é certo ficar trocando olhares com a paquera de um amigo.

Louise faz sinal para que ele pedindo que se aproxime.

Mesmo achando um pouco estranho o chamado, ele caminha na direção dela. Ela fala algo, mas ele não entende nada e vice versa.

O som é infernal!

Vendo que não teria como compreender o que ela quer dizer e nem ela o entenderia, ele a conduz, segurando-a pelo braço, atravessando as pessoas.

Fora da casa, eles sentem um alívio imediato, através do clima agradável, uma vez que o movimento de pessoas é bem menor e o som também é menos incômodo.

O vento sopra. A lua está cheia e brilha lindamente no céu, fazendo a noite parecer estar sob efeito de uma magia.

— Esses filhos da mãe só gostam de escutar som estourando os ouvidos, ainda mais quando estão bêbados. — O som harmonioso da voz de Dico é alegre.

— E você não está?

— Bêbado?

— Sim.

— Não... não estou. Eu bebo pouco, se quer saber.

— Hum... — “E as qualidades só aumentam!” Ela lhe sorri, perguntando-se o que mais o homem charmoso possui de bom. — Pois é, com um som alto desses, acho que vou sair daqui um pouco surda. — resolve mudar de assunto, desviando os olhos.

— Já vai embora? — demonstra desapontamento.

— Acho que sim, não estou curtindo a festa tanto como pensei. — resolve ser sincera enquanto passa a mão sobre o cabelo, sinal de impaciência. — Não é a festa em si, acho que... sou eu.

— Não vai agora não. Fica mais um pouco, quem sabe depois melhora. Você parecia estar gostando, pouco tempo atrás... quando te vi aos beijos com o Jonas. – A insinuação ecoa um pouco maldosa.

— O Jonas! Ai, meu Deus! Eu quase me esqueci dele... nossa! — dá um tapa na própria testa.

— Jura? Mas vocês não são namorados, paqueras, ficantes ou algo do tipo? — Para ele, chega a ser irônico, pois imagina que o garoto e ela têm mesmo algo a mais.

— Não, imagina! Nós nos conhecemos hoje, por acaso. Foi meio inusitado, sabe, nós conversamos um pouco, ele gostou de mim e me convidou pra esta festa e... eu vim, acreditando que seria legal. — nota a expressão de dúvida na cara dele. — É sério! Tá, tudo bem, rolou uns beijinhos, nós fomos pro quarto dele, pelo menos ele disse que era dele... então falou que queria mijar, foi ao banheiro e dormiu. Eu mesma vi. Ele está lá, no chão do banheiro, com as calças arriadas e dormindo... literalmente dormindo!

Louise ri tanto que parece que está contando uma piada.

Dico olha-a entre sério e duvidoso por um instante e depois ri também.

— Tá aqui a chave do quarto dele. — Ela continua. — Eu o tranquei por fora. Não me olha assim! Foi para o próprio bem dele, se alguns daqueles bêbados loucos resolvem invadir o quarto e o pegar naquelas condições, vão aprontar muito com ele.

Dico faz sinal positivo com a cabeça, concordando com o que ela diz.

— Uhum... Então é verdade que você e ele não têm nada? — pergunta-lhe seriamente enquanto põe a chave que ela lhe entregou no bolso.

— Eu já disse que não! — sente-se um pouco agoniada pelo modo como ele a questiona. Passa a mão novamente pelo cabelo escuro e o olha, enfadada. — Nós... só ficamos... e eu confesso que ele não é nem o meu tipo.

É a vez de Dico fixar os olhos em Louise, sem falar nada, apenas deixando os olhares de ambos se encontrarem.

Louise começa a sentir-se constrangida com a troca de olhares.

— É... acho que é melhor eu ir. — diz, mas permanece parada olhando-o.

— Mais que merda, Louise! — solta, de repente. — Não vai mesmo se lembrar de mim? — Há certa indignação no tom de voz dele.

— Como é que é?! O quê? — Ela fica confusa.

“Ai, meu Deus do céu! Eu transei com ele e esqueci! Só pode ter sido numa festa pior do que esta aqui, onde eu bebi feito uma louca pra não me lembrar de um deus grego desses.” Louise sente-se frustrada ao imaginar tal possibilidade.

— Eu sei que eu mudei bastante desde que nos vimos pela última vez, mas eu imaginei que depois de alguma conversa a sós, como estamos tendo agora, você lembraria.

— Olha, se nós nos conhecemos de alguma balada qualquer, é provável que eu tenha bebido um pouco mais e isso explicaria o fato de eu esquecer alguém tão... tão legal e gente boa... como parece que você é. — gostaria de dizer “tão gostoso”, mas controla a língua a tempo.

Dico sorri, balançando a cabeça em sinal de negação.

— Então vamos ver se eu refresco a sua memória. — resolve, por fim, revelar a sua identidade para ela. — Nós, dois adolescentes... e você perdendo a virgindade na cama dos seus pais. E aí? Lembra?

Ao ouvir isso, Louise fica estática, sente-se retrocedendo no tempo, impressionada com as voltas que a vida dá, fazendo-a reencontrar uma pessoa há muito perdida em seu passado.

— Nan-Nandinho?! É você mesmo? — está completamente surpresa.

— Eu mudei tanto assim? — questiona num meio torcer de boca.

Mas ele sabe que sim, sua mudança foi física e mental.

— Eu jamais saberia que era você se não tivesse dito. — admite.

Louise, porém, recorda-se da sensação de Déjà vu que experimentou assim que o viu no início da noite, ao chegar à festa.

— Eu notei isso... mas eu sei que foi porque eu mudei mesmo. A minha vida mudou desde que eu deixei a casa da minha tia... Você lembra que eu morava com uma tia?

— É... eu tô lembrando de muita coisa. — Agora que ela sabe ser este à sua frente o Nandinho, suas memórias juvenis vão sendo resgatas de uma vez, ainda mais porque, em sua época de adolescente, todos no ambiente escolar e da vizinhança sabiam muito uns sobre os outros.

— Então... Ela era uma megera, não parecia gostar de me ter na casa dela e isso piorava as coisas pra mim, porque eu sentia muita falta dos meus pais. Odiava que eles não estivessem mais comigo. E eu me revoltava contra tudo e contra todos. — faz uma pausa e fixa os olhos em Louise, seriamente. — Por isso que eu fui um cafajeste, um calhordazinho fazendo o que fiz com você.

— Do que você tá falando? — inquire, embora suspeite bem sobre o que ele se refere.

— Do que você sabe, sim, Louise. Eu espalhei pra todo mundo na escola o que houve entre nós na casa dos seus pais, eu fiz todos olharem pra você como se tivesse uma doença contagiosa... como se fosse uma puta sem valor. Eu sei que seus pais te transferiram de escola por causa disso. — afirma, em tom de remorso.

— Tá! Chega! Tudo o que você disse é verdade, mas... você nunca parou pra pensar que eu planejei aquilo? — solta as palavras de forma tranquila, assustando-o.

— Não, não mesmo... Nem vem com essa! Você era virgem, Louise, eu sei que era.

— E daí?

— Daí que uma garota virgem, inexperiente de tudo, jamais planejaria aquilo. E pra quê faria isso? — Para ele é ilógico.

— Ok! Eu desisto, esquece. O fato é que eu não sofri por causa daquilo, não me incomodei nem um pouco com os comentários maliciosos. — Ela remexe sem parar os dedos nos cabelo e bufa, sentindo-se agoniada com o rumo da conversa.

— Mas eu sim... e por isso que eu te procurei um tempo depois. Eu fui na tua casa pra te pedir perdão e soube pela vizinha ao lado que vocês tinham se mudado. Eu quis tanto que você soubesse que eu tava diferente, que eu vivia agora com o meu tio e a esposa dele. Ele, o meu tio Santiago, estava de volta ao Brasil, vindo dos Estados Unidos pra morar de vez aqui. Ele me ajudou muito, Louise, me mostrou o que é ser parte de uma família novamente... me tratou como um filho de verdade e me fez querer melhorar, estudar, crescer, ser gente. Ele me fez querer mudar.

— Nossa! Que história bonita... e que bom que você se livrou daquela bruxa da sua tia. — ri para descontrair o clima algo tristonho que o relato dele provocou. — Mas, contaí... Como você descobriu que eu era virgem? Eu achei que tinha disfarçado bem.

— Pois saiba que disfarçou bem mal. — É a vez de ele rir. Em seguida, olha-a com certo embaraço. — É claro que eu percebi, Louise, você tremia que nem vara verde... sentiu dor... e eu não sou cego... eu vi um pouco de sangue na colcha da cama, depois que nós terminamos.

Louise continua sorrindo e acha fofo vê-lo com vergonha.

— Você percebeu tudo mesmo. — balança a cabeça em sinal positivo. Dirige-lhe um olhar sensual, enquanto se aproxima ousadamente. — Mas eu também mudei, não sou mais aquela garotinha virgem... eu aprendi um bocado nesses quase dez anos em que estivemos longe um do outro.

— Mas eu reconheci você imediatamente, pra mim você tem a mesma aparência, só que tá mais... mulher. — Quase disse “gostosa”, mas achou que seria grosseiro.

Ele experimenta uma forte vontade de abraçá-la, de beijá-la, só para confirmar a impressão.

Como se captasse o desejo dele, Louise sente um frêmito se apossar dela. O bichinho da compulsão começa a coçar e ela se deixa levar por ele.

Agindo por impulso, ela aproxima o rosto ao dele, fazendo as bocas ficarem a ínfimos centímetros, podendo sentir-lhe o hálito agradável.

— Eu vim pra essa festa com a intenção de esquecer uns problemas pessoais... transando com aquele garoto ou com qualquer um que desse certo. — diz, sem medir as palavras atrevidas. Dico, de fato, surpreende-se com o jeito direto e despachado dela, mas não desvia o olhar, pois se sente ainda mais fascinado com os belos olhos negros que o olham com luxúria. E ela continua: — Mas quando eu bati os olhos em você, sem ao menos ter noção de quem era, eu soube que essa noite tava perdida, eu não ia gostar de ficar com mais ninguém.

— Louise... — Dico fala como quem quer alertá-la de algo. Porém, ele sente uma vontade intensa invadir seu corpo.

— Então, não tá a fim de saber como seria transar comigo de novo? — faz a proposta curta e grossa, também pressentindo a excitação dominá-la.

Roça seus lábios nos dele e espera pela resposta.

⊱⊱✥⊰⊰

Notas finais
Comentários... Sejam bem-vindos!