[HIATUS] Mudanças impuras
55 Aceitando o que foi para viver o que há (Parte 2)
Notas iniciais

✼ ✻ ✺ ✹ ✸ ✷
Ao chegarem ao hospital, o mesmo em que sua mãe está, Louise, ainda sangrando, é posta numa maca, levada para o Pronto Socorro e encaminhada ao setor próprio de tratamento dos casos como o seu, ou seja, o de emergências, ficando sob os cuidados de uma amiga de Michele, a médica especializada em obstetrícia, Flora Crispino. Neste meio tempo, Hugo e senhor Laércio responsabilizam-se pelo registro de entrada de Louise, na recepção.
Daqui a um instante, Michele retorna, encontra o namorado e o sogro sentados e, tal como eles, larga-se num dos assentos ali disponíveis, sentindo o frio da madrugada intensificar-se, mas já está acostumada, não ousa queixar-se.
— Ufa! Ainda bem que a doutora Flora tava no plantão hoje. Agora só resta esperar... — dá um suspiro rendido, olha para Hugo e o nota com os ombros decaídos, os braços dobrados de modo a ter os cotovelos postos sobre os joelhos, enquanto as mãos entrelaçam-se nervosamente e os olhos se enchem de lágrimas represadas. — Oh! Hugo, não fique assim, tenha fé que tudo vai dar certo.
— Michele, eu tô me sentindo péssimo porque... porque... — começa a desabafar, em sussurro para que o pai não o ouça.
— Por que você e ela discutiram? — questiona, em igual tom de voz, movendo-se no assento para ficar mais perto dele.
— Você nos ouviu?
— Pelo menos uma parte... mas eu não quis me meter porque entendi que aquele era um assunto apenas de vocês, eu não podia interferir. — busca-lhe uma mão e a pressiona levemente, sustentando um olhar firme e compreensivo. — Hugo, você não tinha como adivinhar sobre a gravidez dela, muito menos que algo ruim iria lhe acontecer... Por isso, não deve se martirizar. Agora você precisa ser forte por ela, pela sua mãe e pelo seu pai.
Os dois olham para o lado e veem o senhor Laércio cabisbaixo, com expressão perdida e triste. Hugo, então, compreende que não é hora para deixar-se abater pelo desconsolo. Logo, puxa o ar para os pulmões, recompõe a postura e fica apenas olhando para algum ponto adiante, em meio aos inúmeros corredores e paredes brancas.
Decorrido um pequeno instante de silêncio, Michele toca novamente em seu braço.
— Hugo, quando chegamos aqui eu te entreguei a bolsa da Louise, mas agora eu não tô te vendo com ela... Onde a colocou? — Michele pergunta, dessa vez com voz meio alterada.
— Tá ali. — Hugo aponta para outro assento próximo deles.
Ela a apanha, abre-a e tira de dentro o celular. Começa a remexer nas teclas, na parte dos contatos.
— Hum... Achei! Pegue, Hugo, penso que esta tarefa cabe a você. — entrega-lhe o aparelho.
— Hum? Que tarefa? — Curioso, olha tanto para ela como para o telefone na sua mão.
— Olha, eu também não entendi direito o que a Louise falou... só que ela quer muito que essa pessoa aí saiba o que está lhe acontecendo.
Hugo lê o nome que está junto com o número telefônico.
— Dico... Ele é o pai?! — arregala um pouco os olhos, ao passo que faz a pergunta em tom de quase afirmação.
— Uhum... é sim. — anui. — Ah! E Dico é apelido, o nome é Fernando.
— Putz! Mas você acha que eu devo ligar agora, Michele? Não seria melhor esperar amanhecer? — parece hesitante, pois, de fato, já passam das três horas da madrugada. [ué, é um caso sério, melhor ser agora, é algo urgente, vai!]
De repente, porém, o senhor Laércio vira-se todo no assento e olha para o filho, mostrando que prestou atenção ao recente diálogo trocado entre ele e a namorada.
— Não, ligue agora mesmo, Hugo. Ele é o pai, não é? Então se for um sujeito responsável não vai se importar com a hora avançada. — emite a ordem de modo resoluto e impositivo.
Assim, Hugo apenas dá de ombros, respira fundo, aciona o aparelho para completar a ligação, põe-no ao ouvido e espera.
[...]
Em outro canto da cidade...
O som persistente vai pouco a pouco despertando Dico, que esfrega os olhos, move o corpo, desnudo da cintura para cima, e o braço. Tateia com a mão, na penumbra mesmo, para pegar o celular do topo do móvel que fica entre as camas. Quando vê as letras luminosas referentes ao nome de Louise, o sono se vai como que por mágica, fica surpreso e confuso. Porém, uma centelha de esperança o faz sorrir antes mesmo de deslizar os dedos sobre a tela para aceitar a chamada.
— Ah! Louise, nem acredito que você tá me ligando, torci tanto pra isso acontecer, pra podermos conversar de novo, com calma... — eufórico, vai logo expondo o que lhe vem à mente.
— Alô? Não, não é a Louise... Quem tá falando aqui é o irmão dela, Hugo. — anuncia, um pouco constrangido.
Dico ergue mais o tronco, senta-se ereto, ao mesmo tempo em que une as sobrancelhas negras, franzindo-as e mudando sua expressão para a de imediata seriedade.
— E por que eu estou falando com você e não com a Louise? Onde ela está? — depressa, sua voz denota apreensão.
— Ah... Bem, é que a Louise não pode falar com você neste momento... mas eu estou te ligando a pedido dela.
— Como assim a pedido dela? O que houve? — desconfiado, Dico lança a questão em volume meio alto.
— Não dá pra entrar em detalhes... Tudo o que posso te dizer é que ela acordou apresentando fortes dores e um sangramento contínuo, o que descobrimos ser o início de um aborto. Nós a trouxemos aqui para o Hospital Rosa Alvarez e agora ela está sendo atendida... Ainda nem tivemos tempo de saber como ela ficou, estamos esperando por um retorno da médica...
— Só me diz onde fica esse hospital, por favor! — tomado pela aflição, Dico interrompe a fala do outro. Deste modo, Hugo repassa-lhe o endereço, o qual Dico facilmente guarda na memória, pois, por sorte, percebe que já sabe mais ou menos onde se localiza.
— Tá...ok! Obrigado... Chego aí em alguns minutos. — O moreno só dá tempo para o irmão de Louise terminar de mencionar um ponto de referência e encerra a chamada.
[...]
— Ele desligou. — Hugo anuncia, notando os olhares curiosos de Michele e de seu pai sobre si.
— E o que ele disse? — Ela pergunta.
— Que chega aqui em alguns minutos. — responde, lacônico.
De novo, tanto ele como Michele olham para o senhor Laércio e o observam arquear levemente as sobrancelhas e comprimir mais os lábios finos, num menear positivo de cabeça quase imperceptível.
[...]
Dico veste-se o mais rápido que consegue, após ter realizado uma higiene também muito apressada na suíte, cuidando em não fazer muito barulho para não incomodar o sono do seu colega de quarto, Jonas, que dorme pesadamente na cama de solteiro que fica ao lado da sua. Busca a chave do carro, retira-se do quarto, atravessa os cômodos restantes e sai da república, encontrando, lá fora, um céu escuro adornado por um manto de friagem que só não é mais arrepiante que sua agonia interior. Sem esmorecer o ritmo, guiando-se somente pela iluminação dos postes públicos, caminha por uma rua larga e desértica. Ao fim dela, dobra à esquerda, depois dá novos passos e, cumprindo um trajeto conhecido e que não exige nem dez minutos, chega a um estacionamento privativo, local onde mantém guardado o seu carro, visto não haver espaço para isto na república. Alcança do bolso a sua chave-cópia para ter acesso ao estacionamento, benefício dado a todos os contratantes do seu serviço.
Minutos posteriores, já está com o Fiat em movimento ultra acelerado por uma avenida qualquer rumo ao hospital indicado pelo irmão de Louise. Seus olhos não se desviam da estrada, parecem vidrados, a seriedade que há em sua expressão demonstra a sua angústia, bem como o modo com que aperta firmemente o volante com as duas mãos, enquanto arranca do automóvel o máximo de velocidade.
Quando chega ao hospital, só perde os segundos necessários para entender que deve seguir para o setor de emergências. Na recepção, instintivamente, põe uma mão sobre a mesa grande e alva e dá leves batidas para chamar a atenção de uma das atendentes.
— Por favor, eu quero informações sobre uma paciente que deu entrada aqui há algumas horas. — exige, nervoso.
— Tenha calma, senhor, estou aqui para ajudá-lo no que eu puder... Mas preciso, antes, saber o nome da paciente e qual a situação de internamento. — A recepcionista o instrui.
— Louise Koch... Errr... Ela está grávida e foi trazida aqui por estar sangrando muito... — A voz de Dico falha um pouco, porque seu maxilar trava devido à tensão que o domina.
A recepcionista, eficiente, digita alguns caracteres no seu teclado e em instantes volta a lhe olhar.
— Ok... Louise Andrade Koch, quadro de hemorragia vaginal mediano seguido de dor abdominal, em provável andamento de aborto involuntário... Sim, ela deu entrada uma hora atrás e está sendo atendida pela doutora Flora Crispino... Infelizmente, ainda não há informação adicional para lhe dar. Sinto muito, mas o senhor deve aguardar um pouco mais. — anuncia com voz serena e impessoal.
Dico nada diz, somente continua olhando para a frente, sem enxergar coisa alguma. Sua ansiedade está em nível absurdo. Tanto que nem escuta os passos se aproximando nem a voz que o chama às suas costas.
— Você é o Fernando? — A pessoa solicita pela segunda vez, porém, sem obter retorno, decide falar mais alto e usar o apelido que o denomina mais comumente. — Dico?
— Sim... sou eu. — Por fim, o moreno gira o corpo e se atenta ao rapaz que está diante de si.
— Oi! Eu sou Hugo, o irmão da Louise. — fala amistosamente, ao passo que lhe olha de maneira avaliativa.
— Ah! Muito prazer. — responde e aceita o aperto de mão formal que o outro lhe oferece.
— Então... Também estamos aguardando um retorno da médica para sabermos como a Louise está. Quer se juntar a nós? — convida e aponta com a cabeça na direção de uns assentos mais à frente.
— Claro. — diz, sucinto.
Portanto, Dico acompanha Hugo e logo é igualmente apresentado à namorada dele, uma moça simpática, e ao pai, um homem já beirando a casa dos sessenta anos de idade, que lhe faz uma análise visual bastante demorada, assim que ele se põe à sua dianteira, mas nada esboça, além do aperto de mão cerimonioso, imitando o cumprimento educado do seu filho.
Todos voltam a se sentar. O moreno termina ficando no assento que, à esquerda, mostra o senhor Laércio e do lado direito, Michele e Hugo, respectivamente. O seu estado de tensão nervosa agrava-se justamente devido aos olhos perscrutadores do pai de Louise que, volta e meia, fazem-lhe um tipo de raio X bastante constrangedor, embora totalmente compreensível. Contudo, os namorados iniciam uma conversa consigo, o que o ajuda a se distrair um pouco. Dico descobre que a mãe de Louise, Dinah, também se encontra internada neste mesmo hospital, tudo por causa de uma trágica confusão na hora de tomar um remédio para dor de cabeça. A conversa ganha certa intimidade quando Michele pergunta-lhe como ele e Louise se conheceram.
— Então você e a ela estudam na mesma faculdade e moram em repúblicas que ficam perto uma da outra. Hum... Isso obviamente facilita demais. — Ela sorri e troca um olhar com Hugo, que também abre um sutil sorriso.
De todo modo, o moreno está pouco à vontade e apenas responde às perguntas sem entrar em muitos detalhes. Porém, ele mesmo resolve sanar uma curiosidade e vê o momento como o apropriado para isso.
— Hugo, no telefone, você disse que estava me ligando a pedido da Louise... Isso é verdade? Ela te pediu mesmo pra me ligar? — questiona, parecendo algo duvidoso e expectante.
— Bem... Na verdade, ela pediu pra Michele...
— É, e ela pediu sim, foi quando também me revelou que você é o pai do filho dela. — A jovial endocrinologista explica.
Nesse ponto, o senhor Laércio encara Dico mais retidamente, podendo, assim, captar o instante em que ele libera um sorriso triste. Porém, nem que quisesse, teria tempo para intrometer-se no diálogo porque, súbito, a atenção geral é direcionada à pessoa que se aproxima dos seus assentos, com passo firme e expressão circunspecta.
Todos levantam-se num movimento meio sincronizado. Seus rostos exibem a mesma fisionomia de intensa expectação.
— Como ela está, doutora Flora? — Michele inquire, achegando-se mais um passo da amiga.
A obstetra, uma mulher de tez amorenada, cabelos muito escuros, presos num coque arrumado, estatura mediana e corpo esguio, coberto por um jaleco branco, oscila seus olhos argutos da colega para os demais indivíduos.
— Não se preocupem, Louise ficará bem. Conseguimos controlar a hemorragia. De imediato, lhe aplicamos uma medicação inibidora do útero para cessar as contrações. Ela também recebeu uma dose específica de progesterona, um hormônio importante que será segregado por seu próprio organismo e ajudará a proteger a gestação...
— Oh, Deus! Espera! Quer dizer que ela não perdeu o bebê? — A pergunta da outra é lançada em tom de euforia contida.
As respirações de todos ainda se mantêm algo suspensas, enquanto esperam pela resposta da médica.
— Pelo que eu chamaria de um quase milagre, o feto continua vivo. — anuncia e sorri vendo-os soltarem, por fim, longos suspiros aliviados e mostras de puro contentamento. — Sim, vocês podem comemorar porque tudo estava contra e as chances de sobrevivência fetal eram bem poucas, levando-se em conta o tempo de gravidez, a coloração vermelho-escuro e a intensidade do sangue perdido por Louise, os sinais indicavam a certeza de um aborto espontâneo, mas parece que esse bebezinho nos enviou um claro recado... Ele quer viver e quer muito.
Os olhos de Dico ficam imediatamente aquosos e brilhantes e ele ri, sentindo-se agraciado.
Para suprimir as dúvidas, a doutora Flora diz que a hemorragia vaginal foi provocada por um fator inerente ao excesso de irrigação sanguínea no útero de Louise, tornando-o suscetível e frágil a qualquer mínimo traumatismo ou esforço realizado pela futura mamãe, e que o tratamento agora demandará completo repouso, recomendado até à décima segunda semana de gestação. Divulga também que precisou ministrar-lhe uma medicação calmante para amenizar o seu estado de forte nervosismo e agitação.
A seguir, não se aguentando mais, o moreno resolve falar:
— Por favor, eu posso vê-la? — pergunta, com voz mendicante.
— Ah... Bem, enquanto paciente, ela tem direito a ter consigo alguém como acompanhante... Se for de acordo conjunto, pode sim.
Dito assim, a médica repassa a decisão final para os familiares, que deverão aceitar ou não que Dico seja a pessoa a acompanhar Louise.
Hugo, Michele e o senhor Laércio trocam olhares sugestivos. Dico apenas aguarda, ansioso.
— Tudo bem ele ir, não é, pai? Afinal, nós ficaremos todos por aqui mesmo... O dia está quase clareando e, em pouco tempo, vamos ter que nos desdobrar para visitar as nossas duas pacientes. — Hugo brinca para descontrair.
— Se me permitem opinar, eu concordo. Ele é o pai do bebê e, na hora da agonia, a Louise chamou por ele. — Michele advoga em favor do provável futuro concunhado.
O senhor Laércio, então, meneia a cabeça de modo assertivo, impondo uma conduta complacente.
— Se você, Michele, garante que Louise realmente chamou por ele e disse que ele é o pai, não sou eu que vou dizer o contrário, porque confio na sua palavra, filha. — Após, coloca seus olhos sobre o moreno. — Você me parece ser um bom rapaz, mas só parecer não prova que é. Estou de acordo que vá, desde que, antes, diga se suas intenções com a minha filha são realmente sérias e honestas.
Dico não foge do olhar rigoroso que o homem lhe envia, ao contrário, arrosta-o mostrando um pouco da sua vontade e firmeza de caráter.
— O amor que eu sinto pela sua filha jamais me permitiria negar a minha parcela de responsabilidade sobre o que está acontecendo com ela, sobre a sua dor, as suas incertezas e os seus medos quanto a essa gravidez. E eu posso garantir que as minhas intenções não são menos sérias do que o meu desejo de vê-la feliz... de preferência, como minha esposa, minha companheira na vida e mãe dos meus filhos.
A declaração do moreno causa alguma comoção. Hugo sorri, Michele suspira romanticamente e até o senhor Laércio abandona a conduta rígida e abre um sorriso discreto.
— Está certo, deixemos para conversar melhor depois... Pode ir. — diz, em tom bem mais ameno.
Em seguida, a própria médica, que igualmente presenciou a fala bonita do moreno, dispõe-se gentilmente a orientá-lo ao quarto da enfermaria no qual Louise está. Atravessam uns corredores e quando, por fim, chegam à frente do quarto, a doutora Flora despede-se de Dico, depois de reforçar que ele deve manter-se quieto e deixar que Louise durma pelo tempo que convier ao seu próprio corpo, que se beneficiará com esse repouso.
Ele abre a porta, entra e a fecha novamente. Constata que existem três leitos no cômodo, porém, somente dois estão ocupados. Louise encontra-se ao centro, destacada sob a luz fluorescente do teto.
Dico faz um cumprimento mudo de cabeça para uma senhora que está acompanhando outra paciente e, só após, nota que ela está cochilando na cadeira estofada e dobrável. Caminha mais um pouco e para. Sente seu coração se comprimir ao ver Louise ali, deitada e inerte, com um lençol branco revestindo-a do alto dos seios para baixo. Os braços se dispõem ao lado de si, igualmente imóveis, sendo que no pulso esquerdo há um esparadrapo para uni-lo a um extenso microtubo plástico e a uma haste metálica sustentando uma bolsa de soro fisiológico, que em gotas se difunde diretamente em sua veia. Todavia, o belo rosto adormecido espelha um quê de mansidão e sua pele está tão empalidecida que o tom escuro dos cabelos curtos e das sobrancelhas bem traçadas ganha um contraste a mais, dotam-lhe de um ar meio etéreo.
Assim que traz a cadeira para perto da cama, senta-se e, com cuidado, prende os dedos frios e pálidos entre os seus. Logo, a emoção cresce e Dico se permite chorar baixinho.
— Oh, meu anjo! Isso vai passar logo, tudo ficará bem... — sussurra, beijando-lhe o dorso da mão.
Na manhã seguinte...
Louise entreabre os olhos, vê o teto forrado de cor branco-gelo e lembra que está num hospital. Mal começa a vasculhar o ambiente, que agora recebe os primeiros raios solares a partir das janelas envidraçadas, e dá de cara com Dico olhando-a fixamente.
— Oi. — Ele sorri de lábios fechados.
— Errr... Oi. — responde, meio confusa, desviando os olhos e observando que, à lateral, encontra-se uma moça e uma senhora. Elas chegam a lhe enviar um sorriso tímido, porém, rápido tornam a conversar distraidamente entre si. Após, tenta erguer o tronco e apresenta dificuldade.
— Não, Louise, não se esforce. — fica em alerta.
— Só um pouco... Me ajuda a sentar. — pede.
Ele se aproxima por cima dela, que põe os braços ao redor de seus largos ombros, e a sustenta com extremoso cuidado fazendo-a recostar a coluna entre a almofada e a cabeceira gradeada da cama.
— Não tá sentindo tontura, dor e nem nada disso? — averigua, tornando a se sentar rente a ela.
— Não, só tô com muita sede. — queixa-se pondo a mão na garganta.
— Hum... Então, tá. Eu acho que não tem problema você beber água. Aguenta aí... já venho.
Em poucos instantes, o moreno volta trazendo um copo plástico recheado de água fresca. Louise bebe com gosto e, sempre o olhando de soslaio, entrega-lhe o recipiente esvaziado.
— Você tá achando estranho me ver aqui, não é? — Dico comenta, forçando um tom alegre.
— Uhum... Como veio parar aqui, ou melhor, como você soube? — solta, curiosa.
— Pelo seu irmão, ele me ligou ainda de madrugada e disse que estava ligando para atender a um pedido seu... — O copo descartável em sua mão estala porque ele o aperta com um pouco mais de força. — O que eu entendi é que a sua cunhada garantiu que você chamou por mim quando estava passando mal... Eu assumo que duvidei um pouco disso, então, vou compreender se você me disser agora que estava confusa e não tinha condições para saber exatamente o que falava ou que a sua cunhada interpretou errado...
— Ela não interpretou nada errado, Dico. Eu chamei por você, sim. — interrompe-o, meio brusca, e respira fundo. — Até tentei te ligar, mas a dor era forte demais e eu não consegui.
O moreno a encara por uns segundos.
— Isso significa que... que você mudou de ideia sobre nós e sobre a gravidez?
Ela afasta os olhos dele e os dirige a qualquer vinco do lençol que a encobre, parece imersa em profunda reflexão.
— Eu tive um sonho estranho, você estava nele, e acordei sentindo muita dor... vi que sangrava sem parar. Eu pensava em tantas coisas naquele momento, mas o que mais me afligia e aumentava a minha dor era imaginar que você não me perdoaria se acreditasse que eu tinha causado a hemorragia de propósito. Porque a verdade é que, embora eu desejasse abortar, não consegui colocar em prática... Ao contrário disso, fui visitar a minha família, como você sugeriu, e... Oh, Deus! Como foi difícil! Eu vi as minhas maiores convicções sendo destroçadas num único dia... — Seus olhos começam a ficar lacrimosos.
— Louise, não fale sobre o que te atormenta, esqueça isso pelo menos agora, você não pode ficar emocionada desse jeito... não pode. — adverte, preocupado.
— Dico, tá tudo bem. Eu preciso desabafar, me deixe dividir com você esse peso que está me sufocando... por favor.
Desse modo, ele alcança de novo a sua mão para prendê-la com ternura e firmeza, enquanto lhe envia sinal positivo com a cabeça.
Louise continua:
— Não foi só o acidente com a mamãe que me angustiou, foi ficar o dia todo com o meu pai, ver nos seus olhos o quanto ele sente a minha falta e, à noite, ter que ouvir do meu irmão que ele se culpa porque eu saí de casa quando nós éramos apenas dois pirralhos briguentos, foi saber que todos eles acreditam que eu lhes virei as costas, que os rejeitei... foi, de repente, ser obrigada a encarar a mim mesma e enxergar que eu não sou mais a vítima e sim a vilã, também não sou mais a filha posta de lado, a irmã injustiçada... e sim a que endureceu seu próprio coração, por despeito, orgulho... e medo.
Ela, por fim, ergue o queixo e o olha francamente, ao passo que não se importa de deixar escorrer por sua face bonita algumas lágrimas.
— Você tinha razão quando me acusou de estar com medo porque eu estava mesmo, eu estava com muito medo, Dico. E esse medo sempre me afetou em tudo, não foi diferente com você e com a gravidez. Eu tentei não me envolver de verdade, quis negar o que eu sinto por você e negar esse filho, achei que o aborto era a única saída, mas... mas, enquanto eu me esvaía em sangue e a dor me consumia sem piedade, eu vi nascer em mim um instinto tão forte e maravilhoso que eu nunca pensei que pudesse experimentar...
— Louise... — Ele sente a mão dela tremer envolta à sua.
— O meu medo passou a ser outro, eu temi perder o meu filho, perder a chance de dizer que eu não fui capaz de impedi-lo de vir ao mundo porque, enfim, compreendi que não há uma razão verdadeira para isso. Eu sei que a minha família irá me apoiar, e que você será o melhor pai do mundo, como já é.
A outra mão de Louise pousa suave no rosto de Dico, que está obviamente emocionado, mas se esforçando para não chorar.
— Além disso, a venda que estava nos meus olhos caiu e agora eu enxergo, bem diante de mim, o homem que eu amo e que pode me fazer feliz... Você me perdoa?
Ele se senta à beira da cama, pelo lado, e a abraça cuidando em não lhe apertar de jeito nenhum.
— É claro que eu te perdoo, Louise... Eu te amo! — fala baixinho ao seu ouvido, dando-lhe beijos apaixonados perto desta região.
De repente, são surpreendidos por risos contidos. Desfazem o abraço, limpam os rostos e se atentam a uma mulher vestida de modo que indica ser a copeira do hospital, que arrasta uma pequena prateleira com rodinhas tendo por cima os alimentos referentes ao café da manhã de internos e acompanhantes. Atrás dela está a doutora Flora, juntamente com Hugo e Michele.
Todos os espectadores estão em pé e com expressões risonhas.
— Hummm...! Pelo que vejo tem uma paciente aqui que ficará boa rapidinho, ainda mais recebendo este tratamento extra, não é doutora Flora? — Michele não se contém e solta o comentário brincalhão.
Dico e Louise também acabam contagiando-se pela sua alegria e sorriem.
— Mas é melhor irem com calma, viu? Os futuros papais não podem nem sonhar com gestos amorosos mais animados do que abraços... por um bom tempo. — divulga, bem-humorada.
Novos risos.
A doutora cumpre o que veio fazer, ou seja, examina a paciente, faz outras recomendações, noticia-lhe que terá alta neste mesmo dia, poderá continuar a recuperação em casa e sai.
As surpresas para Louise, no entanto, só estão começando, pois nem bem Hugo e Michele acomodam-se à sua volta, unindo-se a Dico, depressa ela avista, adentrando pela porta do quarto, seu pai e a pessoa que lhe faz acelerar um pouco o coração, de alegria.
— Mãe! — ri para a senhora que é a cópia feminina, mais gordinha e mais velha de Hugo.
— Se Maomé não vai à montanha, é a montanha que vem a Maomé! — profere, abrindo um largo sorriso para a sua filha. O olhar da mãe passeia de Dico para Louise e a jovem não demora para entender que a senhora já está sabendo de tudo, assim como não lhe custa captar por detrás deste olhar um sentimento de genuína preocupação materna.
Louise sorri de novo por se dar conta que um dia poderá mostrar para seu filho este mesmo olhar.
[...]
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