[HIATUS] Mudanças impuras

30 Caldo entornado, conflito dobrado


Notas iniciais
Olha eu aqui outra vez! Que alegria poder postar este capítulo com menos demora! ❤ ◕‿ ◕✿゚ Bom, ainda bem que não tive muitos contratempos e "panes" na inspiração, não é? Gente, torço para que apreciem esta leitura e que continuem comigo. Devo, porém, alertá-los de que este capítulo possui em sua quase totalidade um enorme clima de tensão. Beijinhos! OBS.: Ah! E não posso deixar de agradecer imensamente, por ter feito a correção deste capítulo, à minha linda beta Estrela de Rubi, escritora de "Vítima do Amor" (Leiam! É o máximo! Um yaoi bom por demais e viciante, eu garanto!).

Lavínia olha para o celular sem crer na mensagem que ali está.

“Se você não aparecer ou der notícias no intervalo máximo de uma hora, tempo que será contado a partir do envio desta mensagem, eu a darei por desaparecida novamente e tomarei as providências cabíveis. Com amor, seu pai.”

Além da advertência explícita, há doze chamadas não atendidas oriundas do celular do senhor Gregory e nove, do telefone de Darlene, contabilizando a quantia de vinte e uma ligações perdidas. O fato é que, depois que a loira reapareceu, passou a receber chamadas telefônicas dos pais todos os dias, às vezes até duas ou três ligações num mesmo dia. E embora ela continuasse a tratar o pai com alguma frieza, não querendo ainda escutar a verdade sob a ótica dele, o tratamento com a mãe se tornara visivelmente mais agradável e com gentilezas de ambas as partes, o que tem sido uma surpresa maravilhosa para Lavínia.

Ainda sentindo certo nervosismo por conta da ameaça observada na mensagem, ela disca o número e aguarda.

— Alô? Lavínia? — A voz apreensiva do senhor Gregory se faz ouvir do outro lado da linha.

— Oi. Sim, claro que sou eu, pai. Não viu aí o número? Quem mais seria? – fala tentando impor um tom bem-humorado para amenizar a inquietação que percebe vir dele.

— Onde você está? — pergunta bruscamente.

— Na casa de uma amiga da faculdade. — afirma sem titubear.

— Que amiga? O que houve? Eu e a sua mãe ligamos para você uma centena de vezes e nada de você retornar! — demonstra estar mesmo embravecido.

— Olha, pai, como eu disse, estou na casa de uma amiga da faculdade. Eu vim para estudarmos juntas o assunto de uma prova que va-vamos ter na próxima semana. Eu coloquei o celular no mo-modo silencioso e o esqueci em cima da mesa de estudo. Desculpem-me ter ca-causado toda esta preocupação. Mas eu estou bem... Juro que foi só isso!

— Quero ver você ainda hoje. Vou passar o telefone pra sua mãe. Ela quer falar com você. — O tom de fala do senhor Gregory fica mais tranquilo.

— Filha, que bom que você retornou a chamada antes que o seu pai se precipitasse registrando novo desaparecimento seu às autoridades. Ele ficou tão preocupado que decidiu não ir para a empresa hoje à tarde. — Darlene solta com franqueza. Na sequência, ela escuta algo que o marido fala e volta a se dirigir à filha. — Lavínia, seu pai está perguntando qual é o endereço de onde você está. Ele disse que vai buscá-la agora, pois quer conversar com você.

— Não! Diga a ele que não precisa vir me buscar. Eu mesma vou até aí. — replica. Olha para Pietro e para Pâmela, que a observam discretamente, raciocinando que seria constrangedor apresentá-los ao seu pai neste momento de preocupação acentuada. Por outro lado, sabe que ele não sossegará até vê-la com seus próprios olhos. Desta forma, assim que finaliza a ligação com a garantia de que estaria na mansão em alguns minutos, ela refaz o trajeto à varanda.

— Gente, eu preciso ir. Tenho um assunto pra re-resolver na casa dos meus pais. — divulga com a voz mais calma que consegue.

— E tem que ser agora? Pensei que ficaria aqui mais um pouco. — articula Pâmela com voz inalterada, indicando que apenas externa uma reflexão.

— Sim. — responde, abreviada.

— Olha, se quiser eu posso te levar até a casa dos seus pais. Pra mim seria um prazer. — oferece-se Pietro, já tentando lembrar-se onde havia posto as chaves do carro.

— Não, Pietro. Obrigada. Mas não é preciso. Eu vou chamar um táxi. — Não revela que pensou em ir de ônibus mesmo, para economizar o dinheiro que está escasseando-se cada vez mais. Todavia, acaba percebendo que, ao recusar a carona do rapaz e anunciar sobre o táxi, não poderá tomar outra atitude além desta.

Pietro ainda insiste um pouco. Lavínia, porém, volta a recusar de forma educada e peremptória. Depois de fazer a chamada ao número que obteve na lista telefônica, com a ajuda de Pâmela, a loira aguarda.

Uns poucos minutos transcorrem.

— Tchau, Pam! A gente se vê na segunda. — Assim que o táxi chega, ela trata de se despedir primeiro da colega, que lhe acena de longe, ainda recostada à varanda e, em seguida, se direciona a Pietro, que se encontra perto dela. — Então, Pietro, foi mu-muito bom te conhecer melhor. Você é ainda mais legal do que eu pe-pensava. — confessa olhando-o timidamente através dos fios prateados que teimam em lhe cobrir uma parte da face, devido à ventania que surge.

Instigado pelo fascínio, a partir da bela visão que ela lhe oferece, Pietro ergue o braço e, com a mão, afasta-lhe as madeixas teimosas, aproveitando para roçar os dedos em seu rosto bem moldado, indagando-se como uma garota pode ser tão bonita.

— Eu também adorei conversar com você, Lavínia, e... quero que nos conheçamos muito mais. Sabe, nós podemos marcar pra assistirmos a um filme, uma peça de teatro, pra dançar... Sei lá, o que você preferir. — Não mais se importa de demonstrar o seu interesse por ela.

— Claro. Nós nos fa-falamos depois, lá na faculdade, ou... você po-pode me ligar. — Ela diz, sentindo alguma dúvida invadi-la, principalmente ao surpreendê-lo observando-a com olhos esperançosos.

— Ok. É melhor você ir antes que o taxista desista de te esperar. — Ele sorri ao vê-la meio estática.

— É mesmo! Deixa eu ir então. — A fim de se despedir carinhosamente, ela posiciona o tronco adiante e o beija nas faces, fazendo-o abrir mais ainda o galante sorriso de satisfação. Após, vira-se, caminha na direção do táxi, entra e este a leva para longe dos olhos deslumbrados de Pietro.

Instantes depois, Lavínia encontra-se na casa dos pais.

— Eu já expliquei o que houve, pai. Sinceramente, não vejo mo-motivos pra tanta pressão sobre mim! — queixa-se, quando o senhor Gregory persiste em fazê-la repetir os motivos que a levaram não retornar as chamadas telefônicas dele e de Darlene. Ela o encara com o cenho fechado e o lábio inferior proeminente.

— Você não vê? Não sabe que eu quase morri de ansiedade por causa do seu sumiço? Não sabe que contratei detetives, fiz anúncio nos jornais e na televisão, que movi céus e terras pra ter notícias suas? — O pai mostra raiva e mágoa por notá-la com expressão teimosa.

— Eu sei, pai... Mas eu também já pedi desculpa, poxa! Eu não fiz de propósito! O que mais quer que eu faça?

— Você voltou a ver o filho da Abigail? Ou melhor... Esse psicopata voltou a te procurar? — Ele ignora a fala dela e parece firme em querer saber o que se passa em sua vida, já que ela se tem mostrado distante, não mais lhe dedicando o afeto costumeiro.

— Henry não é um psicopata! — A loira praticamente grita, numa mostra de raiva e precipitação, fazendo até sua mãe, Darlene, que estava sentada no sofá e quieta apenas escutando a discussão entre pai e filha, sobressaltar-se um pouco.

— Henry? Ah! É isso! Esse é o verdadeiro nome dele, não é? Mas eu já desconfiava disso, Lavínia. Na verdade, eu só fingi que acreditei naquela sua história mal contada sobre ser um rapaz que estudou com você. E eu agora posso concluir, sem sombra de dúvidas, que Diego é apenas um invento que esse alucinado usou pra se aproximar de você.

Só nesse instante, após ter pronunciado o nome de Henry em estado de furor, é que Lavínia percebe o que fez. Desvia os olhos, procura na mente uma saída para o seu deslize, mas, concluindo que não há, decide afrontá-lo.

— Se o nome dele é Henry, se é Diego ou qualquer outro... Não importa! Não importa porque, pra mim, trata-se apenas de a-alguém que me procurou e me di-disse coisas muito tristes... sobre você, sobre ele e so-sobre mim!

— Um manipulador vil e habilidoso... Isso, sim, é o que ele é! Eu quero esse homem longe de você! — ordena, irritado.

O clima fica tenso enquanto o senhor Gregory começa finalmente a soltar o que pensa sobre o homem que esteve com sua filha, mantendo-a escondida em algum lugar, causando transtornos e sofrimentos à família e aos amigos dela.

— O que o senhor vai fazer? Denunciá-lo à polícia? Di-Dizer que ele me se-sequestrou? — fica muito nervosa e a respiração começa a falhar.

— Sim! É exatamente isso o que eu vou fazer! E é o que ele merece, para que o façam pagar pelo crime que cometeu! — pode-se ver fúria nos olhos dele.

— Eu nego. — esboça, olhando para os botões da camisa azul-anil do pai, pois agora está reunindo forças para continuar encarando-o.

— O quê? O que você disse, filha? — O senhor parece não estar convencido do que escutou. Ele sente uma pontada no coração e avalia o sentido do que ela acabou de pronunciar.

Lavínia, armada da vontade incoerente – até para ela mesma – de proteger Henry das garras da justiça, desafia o senhor Gregory com olhos fixos e obstinados.

— Eu digo que é tudo me-mentira. Então... será a sua palavra contra a minha. — assegura, mesmo com voz razoavelmente baixa.

Darlene, apesar de continuar em silêncio, analisa as palavras e os gestos de Lavínia, constatando o que já suspeitava, que ela está confusa e assustada, sem ter como dar conta de alguns sentimentos entranhados, uma vez que ficou sob o domínio desse homem, para quem agora parte em defesa e que, em algum momento, revelou-se como o filho da mesma mulher que é a sua mãe biológica, portanto, o irmão que ela jamais imaginou ter. Observando a situação de modo superficial, não seria difícil admitir que os motivos que a fazem defendê-lo é justamente por se tratar do seu irmão, por querer que o pai compreenda e não o castigue, pondo-o sob o julgo da lei. Porém, Darlene é uma mulher perspicaz, intuitiva ao ponto de conseguir captar a complexidade por trás desta intercessão aguerrida, inflexível, a favor de alguém que surgiu em sua muito recentemente.

— O que esse homem fez para defendê-lo assim, Lavínia? O que ele fez com você? Responda! — O pai cospe as indignações, sentindo novas dores no peito ao ver sua filha cega e defendendo um ser que ele considera danoso para ela.

— Ele não me fez nada! Nada... além de-de revelações. — É óbvio que ela não lhe diria sobre o envolvimento sexual que teve com ele.

Depois de perceber que seria ato inútil fazer a denúncia e que precisaria de maior destreza para resguardar sua filha, o senhor Gregory passa a mão pela testa suada, puxa o ar pelos pulmões, procurando obter a calma imprescindível, e opta por mudar o discurso.

— Filha... Me escute, por favor. Esse homem é perigoso. Você deve ficar longe dele. Eu sei o que estou dizendo. Ele pode ser muito nocivo para a sua vida. É isso o que eu quero que você compreenda de uma vez por todas. — Com carinho e firmeza, alcança o rosto da filha, fazendo-a olhá-lo.

— Por que se-sente tanta raiva, pai? Por que está dizendo coisas tão negativas so-sobre ele? Por quê? Você nem ao menos o conhece... como eu. Você mesmo di-disse que só o viu quando ele era apenas um ga-garoto há muitos anos. Não entendo o po-porquê de todo esse pensamento ruim. — Lavínia não consegue impedir que lágrimas molhem sua contraída face.

— Eu diria toda a verdade que você precisa saber... se você não estivesse neste estado de cegueira. Não é a ocasião adequada para eu lhe contar o que aconteceu de verdade, pois você não acreditaria... não agora. Mas vai chegar o momento certo, minha filha. Eu sei que vai. E, nesse dia, você verá que eu tenho, sim, muitos motivos para duvidar do caráter desse homem. Portanto, eu repito: fique longe dele.

— Eu nu-nunca mais o vi... Pode ficar tranquilo po-porque eu acho que ele não vai mais me procurar... Acho que ele está apenas se-seguindo com a vida dele... Então... Por favor, vamos só seguir com a nossa e deixá-lo em paz, tá bom? — Usa tom súplica.

— Está bem, filha. Nós podemos até mudar de assunto... assim que você me esclarecer uma coisa: o que há entre você e esse homem, Lavínia? — Ele comprime os olhos, enquanto perscruta o efeito de sua pergunta sobre ela.

— O que o senhor está i-insinuando? — arregala os olhos e levanta as sobrancelhas, sentindo a agonia lhe dominar, assim como um amargor vindo em sua boca, que fica seca imediatamente. Mas impõe uma postura de quem está muito ofendida. — Pai, como po-poderia haver a-algo entre mim e ele? Ele é meu irmão!

Ele demora uns segundos observando-a.

— Pois saiba que não o quero perto de você nem como irmão. — arremata, firme.

Lavínia, que, assim como o senhor Gregory, permaneceu em pé desde que chegou na residência, estende a mão à mesinha amadeirada, na lateral do sofá, pega sua bolsa e a põe sobre o ombro.

— Pra mim chega! Eu vou embora. — Seu tom denuncia esgotamento.

— Puxa, Lavínia! Não vá ainda. Eu pensei que nós teríamos uma chance para conversarmos um pouco. — Darlene, por fim, manifesta-se, amuada, mas também afetuosa.

— Desculpa, mãe. Fica pra depois. Eu tô cansada... Quero ir pra casa e descansar. — libera passando uma mão sobre a região próxima à clavícula e respirando pesadamente, ao mesmo tempo em que movimenta o pescoço e observa o pai de soslaio.

— E onde pensa que você está, filha? Esta é que é a sua casa. — Ele diz, tentando impedi-la de ir nutrindo mais raiva que da vez anterior quando ali esteve.

— Bom... Acontece que é lá onde eu tenho morado, po-portanto, é também o local que chamo de casa no momento. — fica um pouco mais calma ao perceber a mudança de assunto.

— Tudo bem. Se você quer ir, deixe-me ao menos levá-la pra república. — Ele se mostra igualmente menos agitado.

— Não, pai. Perdoe-me, mas eu prefiro que não me leve... Lembra-se da conversa que ti-tivemos antes? Pois eu continuo precisando de tempo e de espaço pra organizar os meus pensamentos. Entenda por favor e não me sufoque co-com suas preocupações exageradas... Eu não sou mais criança.

O senhor Gregory engole em seco e não persiste.

Após ter-se despedido deles da melhor forma possível, ante a agonia instalada por conta da conversa incômoda, Lavínia está agora longe da mansão. Encontra-se numa parada de ônibus. Ainda sentindo uma trava instalada na garganta, ela remexe na bolsa, que sabe ser a mesma que usava no dia em que Rafael havia-lhe entregado o cartão da boate. Encontra o objeto e lê o endereço nele contido.

Quando chega ao local destinado, Lavínia logo avista o imenso letreiro acima da fachada com os dizeres Dans le bar-concert Claude e um homem distraído, recostado à enorme porta de ferro. É um negro robusto, alto e, apesar de ser repleto de músculos, exibe no rosto uma expressão dócil.

— Boa tarde, senhor. — cumprimenta-o com um sorriso simpático, embora notoriamente acanhado.

— Boa tarde, moça. Posso ajudá-la em alguma coisa? — pergunta educadamente.

— Eu po-poderia... falar com o dono do estabelecimento? — A voz sai um tanto vacilante.

— O francês não costuma receber gente sem marcar entrevista antes, mas... eu acho que ele pode te atender sim. E você tá com sorte porque ele está aqui hoje. — Ele intui depressa que a loira está em busca de emprego, pois não vê motivos para que esteja na boate, sem ser horário de funcionamento. Pisca o olho para Lavínia e sorri com o canto dos lábios, deixando-a confusa com a postura um tanto buliçosa. O homem negro não é tolo e sabe que o senhor Jean Claude, o francês, que é o proprietário desta casa noturna tem tendência a ser muito tolerante quando se trata de belas moças, ainda mais quando são novas e com cara de anjo inocente, como a loira linda que ele vê agora. Ele a conduz para o interior da edificação.

Lavínia fica admirada ao notar que por dentro tudo é mais espaçoso e sofisticado que a aparência externa acusa. Há uma quantia estimável de mesas, cadeiras e largas poltronas, de altíssimo bom gosto, taticamente postas no recinto, bem como caixas sonoras acopladas à parede, gigantescas pilastras acrílicas e um balcão que, por trás deste, discerne-se uma prateleira de material também acrílico, só que muito claro, dando a sensação de que as bebidas estão suspensas no ar. Corre a vista por um pequeno vácuo no centro da casa noturna guiando diretamente para um tablado, onde flagra duas mulheres ensaiando os passos de uma dança erótica. Identifica o local dos banheiros e vê mais adiante uma porta entreaberta, permitindo assistir parcialmente aos movimentos de alguém dentro da sala estreita.

— Fique aqui e aguarde que eu logo a chamo, ok? A propósito, meu nome é Carlos, mas todos me chamam de Carlão, e... Seja bem-vinda à casa! — pressagia o musculoso negro, que é segurança da boate, sorrindo levemente.

Depois de um tempo nada demorado, Carlão volta.

— Pode entrar, moça. — anuncia e segue caminhando de volta ao ponto em que ela o encontrou.

Assim que entra na sala, Lavínia pode ver melhor o homem. Ele encerra a ligação que fazia ao celular e acena para que ela se sente na cadeira em frente à mesa dele. Ela obedece e outra vez aguarda. O francês a olha com um sorriso disfarçadamente ousado, enquanto lhe avalia os atributos físicos. A loira, por sua vez, também não consegue deixar de observar a figura que a olha tão fixamente. Jean Claude aparenta ter idade superior à de quarenta anos, é um moreno esguio de cabelos escuros e olhos que alternam entre amarelados e esverdeados, dependendo do ângulo e da iluminação. Possui barba e bigode ralos, mas bem feitos, dotando-o de um charme maduro e sóbrio, que se harmoniza com suas vestes de marca onerosa e sua postura convencida.

— Então? O que quer falar comigo, mocinha? — O francês corta o silêncio.

— Eu go-gostaria de... de saber se o senhor te-teria uma vaga livre para a função de a-atendente? — fala com voz baixa e tímida.

— De atendente? Será que você não se enganou? Não está na verdade se referindo à vaga de dançarina? — olha-a através das pálpebras semicerradas. No entanto, Jean Claude é um homem experiente e sabe muito bem que ela não se enganou, por isso ele apenas quer induzi-la de alguma forma, visto que distingue nela um potencial para a sedução e o fascínio natural.

— Não. Eu fa-falo da va-vaga de atendente mesmo. — O tom de voz dela se eleva um pouco por conta do susto devido à pressuposição dele.

— Hum... Ok! Claro que aqui nós sempre temos vagas abertas para mulheres bonitas... seja dançando ou atendendo mesas. — proclama, ri de forma meio cínica e, a seguir, volta a encará-la. — Se quer mesmo, a vaga é sua. Ademais, ele reflete que não é completamente raro surgir em sua boate garotas que entram, de início para trabalhar como atendentes, e que acabam aceitando dançar no palco, ao notar o rendimento financeiro mais fácil e rápido.

Depois de elucidados alguns detalhes, de acertado o salário, sabendo que poderia ficar com as gorjetas que os clientes dessem, de serem estipulados os dias e os horários de trabalho, Lavínia vai embora consciente de que no dia seguinte, domingo, a partir das vinte e uma horas, teria que estar ali e ficar atendendo mesas até às duas da madrugada.

De volta à república, a loira encontra Louise recostada ao sofá assistindo à programação da TV. Em sua mão há uma colher. Sobre suas pernas está uma almofada e por cima desta uma pequena panela contendo chocolate em forma de brigadeiro e, em seu rosto, uma expressão de tédio.

— Nossa! Para quem está se empanturrando de chocolate, você não parece nada feliz. — Lavínia fala assustando Louise, ao se jogar ao seu lado no sofá e tomando a colher de sua mão para experimentar do conteúdo saboroso da panela.

— Ai, Vivi! Que susto! Você caminha como gato... Nem vi você chegar. — ri fracamente.

— Ou deve ser porque você está muito distraída e aqui sozinha assistindo à televisão... Cadê todo mundo? — Lavínia passa os olhos pela sala.

— Se por “todo mundo” você estiver falando da Vicky e da Manu, elas estão no quarto. — diz espontaneamente.

Lavínia arregala os olhos e fica boquiaberta.

— Estão no quarto? Quer dizer que elas...

— Não, elas ainda não voltaram às boas. Eu me expressei errado... Eu quis dizer que elas estão cada qual em um quarto. A Manu chegou agora há pouco. Ela esteve fora por toda a manhã e à tarde... Ela estava com outra garota. — A última frase Louise pronuncia cochichando.

— Como você sabe disso? — Lavínia também sussurra, entrando no clima de fofoca.

— Eu tive que ir abrir o portão pra Manu porque ela esqueceu a chave e eu vi a tal garota. Ela não entrou aqui... Parece que só veio trazer a ruiva. Mas o beijo na boca que elas se deram foi mais do que suficiente para eu compreender que ali tá rolando mais do que amizade. — conclui.

— Será que a Vicky já sabe que a Manu tá saindo com outra menina? — Lavínia faz uma expressão de piedade.

— Eu acho que sim. Ela ficou quase o dia todo trancada no quarto... com a desculpa de que tinha que estudar. Você precisa ver a cara dela. É óbvio que está depressiva em alto grau. Escuta o que eu digo... essa menina tá realmente precisando de ajuda. — prognostica e torce o lábio em sinal de preocupação. A seguir, toma de volta a colher da mão da loira pondo-a dentro da panela e a enchendo com chocolate, que enfia com gosto na boca.

— Lou... Você ainda tá desconfiada sobre o Dico, não é? — Lavínia questiona, mudando o tema da conversa. Ela já está sabendo a respeito das divagações de Louise e conhece bastante a amiga para saber que essa fome excessiva, sobretudo por doces e afins, pode significar problemas amorosos.

— Estou sim, mas... Sabe de uma coisa? Eu não quero mais pensar nisso. Vai ver que é só uma bobagem minha... Eu não tenho um motivo real pra supor que ele mente sobre o que faz ou o que deixa de fazer. — parece querer buscar uma solução favorável para não se pressionar demais por ansiedade e dúvida. Por isso, sente-se menos irrequieta. Porém, envia olhos perscrutadores para Lavínia.

— E você? Vivi, eu te conheço e não é de hoje. A sua cara também não está das melhores... Pode começar a me contar o que houve!

Lavínia repassa à amiga tudo o que lhe aconteceu ao longo do dia, desde o momento em que esteve na casa de Pâmela, onde soube a respeito da morte da quase noiva de Pietro, sobre a conversa que teve com ele, o abraço e o beijo que trocaram. Ela lhe conta igualmente sobre a mensagem do pai dela, a briga terrível que teve com ele e a sua ida à boate.

— Você vai mesmo trabalhar numa boate? Eu não tô acreditando! Vivi, já que você está decidida a se sustentar por que você não busca algo através do seu curso de artes? — Louise quer mostrar que a loira tem outras opções.

— Acha que eu não pensei nisso? Mas... Lou, neste ramo da arte não é fácil ganhar dinheiro... Ele exige que tenhamos muita paciência até que alguém re-reconheça o nosso talento, que nos contrate e nos pague por ele. E eu preciso de dinheiro agora! — Lavínia declara soltando o ar pela boca em sinal de desabafo.

— Pra mim, você continua sendo uma orgulhosa por recusar o dinheiro do seu pai. — Louise não se oprime ante a expressão birrenta de Lavínia. — E nem adianta me olhar com essa cara porque eu só tô falando o que eu penso.

— Tá bom! Chega você também! — ergue-se do sofá e estende o braço para ela. — Vem. Vamos tentar tirar a Vicky da depressão. A gente pode fazer com que ela converse um pouco e solte as angústias que a atormentam. Não podemos ficar paradas vendo ela ser tragada pela tristeza... Somos suas amigas e precisamos fazer algo.

— Ok. Mas vou logo avisando que as minhas estratégias antidepressivas são mais práticas. — sorri, travessa, e se levanta com a ajuda de Lavínia que, brincalhona, a puxa com força e a obriga a ser rápida em pôr a almofada, a panela e a colher sobre o sofá, antes que estes se esparramem no chão.

— Hum...! Sei muito bem quais são suas estratégias antidepressivas.

As duas caem na gargalhada indo em direção ao quarto onde Vicky está amoitada. Ela está deitada na cama. O livro referente ao curso de arquitetura encontra-se ao seu lado, fechado e esquecido. Ela olha para o teto e sente os olhos ardendo por tantas lágrimas que deles verteram incontroláveis, por horas, durante este dia, e com tanta frequência, que não sabe mensurar exato. Não consegue tirar da mente a imagem que viu pela manhã e, cada vez que lembra, o peito se comprime, a angústia a aflige. Ver Manu de mãos dadas com outra garota e, ainda por cima, saber que iriam passear juntas foi muito doloroso para ela. No entanto, agora não vê alternativa a não ser conservar a farsa que ela mesma montou. É o preço que tem a pagar pela decisão radical que tomou.

− Oi, Vicky! — Lavínia e Louise abrem parcialmente a porta e metem a cabeça olhando para a triste menina, rendida sobre o leito, ao passo que a saúdam em uníssono, fazendo suas vozes ressoar pelo quarto, de modo caloroso.

— Oi. — Ela responde, com voz quase sumida.

As jovens entram de vez no quarto e se aproximam, sem se importar com a expressão decaída que Vicky faz. Súbito, Louise avança e põe as mãos sobre os braços da morena, forçando-a se sentar na cama.

— Ei! Que é isso, Louise? O que você tá fazendo? — Vicky espanta-se e depois fica confusa.

— Não se preocupe porque logo você vai saber o que eu tô fazendo. — continua segurando os braços de Vicky, que começa a tentar soltar-se. Mas, além de não soltá-la, Louise ainda olha para Lavínia, que só entende o propósito dos seus gestos bruscos quando ela lhe pisca um olho e sorri. — Vivi, não fica aí parada. Vem aqui e me ajuda a segurá-la!

Lavínia contorna a cama, sobe nesta, fica de joelhos, e se posta por trás de Vicky, prendendo-lhe os braços, rente às suas costas.

— Lavínia! Até você. Gente, me larga. O que vocês querem? — Vicky abafa um riso, embora ainda esteja com ar tristonho.

Subitamente e sem pedir autorização, Louise começa a apertar-lhe as bochechas.

— É o seguinte, Vicky: a Vivi não vai te soltar e eu não vou parar de apertar essas suas bochechas redondinhas até elas ficarem roxas e dormentes ou... até você nos presentear com boas risadas... A escolha é sua!

Vicky, não resistindo às cócegas que sente devido aos apertões teimosos de Louise e à postura cômica de suas amigas, finalmente solta as apetecidas risadas, terminando mesmo por gargalhar.

As três permanecem neste clima de brincadeira por alguns minutos.

De repente, um celular toca. É o de Louise, que libera a morena da “sessão de tortura” e o atende.

— Alô! — diz, ainda sorrindo por ver o rosto avermelhado de Vicky.

— É você a vagabunda que tá transando com o meu marido? — A voz feminina do outro lado da linha não perde tempo em disseminar a acusação preenchida de pura cólera.

Louise estanca o riso, pensa por uns segundos e volta a falar.

— Olha, eu acho que você, seja lá quem for, discou para o número errado. Afinal, eu estou, sim, transado e muito... Mas o meu namorado não é casado. —articula com algum sarcasmo, desliga prontamente, mas fica olhando para o telefone em suas mãos e espera.

Lavínia e Vicky também suspendem os risos ao ouvirem as palavras hostis que Louise profere.

O celular volta a tocar.

— Ah! Quer dizer que ele não te falou que é casado, não é? — Mais uma vez, a voz feminina tem pressa em liberar o seu veneno.

— Quer parar de me ligar dizendo absurdos? Eu já disse que você discou para o número errado... Eu não sei de quem você está falando! — Embora tenha falado em tom mais alterado do que pretendia, Louise respira fundo e tenta não se abalar. Desligaria novamente se não escutasse o que mulher rapidamente diz:

— Estou falando do Fernando, que é mais conhecido como Dico... E aí? Refresquei a sua memória de puta? — O tom deixa evidente a ira que há nela.

Louise absorve as palavras com dificuldade, fazendo o cérebro promover cálculos rápidos e contraproducentes, abarcando os gestos de Dico e as conversas que teve com ele, as mesmas conversas que a fizeram duvidar, desconfiar. Entretanto, por ter saído da casa dos pais precocemente, Louise é uma pessoa que já passou por circunstâncias bizarras ao longo de sua jovem vida, sempre enfrentando tudo com coragem e convicção em suas atitudes, por isso ela reúne a força necessária para argumentar.

— É, parece que você tem razão, eu sou mesmo a pessoa que tá transando com o Dico e é verdade também que eu não sabia que ele era casado...

— Pois fique sabendo que ele é casado e que você é só mais uma entre as várias idiotas com quem ele se diverte por um tempo... porque, no fim, é pra mim que ele volta. E sabe por que ele volta? Porque além de ser a esposa dele, eu sou a mãe do filho dele. Aposto como você também nem sonhava que ele tem um filho, não é? — A mulher lança mais informações que fazem o coração de Louise falhar e a respiração tornar-se um ato difícil.

De fato, Louise sente o corpo tremular. As pernas fraquejam e, por não mais se aguentar em pé, vagueia para a sua cama e se senta. Os olhos estão vidrados olhando qualquer ponto à sua frente. Põe a mão sobre os cabelos pretos, curtos e lisos e esta mão ali permanece, desejando suster os pensamentos lesivos. Todavia, não querendo dar-se por vencida e percebendo que essa mulher que a afronta gosta de jogar pesado, decide entrar no jogo para jogar mais pesado ainda. Respira profundamente e torna ao embate.

— Se é como você diz... então você não tem por que se exaltar e nem ficar tão brava, certo? Melhor ficar aí quietinha esperando pelo seu marido. Quanto a mim, só me resta aproveitar enquanto ele me fode gostoso... E não esquenta não porque depois eu te devolvo o bagaço. — Louise cessa a ligação, mas o faz a tempo de ainda ouvir os gritos da mulher, que a insulta usando os vocábulos mais esdrúxulos e reles possíveis.

Imediatamente, Louise põe-se a discar o número do celular de Dico e, quando nota que seria inútil tentar falar com ele por telefone, visto que se encontra desligado, é dominada pela fúria e por pouco não arremessa o celular na divisória do quarto. No entanto, o que faz é desligá-lo, a fim de não mais ser perturbada por nova ligação inconveniente da mulher agressiva. A seguir, coloca-o em cima da sua cômoda e recolhe desta as chaves da motocicleta.

— Lou... O que foi que houve? Pra onde você vai ne-nervosa desse jeito? — Lavínia pergunta, ao vê-la com as chaves na mão, embora tenha escutado as palavras de Louise ao telefone e entendido parcialmente a situação dramática.

— Vou lá na república do Dico, pra ver se descubro onde ele está agora. Eu vou até o inferno se for preciso... apenas pra que ele olhe na minha cara e negue tudo o que essa mulher acabou de me falar. — divulga, eufórica e determinada. Ela nem se dá conta de estar vestida com as roupas simplórias que costuma ficar em casa. Traja uma blusa vermelha surrada, estilo regata e gola alargada, short jeans curto e chinelas. Sem mais demora, sai do quarto em direção à sua moto.

Lavínia, num relance, vê o capacete dela mais ao canto da cômoda.

— Oh! O capacete! — pega-o e sai correndo. Mas é tarde, pois tudo o que encontra é o cantar dos pneus, visto que Louise parte numa tremenda velocidade rumo ao encalço de Dico. A loira volta ao quarto, repõe o capacete de onde o tirou e olha para a expressão não menos espantada de Vicky, que, assim como ela, presenciou todo o bate-boca de Louise ao celular.

— Ei! Eu estava saindo da cozinha e voltando para o meu quarto quando vi a Louise sair apressada e, em seguida, eu vi você, Lavínia, passar como um foguete indo atrás dela. Agora digam-me: qual de vocês vai me explicar o que está acontecendo? — Quem fala agora é Manu, que entra no recinto e olha tanto para Lavínia como para Vicky, exigindo que lhe contem o que se passa. Tem em mãos um lanche que fez para si. Assim, segura um prato e, em cima deste, um sanduíche e um copo contendo uma vitamina de abacate.

— Manu, é um problema que surgiu e está afetando a Lou.. Mas vem, senta aí na cama... que a Vicky vai te explicar tudinho... enquanto isso, eu tomo um banho rápido e me junto a vocês depois. E iremos esperar até a Lou voltar para sabermos o que ela descobriu.

A despeito de Lavínia estar bastante compadecida com a aflição da sua amiga Louise, ela não vê motivos para não aproveitar a chance de tentar reaproximar Manu e Vicky, pois sabe que elas ainda se amam e precisam somente de um pequeno empurrão para admitirem isso uma para a outra. E tal ato de colocá-las para dialogar entre si pode ser o início de uma reconciliação. Então, retira-se do quarto e as deixa sozinhas.

Manu, que ainda não está de todo informada sobre o contexto lúgubre que se instalou na república, come tranquila e gulosamente o seu sanduíche, sorvendo também com gosto sua vitamina de abacate, ao passo que se senta na cama ao lado da morena.

— Está repondo as energias perdidas? — Vicky não se segura e acaba soltando palavras com duplo sentido ao observar como a ruiva devora seu lanche como se estivesse há dias sem comer.

“Ciúmes!” Este é o primeiro pensamento que surge na mente de Manu e ela, ao invés de ficar chateada, experimenta uma sensação boa, um gozo diferente e inesperado.

— Não tenha dúvidas quanto a isso. Mas eu posso dividir com você... Quer? – Manu igualmente envia uma mensagem cheia de sentido malicioso e a encara. Seus olhos passeiam por Vicky e ela admira a sua expressão de vergonha por ter dado motivos para receber uma resposta também dotada de sentido dúbio. Observa os detalhes do seu rosto, enquanto Vicky tenta desviar os olhos escuros dos seus. Desce a vista para a boca, com vontade de tomá-la para si, de subjugá-la aos seus carinhos, de se enfiar entre os seios fartos, que agora estão maravilhosamente quase saltando para fora da blusa amarela apertada e decotada. Entretanto, Manu detém-se e somente abre um largo sorriso, abocanhando de forma mais prazerosa o lanche feito por ela mesma.

Vicky trata de quebrar a atmosfera erótica, revelando sobre a ligação estranha que Louise recebeu. Aos poucos, Manu vai compreendendo a seriedade do problema e, igual a todas, fica apreensiva, com dó de Louise.

Lavínia retorna, banhada e com vestes limpas, senta-se na outra cama e permanece em companhia de Vicky e Manu, aguardando pelas notícias que viriam posteriormente.

Distante da república, Louise, que já havia chegado ao seu destino, está abismada, estática e sem querer acreditar no que os seus olhos lhe mostram. Nada, absolutamente nada do que viveu até aqui foi o suficiente para prepará-la para experimentar tamanha decepção. Está em pé ao lado da moto estacionada a poucos metros da república onde Dico mora, vendo-o sem que ele tenha a menor noção da presença dela. Ela fica a pensar o quanto foi ingênua, em como achou que seria difícil encontrá-lo, em quantos entraves teria que transpor, na lábia que teria de usar a fim de que os colegas dele lhe dessem uma indicação qualquer de onde poderia localizá-lo. Entretanto, ele está bem ali, para quem quiser ver. Ela se põe, deste modo, a analisar a cena que lhe parece grotesca de tão inusitada. Dico e Jonas estão brincando de jogar bola com um garotinho que dá ares de não ter mais que quatro anos de idade. Eles riem alto de vez em quando, ao notar os gestos acriançados, inseguros, mas divertidos do pequeno, que ao cair várias vezes tentando tomar a bola dos pés adultos, não chora e se levanta, obstinado em continuar o passatempo agradável por demais.

Como um autômato, um corpo sem alma, Louise caminha em direção a eles.

Subitamente, como a pressentir o que decorreria a partir dali, Dico move o rosto e a enxerga. Falta-lhe o ar no mesmo instante. Ele não consegue esboçar nenhuma reação de tão pasmado que fica. Jonas também percebe a presença de Louise e fica apreensivo. Mas o garotinho continua a rir, alheio ao que se passa ao seu redor. Avaliando-o de modo extremo e minucioso, Louise nota facilmente os traços genéticos que comprovam a paternidade de Dico em relação a ele.

Jonas, numa atitude de solidariedade para com o amigo e por não querer permitir que a criança escute a briga que certamente surgiria agora, achega-se ao pequeno e lhe diz alguma coisa ao pé do ouvido, fazendo-o correr e entrar na república, indo ele próprio, seguindo-o e largando Dico e Louise em clima de plena tensão.

Porém, ao contrário do que supôs Jonas, Louise não parte para a gritaria, para as ofensas em tom de exasperação ou descontrole. E, quando resolve falar, suas palavras saem sucintas e objetivas.

— Suma da minha vida. Desapareça do meu caminho. Não quero mais ver você... nem como amigo! Você é um lixo! Imundo! — Dito isto, Louise dá meia volta e praticamente corre para a sua moto, nela subindo e partindo em disparada.

Dico sente como se uma faca afiada rasgasse seu peito e só agora reúne força para proferir algumas palavras, que, embora tardias, demonstram todo a sua agonia:

— Não... Não, Meu Deus, por favor! Assim não. Não dessa forma! — tem as duas mãos sobre a cabeça e olha para o céu, pedindo a ajuda da qual necessitaria para contornar a dura realidade que se lhe apresenta sem dó nem compaixão.

Enquanto isso, Louise corre pelas alamedas conhecidas da faculdade sentindo que é a motocicleta que a pilota e não o contrário, pois sua mente está longe de qualquer concentração espacial ou geográfica. Agora sim ela permite que as lágrimas saiam em cascatas irrefreáveis. Questiona-se como pôde deixar que ele entrasse em sua vida de forma tão intensa, penetrando-a não só através do corpo, mas também na alma e no coração, como não conseguiu resistir aos seus encantos, suas carícias e suas falsas palavras de amor, induzindo-a a transgredir suas próprias regras de não fazer sexo em busca de amor, mas apenas pelo prazer físico. Lastima o dia em que o reencontrou, depois de quase dez anos, na festa à qual foi convidada por Jonas, e a maldita atração que a fez querer senti-lo sexualmente no exato instante em que lhe pôs os olhos. Louise sente-se doída demais e tem ânsias de culpar a si mesma por não ter conseguido manter o moreno atraente a uma distância segura, após notar que iria se apaixonar. Tudo o que ela quer agora é esquecê-lo e torná-lo um mero episódio, infeliz e passado.

[...]

Notas finais
E aí, o que acharam desta confusão toda, hein? Lavínia está, sem querer, fazendo o doce Pietro apaixonar-se pra valer! (Olha! Até rimou! hahaha...) O pai da loira começa a mostrar que não é nada "bobinho" e desconfia (sem ter certeza) de que há algo estranho nesta defesa aguerrida dela quando se trata de Henry. Por certo que o senhor Gregory prefere ver o diabo perto da filha, menos o nosso lindo sedutor de olhos azuis. Mas, gente, não é que Lavínia foi mesmo buscar trabalho na boate? Que mocinha teimosa e orgulhosa! Louise sentiu como se um "balde de água fria" caísse por cima dela. Oh! Tadinha! Está a sofrer demais por conta das revelações de que Dico é casado e tem até um filho. Será que o moreno pensava em manter a Louise como sua amante, sem lhe contar nada sobre sua vida de homem de família??? Ou será que há um motivo para ele ter agido como agiu? Hum..! Gente, vocês prestaram atenção na conversa "pervertida" entre Vicky e Manu??? Pois eu acho que a história dessas duas ainda não acabou. Elas sentem muita atração uma pela outra, basta estarem juntas para o clima "esquentar". Ui!!!! Que "fogo"!!! Bom, queridos leitores, agora preciso que vocês tenham renovada paciência e aguardem a sequência destes fatos. Não sei quando postarei o próximo capítulo, pode ser rápido ou não, isto vai depender das circunstâncias e da inspiração também. Tomara que dê certo de novo para não demorar, não é? Beijinhos estalados nas bochechas e, por favor, deixem-me comentários para eu saber se estou agradando-os plenamente. ゚ (❁ ⁀‿ ⁀❁) ♥ ❤ ❤