[HIATUS] Mudanças impuras
56 Aparando algumas arestas
Notas iniciais
— Meu Deus, Lou... Que bom que, no fim das contas, tudo deu certo. Que bom! — manifesta Lavínia, com o celular ao ouvido, enquanto, sentada, projeta-se à frente recostando-se na mesa, perto do notebook. Está voltada para a porta aberta da pequena cozinha, dando vista ao quintal da casa, através da qual recebe a luz da tarde sobre a sua perfeita fisionomia, fazendo refletir na longa franja aloirada um brilho a mais, o mesmo que incide nos seus lindos olhos violáceos. Acaba de escutar o relato sobre os últimos ocorridos tensos que acometeram a vida de Louise e, embora tenha ficado muito assustada ao longo dele, acabou experimentando uma boa sensação de alívio.
— Pois é, Vivi, não tenho mais como fugir, o jeito é encarar o fato de que eu serei mãe... Mas, se eu pensava que seria difícil lidar com a possível crítica da minha família, me enganei feio, até porque todos estão parecendo muito tranquilos com isso... Tô vendo que o duro agora vai ser suportar o tédio de ficar presa à cama ou ao sofá, já que eu estou proibida de fazer qualquer esforço, e ainda ter paciência com o Dico... — ri, macarrônica. — Aff! Ele simplesmente não para de mostrar aquela cara de quem está surtando de alegria, rindo de orelha a orelha. Eu mereço!
— Ai, que amor! Puxa, Lou, compreenda, ele estava crente que o aborto iria acontecer de qualquer jeito e, pior, que a relação de vocês estava mesmo fadada a terminar, mas graças aos céus que você acordou a tempo. — A loira ergue-se, vai à geladeira, buscando na memória algo que queira falar. — Hum! Lou, você recebeu alta do hospital ainda pela manhã, não foi?
— Foi, sim, aliás a minha mãe também.
— E o Dico? Ele foi embora logo? — pergunta, alcançando um litro gelado e voltando a fechar a geladeira.
— Ele quis ir, mesmo estando sem condições pra dirigir de tão cansado, acho que ficou um pouco envergonhado. Mas a minha mãe insistiu que viesse conosco, então ele veio... Assim que chegamos aqui, por volta das dez horas, ela sugeriu que todos fôssemos descansar, daí ele desmaiou, lá no quarto de hóspedes onde foi posto, até às três horas da tarde... Quando acordou, comeu algo da comida que foi pedida a um restaurante, veio aqui no quarto pra me ver, se despediu dizendo que eu não me preocupasse mais, que depois teríamos uma nova conversa, para pensarmos nos nossos planos para o futuro e foi-se embora.
— Uhum... Tenho certeza disso, viu, Lou? É óbvio que esse homem te ama demais, então é só questão de tempo pra ele se livrar daquela esposa maluca de vez... Mas, me fala, quando você volta pra república? — inquire, bebendo uns goles de água do copo de vidro seguro em sua outra mão.
— Bem, a minha mãe pediu pra eu ficar aqui uns dias, disse que quer cuidar de mim nesse primeiro momento de recuperação... — pigarreia um pouco. — Então estou pensando em ficar por no mínimo duas semanas.
— Hummm... Que delícia! Vai receber mimos e carinhos de mãe, não é? — ri, descontraída. — Bom, sendo assim, fico mais feliz ainda, Lou. Espero que esta seja uma oportunidade pra você se aproximar mais da sua família.
— É, sei que será... Mas nem pense que você tá livre de vir aqui me visitar, você pode chamar o Pietro e, assim, também dá pra trazer as meninas.
— Ok... Prometo que no próximo sábado estarei aí... Ei! Mas se eu vou levar a Manu e a Vicky comigo, isso quer dizer que eu posso contar pra elas a novidade?
— Sim, pode! Faça todos saberem que eu vou ter um bebê, você pode até colocar num anúncio de jornal, Vivi, junto com a frase “Eu tinha razão” que eu aposto que está louquinha pra me jogar na cara. — emite, zombeteira.
Lavínia ri com gosto, bem-humorada.
— Ah! E é verdade, sim! Eu tinha razão, pois sabia que, no fundo, você não estava mesmo querendo fazer um aborto, só precisava de tempo para pensar melhor, organizar as ideias, para conseguir enxergar pelo lado positivo.
— Tá! Não quero mais falar de mim, agora quero saber de você... Diz aí, você e o Pietro vão sair hoje? Marcaram algum encontro romântico? — As perguntas soam como a cobrança de uma mãe desejosa de ver a filha unida a um bom partido amoroso.
— Não... Nós não vamos nos ver hoje... infelizmente não vai dar. Eu tenho um trabalho da faculdade para concluir, valendo nota, que preciso entregar amanhã, sem falta. — fala, ao mesmo tempo em que põe o copo sobre a pia e olha para o notebook acima da mesa através de um leve franzir de sobrancelhas.
— Eu não acredito que você vai preferir passar o resto da tarde e a noite deste feriado fazendo trabalho da faculdade, ao invés de sair com o seu namorado... Credo! Que chatice! Justo quando você nem vai precisar ir pra boate. Vivi, deixa isso pra amanhã de manhã, eu duvido que seja algo que te roube mais que uma hora do seu dia. — Louise não a poupa da crítica.
— Tem razão, Lou, inclusive, o meu trabalho já está praticamente pronto, trata-se de uma coisa simples, só um artigo... mas o problema é que, à noite, é o Pietro que estará ocupado e por um motivo bem parecido. Ele vai se encontrar com o grupo de estudo dele. — comunica, voltando a sentar-se rente à mesa, arfando um pouco.
— Grupo de estudo?
— Sim, ele e uns colegas do curso de direito resolveram formar um grupo de estudo. O objetivo é debater o conteúdo, enriquecer os conhecimentos na área... Enfim, o grupo promove encontros em dias previamente selecionados, que sejam convenientes para todos os integrantes... e calhou de um desses en-encontros ser hoje... Se bem que ele me ligou agora há pouco perguntando se eu queria que ele faltasse ao encontro... pra fi-ficar comigo, mas é lo-lógico que eu disse que não. Eu não quero que ele prejudique o seu ritmo de estudo só por mi-minha causa... Isso não seria justo. — bufa e passa as mãos nos cabelos, pondo umas mechas loiras para trás.
— Uhum sei... Tá! Ok, entendi o seu ponto de vista, mas acho que não seria o fim do mundo se ele faltasse... Além disso, eu aposto como o Pietro tava doidinho pra te ouvir pedindo que ele largasse tudo pra ficar com você...
Desse modo, Louise segue debatendo com Lavínia, que não cede quanto a achar que Pietro deve priorizar os estudos. Contudo, ao fim de uns minutos, a ligação é encerrada sem que a loira crie coragem para confessar à amiga sobre a decisão que tomou de perdoar Henry e de dar uma nova chance para recomeçarem como irmãos normais.
Lavínia torna à digitação do seu artigo, aos ajustes finais dele, logo o concluindo. Anima-se a ir ter com as meninas para lhes repassar a boa novidade. Tem certeza que elas ficarão imensamente surpresas e felizes quando souberem que Louise está grávida. No entanto, mal ergue-se e dá os primeiros passos para deixar a cozinha, seu telefone toca mais uma vez. Ri consigo mesma supondo que são seus pais, pois embora lhes tenha dito que não poderia estar com eles nessa noite, por certo não a isentarão das suas chamadas que, na maioria das vezes, objetivam somente verificar se está bem e em segurança. Retrocede, apanha o celular de cima da mesa e, ao conferir os números, sabe quem é. Sente a pulsação acelerar e as mãos tremerem, mas respira fundo, enquanto busca esvaziar a mente de qualquer pensamento negativo.
— A-Alô... Oi, Henry. Tu-Tudo bem com você? — atende, meio gaguejante, porém, razoavelmente receptiva.
Apesar de baixo, o riso dele é audível.
— Melhor agora. E você? Como está? — pergunta em tom grave, firme e com igual cordialidade, liberando uma sutil baforada, o que faz Lavínia entender que está fumando.
— Estou... ótima. — responde pausadamente.
Henry ri mais espontâneo desta vez.
— E como será a noite de folga? Já tem algum programa marcado com o...?
— Pietro. Errr... Bem... Não temos. É que... ele tem um compromisso importante para hoje.
— Para não curtir a noite de feriado ao lado da namorada, imagino que seja algo muito importante mesmo. — O tom natural não exime o comentário da pegada irônica.
— E é sim... muito importante. — atesta.
— Hum... Que pena! Justo quando eu ligo com a intenção de fazer um convite aos dois.
— Um co-convite? Pra quê?
— Uma peça musical famosa será apresentada hoje no maior teatro da cidade, um dos organizadores do evento é meu colega, por isso recebi alguns convites gratuitos e, como eu sei que você apreciaria bastante essa manifestação artística inigualável, pensei em te convidar e, lógico, estender o convite ao seu namorado. — A última frase sai num volume tão baixo que ela precisa forçar a audição para entendê-la.
— Ah... Errr... Acho ge-gentil da sua parte querer nos levar a um evento de tamanha ri-riqueza artística... Eu fico agradecida de ve-verdade, Henry, mas... mas não posso aceitar. O Pietro não vai po-poder ir e... e... — enrola-se um pouco.
— E sozinha você não vai, não é? É, eu já entendi, Lavínia. — defronta-a e suspira de modo ruidoso. — Sendo assim, que tal chamar uma das suas amigas? Afinal, não é todo dia que surge a oportunidade para se assistir ao vivo e grátis um espetáculo tão grandioso como esse.
Silêncio.
Lavínia não responde de imediato e Henry compreende que ela está avaliando as possibilidades.
— A minha me-melhor amiga está acamada, as outras já têm seus próprios planos de di-diversão para hoje... Assim, não vai dar, não te-tenho nenhuma amiga di-disponível no momento... Me desculpa, Henry...
— Está certo, tudo bem. Não precisa se sentir forçada, já fico feliz que tenha ao menos pensado em aceitar... Vejo isso como um progresso e posso entender que, aos poucos, as coisas entre nós tendem a se ajustar normalmente. Quanto à peça musical, só lamento que você não possa ir... Mas eu te ligo depois para marcarmos outra saída, pode ser?
— Claro, po-pode sim... Então até mais, Henry.
— Até logo e bom resto de feriado pra você.
— Obrigada, pra vo-você também... Tchau!
— Tchau.
Desligam.
Lavínia deposita o aparelho na mesa. Seus olhos, que antes estavam brilhantes incidindo a luz advinda do quintal, agora parecem um tanto vagos, enquanto os direciona a algum ponto do piso. Entretanto, puxa o ar aos pulmões, ergue o belo rosto e volta a caminhar. Sai da cozinha, passa pela sala miúda e, sem novas interrupções, vai rumo ao quarto que é ocupado por Vicky e Manu.
[...]
No quarto de Vicky e Manu, minutos atrás...
O recinto acolhe a iluminação da tarde por meio da janela aberta.
Vicky encontra-se sentada sobre a cama, voltada à leitura que faz.
— O que tá fazendo? — questiona Manu, saindo da suíte e adentrando no quarto, em pingas d’água, nua, linda e sardentinha, secando as madeixas lisas e ruivas com uma toalha clara.
— Lendo um livro? — sugere Vicky, brincalhona, forçando naturalidade perante a sua nudez, que sempre a faz ficar corada e se sentir um ser do século passado, enquanto exibe a capa referente à obra “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski.
Manu revira os olhos, embola a toalha e lhe arremessa, não a acertando de propósito. Mesmo assim, Vicky desvia o corpo e vê o pano felpudo ir de encontro à parede e cair sobre o canto da cama. Ela ri mais.
— Não é isso que eu tô perguntando, sua bobona, o que eu quero saber é se você pretende mesmo ficar trancada no quarto lendo e não aproveitando essa tarde linda de feriado... Ainda está cedo, são só quatro horas, não tá afim de ir comigo a um lugar? — Ao mesmo tempo em que fala, abre a cômoda, tira de dentro uma calcinha e a veste.
— Para onde está querendo ir? — põe o livro de lado, atenta à resposta.
— Visitar os meus pais... Seria uma apenas uma visitinha rápida e eu poderia te apresentar como uma simples amiga. — Olha-a de viés, ao passo que cobre os seios medianos com o sutiã rendado e põe o short jeans.
— Manu, como você poderia me apresentar como amiga se já me confessou que nunca soube mentir para os seus pais e que, ao contrário, sempre se abriu com eles sobre tudo? E mesmo que fizesse isso, acha que eles acreditariam nessa história de “simples amiga”?
— Tá, tá... Tá bem! Eu sei que não seria difícil pra eles sacarem que você, na realidade, é a garota de quem eu sempre falo... Ah! Mas qual é, Vicky? Isso não é problema algum, nunca foi. Pode acreditar em mim, os meus pais jamais te colocariam em posição constrangedora, eles são pessoas legais e muito confiáveis, totalmente diferente dos seus... Ops! Não foi exatamente isso que eu quis dizer, eu só...
— Eu sei, Manu, mesmo sem ter sido ainda apresentada aos seus pais, apenas pelo modo como você fala deles, posso perceber que eles são bilhões de vezes melhores que os meus, em muitos aspectos... Isso é um fato contra o qual não há argumento. — dito assim, Vicky fica quieta e pensativa.
Manu, por sua vez, continua aguardando uma resposta ao seu convite. Porém, para compensar por ter cometido a gafe de inferiorizar os pais da outra, justo quando recém reataram o namoro, não insiste mais, somente a deixa decidir por si mesma. Todavia, depois de algum tempo remexendo no interior do roupeiro, enfim, esboça reação de impaciência, mas por outro motivo.
— Que droga! Onde tá essa camisa? Putz! Faz um tempão que não a uso... hoje eu tava a fim. — queixa-se.
— Que camisa, Manu? Você quer que eu te ajude a procurar? — Vicky abandona a postura absorta e fala, consciente do quanto a ruiva é impaciente, o que quase sempre a impede de encontrar até o que está piscando na sua cara.
— Não, não precisa... Eu vou encontrar essa camisa porque ela não é agulha para se esconder fácil assim e isso aqui é uma cômoda e não um palheiro. — obstinada, torna a verificar as peças de roupas, enfiando a mão mais a fundo no compartimento amadeirado. Após novos instantes, vitoriosa, anuncia: — Achei!
Manu desdobra a camisa preta que tem na sua frente o slogan da banda de rock Slayer e, assim que a veste, dá-se conta de que algo se soltou dela e foi parar no chão. É um papel reduzido em várias dobras e um tanto envelhecido. Vicky flagra a cena e sua mente começa a dar voltas. De antemão, pressente o que virá. Seus olhos negros arregalam-se de leve e denunciam alguma tensão, porém, busca disfarçar. Por sua vez, a ruiva, de cenho franzido e já com o papel em mãos, desdobra-o e lê o seu conteúdo. À medida que progride a leitura, a surpresa a toma mais.
— Nossa! Que estranho! Como essa carta veio parar aqui? — questiona consigo mesma.
Calada está e calada a morena permanece, unicamente sem conseguir desviar seus olhos apreensivos da figura em pé, que se mostra submersa em divagações.
Decorre exato um minuto.
Manu, enfim, olha diretamente para ela e dá um passo aproximando-se.
— Vicky, você tem algo a me dizer sobre isso? — pergunta, sem titubear, erguendo o bilhete de maneira que a face dele fique exposta.
— O que... é isso? Uma carta? — devolve a pergunta, baixando a vista e escondendo as mãos trêmulas para trás de seus quadris pousados na cama.
— Ok, Vicky, se é assim que você quer, é assim que vai ser... Vamos por partes. — determina sempre a olhando fixamente. — Sim, isso aqui é uma carta que a Dayse me entregou, na saída do trabalho, mais ou menos dois meses atrás. Eu não abri, não li, apenas enfiei no bolso de uma calça ou saia, não me recordo muito bem. Só que quando me lembrei dela, percebi que havia sumido, como se fosse fumaça, e eu nem a procurei, achei que a tivesse perdido, talvez na rua, naquele mesmo dia em que a recebi...
— Você tá insinuando que eu...
— A questão é que agora, do nada e como que por obra do acaso, a carta aparece enfiada no fundo da minha gaveta, em meio às minhas roupas... — Seu tom vai gradualmente se alterando. — Mas isso, na realidade, não tem absolutamente nada a ver com o acaso, pois essa merda de carta não tem pés para andar e se esconder sozinha!
— Manu, eu...
— Certo! Não sejamos tão precipitadas... Vai ver foi a Lavínia ou a Louise que a achou e, sem mencionar uma única palavra sobre ela, a emburacou na cômoda... — segue, irritada e caçoante. — Ou pode ser ainda que ela tenha sido lavada junto com a calça ou a saia em que estava dentro... Ah! Mas que engraçado! Não há qualquer sinal de que tenha sido lavada, pois se isso tivesse acontecido, estaria bem deteriorada, quase ilegível, não é???
— Está bem! Pare! Eu assumo... Fui eu que a achei, no dia em que estava pondo a roupa na máquina, e resolvi apenas colocá-la na sua gaveta. — fala e em seu olhar há uma mescla de vergonha, orgulho ferido e amargura.
— Por que não falou comigo sobre ela? Por que se manteve quieta todo esse tempo, Vicky?
— Eu não me lembrava mais dela... me esqueci completamente...
— Esqueceu? Quando você esqueceu? Ou melhor, em que momento, quando ainda se lembrava dela, você pensou em conversar e esclarecer as coisas? Hum? Fala!!!
Contudo, Vicky não fala, simplesmente não consegue falar, somente encher os grandes olhos negros de lágrimas, que tenta represar, enquanto um bolo ácido trava a sua garganta.
Novos segundos de silêncio.
Súbito, Manu apresenta-se com a expressão tão embravecida que se poderia dizer que mais parece uma chaminé ardente e fumegante.
— Agora tudo faz sentido, você veio com aquele papo que queria terminar comigo porque não tolerava mais as minhas cobranças e estava cansada de mim... Era tudo mentira, não era?! Na verdade, você não suportou saber que tinha uma garota tão legal me querendo e, ao invés de lutar por mim, achou mais fácil tentar me descartar da sua vida como se eu fosse um objeto inútil... Sua covarde! — grita, transfigurada pela raiva.
— Não... Manu, não foi exatamente assim...
— Não? Será que você percebe que esteve a ponto de me perder para a Dayse? Você liga pra isso? Se importa ao menos um pouco? Ah, vá pro inferno! Mas antes me faz um favor, Vicky, continue com a cabeça enterrada na sua auto piedade, porque esse papel sempre te coube muito bem!
De repente, escuta-se batidas à porta.
— Meninas! Posso entrar? — A voz melodiosa e doce de Lavínia corta o clima de agonia que se propaga no interior do quarto.
— Pode, Lavínia! — A resposta é emitida em tom agastadiço pela própria Manu que, após fazê-lo, vira-se e entra na suíte, ao mesmo tempo em que a loira adentra no recinto pisando mansinho.
Por que escutou fragmentos da discussão, Lavínia compreende que as garotas brigaram de novo e ao ver a expressão desolada da morena não tem mais qualquer dúvida.
— Eu... Eu acho que não vim em boa hora... Melhor deixar pra depois. — envergonhada, faz menção de regressar por onde veio.
— Que é isso, amiga? Não precisa sair... — Apesar da tristeza, Vicky não deixa de ser gentil.
Manu torna ao recinto. Está penteada, com a franja rubra cobrindo toda a testa e o restante das madeixas lisas caindo até os ombros. Os olhos estão delineados a lápis pretos. Sua postura é de poucos amigos, encontra-se nitidamente tomada pela cólera. Em movimentos apressados, alcança seus tênis vermelhos abaixo da cama e os põe. Depois, pega sua mochila e coloca algumas roupas e outras coisas dentro dela.
— Manu... — Vicky ergue-se e tenta uma aproximação, porém, é ignorada pela ruiva, que se direciona somente à loira.
— Lavínia, tô de saída e não volto hoje, ok? Até! — deita a mochila no ombro e sai, mas não sem antes chacinar Vicky com um olhar atravessado.
Instantes depois, a morena desaba na cama chorando convulsivamente.
— Ai, meu Deus! O que a-aconteceu, Vicky? Não fica assim, amiga. — A loira senta-se ao lado da morena e busca consolá-la.
Todavia, tão-só decorridos uns bons minutos de choro, Vicky eleva o tronco, afasta os cachos do rosto corado com a boca num trejeito meio pueril e olha para a amiga.
— Tá tudo desandando de novo, Lavínia... — expressa, secando umas lágrimas e lutando para não soltar outras. — Quando eu penso que a gente vai se acertar.... acontece algo e pronto! Surgem novas brigas, ofensas e mais mal-entendidos pra acabar com a nossa tranquilidade...
Conta por alto o que se passou. Lavínia, compadecida, sente que deve ao menos tentar aconselhá-la.
— Olha, amiga, eu sei que a si-situação está parecendo ruim e tensa... e eu só te peço que, por favor, não se entregue à depressão outra vez. Você sabe como a Manu é precipitada, sempre faz tempestade em copo d’água, mas ela te ama e ama muito... E me desculpa dizer, Vicky, mas acho que é vo-você que tem que parar de duvidar dos sentimentos dela... deve a-acreditar mais na força da relação que vocês co-construíram...
A voz salteada e harmônica de Lavínia invade os ouvidos de Vicky, que meneia a cabeça acolhendo as palavras da outra e refletindo que seu discurso assemelha-se ao do seu primo, Fábio. Como a corroborar com tal enunciado, nesse momento, olha para a cama da ruiva e percebe que a carta terminou sendo largada ali. Seu olhar perde-se no papel. Então, ergue-se, anda até ele, apanha-o e respira fundo.
— Você está certa, Lavínia. Não é me entregando à tristeza que vou resolver os problemas que existem entre a Manu e eu, mas eu preciso fazer algo pra me distrair e não encher a cabeça com bobagens... — larga a carta, que cai de volta à cama, e, mendicante, olha-a. — Amiga, você pode me fazer companhia pra ver um filme? Nós podemos comer sorvete ou fazer pipocas... sei lá, só preciso ocupar a mente com alguma coisa alegre...
— Oh, Vicky, é claro que eu te faço companhia. — Lavínia também se põe de pé e anda até ela. — Porém, estou pensando em te pro-propor uma distração melhor.
— Melhor? O que seria?
— Você gostaria de ir co-comigo, hoje à noite... ao teatro para ve-vermos de pertinho uma peça musical? — pergunta abrindo um sorriso singelo e convidativo.
— Uma peça musical? Uau! Bom... eu...
— Ah! Vamos, Vicky... Nós duas iremos co-como convidadas do meu irmão. — anuncia e vê o pasmo da morena aumentar. Segura-lhe as mãos e o olha firmemente, como quem pede mais atenção. — Amiga, você será a primeira pessoa pa-para quem irei contar que eu resolvi dar uma nova chance ao meu i-irmão, apesar de tu-tudo o que houve... Ele me pediu isso, sabe, di-disse que está ar-arrependido... quer se redimir e eu não pu-pude dizer não...
— Ok, ok.. Lavínia, não precisa se justificar tanto, eu também tenho uma família complicada, cheia de parentes que só me pressionam e magoam... e, mesmo assim, eu vivo perdoando o que eles me fazem... pois não consigo odiá-los de verdade e nem rejeitá-los. — sorri, compreensiva, e lhe devolve o aperto amistoso nas mãos. — Se é o que o seu coração manda fazer, então faça... E sim, eu topo ir, Lavínia... Já tô curiosa pra saber que musical é esse.
[...]
A névoa escura ganha formas abstratas conforme o sopro é realizado e depressa expande-se pelo ambiente, empregando a sala do apartamento com o odor característico do cigarro. No sofá de estofado negro, Henry está recostado, com o abdômen à mostra, as pernas vestidas numa calça moletom preta, esticadas fazendo os tornozelos sobreporem-se um ao outro e repousarem em cima da mesinha envidraçada, onde os pés descalços empreendem um sutil balanço espontâneo. O rosto marcante e viril encontra-se circunspecto e seus olhos semicerrados quase escondem por completo as íris azuis cor do céu, enquanto se fixam à frente de si sem nada ver, já que seu pensamento vagueia, inquieto, e contradiz a sua superficial calmaria. No canto esquerdo do sofá jazem os ingressos para o musical que ele comprou fazendo questão de exigir que lhe garantissem ser alocado no espaço nobre, nos melhores assentos à disposição no teatro, adquirindo, assim, por tabela, um ostentoso camarote para seis lugares.
— Uma forma de desespero mascarada de virtude... — murmura olhando para os miúdos cartazes, que reúne hostilmente numa só mão. — Eis a merda da paciência!
Ruge baixinho, ao mesmo tempo em que mantém o cigarro preso à boca, busca seu isqueiro de prata, que também está perto de si. Aciona-o e começa a aproximar o fogo vivo dos ingressos pelas bordas inferiores com o objetivo claro de queimá-los. Não há qualquer emoção em sua face neste momento, porém, seus olhos são como perfeitos refletores, pode-se ver a chama da inquietude neles, prestes a consumir sua própria avidez, sublimando-se, controlando-se.
Súbito, o telefone toca.
Interrompe a tarefa, larga-os, eleva o tórax, traz os pés de volta ao piso e, de modo apático, pega o celular de cima da mesinha de vidro, porém, quando vê o nome na tela, seus lábios contraem-se num sorriso franco, ao passo que os olhos brilham como topázios polidos, de regozijo e surpresa.
Inspira e expira com força antes de atender.
— É a primeira vez que você liga pra mim, sabia? — divulga com voz comedida e grave, tragando mais do cigarro e deixando a fumaça sair lentamente pelo canto dos lábios.
— Ah! Não sa-sabia não... não me dei conta disso. — Lavínia responde, rindo sem graça.
— Então... Diga que está me ligando porque mudou de ideia e agora aceita o convite que te fiz. — pede e aguarda.
Do outro lado da linha, a loira comprime o aparelho entre os dedos e tenta mostrar-se espontânea.
— Sim... É que u-uma das minhas amigas acabou fi-ficando como eu, se-sem opção de saída no feriado. Assim, percebi que não se-seria nada mau chamá-la... pois, co-como você disse, não é comum te-termos a chance de assistir de gra-graça a um musical que, seja do que for, é sempre uma be-bela exibição de arte.
— Exatamente. Que bom que percebeu. Tenho certeza que você e sua amiga vão gostar, ainda mais porque é realmente um espetáculo que vale a pena ver. — afirma e confere o seu relógio de pulso. — Lavínia, a apresentação terá início a partir das dezenove horas, então tudo bem eu estar na sua porta por volta das dezoito para buscá-las?
— Uhum... Estaremos pro-prontas. — anui simplesmente.
— Ótimo... Até mais tarde.
— Até.
A ligação é concluída, ele libera o ar com força e olha novamente para os ingressos. “E assim vamos nós, do caos ao recomeço e, no recomeço, rumo ao caos”, pensa, enigmático.
[...]
Horas depois...
— Ai, Lavínia... Isso não vai dar certo, eu vou estragar o seu vestido, meus seios são trocentas vezes maiores que os seus. — alerta Vicky, mirando-se no espelho retangular afixado na parede do quarto da loira, sentindo a compressão no busto. Usa um vestido azul-claro com um corpete feito a fio sintético e lycra e, na parte de baixo, a saia em tulle cai molemente num frisado que ondeia ao sabor dos seus movimentos.
— Pois se isso acontecer, o que eu duvido muito... não é mais da minha conta. — A loira divulga sorrindo, travessa.
— Jesus! Tá me dando esse vestido? Amiga, eu...
Lavínia encontra-se atrás dela, igualmente concluindo os derradeiros preparativos do seu visual festivo. Traja um vestido longo em tom salmão, bem ajustado ao corpo, delineando a sua silhueta esguia, bela e feminina, com alças finas que expõem o colo e os braços alvos.
— Tô! E nem pense em recusar, aceite ou vou ficar chateada... Poxa! Ele ficou perfeito em você. Tá incrível! Se a Manu te visse agora... — morde a língua e se cala.
— Mas ela não vai ver... e eu não vou deixar que isso me jogue pra baixo. — levanta o rosto, enche o peito de ar para espantar a tristeza e sorri. — Obrigada pelo presente, Lavínia, eu acho que nunca usei algo tão gracioso e chique... — emite, sentindo a finura do tecido que reveste os babados da saia. — Mas você também está super linda, aliás, nós duas estamos iguais a princesas.
Com efeito, estão muito bem-arrumadas, com acessórios, maquiagem e penteados que favorecem seus traços bonitos. Uma está com os cachos negros amarrados a um laço de cetim azul e a outra com metade das madeixas loiras presas, enquanto uns fios espessos adornam as laterais da testa alva e o restante cai pelas costas branquinhas, liso e brilhante.
O diálogo é interrompido pelo som da campainha reverberando pela república toda.
— Bom... parece que a nossa ca-carruagem real chegou. — Lavínia segue no embalo da descontração, embora suas mãos comecem imediatamente a tremular e suar frio.
No entanto, luta consigo mesma para demonstrar naturalidade quando abre o portão a Henry.
Ele fica emudecido por uns segundos, seu olhar mirando-a de cima a baixo torna-se mais côncavo e evidencia um quê de deslumbre que a constrange mais do que se tivesse feito um elogio indecoroso. Todavia, a loira releva esse detalhe, apenas o cumprimenta e recebe igual tratamento comedido.
Ele não entra e nem ela o chama para fazer isso, somente lhe apresenta formalmente a Vicky.
A postura dele é impecável ao cumprimentar a amiga da loira com devida simpatia. Igualmente perfeita é a sua vestimenta, por eleger o estilo clássico sem, contudo, fugir ao charme que lhe é habitualmente peculiar. Veste paletó escuro – mesma cor da calça – gravata em tom índigo, camisa clara e sapatos marrom-escuros lustrosos. Sendo que o cabelo áureo de corte moderno e jovial orna o belo rosto, completa o look, exala virilidade, segurança e altivez.
— Vamos? — convoca-as.
Ambas acenam positivamente. Depois de fecharem a república à chave, seguem-no até o carro.
Ele abre respectivamente a porta de trás e a da frente, no lado do passageiro. Vicky não pensa duas vezes, toma a iniciativa de entrar na traseira do automóvel e Lavínia vê-se com a opção única de ser a acompanhante do guia. Henry sorri discretamente, dá a volta, entra e liga o veículo.
Um número considerável de pessoas elegantemente trajadas vai subindo, a passos lânguidos, a escadaria centenária que antecede a entrada do grande teatro Bertha Belutti. Entre elas, estão Lavínia, Vicky e Henry. Quando eles vencem o último degrau, acham o pátio externo, igualmente um pouco tumultuado, mas não a ponto de obstruir a visão bem preparada de Henry que logo identifica a mulher conhecida e, como um ímã atrai um metal, ela também o vê. Portanto, Henry e ela trocam um olhar e o dela apresenta-se sobressaltado devido ao pequeno susto, pois não imaginou encontrá-lo ali. Contudo, ele, inalterável, sinaliza positivamente demolindo a sua hesitação quanto a dever aproximar-se, o que Isadora faz trazendo consigo seu acompanhante da noite.
— Henry! Oi, gatão... Que bom te encontrar aqui! — festeja.
— Oi, Isa. — saúda-a, lacônico, e faz uma mesura discreta ao rapaz que a escolta.
Isa ri, eufórica, agitando os fartos seios siliconados e os babados vermelhos do seu vestido, mas contendo-se no instante em que se direciona às garotas.
— Olá. — cumprimenta-as olhando especificamente para Lavínia.
— Olá. — Vicky responde, simpática.
A loira mergulha numa seriedade profunda, enquanto reconhece a mulher que foi a cúmplice no crime cometido contra seu pai.
Para tornar o clima ainda mais estranho, porque um paparazzi inicia uma captura de imagens das figuras notórias que irão assistir ao evento, o belo empresário puxa Isa pelo braço e, brusco, coloca-a rente à Lavínia, conseguindo, assim, impedir que a loira seja atingida frontalmente por um flash fotográfico.
Isadora e ela aturdem-se um pouco e passam a se avaliar face a face. A ex-participante de reality show fita-a de modo complacente, quase piedoso, a mais jovem exibe uma feição preenchida de algum sentimento rançoso, difícil de tragar.
— Melhor entrarmos. — Henry desconsidera a tensão entre as duas e sugere.
No lado interno do teatro, o acúmulo de pessoas é menor, já que vão logo se dirigindo à sala de espetáculos. Vicky, Lavínia, Henry, Isadora e seu acompanhante ficam novamente perto uns dos outros, mas ao invés de seguirem, são solicitados pelo empresário a se manterem onde estão.
Parecendo não se importar com o que pensarão de sua atitude, ele se põe frente a Lavínia, olhando apenas para ela.
— Lavínia, obviamente você já sabe que esta é Isadora Abranches... — começa, de modo calmo e baixo. — ... e, embora eu compreenda a sua postura de incômodo, eu vou aproveitar este encontro não previsto para lembrá-la que ela não fez mais que seguir os passos que eu determinei e para dizer que eu realmente pretendo tentar consertar as coisas... Assim, quero que fique ciente de que, até o final desta semana, Isa irá a público de novo para fazer uma retratação na qual confirmará a inocência do empresário Gregory Albuquerque.
Lavínia arregala os olhos exibindo estupefação. Os demais ouvintes, Vicky, Isadora e o seu acompanhante, observam quietos e atentos, obviamente ela mais que ele.
— Vo-você... vai deixar que to-todos saibam que tudo foi uma armação... e que é você quem está por trás di-disso? — A loira questiona denunciando um nervosismo considerável.
— Se esta for a sua vontade, sim. — garante, firme, sério, direto.
É a vez de Isadora mostrar-se imensamente surpreendida.
— Henry, não acho que esta seja uma boa alternativa, há muitos riscos envolvidos... Deve haver outro jeito de... — Isa intromete-se, não se importando em mostrar o quão está preocupada com o rumo da conversa. Contudo, sem desviar o olhar de Lavínia, ele ergue e espalma uma mão rígida diante de Isadora, gesto de comando para calar-se, ao que ela se vê obrigada a acatar.
A loira fica reflexiva, com os cílios rebaixados, os delicados lábios meio contraídos e as mãos apertando com força a bolsinha prateada de festa.
Decorre quase um minuto de mudez e tensão.
Ela ergue o rosto e o olha com um sutil traço de ressentimento.
— Se você fizer isso... se expuser o seu nome como o me-mentor por trás da a-armadilha contra o meu pai, co-começarão a vasculhar a vida dele... e a sua também, só pra descobrir os seus mo-motivos, um novo escândalo pode acontecer e o prejuízo para ele po-pode ser maior... Mas você já sa-sabe disso... — torna a baixar a vista e suspira, amofinada. — Por isso, não quero que se denuncie. Porém, a retratação pu-pública, esta eu quero sim... quero que ela aconteça, mesmo sem me-mencionar o seu nome, para que ni-ninguém tenha mais dúvidas de que ele é inocente.
— Assim será feito. — Ele assegura e o brilho azul que seus olhos irradiam pode ser admitido com sinal de contentamento.
Isa, contrariando enxergar a lógica que indica que a situação poderá voltar-se apenas contra si – trazendo-lhe sérias complicações com a lei – mostra até vestígios de certo alívio. Ela gira o corpo voltando-se totalmente à loira e, desta vez, Henry não a impede de se manifestar.
— Olha, eu sei que seria muita audácia de minha parte pedir o seu perdão, mas gostaria pelo menos de dizer que eu não desejo mal ao seu pai, à sua família e nem a você. Sim, é verdade que na minha vida eu já fiz muitas coisas das quais não me orgulho, mas que fiz por alguma razão que me pareceu mais forte... — lança um olhar de viés para Henry e pigarreia. — Eu farei esta retratação com prazer e direi o que for preciso para limpar ao máximo a imagem do seu pai. A única coisa que eu peço é que não alimente ódio por mim pois, você pode não acreditar, mas eu não sou uma pessoa má.
— E eu não sou o ti-tipo de... de pessoa que guarda ódio no coração... prefiro viver livre desse se-sentimento corrosivo. — Apesar da resposta apaziguadora, o semblante sério e o lábio inferior proeminente dão ao bonito rosto um ar contrariado e reticente.
Lógico que Henry atenta-se a cada palavra dita e sua boca traceja um sorriso, ao passo que seu olhar continua fixo em Lavínia.
— Bom, creio que não há mais tempo para conversas. — confere a hora no seu relógio de pulso. — devemos buscar os nossos lugares ou perderemos o início da peça. — alerta.
Sem mais delongas, voltam a andar e adentram à sala de espetáculos.
De novo, a movimentação humana é grande, uns passando, outros se sentando e uns tantos já dispostos em seus assentos.
— Eu os convidaria a se juntarem a nós... — Henry fala olhando para Isa e para o rapaz de tez clara e olhos castanhos que a acompanha. — ... mas tenho certeza que irão preferir a privacidade do seu próprio camarote. — arremata em tom despachado.
Isa apenas anui com um sorriso descarado, de quem já o conhece bem demais para entender o recado dado. A despedida é rápida. Ela e o rapaz desaparecem em questão de segundos.
Henry, Lavínia e Vicky sobem uns lanços de escada e, enfim, chegam ao camarote determinado no ingresso. Refere-se a um estreito cômodo retangular contendo seis poltronas enfileiradas, que ficam próximas ao parapeito rebaixado dando vista ampla do palco, dos outros camarotes e da plateia restante que está lá embaixo.
No momento de sentar, Henry toma a dianteira oferecendo passagem à Vicky, que agradece com um sorriso meio surpreso e vai ocupar a penúltima poltrona. Faz o mesmo com Lavínia que, de cabeça baixa, segue e escolhe o assento perto do da amiga. Após, ele se junta a elas ficando ao lado da loira.
Não demora e a enorme cortina alaranjada que cobre o palco ergue-se e deixa ver um cenário iluminado e incrivelmente fantástico, encantador. Há réplicas de ruas antigas, de instalações comerciais, de pontes, lagos e gôndolas, tudo feito de papel e materiais sintéticos, de modo a representar Veneza, a linda cidade italiana, durante a renascença do século XVI. A peça musical segue a linha quase sui generis de uma ópera-melodrama. Chama-se “As floristas”, que traduz o título italiano original, Fioristi, e conta uma história de amor e tragédia. Os atores-cantores-dançarinos, trajados a caráter, vão desenvolvendo o enredo à medida que a representação progride e os espectadores ficam deslumbrados com tamanha magnitude e talento artístico.
Vicky e Lavínia encontram-se boquiabertas, jamais viram algo do tipo e não conseguem disfarçar o quanto estão vidradas no que se passa no palco.
Todavia, súbito, como uma folha seca que cai ao receber uma rajada de vento, a loira sente um arrepio na nuca, seus pelos eriçam-se e, quando olha para o lado, capta o olhar intenso e constante de Henry sobre si. Ao invés de desviar este olhar incisivo, sentir-se flagrado e envergonhado, ele sustenta o dela. Então, Lavínia experimenta uma leve falta de ar e um rubor vexativo tomar-lhe a face; obriga-se a voltar outra vez sua atenção ao palco e não mais ousa afastá-la deste, exceto quando Vicky chama-a para comentar algo sobre o que a admira na apresentação que segue.
Além disso, como a peça musical é muito envolvente, depressa a loira, de fato, consegue esquecer o episódio constrangedor, ou ao menos simula muito bem.
O auge do drama encenado dá-se quando Jacopo, o amado escultor, é morto pelas duas musas inspiradoras, Eurídice e Dafne, as floristas – mãe e filha – a quem ama e não consegue escolher, a emoção que atinge o público é fulminante, pois mostra o remorso das musas que, enquanto apunhalam mortalmente o amante, um envelope cai do seu bolso revelando que ele pretendia suicidar-se justamente por não saber a quem ama mais, porque a expiação também o afligia.
O espetáculo é finalizado, porém, Henry aconselha esperarem até que o movimento de saída do teatro diminua. Ambas concordam. Neste meio tempo, buscam acalmar as emoções suscitadas pelo desfecho dramático.
Quanto a Henry, este não exibe abalo algum, ao contrário, continua ostentando um sorriso imperturbável, o mesmo que sustenta desde o início da noite. Na volta, ele as estimula a comentarem sobre a peça detalhando o que mais gostaram, porém, somente Vicky mostra empolgação, pois já o trata como amigo, e mesmo ela estando sentada no banco traseiro, faz questão de interagir. Lavínia, por sua vez, fica um pouco quieta e pensativa, mas sorrindo de vez em quando, sempre tentando agir com naturalidade, apesar do incômodo que lhe causa notar que o motorista ao lado de si, volta e meia, lança-lhe olhos perscrutadores.
O carro é estacionado à frente da república.
Elas se despedem e se movem para sair.
— Lavínia... — Henry intercepta-a quando está com a mão na maçaneta do veículo.
Nesse segundo, Vicky já havia saído e se postado do lado de fora, solidária, espera os irmãos se despedirem um pouco mais.
— Hm? — Lavínia surpreende-se.
— Algum problema? — pergunta como quem nada quer, estreitando o olhar.
— Pro-problema? Não, tá tu-tudo bem, eu go-gostei da nossa saída... foi muito a-agradável. — esboça novo sorriso, sem olhá-lo diretamente, com a mão branca apertando com força a maçaneta. — Acho que a-agora nós po-podemos dizer que estamos re-recomeçando do zero... de verdade.
Ele a avalia por uns segundos.
— Sim, podemos. Mas eu sei que essa situação ainda é muito estranha, pra você e também pra mim, e que levará tempo até nos acostumarmos. — contrai os lábios num leve riso. — De qualquer forma, estou muito feliz, pois acredito que no fim tudo ficará bem.
— Espero que sim. — admite e seus olhos colidem momentaneamente com os dele. — Boa no-noite, Henry.
— Até logo, Lavínia. — responde em tom grave e calmo.
Ela sai do carro e se junta a Vicky e ambas veem a minivan partir pela rua noturna sendo guiada pelos inúmeros postes. Depois, Lavínia mete a mão na sua bolsinha para retirar a sua chave-cópia. Vicky põe a dela na boca e dá um gritinho de susto.
— O que foi, Vicky? — A loira se espanta.
— Lavínia, a minha bolsa! Eu esqueci ela lá no banco do carro.
— Puxa! Espera, vou ligar a-aqui para o número do Henry. — pega seu celular e, quando o aciona, faz uma carinha contrariada. — Ah não! Tá sem sinal.
— Às vezes, isso acontece com o meu celular também, daí eu o reinicio e o sinal aparece. — A morena explica. A seguir, abraça-se aos seus ombros nus. — Acho melhor você fazer isso depois de entrarmos, amiga, não sei quanto a você, mas eu tô morrendo de frio.
— Tá certo... Vamos entrar. — Lavínia volta a se concentrar em deschavear o portão. Quando adentram por ele, admiram-se por ver que a porta da frente da casa está aberta e há luz vindo de seu interior. Avançam e se deparam com Manu sentada no sofá, vestindo seu conjunto de pijama, de frente para a TV desligada e com uma expressão algo maléfica em seu rosto.
— Manu, você voltou. — A morena constata, experimentando uma leve fraqueza nas pernas.
No entanto, a ruiva olha esmiuçadamente para as duas, ergue-se e simplesmente passa por elas indo na direção do quarto, sem pronunciar uma única palavra.
— Oh, meu Deus! Vicky, se-será que eu pi-piorei as coisas entre vocês por te chamar pra sair co-comigo? — A loira questiona, apreensiva.
— Não, amiga, não pense desse jeito... até porque não me arrependo de termos saído, pois foi o que me ajudou a não ser tragada por pensamentos tristes. — tranquiliza-a em tom ameno.
— Sendo assim, só me resta torcer que isso não vire outro mo-motivo de briga. — expõe com sinceridade.
— Eu também, Lavínia, mas se virar, fazer o quê, né? Bem, eu vou lá ver se consigo dialogar com a fera. — sorri, apesar de estar obviamente nervosa. – Deseje-me sorte.
— Boa sorte, Vicky, e boa noite... Já eu vou continuar tentando fa-falar com Henry.
Assim é feito. Vicky vai ao encontro de Manu no quarto e Lavínia senta-se no sofá mexendo no celular a fim de reiniciá-lo.
No quarto, Manu vê quando a morena o invade e, sustentando a expressão rígida e muda, tudo o que faz é virar-se na cama, dar-lhe as costas e fechar os olhos, sinalizando aversão.
— Manu, você disse que não voltaria hoje, que dormiria fora... — Vicky dá mais uns passos e fica rente à cama dela, com as mãos comprimindo firme as bordas do vestido para disfarçar o tremor que as toma.
A outra gira o corpo novamente e a encara de cima a baixo.
— E daí? Por acaso sentiu a minha falta enquanto se divertia por aí?
— Manu... entenda, a Lavínia me convidou pra eu ir com ela ao teatro pra assistirmos a uma peça musical, porque viu o meu estado de abatimento depois que você saiu... e também porque não queria ir sozinha com o irmão dela... — nota o franzir e o erguer de sobrancelhas dela, em meio ao ar de desdenho. — Mas essa é outra história. O fato é que eu não vi problema em aceitar. Eu fui com a intenção de me distrair, foi só por isso.
— Parece que funcionou, não se nota em você sintoma de abatimento, aliás, acredito que ninguém diria que esteve abatida em momento algum hoje. Essa sua atitude prova que mudou mesmo... Parabéns! Você é quase outra pessoa, mais um pouco e vou achar que se tornou uma completa estranha. — informa com voz totalmente azeda.
As palavras da ruiva atingem Vicky como uma flecha mortífera. Ela respira fundo enquanto seus grandes olhos negros já brilham de vontade de chorar. Súbito, porém, leva suas mãos até o fecho atrás do vestido, abre-o e o faz deslizar por seu corpo até ao chão, ficando somente com a calcinha clara e a delicada sandália de salto mediano. Há em seu rosto sinais de obstinação mesclados a indignação e agonia.
Manu, de imediato, não entende a atitude inusitada dela. Contudo, Vicky aponta com os dedos para o próprio ventre. Logo a ruiva é induzida a atentar-se às diversas cicatrizes feitas à unha que marcam a pele da morena.
— Nunca mais quero fazer isso a mim mesma, nunca mais quero buscar consolo na dor e nunca, nunca, nunca mais quero voltar ao fundo do poço da depressão. — declara não ligando para as lágrimas que agora banham a sua face. — Eu errei quando li aquela carta e não compartilhei com você o quanto ela me afetou... mas eu não terminei o nosso namoro por mera covardia, como você me acusou de ter feito. Eu realmente achei que a Dayse poderia te fazer mais feliz que eu... e eu jamais me perdoaria se ficasse no meio atrapalhando a sua felicidade.
Depois do desabafo, ela busca a sua toalha e a camisola e vai à suíte, deixando a ruiva mais emudecida do que estava instantes atrás.
Quando Vicky retorna ao quarto, está banhada e vestida, pronta para dormir. Mas antes de se deitar na cama, Manu levanta-se da sua e a alcança pelo braço. Fica olhando-a compenetradamente, respirando fundo e limpando a garganta, como se fosse muito difícil falar o que tem a dizer.
— Me perdoa, Vicky... Eu deixei a raiva me dominar porque tirei conclusões precipitadas quando vi a carta e não quis te dar chance para se explicar. Eu também não quero te ver depressiva de novo, se ferindo... nunca mais. Você fez bem em sair e se distrair... — Sua voz transmite sinceridade, enquanto a encara de modo afetuoso, e sua expressão se suaviza consideravelmente. — Será que nós podemos colocar uma pedra em cima desse assunto pra ficarmos bem de novo?
Vicky levanta o rosto, que estava voltado para o piso, suspira resignada, cansada e nitidamente desejosa de fazer as pazes. Por isso, devolve-lhe o olhar meneando a cabeça positivamente.
Os olhares apaixonados se cruzam e a conexão entre elas se faz de modo natural, verdadeiramente instintivo. Os rostos se aproximam e as bocas se buscam para selar um beijo lento, carinhoso, de reconciliação.
Sem mais palavras, as mãos da ruiva vagueiam pelo corpo querido já procurando despi-lo e o faz sem empecilho algum. Vicky, meio sôfrega, ajuda-a a retirar também as próprias vestes. Nuas, guiam-se à cama sempre se olhando com fixidez e fascínio. Manu deita-se sobre o belo corpo brônzeo, amando sentir os seios formosos e volumosos tocarem nos seus, as auréolas se unirem e os bicos eriçados batalharem espaço. Pele na pele, ventre no ventre, intimidade na intimidade, roçando-se com sofreguidão, ao passo que as respirações falham e se recompõem no mesmo instante em que as línguas dançam ao som úmido das salivas que as bocas sugam. Os dedos espontaneamente procuram explorar as entradas íntimas num gesto recíproco. Não satisfeita com isso, Manu procura os seios volumosos e se embriaga lambendo, mordiscando os bicos salientes. Os dedos igualmente seguem trabalhando com destreza, entrando e saindo da fenda entumecida. Quando escuta a sua amada morena soltar um profundo gemido e retesar todo o corpo em espasmos e arrepios, sabe que ela atingiu um forte orgasmo. Vicky então passa a respirar com alguma dificuldade, mas já buscando recompor-se para proporcionar à ruiva o mesmo auge de excitação. Ela muda de posição e se põe por cima, desliza a boca chupando cada canto de pele, enquanto Manu, espontânea, abre as pernas antecedendo o que virá. Quando Vicky alcança a sua intimidade latejante, escuta-a liberar um ofego sonoro e de pleno deleite. Os quadris se movem instintivamente em busca de maior fricção com a língua que a explora e Vicky percebe a sua ânsia se intensificar no mesmo ritmo dos chupões gostosos que oferece. Então, Manu contorce-se e geme outra vez para, enfim, encontrar o seu gozo máximo.
Um tempo depois, estão abraçadas, satisfeitas e ronronando como duas gatinhas vencidas pelo sono. Mas, antes de se entregarem de vez, a ruiva ainda resolve arrematar a noite com um comentário jocoso que fará Vicky rir, divertida.
— Nunca mais fique linda daquele jeito... se não for pra sair comigo.
Na sala, minutos atrás...
Após várias tentativas, finalmente Lavínia consegue fazer a chamada telefônica. Assim que Henry atende, não perde tempo, informa-lhe logo que Vicky terminou esquecendo-se da sua bolsa no banco de trás do carro dele.
— Lavínia, eu não vou voltar aí hoje, já tá muito tarde, eu preciso descansar porque terei que acordar bem cedo amanhã, haverá reunião na empresa... — divulga, em tom prático e tranquilo. — Mas como sei que as suas aulas na faculdade só começam a partir das quatorze horas, eu posso dar uma passada na república antes disso... e, se quiser, posso até te dar uma carona para compensar a espera. — ri, descontraído.
Mais uma vez Lavínia obriga-se a esvaziar a mente de todo e qualquer pensamento ruim para não ver nas palavras dele vestígios de descarada malícia.
— Ah... bem, tá certo então, não tem pro-problema deixar pra amanhã e, ca-caso aconteça a-algum imprevisto na sua empresa, vo-você tem a opção de vir mais tarde... A Vicky fica em casa a-a tarde toda, sendo assim, você pode en-entregar a bolsa diretamente a ela.
— Sei que sim, mas prefiro fazer como eu disse. — dita, resoluto.
No dia seguinte...
Na república das garotas, a manhã chega suave, com raios solares aquecendo agradavelmente. Ela passa e logo avança para quase uma da tarde.
Vicky e Manu voltam da faculdade. Juntamente com Lavínia, sentadas à mesa da cozinha, elas almoçam e põem a conversa em dia.
— Grávida??? — A exclamação vem em uníssono.
As namoradas ficam realmente surpresas.
— Sim, foi exatamente o que eu disse, gente... a Lou tá grávida. — Lavínia reitera a notícia. — No começo, ela não queria... pensou até em abortar, mas mu-mudou de ideia, pri-principalmente quando isso quase aconteceu... de modo espontâneo...
Revela mais, conta às meninas sobre o episódio do terrível sangramento que acometeu Louise, que a fez ficar cara a cara com a chance real de perder o filho e, em razão disso, a obrigou a refletir, assumir o seu instinto materno, que acabou prevalecendo, e enxergar o lado benéfico deste presente que a vida resolveu dar-lhe, mesmo em hora imprevista.
— Oh, Jesus! Quer dizer que em breve vamos ter um bebezinho andando por aqui? Ai, bateu até saudade do meus sobrinhos lindinhos agora... Bebês são tão fofos! — manifesta Vicky, sorrindo com gosto.
— Vê como eu e a Vicky somos diferentes, branquela... — Manu volta-se para Lavínia, prendendo o riso safado. — Ela ficou imaginando bebês engatinhando por aqui e eu no quanto que os peitos da Louise vão ganhar de volume e gostosura...
— Sua tarada! Indecente! — Embora as palavras sejam de ofensa, o sorriso de Vicky é de quem está bem longe de mostrar aborrecimento.
Lavínia observa-as enquanto conclui sua refeição tomando seu suco natural de abacaxi e fica com uma maravilhosa sensação de alívio ao percebê-las em clima de brincadeirinhas e sutis gestos de carinho. É óbvio que fizeram as pazes e ela torce que, desta vez, perdure por um bom tempo.
Súbito, ouve-se o som da campainha ecoando pela república.
— Hum... Po-Podem deixar co-comigo... eu atendo. — a loira fala, erguendo-se e saindo da cozinha a passos nervosos.
Suas mãos suam, seu estômago revira e a boca fica seca, porém, firme no propósito de não permitir que nada a impeça de seguir com a sua resolução de fazer dar certo o recomeço entre ela e Henry, de subtrair os sentimentos perversos, maléficos e doentios colocando em seu lugar apenas o que é bom, saudável e normal, Lavínia passa a mão pelo longo cabelo loiro, respira fundo e, com um pensado sorriso receptivo, abre o portão.
O sorriso simplesmente morre sendo substituído pela expressão de autêntico pasmo. Sua boca fica em formato de um gigante “O”, sem conseguir esboçar uma única palavra.
— Surpresa!!! — grita Pietro, abrindo os braços e se expondo num gesto brincalhão. Contudo, a alegria dele é interrompida quando uma luxuosa minivan estaciona a poucos metros e um homem vestido como um executivo da classe dos ricos mais ricos, ostentando na face de queixo acentuado reluzentes óculos escuros, desce do veículo e anda ao rumo dele e de Lavínia, encarando-os sem desviar os olhos um segundo sequer.
[...]
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