[HIATUS] Mudanças impuras
11 Medo de amar
Notas iniciais
— Tem certeza que quer isso, Louise? — Dico sente o corpo em chamas de tesão ao envolvê-la pela cintura e corresponder ao seu beijo doce, sem uso de línguas, apenas para constatar que os dois querem o mesmo.
Como resposta, Louise sorri de forma travessa e torna a beijá-lo.
Desta vez coloca a língua dentro da boca de Dico, busca reconhecer o seu sabor, estimulando-o mais.
Mas a seguir abandona-lhe a boca para deslizar os lábios para perto do lóbulo da sua orelha. Dá uma mordidinha de leve, fazendo os pelos do corpo do rapaz ficarem eriçados. Ele suspira de prazer.
Louise encara seus olhos castanhos com ar superiormente provocativo.
— O que foi? O Nandinho com fama de pegador que eu conheci no passado não pensaria duas vezes. Será que você mudou tanto assim?
Mais uma vez, Dico parece hesitar um pouco. No entanto, após averiguar o movimento da festa, ele se decide.
— Certo, então vem comigo. — puxa-a pelo braço, fazendo-a caminhar uns metros, para uma moradia vizinha à que estão, que também é referente a uma república estudantil.
Eles param bem diante da porta de entrada.
— Por que me trouxe pra cá? A sua república não é aquela? — Ela diz apontando na direção de onde ocorre a festa.
— Tem muito barulho lá e aqui nós vamos ficar mais a vontade. — retira de dentro do bolso um molho de chaves enquanto olha para Louise para confirmar se ela não havia desistido. Ao ver que não, separa uma chave entre as outras e enfia na porta, abrindo-a em seguida.
— Não tem mais ninguém aqui? Como você tem a chave? — Curiosa, faz as perguntas.
— Todos que moram aqui estão na festa. Bem... e eu tenho a chave porque o líder dos garotos aqui é meu primo. Talvez você até se lembre dele, porque ele é filho da tia com quem eu morava. — Ele responde, ao mesmo tempo em que acende a luz, fecha a porta e passa novamente a chave nela.
— Hum... é, acho que me lembro sim, mais ou menos.
— Deixa pra lá, isso não importa. Vem. — chama-a, após pensar um pouco e resolver levá-la justamente ao quarto no qual o primo dele dorme, já que é o mais amplo e tem uma cama de casal, um capricho que o primo não abre mão, mesmo tendo que ver o seu colega de quarto espremido a um canto, numa simples cama de solteiro.
Mal Dico e Louise adentram o quarto, já retomam os beijos parecendo afoitos para se entregarem de vez ao momento prazeroso.
Ela joga para longe a jaqueta que segurava, assim como faz com a bolsa. Ele retira a camisa dela e lhe apalpa os seios com as mãos enquanto desce com a boca por seu pescoço, mostrando de fato uma vontade imensa de reviver o que houve entre eles e de substituir a lembrança passada – que não o agrada como deveria – por uma bem melhor.
Louise exibe logo a sua habilidade no quesito atrevimento, puxa a camisa dele e a afasta do corpo desejado por cima da cabeça, sempre tateando cada canto de pele exposta do peito razoavelmente malhado, arfando de contentamento.
Dico começa a tentar tirar o short-saia dela, mas tem dificuldade por não achar o zíper, que está escondido.
Ela ri ao vê-lo sem paciência, quase rasgando o tecido.
— Opa... Calma! Eu tiro. — afasta uma aba da veste ao desabotoá-la e expõe o zíper. Abre-o, desce o short sensualmente e, sob o olhar de admiração dele, lança a roupa ao alto para qualquer canto.
Louise usa neste momento apenas uma calcinha rendada em tom vermelho-escuro.
“Uma visão e tanto!” Dico admira-a, gosta da pele alva, dos seios bem-feitos, não muito grandes, do rosto de traços bonitos, firmes e perfeitamente femininos, dos cabelos curtos, pretos e lisos, que combinam bastante com a sua personalidade moderna, prática e ágil.
— Eu proponho o seguinte agora... eu tiro a calcinha... — Ela faz que vai tirar, provocando-o mais, mas não tira. — depois que você tirar tudo pra mim. Primeiro eu quero ver você peladinho como veio ao mundo...
Ao ouvir a sugestão, Dico fica vermelho de vergonha, pois, a verdade é que, mesmo que ele tenha, por uma ironia do destino, adquirido fama de safadinho pegador na escola, é realmente um sujeito introvertido, que se viu, na época, sendo levado pelas circunstâncias do momento e que, quando ficava com alguma garota, era só mais uma forma de obter atenção e carinho, coisa que não tinha em casa. Sempre foi algo acanhado mesmo, embora hoje em dia disfarce quando é necessário. Em algumas ocasiões, isso lhe é até um problema, especialmente por afetar seu desempenho na área de estudo que selecionou, de publicidade e propaganda.
Ele sorri, constrangido, mas aceita o desafio, por estar muito a fim de agradar a garota fascinante, que ele nunca imaginou rever na vida.
Lutando contra a própria timidez, Dico começa a abrir e a baixar a calça jeans, sob o olhar criterioso dela.
Louise encara-o e percebe a hesitação dos movimentos dele. “Ele é tímido!” Reflete que isto para ela é uma novidade, pois não se lembrava de um Nandinho tímido, só de um garoto atirado, que saía com várias garotas ao mesmo tempo.
Dico fica de cueca.
Ao observá-lo com a peça íntima clara, que dá a entrever um membro potente, ereto e grosso por baixo, Louise não resiste à vontade de voltar a agarrar Dico. Ela deixa o jogo de strip-tease de lado e passa os braços ao redor do seu pescoço dele, beijando-o com grande ardor.
Ele lhe corresponde com a mesma intensidade.
Os dois terminam de despir um ao outro.
Os corpos nus se abraçam e sentem uma excitação aumentar.
Sempre com os braços em volta dela, Dico trata de conduzi-la para a cama. Não deixando de beijá-la um segundo sequer, ele a faz deitar-se e se acomoda sobre seu corpo.
— Nossa... Você tá linda demais, Louise! — sussurra-lhe ao ouvido e ela ri gostando do galanteio e sentindo cócegas por ele roçar um prenúncio de barba em seu pescoço.
— E você tá muito gostoso! — devolve o sussurro em igual tom de ânimo, querendo dizer que antes, na época de escola, não tinha visto tantas qualidades como agora.
Dico abocanha-lhe os lábios com paixão. Ele ama notar que o corpo dela reage de modo mais carnal a cada segundo abrasando-o por meio de uma esfregação íntima e excitante.
Entretanto, de repente, Louise empurra-o delicadamente, fazendo parar as carícias.
— A camisinha! — solta. Para ela, usar preservativos é fundamental.
— Puta merda! Que droga! Desculpa... É que eu não sei se o meu primo tem aqui e eu não ando com nenhuma comigo... digo, nos bolsos. — parece aflito já buscando na mente uma alternativa mais rápida possível.
Louise libera uma gargalhada ao vê-lo desse jeito.
— Eu tenho, seu bobo! Na bolsa... sempre trago comigo. — anuncia.
Dico sente uma espécie de incômodo ao imaginar as razões de ela andar com preservativos, mas se obriga a ficar quieto para não esmorecer o clima.
Louise levanta-se e caminha nua pelo quarto até encontrar sua bolsa, no chão. Abaixa-se e a abre tirando de dentro uma das camisinhas. Ela não demonstra o menor constrangimento, o que deixa Dico admirado mais uma vez. Todas as garotas que ele havia conhecido eram o oposto, sempre escondendo suas nudezas de um olhar mais minucioso por mero charme, fazendo-se de tímidas, ou por uma vergonha autêntica.
Louise, porém, age com tal ousadia porque, apesar de não se considerar lá essas coisas de beldade, realmente não gosta de fingir-se de acanhada só por isso. Pensa que, se não possui os atributos ideais, a culpa é da própria natureza, e não dela.
Dico, por sua vez, enquanto avalia-a por inteiro, fica bastante deslumbrado e pensa que ela é perfeita fisicamente.
— O que foi? — Ela pergunta, ao vê-lo olhando-a com fixidez.
— Nada, nadinha... só tô apreciando a paisagem. — faz cara de inocente. Está com os braços apoiando a cabeça acima da almofada e as pernas cruzadas. Pareceria bem relaxado se não fosse o volume alto e grosso, entre suas pernas, indicando a tensão animadora.
— Então tá. — Louise fala como quem não liga. Volta para perto dele, na cama, estende a mão para entregar a camisinha, mas retrocede no ato. — Deixa comigo... eu coloco. — Mais uma vez sorri, ao ver que ele demonstra certa vergonha.
Louise sobe na cama, fica entre as pernas dele e se abaixa à altura do membro rígido, com a embalagem do preservativo entre os dentes, pensando em rasgar de ladinho para abrir, porém, muda de ideia e bola um plano melhor, põe a camisinha ao lado de seu corpo e, sem pedir permissão, começa a beijar a virilha alheia, a cheirar as redondezas, até que passa a língua pelo saco escrotal e segue com ela para a base do pênis, enfiando a boca, chupando-o sem pudor algum.
Dico surpreende-se, mas logo se deixa levar pela sensação de prazer. Sua cabeça pende para trás e ele aproveita o sexo oral gemendo algumas vezes, ao passo que estende uma das mãos para colocar os dedos entre os cabelos curtos e macios dela, pressionando levemente, pedindo sem verbalizar que ela continue o movimento.
Entretanto, Dico cuida em não deixar que o faça chegar ao clímax ainda, pois não quer arriscar-se a desagradá-la, gozando em sua boca, quer fazer tudo da melhor forma pra ela desta vez.
— Ah... Louise... por favor, para. — solicita, com voz grave, quase sumida, ao sentir que não iria suportar por muito tempo mais.
Ela entende a mensagem, cessa os movimentos, pega e abre a embalagem, retirando de dentro o preservativo, que coloca no pênis totalmente preparado dele.
Antevendo-lhe a ação, Dico não deixa que ela monte sobre ele, segura-a e a faz deitar-se na cama. Acomoda seu corpo sobre o dela, afasta-lhe as pernas para recebê-lo e, antes de penetrá-la, dá-lhe um beijo molhado, quente e voraz.
Louise sente o corpo queimar de desejo, por isso ela mesma o puxa, com os braços e as pernas forçando-o a penetrá-la de uma vez.
Dico então inicia os movimentos de vai e vem dando breves empurrões no corpo febril de Louise.
Eles se acariciam e se beijam, enquanto suam por causa do esforço. Os beijos se intensificam mais, os solavancos também ganham mais ritmo e, após uns minutos, Louise já pronuncia baixinho algumas sacanagens, fazendo Dico rir entre os beijos que lhe oferece, tendo a certeza de não estar com uma amante comum, e sim com uma mulher que sabe o que quer e não tem vergonha alguma de se expor.
Louise desprende um gemido culminante e seu corpo cede ao cansaço. Rendida, ela o deixa terminar o ato sexual, o que ocorre em seguida. Dico levanta a cabeça e solta um clamor prazeroso. Relaxa aos poucos, busca ar e encosta outra vez os lábios nos dela sem beijá-la, só percebendo-lhe a respiração ofegante como a dele e o cansaço em seu corpo satisfeito.
Dico soergue o corpo, sai de dentro dela, decai para o lado, tira a camisinha e se levanta. A vergonha lhe dá folga neste momento. Ele vai à suíte do quarto e joga o preservativo usado no cesto de lixo.
Quando retorna ao quarto, surpreende-se. Ele vê Louise em pé já catando os pertences dela.
— Nossa... Que pressa! — fala o mais cordial possível e tenta disfarçar o desapontamento.
Louise não responde de imediato. Termina de reunir suas coisas e, antes de começar a se vestir, tira de dentro da bolsa o celular, passando o dedo sobre a tela e vendo a hora através do visor.
— São quase três horas da manhã! — Ela finge admirar-se da hora, mas, na verdade, algo dentro dela a alerta a se afastar deste homem o quanto antes.
O instinto de Louise, de fato, parece dizer: Perigo, perigo, perigo! Não se apaixone, não se apaixone, não se apaixone!
— Vai pelo menos me dar um beijo de despedida dessa vez, não é, Louise? — Sua voz sai um pouco irônica.
Porém Dico, resolve também catar suas roupas e se vestir.
Ela, que já havia devolvido a calcinha ao corpo, veste a blusa.
— Olha... eu disse que queria transar e esquecer uns problemas. Você foi ótimo e me ajudou nas duas coisas. Agora eu tô cansada, só quero minha cama pra dormir. — A frieza dele impressiona Dico.
— Que bom saber que eu fui útil. — Mais uma vez seu tom de voz sai irônico, irritando a ele próprio. Ele termina de fechar o zíper da calça jeans e de abotoá-la. Pega a camisa e a joga sobre o ombro esquerdo. — Vai ao menos me dar o seu telefone? — “Que droga, tô me sentindo um objeto sexual!”, aborrece-se mais.
— Pra quê? Pra você me contar sobre as suas mudanças? Pra nos conhecermos melhor? Acho que o que tivemos aqui foi o suficiente... não acha? Quer saber, eu conheço carinhas como você. São sempre gentis, educados, simpáticos... mas quando topam com uma pessoa como eu, o encanto só dura até eu querer ser eu mesma!
— Do que você tá falando? — franze o cenho.
— Eu gosto de ser livre, não sou fiel e adoro sexo sem compromisso, como o que tivemos agora. E aí, ainda quer o meu telefone? — Também cruza os braços e o olha diretamente, desafiando-o.
A visão que Dico tem é para ele muito bela. Ele olha com aprovação para Louise trajando calcinha vermelha e blusa da mesma cor, só que num tom mais claro, e exibindo no rosto uma linda expressão combativa. Tudo isso o faz querer agarrá-la novamente para começar outra sessão de sexo. Contudo, ele se contém.
— Bem, eu só imaginei que, como nos reencontramos e... foi bom demais. Eu não sei... só não quero te perder de vista de novo. Que droga, Louise! O que tem de errado nisso? — bufa e bagunça os cabelos, impaciente.
Louise respira fundo.
— Você nem anda com o seu celular... Como vai registrar o meu número, seu bobo? — Sua voz agora é complacente.
— Não seja por isso. — Ele remexe em uma mesa de estudo que está diante das duas camas, rasga um pedaço de papel de um caderno e alcança um lápis. — Qual é o número? — pergunta com o lápis a postos, assim como o papel.
Não vendo outra opção, Louise pronuncia os números, pedindo a Deus que ele perca o papel. “Ele vai me dar problema!” Seu alerta interno continua a mil.
Ao terminar de anotar os números do celular e o nome dela em letras de forma, ele dobra com cuidado o papel e o coloca no bolso de trás da calça. A seguir, volta a lhe olhar, mas não sabe o que dizer.
Louise meneia a cabeça com um ar meio sarcástico.
— Espero que a sua namorada não seja do tipo ciumenta possessiva... — termina de se vestir ao abotoar o short-saia, busca a bolsa, pondo a alça sobre o ombro, e sustenta a jaqueta dobrada em seu antebraço.
Dico fica mudo, tenta mostrar-se desafetado.
No entanto, após um instante de reflexão, ele pressente que ela está “plantando verde para colher maduro”.
— Eu não tenho namorada. — declara.
— Ah... tá! Vou fingir que acredito. — Louise está, na verdade, buscando uma desculpa para se livrar dele, embora só neste minuto lembre-se da garota loira na festa que o envolveu com os braços e lhe deu um beijo no rosto de forma insinuativa.
— E você? Não tem mesmo ninguém te esperando em algum lugar? — Dico sente certo receio de ouvi-la dizer que sim.
— E se eu tiver? — testa-o.
— Tem? — A dúvida incômoda se instala.
— Não! — “Que droga, eu deveria dizer sim!” Ela não entende por que lhe diz a verdade.
— É sério? — Não resiste à vontade de confirmar.
— É! — anui, ríspida.
Seus olhares se confrontam e eles não compreendem ao certo o motivo, mas logo riem, vendo o quão tola e sem lógica é a discussão.
— Olha, mas é sério... vai mesmo querer me convencer que não tem namorada? — inquire, descontraída. — Se tiver, na boa, eu não me importo. Afinal, o que tivemos aqui não foi mais do que sexo. Não precisamos fazer disso algo mais importante do que na verdade é.
— E por que não? Você é uma garota maravilhosa, Louise, e eu vejo muitas razões pra querer te ver de novo, pra não perder o seu contato... e não é só pelo sexo. Ok, eu admito que me surpreendi um pouco ao ouvir você se descrevendo como alguém que foge de relacionamentos sérios... mas eu também percebi que você se tornou uma mulher alegre, linda, inteligente e decidida.
— Eu não fujo de relacionamentos, só não preciso deles. — Ela fica na defensiva, prefere se ater ao comentário que a desagradou e ignorar o impacto que sentiu ao escutar tantos elogios. — Dico... ou Nandinho, sei lá... Eu tô com sono e quero ir embora. Então dá pra encerrar o papo e me deixar ir?
— Claro que dá. — responde, agora no mesmo tom seco que o dela.
Sentindo-se mais uma vez usado, Dico encaminha-se à porta, abre-a, dando passagem para que ela siga adiante, o que Louise faz sem olhá-lo.
Ambos saem e ele fecha novamente a porta com a chave.
O céu está claro, quase sem nuvens, a lua cheia está um pouco mais distante, mas ainda assim luminosa. O movimento da festa também não é o mesmo, está enfraquecido, com pouquíssimas pessoas, algumas obviamente embriagadas.
Eles avistam um casal mais adiante, aos beijos, encostados numa árvore e Louise não contém o riso ao imaginar que pode ser o mesmo casal que estava, muitos minutos atrás, se agarrando, encostado na porta do quarto de Jonas.
— O que é tão engraçado? — Dico arqueia as sobrancelhas, ao vê-la sorrir.
— Nada não... deixa pra lá. — resolve não se prolongar em conversas sem sentido. — Bem... errr... Nandinho...
— Dico. — corrige-a deixando claro como quer ser chamado.
— Certo. Então, Dico, foi uma noite... interessante, mas agora chegou a hora de eu ir mesmo. Foi um prazer te reencontrar e... — enrola-se um pouco por não saber o que dizer.
— E você vai me dar um beijo de despedida. — anuncia, algo impositivo e jocoso.
Dico não espera por resposta, puxa-a pelos ombros para lhe dar um beijo simples e rápido de despedida. Porém, quando Louise coloca a mão sobre o seu rosto suavemente, ele avança com a língua, intensifica a carícia mais do que pretendia.
Louise pensa em afastá-lo, mas perde as forças no exato momento em que experimenta a pressão cálida, cheia de autêntica vontade.
Seus corações se aceleram.
Dico afasta as bocas.
— Agora pode ir. — fala em tom de ordem, embora haja um prenúncio de sorriso em seu rosto.
— Sim, senhor. — Louise brinca com o tom autoritário dele e faz uma espécie de continência. Depois, dá-lhe as costas.
Ao vê-la afastar-se em direção à motocicleta dela, Dico sente uma emoção nova.
— Eu te ligo!!! — grita com as duas mãos em concha sobre a boca.
Louise nada diz, apenas segue seu caminho, apesar de ter vontade de gritar em resposta que ele não faça isso. Em seu íntimo, algo a alerta de verdade sobre o perigo de se envolver com o homem educado, charmoso, que tem beijo gostoso, pegada firme, um voz linda e um olhar cativante, capaz de desconcentrá-la.
Para em frente à moto, veste apressadamente a jaqueta, monta-a ligando-a em sequência e partindo sem mais se voltar.
De repente, Louise sente medo de fraquejar, de se deixar envolver, se apaixonar, de permitir que seja derrubado o muro de segurança que ela tanto lutou para erguer durante os anos, a começar pela época de conflitos nas escolas em que estudou, em sua fase de adolescente, sendo vista como uma garota vulgar, do tipo rebelde sem causa. Recorda-se que com seus pais, seus medos não eram menores, que sua autodefesa se limitava a oferecer a eles um comportamento adverso. E eles não sabiam lidar com a filha revoltada, pois desconheciam o fato de que ela se sentia preterida diante do irmão, ou seja, que achava que eles preferiam ele, o queridinho, à ela, a má filha.
Louise brigou tantas vezes com os pais que um dia resolveu sair de casa, aos dezoito anos de idade, dizendo que já estava preparada para trabalhar e se sustentar sozinha. Não vendo opção, eles a deixaram ir achando que era pura pirraça dela, que logo ela voltaria e pediria para morar de novo com eles. Isto nunca aconteceu.
Embora não tenha perdido o contado com seus pais definitivamente, Louise distanciou-se o suficiente para arcar consigo mesma e com as consequências da sua decisão. Passou por inúmeras necessidades financeiras e emocionais, mas, obstinada e firme, conseguiu superar-se, trabalhando onde e como dava, tendo que estudar paralelamente, mas sempre dando as suas escapadinhas sexuais para amenizar o estresse diário.
Venceu a si mesma. Mas agora pressente o risco de tornar-se vulnerável por causa de uma única noite de sexo, devido a um reencontro que a impactou mais do que deveria. Sente-se uma idiota por estar tão preocupada em se apaixonar por um homem que ressurgiu em sua vida e que parece ter-se encantado muito por ela, ao ponto de não mais querer perdê-la de vista.
Louise corre com sua motocicleta pelas vielas da faculdade sentindo o vento soprar em seu rosto, os pensamentos a mil e uma vontade de se convencer de que não está abalada pelo reencontro com ele.
“Dico... Céus, que homem! Definitivamente, não é o mesmo garoto de antes. Eu tenho que ficar longe dele!"
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