[HIATUS] Mudanças impuras

14 Pretexto conveniente, briga não tão amorosa


Notas iniciais
Capítulo novo... Boa leitura!

Louise escuta ao longe o som característico do seu celular, que toca insistentemente, mas, por um momento, ela até imagina que esteja apenas sonhando e este barulho faça parte disso. O som para, ela volta a mergulhar no sono, o que não demora muito, pois novamente ouve a barulheira desagradável, o toque do celular exigindo que o atendam.

"Ai! Mais que merda! Quem diabos pode ser?" Estica o braço até à cômoda que fica ao lado se sua cama, pega o celular, vê o número desconhecido e finalmente decide atender, já xingando mentalmente quem quer que seja lá do outro lado da linha.

— Oi. — diz de forma seca.

— Bom dia para você também! — A voz perfeitamente articulada e máscula fala com reforçado bom-humor para descontrair o tom de resmungo, rouquidão e sonolência de Louise, que, por incrível que pareça, reconhece Dico no exato instante.

— Quem é? — finge não saber de quem se trata.

— Sou eu, Dico, o cara para quem você não deu os parabéns ontem. — ri abertamente.

— E você me ligou tão cedo só pra isso... pra eu te dar os parabéns atrasado? — alfineta com prazer quase sádico. “Lindo de viver, mas idiota, se não consegue arranjar um pretexto melhor que esse”. Pensa que Dico está indo rápido demais, por outro lado, ela não consegue negar o súbito sentimento de felicidade tola. Sua mente a leva ao sexo maravilhoso que fizeram na madrugada, digno de nota bem alta, superior às que deu para os parceiros sexuais com quem esteve antes. “Merece nota dez, com louvor.” O frêmito chega aos poucos, embora o sono também persista.

— Em primeiro lugar, não é tão cedo, são quase onze horas... — Dico compreende que ela se refere à pressa dos acontecimentos entre eles, porém, opta por esconder sua análise óbvia. — E em segundo lugar, não te liguei por uma bobagem dessas. Eu só pensei que você gostaria de ter o seu capacete de volta.

— Meu capacete! — Ela desperta completamente e se senta na cama, passando a mão pelos cabelos. — É verdade. Eu esqueci ele aí, na sua república, no quarto do garoto... o... o Jonas. — Quase esquece o nome do menino de novo — Merda! Que cabeça a minha! — rosna, exasperada, com raiva de si mesma, pois não gosta de ser vista como uma pessoa desatenta, avoada, para ela isso pode indicar fraqueza.

— Olha como são as coisas, eu vim ontem mesmo, depois que você foi embora, ajudar o Jonas. Eu o acordei, o mandei se limpar e ir pra cama dele... na verdade, eu divido o quarto aqui com ele, isso eu não tinha te falado, mas.. enfim, na hora de ir dormir, eu vi o capacete em cima do meu criado-mudo, e é claro que não foi difícil ligar os fatos. Lembrei de você indo embora de moto sem capacete e um capacete aqui esquecido, onde antes você tinha estado. — ri, provavelmente por achar que esse evento é uma ótima conveniência para eles se verem mais uma vez.

— Como você é engraçadinho. Tô morrendo de rir. — libera, sarcástica. No entanto, sua pulsação começa a acelerar.

— Puxa, Louise! Você não percebe que isso pode ser o destino querendo nos unir, mesmo contra a sua vontade?

— Para de brincadeira, Dico! Me diz... Como vamos fazer pra eu pegar o meu capacete de volta? — bagunça os cabelos novamente, esperando a resposta, e já imaginando o novo gracejo bobo que ele lhe enviaria.

— Simples... Me fala o seu endereço e eu vou aí rapidinho te levar ele. — É óbvio que está curioso para saber onde ela mora.

— Mas... é que... — Não consegue buscar na mente um desculpa, fica sem palavras.

— Qual é, Louise? Não vai me dizer que eu não posso saber o seu endereço, ou vai? Nossa, que tolice! Eu só estou querendo ajudar, mas se você prefere que seja de outra forma... diz aí então. — fica meio incomodado com as respostas vacilantes dela.

— Não... Você tá certo, é bobeira minha. Desculpa. Eu vou te dar o endereço... mas, faz o seguinte, não vem agora não. Eu acabei de acordar e nem tomei café ainda. Vamos marcar pra você vir à tarde, tudo bem? — Agora é mais receptiva.

— Tudo bem, sim. Vai ser como você quiser, meu anjo. — Ele anui e o coração de Louise dá um pequeno salto ao ser chamada de forma tão doce. “Que filho da mãe cheio de lábia!”

Encerram a conversa com Louise repassando-lhe o endereço dela, com eles combinando que Dico venha às quatro horas da tarde e com ela mostrando em seu rosto uma expressão ponderativa, ao fim da ligação, pensando em como nem teve tempo ou chance de se esquivar deste homem lindo e perigoso, pois a própria sorte parece querer aproximá-los mais uma vez.

Ela ouve leves batidas na porta, que se abre em seguida. É Vicky que vem ver se ela já havia acordado.

— Bom dia. — saúda gentilmente.

— Bom dia, Vicky! — Louise responde, bastante animada, achando que a ligação de Dico a fez ficar meio atoleimada. Ela quase pula da cama.

— Nossa! Você tá de bom humor pela manhã... sinal de que a festa foi boa mesmo. Olha, eu só vim saber se você tá legal, fico feliz ao ver que sim, então... qualquer coisa, estarei na cozinha terminando de preparar o almoço. Vai lá depois e me conta tudo sobre a noite passada, caso queira conversar um pouco.

Vicky sai novamente, aliviada ao constatar o renovado estado de espírito de Louise. Ela realmente se preocupa com todas na casa, ser sensível aos problemas dos outros é algo de sua natureza, embora não saiba como resolver os dela mesma. Ela sente o quanto Louise tem sofrido e se achado só, depois que Lavínia sumiu daquela forma repentina. E, por mais absurdo que seja, esse trágico desaparecimento teve seu lado positivo, pois serviu para aproximar mais as outras moradoras da república, que se viram compartilhando da mesma angústia e desconfiança lúgubre quanto ao desaparecimento da amiga. De fato, Lavínia era a confidente exclusiva de Louise, mas agora esta teria que se adaptar às demais colegas se não quisesse ver-se sem ter com quem conversar em casa de forma mais íntima, para contar as suas afobações amorosas.

Na suíte, Louise, escova os dentes e lava o rosto. Depois retorna ao quarto, escolhe um short jeans, uma camiseta amarela, chinelas e sai em busca de café, na cozinha, onde mais uma vez, encontra-se com Vicky, que está sozinha com uma faca nas mãos, fatiando um pepino, sobre uma tábua, para complementar a salada verde.

— Engraçado que você, mesmo acordando quase meio-dia, ainda queira tomar café. — Vicky observa Louise encher uma xícara com gosto.

— Eu sou o tipo de gente que só acorda de verdade depois de um café quentinho... não importa a hora que eu levante. — anuncia alegremente, enquanto se senta numa cadeira, em frente à mesa. Mas logo a olha de forma travessa. — Cadê a tua namorada? — faz questão de provocar Vicky, sabendo que ela não gosta que falem da sua relação com a ruiva.

Vicky olha-a de forma séria, respira fundo, coloca as fatias do pepino na vasilha oval de plástico, junto com o restante da salada, vai à geladeira, põe a vasilha em algum lugar lá dentro e depois se senta diante de Louise.

— A Manu, Louise, está no quarto, com aqueles fones de ouvido, escutando rock no volume máximo e cantando feito uma boba. Qualquer dia desses ela vai ficar surda de tanto fazer isso. Eu já nem ligo mais, cansei de dizer pra ela que faz mal ouvir som alto desse jeito... mas ela é teimosa demais! Aliás, ultimamente ela tá mais irritante do que nunca. — pigarreia, envergonhada. Percebe que está falando mais do que deveria. Ela é introvertida por natureza e criação, e tem dificuldade de falar sobre suas questões pessoais, nem sabe por que acabou expondo seus pensamentos para Louise. Reflete que talvez seja porque, de tanto querer combater o isolamento da outra na república, tenha terminado por se abrir mais do que o normal.

Louise capta, pelo tom de voz de Vicky, que o relacionamento das duas voltou a ficar ruim. “De novo!”

— Vicky... eu sei que as coisas entre vocês não têm sido fáceis, eu sei também que a Manu, de uns tempos pra cá tem te pressionado pra caramba... Mas... — hesita. Tem vontade de ajudar, mas não sabe exatamente como, pois o que há entre elas é pessoal e confuso. No entanto, quer dar conselhos, para que ao menos reflitam sobre a situação na qual se encontram e nas possibilidades de conseguirem superar os problemas, os preconceitos, inclusive, as dúvidas quanto ao que sentem de verdade uma pela outra.

— Mas nada Louise, por favor muda de assunto... Vamos falar sobre a festa que você foi. Me conta. O que aconteceu de interessante? Eu quero saber tudo. — tenta mostrar-se alegre, curiosa, mas é evidente que suas palavras soam pouco autênticas.

Louise não a força a confessar seus conflitos, prefere deixar isso para outra ocasião, talvez para quando a amizade delas se solidificar mais. Por isso, por muitos minutos, ela conta a Vicky o que houve na festa, não poupando nenhum detalhe e se anima cada vez que ela abre a boca de surpresa e embaraço pela sua ousadia, o que a faz lembrar as expressões de Lavínia, ao saber dos seus feitos despudorados.

— Meu Deus, Louise, e que coincidência você reencontrar esse garoto depois de quase dez anos! Tô pasma. Pelo que você tá dizendo ele é bem legal e parece interessado em ter mais do que uma noite de prazer... pois se não fosse assim, não teria te ligado tão rápido. E isso de ele vir aqui só pra trazer o capacete que você esqueceu pra mim é uma desculpa deslavada. Ele quer mesmo é sondar o terreno, em outras palavras, quer marcar território.

— Pior é que eu sei disso. — Louise ri. — Homens! Todos iguais... só mudam de endereço. Você faz bem em querer ficar longe deles.

Vicky fica desconfortável com o comentário, mas apenas se levanta, exibindo expressão de quem agora se lembra de algo importante a fazer.

— Olha a hora! De tanto conversarmos, perdi a noção do tempo... Já passa do meio-dia. Eu vou lá chamar a Manu pra vir comer. Acho que hoje, sim, ela vai pra lanchonete. Tenho até que confirmar isso com ela.

— Tá certo, então vai lá. Boa sorte com aquela ruiva irritada... e não liga pra ela não, porque eu sei que ela é do tipo que late muito e morde pouco. — Louise faz cara de sabichona e abre um riso brincalhão.

Vicky, enrubescida, sai da cozinha, atravessa a sala. Quando chega ao quarto, encontra Manu deitada na cama, de barriga para cima, com uma perna apoiada na outra, para o alto. Está com a cabeça sobre uma almofada, os olhos fechados, concentrada na sintonia da música que escuta e canta em voz alta, enquanto os braços sacolejam no ar, imitando um toque de guitarra. Ela escuta, através dos fones de ouvido conectados ao celular, que está em uma de suas mãos, a música Love Don’t Die, da banda The Fray.

— If I know one thing, that's true It's that I'm never leaving you And you don't say much, yeah, that's true But I lose it when you do Don't let them tell no lies Love don't die... — está empolgada e absorta.

— Manu! — Vicky chama, pela segunda vez.

— You can break it up, you can burn it down You can box it in, bury it in the ground You can close it off and turn it away Try to keep it down, six feet in the ground... But love don't die... — A ruiva continua sua cantoria, até que sente seu braço ser tocado por Vicky, que está praticamente deitando sobre ela, de tanto que se curva buscando sua atenção.

Súbito, Manu derruba Vicky na cama e se monta sobre ela, forçando-a ficar quieta. Mesmo sob seus protestos e empurrões, consegue imobilizá-la, só ao fim da música, tira os fones de ouvido e põe o celular de lado.

— Para, criatura! Me solta. Que antipática! — Vicky esbraveja, tentando em vão não alterar mais a voz.

— Foi você que veio me incomodar... Agora aguenta! — A voz é de ameaça, mas o riso é de sedução, Manu põe-se a beijar-lhe as faces e o pescoço. Suas mãos deslizam acariciando os cabelos cacheados, afastando-os para ter melhor acesso ao rosto. As pernas se movem sensualmente, de modo a ficar bem colada nela e desconsidera sua apatia frente à ousada investida.

— Eu... vim só te chamar, porque... o almoço tá pronto! Só isso. Mas se você quer ficar sem comer o problema é seu. Agora para com isso... sai de cima de mim, que eu tô sem paciência pra aturar as suas loucuras hoje. — exige, afetada.

— Minhas loucuras? — Manu força uma sonora gargalhada. — Olha quem fala! A masoquistazinha que adora bancar a difícil. Deixa pra você falar isso quando eu te der um trato, tá bem? Aí sim você vem e me fala sobre as minhas loucuras.

Vicky fecha o cenho, com raiva de ouvir as palavras de gozação. Seus olhos exibem uma expressão de mágoa.

— O que foi, Vicky? Por que tá com essa cara? Por acaso eu falei alguma mentira?

— Para por aí, Manu... Eu não vou admitir que você me trate dessa forma. Sua bruta... insensível!

— Não? Por quê? Se tem sido assim há quase um ano. Ou você ainda não percebeu? O fato de eu ser bruta e insensível é por sua causa. Você me faz ficar assim, com esse seu jeito... essa sua passividade diante de todos, diante dos seus pais.

— Ah, sim. Tava demorando pra tocar nesse assunto. Que droga! Anda, por favor, sai de cima de mim. — Ela segura a vontade de chorar que começa a lhe invadir.

— Tá legal. — Manu senta-se, fica ao lado dela na cama, olhando-a com expressão de raiva mesclada a cansaço, como se a situação mal resolvida entre elas fosse um peso sobre seus ombros, que aos poucos se tem tornado quase insuportável.

Vicky também a olha, com ar de quem aguarda mais insultos e se prepara para tal.

— Pensa que eu não te conheço, Vicky? Que eu não sei exatamente o que você pensa? Eu te conheço tanto que quase posso ler a tua mente, eu sei que não é só fetiche que te faz agir assim. Eu sei o que há por trás desse teu comportamento estranho, atrás dessa sua mania de querer me tratar como eu fosse apenas uma colega de república ou de sala de aula. Tudo isso é por que você mesma não se aceita, não assume quem é, porque não tem coragem... porque é uma fraca! Me diz! Até quando nós vamos ficar nessa, hein? Porque, sinceramente, eu tô cansando.

Manu nunca escondeu que quer ser livre para declarar que elas são um casal, que se amam e que ninguém tem nada haver com isso. Ela crê que nem a sociedade e nem os pais de Vicky podem condená-las por isso, pois elas não são mais crianças, estão em plena formação educativa, emocional e, logo mais, de independência financeira. “O que tem de errado em amar alguém do mesmo sexo? Ninguém deixa de ser útil por isso ou causa danos aos seus semelhantes”.

Ao notar Vicky à beira de lágrimas, Manu sente-se arrependida pela dureza com que soltou as acusações, sobretudo porque está ciente do risco provável de ser iniciada uma guerra entre Vicky e a família dela, caso sua condição sexual venha a público, mas não consegue evitar o desejo de pressioná-la, tal impulso é mais forte.

— Nós já falamos sobre isso, poxa! Você sabe como é difícil pra mim. Que resposta você quer que eu te dê, Manu? — Vicky esforça-se para impedir que lágrimas rolem por seu rosto. Ela encara Manu de forma suplicante, deixando claro que não está psicologicamente preparada para avançar com o diálogo tenso. Realmente está cheia de medo, medo de ser rejeitada pela sociedade e por seus pais, que além de abandoná-la, seriam capazes de tornar a sua vida um inferno.

— Resposta nenhuma. — Após uns segundos encarando-a, Manu busca agir da forma mais natural. — O almoço tá pronto, não é? Então eu vou comer. Tô com fome. — levanta-se e, sem se voltar, caminha para sair do quarto, com a frieza de alguém que já passou por essa discussão uma centena de vezes, sem nunca obter o resultado esperado.

Vendo-se sozinha no quarto, Vicky deixa as lágrimas caírem. Ela tapa a boca com receio de que escutem seus soluços, sentindo seu coração espremido. Há uma dor que não é no corpo, e sim na alma. Fica sentada na cama de Manu, chorando baixinho, esperando as lágrimas cessarem, a dor diminuir, os pensamentos se organizarem de forma menos negativa. Afinal, não é a primeira e nem seria a última vez que elas teriam esse mesmo embate. Sabe o quanto se esforça para agradar Manu. Nos últimos fins de semana, tem sido até forte e evitado ir à casa dos pais só para dedicar mais tempo à namorada, sempre utilizando desculpas, como alegar que tinha muitos trabalhos da faculdade para fazer ou que precisava de tempo para estudar as disciplinas, para que eles não viessem buscá-la ou a fizessem ir vê-los. Tudo no intuito de amenizar as queixas frequentes de Manu. Todavia, seu esforço não é reconhecido e ela tem que se conformar com isso, pois a ama demais. Sabe que, à noite, quando estiverem a sós no quarto, ela irá procurá-la, como sempre, para fazerem as pazes, fazendo-a render-se e engolir o seu orgulho ferido.

Quando Vicky sente-se mais fortalecida emocionalmente, sai do quarto e, ao passar pela sala, vê Manu, intui que provavelmente já havia almoçado. Ela está sentada no sofá assistindo TV, com cara inexpressiva. Vicky segue seu caminho para a cozinha e fica contente por ver que Louise ainda está ali, sentada à mesa, remexendo na comida, sem demonstrar muito entusiasmo com o alimento.

— Puxa, minha comida tá tão ruim assim? — questiona com um riso fraco.

— Claro que não, Vicky, pelo contrário, está saborosa, como sempre. O problema é que tô ansiosa. Só de pensar no Dico vindo aqui, meu estômago dá um nó e eu não consigo comer. Mas deixa isso pra lá. Eu sou uma boba mesmo, por ficar nervosa por uma coisa tão à toa. Eu vou mandar ele embora assim que me entregar o meu capacete. Eu juro!

— Louise! Pra quê tratá-lo desse jeito rude? Seja gentil, pois ele vai se dar ao trabalho de vir aqui nessa chuva só pra fazer o favor de devolver o seu capacete.

— Tá bem! Você tem razão... talvez eu o deixe ficar só um pouquinho.

Vicky acha engraçado observar Louise atrapalhada em suas ações e palavras, chega a esquecer os próprios problemas e termina rindo de verdade, ficando grata por ter a amiga para distraí-la.

Ao observar o riso aberto de Vicky, Louise fica um pouco incomodada porque supõe que esteja agindo feito boba para causar-lhe estes risos, mas não consegue nutrir raiva, ainda mais sabendo das conturbações pelas quais ela tem passado em sua vida amorosa. A cara de mau humor que Manu exibiu, minutos antes, quando apareceu na cozinha para almoçar, foi uma mensagem clara de que elas tinham se atracado mais uma vez. Manu não quis conversar, pareceu meio emocionada e, logo que terminou de comer, saiu, taciturna.

— E você ainda ri da minha situação, não é? — Louise adere ao clima de descontração. — Tomara que ele não tenha carro, que venha de ônibus ou à pé e que se molhe um bocado pra deixar de ser curioso, querendo saber onde eu moro. Aquele sedutor de meia tigela!

Dessa forma, Louise prossegue tentando animar Vicky, falando bobagens sobre Dico, querendo retribuir por ela ser legal consigo e porque sente dó ao entender os seus motivos de ser como é, devido à família que tem. “Família é questão séria!” Louise pensa na própria família, no tempo que demora a lhes dar notícias, ignorando-os. São poucas as ligações, mais escassas são as visitas.

O tempo vai passando e cada uma encontra um rumo para seguir com a chegada da tarde. Manu sai, às quinze horas e vinte minutos, de guarda-chuva em mãos, para ir à pé ao seu trabalho na lanchonete, que fica a poucas quadras dali, sabendo que somente voltará depois das vinte e uma horas. Está com a blusa de farda vermelha de tecido, contendo botões na frente, uma gola em formato de V, com abas um tanto salientes e mangas curtinhas, tendo o nome “Manuela”, escrito em letras de traços escuros em um miúdo crachá róseo afixado no bolso à altura do peito esquerdo.

Vicky, por sua vez, passa metade da tarde no quarto, lendo e revendo as anotações referentes às disciplinas do curso de arquitetura, sem conseguir obter muita concentração nos estudos.

Louise decide tomar banho e escovar os dentes para esperar a visita de Dico. Ela opta por um mini short de tecido de cor verde musgo, uma blusa em tom salmão, lisa e de algodão, e uma rasteirinha estilosa, dourada. Usa também brincos de argola prateada a fim de incrementar o visual. Devidamente pronta, ela vai para a sala com o celular em mãos, constatando que Dico já está atrasado, pois são dezesseis horas e dez minutos. Para entreter-se, liga a televisão, senta-se no sofá. Mal ela começa a mexer nas teclas do controle remoto, zapeando os canais, desinteressada, o celular vibra e toca, anunciando ligação. Ela atende rapidamente.

— Desistiu de vir, foi? Se acovardou? — fala ironicamente e, por alguma razão íntima, lamenta tal possibilidade.

— Não. Eu estou aqui... bem em frente a uma casa com muro bege e portão cinza. Acredito que seja o seu endereço, não?

A pulsação de Louise acelera um pouco, ela literalmente desliga o telefone na cara de Dico indo vê-lo com seus próprios olhos, lá fora. Enfrenta respingos de chuva e entende o porquê de ele ter ligado ao invés de bater no portão. Ela o vê confortavelmente acomodado dentro de um carro, é um Fiat vermelho, um carro bastante comum, mas que, aos olhos de Louise parece um cavalo branco com um príncipe sobre si, pois está mais lindo e atraente que na noite anterior, especialmente porque tem em seu rosto um sorriso belíssimo, demonstrando satisfação imediata ao vê-la e não vendo problema em expor abertamente isso.

— Então... vai mesmo ficar aí bem sossegado enquanto eu fico toda molhada te olhando aqui do portão? — Ela anuncia em tom alto o suficiente para que ele possa ouvir.

— Molhada ou não, você é muito atraente! — Ele expressa e fica um tanto corado, mas não deixa de encará-la.

A seguir, sai do carro, trava as portas e aciona o alarme. Corre até ela, evitando molhar-se muito. Está com o capacete em uma das mãos, na outra uma caixa de chocolates, que lhe entrega sorrindo e ela recebe com surpresa, assim como a surpreende ao beijá-la em um e outro lado do rosto.

— E eu ainda ganho um brinde por te fazer vir aqui nessa chuva? — Louise caçoa, abanando a caixa de chocolates. Ela lhe dá passagem, tranca o portão e tenta esconder a emoção causada pela sua ação encantadora.

Dico insere-se na casa e aceita a sugestão para sentar-se no sofá.

— Gostei daqui! — anuncia, quando observa Louise voltando do quarto, onde guardou o capacete. Ele passa a vista por todo o ambiente, notoriamente feminino em sua decoração, considera-o simples, mas de bom gosto.

Louise senta-se ao lado dele, pega de cima da mesinha de centro a caixa de chocolates e a abre para, sem cerimônia alguma, escolher um bombom para comer.

— Ainda bem que acertei em minhas previsões. — Ele ri vendo-a abocanhar o segundo bombom.

— Que... previsões? — brinca, já entendendo o que ele quer dizer.

— Que você é mais uma chocólatra neste mundo... aumentando essa nova população que só cresce.

— E você é um comediante nato, sabia? — A ironia sai da boca de Louise com facilidade.

— Sei... Sabe o Jonas? Ele só fala em você. Está morto de vergonha pelo que houve.

— Ele... ele sabe sobre nós? Você contou pra ele? — Louise arregala os olhos e quase engasga com o chocolate na boca.

— Não. — A resposta é rápida.

— Por que não? — investiga, desconfiada.

— Não sei... só não achei necessário, no momento. Eu percebi que ele gostou de você, mas também sei que logo ele arranja outra diversão e esquece.

— Nossa, obrigada por me comparar a um brinquedo. — mostra nova expressão irônica.

— Desculpa, não foi a minha intenção. Eu acho que no fundo fiquei mesmo foi com ciúmes por ele estar falando tanto de você. — Dico olha-se timidamente ao fazer a confissão.

— Ele é só um meninão que bebe demais... e perde a noção de tudo. — Louise desconversa, enquanto come avidamente outro bombom de chocolate.

— Tá sujo aí, ó. — aponta para uma parte do rosto dela.

— Onde? — pergunta aproximando seu rosto do dele para que lhe indique a sujeira e sente uma excitação súbita quando ele passa o dedo sobre o canto de seus lábios dirigindo-lhe um olhar devorador.

Eles se olham e se seus rostos se aproximam mais, como se fossem ímãs que tendem automaticamente a se unir quando estão perto, as bocas se tocam, os olhos se fecham e a mão de Dico sobe, alcança-lhe a nuca e firma o beijo, que aos poucos se intensifica juntamente com as carícias, que se iniciam e também vão ganhando entusiasmo, até que o próprio Dico percebe que estão indo longe demais e, se continuarem neste ritmo, acabarão transando no sofá mesmo.

— Onde estão as suas colegas de república? Você tá sozinha aqui? — Ele começa a se empolgar com o pensamento.

— Não. Minha colega Vicky está lá no quarto dela e pode nos flagrar a qualquer momento, portanto nem pense que nós vamos fazer isso aí que você tá pensando, nem hoje nem nunca mais... quer dizer, é melhor que não aconteça de novo. — É simples e direta ao afastá-lo, embora esteja arquejante e com a pulsação acelerada.

— Puxa vida, Louise! Quer dizer que ficar comigo foi tão ruim... ao ponto de você não querer mais de jeito nenhum? — faz cara de muxoxo fingindo-se de ofendido.

— Não é isso... é que acho melhor ficarmos mesmo só como amigos, sabe, é melhor, não acha? Nós podemos relembrar os tempos da escola e das pessoas do nosso passado... e até construir novas memórias a partir de agora. Afinal, amizade é pra vida toda, mas um relacionamento sexual ou amoroso está sempre arriscado a acabar com brigas, desentendimentos, traumas para ambos os lados, por isso que foi completamente errado nós ficarmos assim nos agarrando... Isso não vai mais acontecer! Se quiser, seremos amigos, se não, esqueça o meu telefone e o meu endereço.

Dico olha-a perscrutando a veracidade de suas palavras, terminando por captar uma faceta teatral por trás de tudo o que ela diz, mas ele resolve entrar na encenação , para ver até quando Louise resistirá à atração evidente entre eles.

— Então, está ok! Só amigos? Pra mim está perfeito! — estende-lhe a mão para que a aperte e aceite formalmente o contrato recíproco de amizade e nada mais.

Ao se notarem tão cerimoniosos, acabam rindo e se assustam ao ver Vicky parada diante deles com cara de constrangimento.

— Vicky! Deixa eu te apresentar o Dico, meu mais novo amigo.— lança para ele um olhar travesso, mas sincero.

— Olha... me desculpem, eu não quis atrapalhar a conversa de vocês. É que senti sede. — Vicky fala, totalmente envergonhada.

— Deixa de ser boba. Não atrapalhou nada. — Louise está adorando ver as caras enrubescidas, tanto de Vicky como de Dico. Ela, por ser tímida mesmo e ele, porque está ainda meio excitado.

Louise faz as devidas apresentações e só libera a morena para ir à cozinha beber água, mas praticamente a obriga a voltar e ficar com eles no sofá, pois quer proporcionar novo momento de distração para a amiga, para que deixe suas preocupações de lado.

A cena é cômica: Dico e Vicky estão sentados, cada qual a um canto do sofá, tendo Louise bem no meio, rindo de tudo e comendo chocolates sem parar.

— Já sei, vamos ver um filme! — propõe, entusiasmada.

A alegria de Louise acaba contagiando todos. Escolhem um remake de “The Evil Dead”, gênero que, por coincidência, agrada a todos. Devoram o restante dos chocolates, comentando algumas cenas e considerando o filme bem legal. O clima passa de encabulado para uma descontração geral.

O resto da visita de Dico acaba por ser diferente do que ele havia imaginado, mas ele gosta, assim como gosta de conhecer Vicky, acha-a bastante simpática. Ao fim do filme, porém, ele resolve que é a hora de ir. Louise leva-o ao portão e eles, mais uma vez, apertam as mãos como meros amigos. Todavia, no momento em que Dico puxa-a para lhe beijar de um lado e outro do rosto, faz questão de dá-los rente à sua boca, o que causa nela arrepios pelo corpo, embora disfarce ao máximo. Ele sorri, com o rosto um pouco avermelhado, e não força mais nada, apenas diz que voltará a ligar para ela, para marcar algum programa de amigos. Em seguida, parte deixando Louise aos suspiros, lamentando saber que sua resistência poderá demorar muito pouco, se Dico insistir em se manter por perto, já que, mesmo tendo aceitado ser tão-só amigo, continua representando um perigo à convicção dela.

[...]

Notas finais
É isso aí... Louise não quer dar o braço a torcer e admitir o que sente por Dico. Quanto a Manu e Vicky, a coisa é bem mais complicada. Elas são ainda bastante imaturas. Mas eu torço por elas e vocês? Vamos aguardar e ver como os acontecimentos andam... Esperemos! Ah gente! Abaixo vai o link para quem quiser ouvir a música que Manu estava escutando nos fones de ouvidos: https://www.youtube.com/watch?v=pzEkl_lTz4Q É da banda The Fray, a música é Love don’t die Beijos, pessoinhas queridas!