[HIATUS] Mudanças impuras

24 Palavras cortantes, decisões amargas


Notas iniciais
Gente, voltei!!! Olha, eu confesso que me atrasei menos do que eu pensei que me atrasaria, pois ultimamente o tempo não tem sido muito favorável, mas enfim, consegui terminar o meu capítulo mais longo até agora. Eu sei que havia dito numa nota anterior que não gosto muito de me exceder nas palavras dos capítulos, no entanto, este aqui fez-me compreender que não é o tamanho que interessa e sim o ritmo adequado e coerente dos acontecimentos. Eu visualizei tudo o que ocorre aqui nesta exata sequência, então espero que gostem e tenham disposição para lê-lo completamente.

Lavínia caminha atravessando a larga avenida, experimentando os pingos da chuva, que há pouco se iniciara, e a frieza advinda da ventania, nas partes descobertas de seu corpo, rosto, braços e pernas. Porém, as interferências externas não a afetam, pois está tomada por um transe, que na verdade nada mais é que o pensamento firme e compulsivo de ver seu pai, de estar com ele e escutar que toda a história contada por Henry não passa de puro desvairo de sua mente enferma.

Ela adentra a recepção da empresa, através da porta de vidro, sentindo o coração enfraquecido por tamanha agonia. Esta parte da corporação é apenas um pouco diferente das demais salas existentes em todo o prédio comercial, pois possui a mesmo arranjo sóbrio e moderno, mas também um espaço amplo, um hall cujo piso, parte liso parte rugoso, pode ser apreciado através de blocos grandiosos de cerâmica branca e também em cor terrosa. Próximo à parede, que é pintada com tinta a óleo em tom bege, encontram-se poltronas alvas, com pés metálicos, que têm, entre elas, belas luminárias decorativas. Mais adiante, vê-se alguns corredores que conduzem às demais salas. Tudo é bonito e sofisticado, do chão ao teto. Pessoas saem e entram dos escritórios. Todas conversam entre si e tratam de questões financeiras sobre suas respectivas empresas. Ninguém parece notar a presença da jovem loira, que até acha isso bom, pois não vê obstáculo em seu objetivo. Ela segue em seu trajeto para o elevador e não precisa chamá-lo, visto que ele se abre assim que está perto, deixando ver umas poucas espécies vivas. Junta-se a elas e pede ao ascensorista que aperte os números referentes ao andar da sala presidencial. Ao chegar, anda mais um bocado, por uma passagem miúda, tendo à sua frente uma porta de vidro translúcida, com maçanetas de mesmo material. Puxa-a para entrar e vê, entre mais móveis requintados do local, uma mulher sentada por trás de uma mesa, fazendo anotações num bloco de papeis.

— Pois não? — A secretária do senhor Gregory não a identifica de imediato, mesmo tendo visto a garota à sua frente em algumas ocasiões e nas reportagens sobre seu suposto sequestro.

— Quero falar com... o senhor Gregory. — proclama, sem ânimo algum em sua voz.

— A quem devo anunciar?

— A filha dele. Lavínia Albuquerque. — continua sem esboçar qualquer emoção, mesmo quando a secretária esbugalha os olhos, mostrando-se muita surpresa.

— Oh! Meu Deus! É você! A filha desaparecida! Desculpe não tê-la reconhecido antes. Tantas coisas aconteceram! E todos a procuravam... pensando o pior... — expressa efusivamente, sem ter dúvidas quanto a estar diante da jovem filha do senhor Gregory.

— Tudo bem. Não tem problema. Olha, não precisa me anunciar... Deixe que eu mesma me anuncio ao meu pai, ok? — Lavínia interrompe a sessão de espanto da mulher e desaparece pela porta da repartição presidencial. Ao entrar, logo assiste ao seu pai a certa distância, sentado numa cadeira giratória, diante de sua mesa de trabalho. Nota que ele se encontra sozinho no recinto, falando, pelo celular, com um sócio da firma. Seu assento, bem como seu rosto, está voltado para a janela envidraçada, que deixa ver as demais construções, tão altas e caras quanto esta, e o céu completamente nublado.

— Não obtiveram o desempenho esperado? — Ele permanece dialogando com a pessoa do outro lado da linha, sem se dar conta da presença de sua filha. Lavínia nada diz, nada faz, apenas aguarda e mantém uma fisionomia meio estática. — É melhor corrermos, Michael, antes que nosso amigo empreendedor fique com menos de um por cento do mercado... e nos culpe por tamanho fracasso nos lucros. — ri sarcasticamente, continua seu discurso, olhando, às vezes, lá para fora, através da janela. — Eu sei! Então amanhã nos reunimos, sem falta, e vemos o que fazer... Combinado... Ok. Ok! Até lá! Tchau.

O senhor Gregory desliga o celular e se vira. Leva, então, o maior susto da sua vida, ao ver Lavínia parada, em pé e com cara de morta-viva, numa palidez incrível. Ele se levanta, como se fosse um autômato, e anda em sua direção. Tem os olhos arregalados, a boca semiaberta, um medo enorme de estar alucinando, de aquela não ser Lavínia e, sim, o espírito dela, que veio visitá-lo. Esta reflexão funérea é apenas produto de angústia de um pai desesperado, que terminou por acumular visões grotescas de morte envolvendo sua valiosa filha. Toma coragem e se aproxima mais.

— Lavínia... — fala e ao mesmo tempo toca-lhe o braço, percebendo enfim se tratar de sua filha viva e não de um espectro. Ele libera o ar, que estava preso, e se entrega ao prodígio que lhe surge. — Filha... filha... Minha filhinha! Oh, Deus! Obrigado! É a minha filha... Minha amada filha!

O senhor Gregory beija as faces, a testa e os cabelos da jovem, enquanto chora, emocionado, e a abraça, numa profusão de gestos de carinho e agradecimento por tê-la agora consigo, sem entender ao certo como isso ocorre, de modo tão inesperado.

Lavínia nem se move. Somente permite que ele a manuseie como queira e manifeste sua alegria.

— Filha! O que há com você? Como chegou aqui e por que está assim? — só agora o senhor Gregory a observa atentamente, percebe o seu comportamento estranho.

— Pai... eu vim buscar você pra irmos pra casa. Vem, vamos! — A voz dela é fraca, quase sem volume audível. Ela puxa o braço do pai como se o intimasse para segui-la.

— Sim, minha filha, nós vamos... Vamos pra casa já... Antes devemos resolver umas coisas. Precisamos ligar para os detetives que eu contratei para se responsabilizarem pelo seu desaparecimento e... e... — O senhor vai articulando e pegando o celular de cima da mesa para buscar os contatos que deseja.

— Não! Não ligue pra ninguém! Vem, vamos pra casa... Eu quero conversar com você e com a mamãe... juntos... sobre algo muito importante. — prende mais ainda as mãos em torno do braço dele e, assim, exige atenção.

— Mas, filha, você foi sequestrada! Precisamos comunicar sua libertação aos oficiais e encontrar quem fez isso com você! — Ele anuncia, sem exibir nenhuma dúvida de que foi exatamente isso que aconteceu.

— Eu não fui sequestrada! — Ela se exaspera e praticamente grita as palavras, encarando-o com olhos que mostram o seu descontrole, assustando-o imediatamente.

— Tá certo, minha filha, posso ver que você não está bem. Deixemos isto para depois. Mas talvez seja melhor eu levá-la a um hospital para que a examinem... — tenta, de todas as formas, decidir pelo que é melhor neste momento para sua filha transtornada.

— Não! Tudo o que eu quero é ir pra casa... e quero que o senhor venha comigo. Agora, pai! Agora! — A voz de pedido é substituída pela de ordem, numa fração de segundos.

O senhor Gregory não debate mais. E, embora algo dentro de si o alerte sobre Lavínia não estar nada bem, resolve atender ao seu pedido, somente acena positivamente, enquanto interfona para sua secretária, dizendo que não marque mais compromissos para este dia, pois ele irá para casa, levando consigo sua filha.

Darlene está recostada no enorme sofá oval de tecido camurça de cor clara, folheando uma revista de modas, ao passo que reflete sobre compras que precisa fazer, na boutique de uma famosa estilista amiga sua, no intuito de revigorar o guarda-roupa e esquecer um pouco as preocupações. A senhora Albuquerque exala elegância em seus adereços caríssimos e em suas vestes de cetim nobre. Blusa e calça pantalona com estampas em igual tom de azul e um tamanco amarronzado de salto delicado. De repente, ela ouve a porta ser aberta e a voz de Gregory invade o ambiente. Nota que ele parece dialogar com alguém, sem obter resposta.

— Greg, você em casa a este horário é inusitado... O que foi? Esqueceu algum documento? — A mulher interroga serenamente, mas quando levanta a vista, também se espanta demais, ao ver Lavínia ao lado do marido. — Meu Deus do céu! É você, Lavínia! Está aqui! Mas... Mas como? — levanta-se numa rapidez tremenda e fica olhando para a jovem, sem crer no que vê.

— É, Darlene... Ela surgiu lá na empresa... assim do nada, parecendo uma assombração... eu também demorei a acreditar, quando a vi. — justifica, ao notar a cara espantada de Darlene.

— Oh! Que estranho! Mas é muito, muito bom! Ai, Lavínia, se você soubesse o que passamos por sua causa... por causa desse seu sumiço... principalmente o seu pai. Ele quase morreu de angústia! Meu Deus, onde você estava, menina? Você foi mesmo sequestrada? Fugiu do cativeiro? — dispara a falar, enquanto se aproxima dela, mas Lavínia continua introspectiva, com um semblante perdido.

— Darlene, pare! Ela não tem condições de responder nada agora. O importante é que nossa filha está aqui agora. — A partir do que ele diz, Darlene acalma-se e encerra sua investigação, abrindo os braços para acolher a jovem num abraço terno, por estar feliz em tê-la de volta entre eles.

Ao escutar a expressão “nossa filha” dita pelo pai, Lavínia exibe uma cara contraída como se sentisse dor.

— Você é minha mãe? — solta a pergunta em alto volume de voz, curta e grossa.

— Como é que é? — Darlene retrocede os braços e fica surpresa por causa da pergunta repentina.

— Ela é minha mãe, pai? Quem é a minha mãe? — volta a repetir a interrogação, lançando-a para o senhor Gregory. Seus olhos ansiosos se fixam nele e lhe causam imediato incômodo.

— Lavínia, que pergunta é essa? O que deu em você pra ter esse tipo de... de pensamento, agora? Mas é natural que esteja perturbada mentalmente, depois de tudo que passou. — Ele replica, buscando não demonstrar inquietação.

De todo modo, o nervosismo começa a se instalar no ambiente.

Inevitavelmente, Darlene e Gregory trocam olhares e ficam tensos.

— Sabem... com quem eu estava... e-esse tempo todo? — Lavínia desvia o olhar eufórico de seu pai para sua mãe, não esperando que respondam sua pergunta, que é retórica. — Eu estava com... com o filho de Abigail e Mathias Sorelle. E... E ele me contou uma história muito louca, pai. Ele me disse que minha mãe não é a minha mãe... que minha mãe biológica é a mãe dele, essa tal de Abigail... que ela era a sua... amante! — repassa o que foi dito por Henry e ri insanamente, como se fosse um conto fabuloso, mas que precisasse ser externado e desmentido.

— Cale-se, Lavínia! Que absurdo está dizendo? Não sei do que você está falando... Isso é loucura! Não sei o que andaram enfiando na sua cabeça, mas você não deve acreditar nisso, filha, pois... pois seus pais são Darlene e Gregory Albuquerque... Somos nós! — fica enfurecido e trata logo de tentar cortar qualquer especulação a respeito desse assunto.

Lavínia, então, sente uma faísca de esperança achegar-se e seus olhos adquirem um brilho de contentamento, embora continue com aspecto ensandecido.

Darlene, ao contrário, muda drasticamente, fica com os globos oculares arregalados e voltados para o piso e, quando os ergue para fixá-los no marido, há uma ira intensa neles.

— Hipócrita!!! — ejeta a ofensa, com voz gritante.

— Darlene! — O senhor Gregory fica pasmado com a agressividade súbita.

Lavínia também se abisma, mas permanece quieta, pressentindo que uma bomba havia sido acionada e explodirá, a qualquer instante, sem que ninguém possa impedir, por isso seu corpo é dominado por tremores involuntários.

— O quê? Pensou mesmo que eu iria manter esta venda em meus olhos pelo resto da vida, Greg? Miserável! — A fúria de Darlene está presente em sua postura altiva e em seus olhos faiscantes. Ela caminha até ficar frente a frente com Lavínia, mirando-a dolorosamente. — É verdade, Lavínia... Eu não sou a sua mãe... eu sinto muito! Mas esta é a pura verdade!

Lágrimas escorrem por sua face, enquanto vê Lavínia cerrar os olhos com força e tapar os ouvidos, em sinal de desespero e rejeição ao que ouve, sentindo-se encurralada.

— Enlouqueceu, mulher! Veja o que está fazendo com ela! — O senhor Gregory busca interromper o momento de revelação da sua esposa, pois pensa que nada tem mais importância que o bem-estar de Lavínia.

— O que eu estou fazendo, não! O que você fez, seu farsante! — continua a desabafar, desprezando a agonia que provoca, tanto em Gregory quanto na garota. — Escute, Lavínia... Pra mim, você sempre foi a criancinha que encontramos no orfanato, abandonada, à espera de uma família para adotar você...

— Eu te imploro, Darlene... Pare! Não é hora pra isso! Ela acabou de voltar pra nós... sabe-se lá de onde... sabe-se lá o que teve que passar! E você a está torturando... Por Deus! — argumenta no intuito de conter mais denúncias que agravariam a situação.

— Você é um descarado de uma figa! Acreditou que enganaria a todos para sempre, não é? — encara-o com expressão indignada. Ela volta a se afastar de Lavínia e se direciona, num segundo, para o seu alvo. Põe-se frente a Gregory, olhando-o com expressão que denuncia acúmulo de sentimentos ruins, como desengano, raiva e consternação.

— Darlene, controle-se! O que Lavínia está dizendo é... é algo sem sentido. Certamente alguém a manipulou contra nós... e agora ela está sob choque, com pensamentos confusos. — tenta impor uma justificação.

— No fundo eu sempre soube... Eu sempre soube! Você propôs, insistiu que fôssemos ao orfanato... e quando eu quis ver os outros bebês, quase teve um troço. Não deixou de jeito nenhum... dizendo que ela era perfeita pra nós... que não precisávamos ver mais nenhuma criança. — segue com seu estouro verbal, relembrando os fatos do passado, ora chorosa ora irada e frenética.

— Darlene... — Ele agora se sente vencido e não mais tem como parar o curso dos acontecimentos que emergem em convulsão.

— Você me convenceu a querê-la como nossa filha! Lembro bem do que você disse naquele dia... “Veja, Darlene, ela ri para nós! Até parece que nos escolheu.” E eu fiquei encantada e aceitei. Então, nós a trouxemos pra casa. Eu a via como uma bênção, no início. A filha adotiva que traria paz e alegria ao nosso casamento. Mas ela foi crescendo e eu achando que estava ficando louca... porque cada vez que a olhava, eu via a cara daquela vagabunda da sua amante falecida! Oh! Deus! Sabe quantas vezes eu descontei nela a minha raiva sem saber de nada? E depois me corroía de remorsos... mesmo sabendo que faria tudo de novo... sempre! Não conseguia evitar. Era mais forte do que eu... Eu fui tão cruel. Tão cruel! Ah! Lavínia, e no fim, nós duas fomos vítimas. Nós duas!

— Chega... Chega, por favor! Eu quero sair daqui. Não aguento mais tanta dor! Eu quero sumir! — Lavínia tem agora as faces banhadas e em brasa, os olhos avermelhados, uma agitação imensa a tomar conta de seu corpo, enquanto externa palavras de lamento. Ela se sente tragada ao um inferno sem limite e quer correr para qualquer canto, longe de suas perturbações, longe das aterradoras verdades. No entanto, mal dá uns passos e desmaia. Só não bate com a cabeça no piso porque seu pai é mais rápido e amortece a queda, indo ao solo junto com ela.

— Oh! Meu Deus, não... não! Por favor, Darlene... pare de uma vez com esse martírio. Não fique feito estátua aí. Me ajude com ela. Está ardendo em febre! — O senhor Gregory está apavorado por ter sua filhinha desfalecida em seus braços, ao passo que lhe toca a testa para sentir a temperatura e os pulsos, a fim de averiguar os batimentos cardíacos, desconsiderando os desaforos e a discussão que acabara de ocorrer.

Darlene demora uns segundos vendo pai e filha no chão. Mas, de repente, torna a si e avança segurando por baixo das axilas inertes da garota, ajudando, até que Gregory consiga envolver o corpo e erguê-la nos braços. A seguir, ele anda em direção às escadas e começa, lenta e dificultosamente, a subir degrau por degrau.

— Existem quatro quartos desocupados aqui em baixo. Coloque-a em um deles! Por que se arrisca a cair das escadas com ela? Você não aguenta subir com essa menina nos braços! — Surpreendentemente, ela deixa a raiva de lado, ao perceber o quanto Lavínia precisa de ajuda, ao compreender, por fim, o quanto está em dívida com a inocente.

— Minha filha vai pro quarto dela! Eu a aguento, sim! Ela é minha filha! Eu a aguento... Eu aguento o que for preciso! — O homem deixa claro que também está afetado por tanto martírio e repete que “aguenta” de modo a tornar o enunciado um mantra, que o fortalecerá para os contratempos que virão.

— Nena! Nena, venha aqui agora! — Ainda vendo o senhor Gregory dominar os degraus com Lavínia nos braços, Darlene grita pelo nome da empregada, uma prestativa senhora que reside na mansão há muitos anos, e que presenciou toda a criação da jovem, desde que esta adentrou ainda bebê, para a família Albuquerque.

— Sim, senhora, estou aqui... Diga o que deseja. — A velha se encontra em lágrimas e nem consegue disfarçar a emoção.

— Você estava ouvindo a nossa conversa? Ah! Só faltava isso! Mas, quer saber? Não importa! Vá agora e busque álcool e... e algodão. Leve tudo pra mim... no quarto da Lavínia. — repassa as ordens e depois se admira por ver a empregada idosa correr velozmente.

Darlene respira fundo e sobe também as escadas. Assim que observa Gregory colocar Lavínia em sua cama, ela consegue, a muito custo, que ele saia do quarto e deixe a filha sob os cuidados dela e de Nena, que na contagem de minuto e meio já se encontra no local com o que lhe foi solicitado. Darlene embebe o álcool no algodão e põe sobre as narinas de Lavínia, que se movimenta um pouco, dando sinal de vida. Mas está fraca e com o rosto afogueado, por conta da febre. Com o reforço auxiliar de Nena, Darlene também retira as roupas meio encharcadas dela e a leva ao banheiro, dando-lhe um banho frio para ajudar a baixar a pressão arterial sistêmica.

Lavínia está tão enfraquecida que não se opõe a nada, apenas se deixa levar, num silêncio profundo.

Após vesti-la com roupas secas e limpas, as mulheres voltam a deitá-la e Darlene decide que é preciso dar-lhe antitérmicos e analgésicos. Nena tem a ideia de trazer um chá de ervas caseiras como acompanhamento aos comprimidos.

Daqui a uma hora, Lavínia dorme um sono inquieto e agonizante. Ela transpira, chora e delira. Em seus devaneios, o nome de Henry surge diversas vezes, seguido de mais lágrimas, gemidos e até gritinhos agudos. É óbvio que sofre e que seu corpo apenas manifesta a sua dor interna.

Darlene e Nena somente a contemplam, com sentimento de piedade. Escutam uma leve batida na porta e observam o senhor Gregory entrar no recinto. Ele está com a mesma roupa com que chegou do trabalho e no rosto, a nítida expressão de derrota e cansaço. Todavia, a matrona fecha a cara imediatamente e Nena retira-se, deixando os patrões a sós com a filha.

— Talvez devêssemos levá-la ao hospital. Minha pobre filhinha. Parece tão abatida! — aproxima-se da cama de solteiro, sem desgrudar os olhos de Lavínia e sente o coração cada vez mais espremido ao notar que ela geme e diz coisas desconexas, baixinho.

— Não, deixe-a quieta aqui mesmo. Não sou nenhuma especialista, mas creio que ela ficará bem. Eu lhe dei um banho frio e alguns comprimidos para baixar a febre. E ela está suando muito. Isso é bom sinal... mesmo que ainda continue a delirar e chamar por um tal de Henry. — fita-o, de viés, com secura.

Ele não parece dar atenção ao que lhe foi dito, pois fica com o olhar meio distraído, enquanto arrasta uma poltrona rósea, tira de cima dela o grande urso de pelúcia e que tem um escandaloso laçarote amarrado ao pescoço, sentando-se ao lado nela, junto à cama de Lavínia.

— Obrigado, Darlene. Você foi incrível cuidando dela tão bem... e depressa. Eu nem sei o que faria sem você aqui. — declara gentilmente, tentando amortecer o coração da mulher, ao mesmo tempo em que passa a mão trêmula pela testa de Lavínia.

— Pedir pela ajuda da sua amante morta é que não poderia, não é? E, se quer saber... a culpa por sua filha estar assim é sua. Porque o que ela tem não é nada físico... é emocional. É apenas trauma por descobrir que a vida dela é uma mentira completa e que o pai, o herói dela, não passa de farsante hipócrita!

— Por favor, não fale desse jeito... Eu vou me explicar com calma, depois, por que é que as coisas aconteceram assim. Tudo tem explicação, Darlene. Eu juro! — atesta, mesmo sabendo que ainda não está preparado para nada disso.

— Ah! Piada! Agora você quer conversar e se explicar? Você não vale nada! É um mentiroso convicto de anos. Olhe bem pra sua filha, aproveite enquanto ela dorme adoecida... porque não interessa como ela soube da verdade. No fim, foi você que causou isso nela! Então se prepare para suportar o que ela tem pra você, quando acordar, porque essa menina não é tão idiota como eu... que sempre perdoei as suas falhas.

Darlene retira-se do quarto deixando o senhor Gregory desolado, assistindo aos gemidos lamuriosos da jovem, apavorado, por imaginar que sua filha possa vir a odiá-lo irremediavelmente.

[...]

Às quinze horas, Manu está no quarto, terminado de pôr o short jeans prelavado, a blusa-farda vermelha e os surrados tênis pretos para ir à lanchonete, sem vontade alguma. Seu desejo é ficar e acabar com o tormento da espera para conversar e se acertar com a sua namorada de uma vez por todas. Contudo, sabe que é melhor seguir com o que foi combinado e ir para o seu trabalho, do contrário, poderia deixar Vicky mais incomodada ainda, talvez até alegasse que ela está evitando ir para a lanchonete para não ter que encarar Dayse, por algum motivo suspeito. “É! Mas eu bem que deveria evitar mesmo aquela lá. Do jeito que ela tá me cercando, eu vou acabar entrando em apuros de verdade, qualquer hora dessas”. Manu conclui que os flertes insistentes de Dayse são perigosos, sedutores até demais. Ri de tal pensamento, mas fica séria no mesmo instante em que Vicky entra no quarto, com os seus belos cachos presos em um rabo de cavalo, vestida com sua baby look amarela e uma minissaia de tecido liso cinza. A morena passa por ela com expressão um tanto compenetrada, e vai direto ao canto do quarto, onde está o enorme cesto plástico de roupas usadas. Ela segura as bordas do cesto e começa a querer levantá-lo.

— Ei, Vicky, deixa eu te ajudar com isso. Caraca! Peraí, não me diga que você vai pôr na máquina toda essa roupa. Já viu como tá o tempo lá fora? Nada vai secar hoje! Não com esse chuvisco, que parece que vai durar o resto da tarde e pela noite adentro. — apregoa, ajudando-a erguer o cesto.

— Bom, acho que você tem razão. Mas tem roupa acumulando neste cesto há semanas. Então vou fazer o seguinte... Eu vou separar, ao menos, as que forem mais fáceis de enxugar e, depois de lavadas, eu coloco na parte coberta da lavanderia mesmo. Inclusive, depois vou passar no quarto da Louise pra pegar algumas dela também. Afinal, até a Lavínia voltar, esta função com as roupas sobrou pra mim. — anuncia, em tom resignado.

— Se quiser, eu posso revezar com você, ora! Eu não acho isso tão difícil. É só juntar tudo num bolo e tacar na máquina junto com sabão em pó, alvejante e amaciante. Viu? Muito simples. — Manu fala como se lavar roupa na máquina fosse semelhante a um efeito de magia, o que faz a morena arquear as sobrancelhas e mostrar uma expressão admirada.

— Muito simples? Sinceramente, Manu, se é pra ser desse jeito... é melhor deixar comigo. Você é mesmo um desastre para os serviços domésticos e acabaria deixando todas as roupas manchadas e imprestáveis. Imagina a Louise virada uma fera por ter suas roupas inutilizadas! Ela mataria nós duas, de tanta raiva. — Vicky abre um sorriso espontâneo, exibindo seus dentes alvos e as bochechas salientes.

O coração de Manu desafina prontamente, pois a acha linda e experimenta uma imensa vontade de lhe dar um beijo de despedida, antes de sair para o trabalho. No entanto, somente morde com força o lábio inferior a fim de conter o desejo, porque não quer forçar o gesto de carinho, arriscar-se a novos desentendidos.

— Então... Vicky, nós nos vemos à noite, ok? Olha, eu vou até tentar sair mais cedo hoje da lanchonete... porque eu quero muito me entender logo com você... e deixar tudo bem esclarecido entre a gente. — afirma, meio agitada.

Vicky fica séria, desvia o olhar e apenas anui com a cabeça, sem emitir som algum e observa, de soslaio, enquanto Manu pega a sombrinha e sai para enfrentar os respingos de chuva, lá fora. Em seguida, dá um longo suspiro e volta à sua tarefa com as roupas, tentando distrair a mente ao máximo para não ter pensamentos negativos. Vai tirando peça por peça e separando as de tecido mais delicado e fino das que são mais grossas e difíceis de secar. Até que, ao tentar retirar uma blusa de algodão branca que está prensada com uma calça jeans de Manu, traz as duas peças unidas para cima e, quando puxa a calça para devolvê-la ao cesto, um papel dobrado, um tanto desbotado, cai no piso. Num primeiro momento, Vicky não vê nada de mais, afinal imagina que é somente uma anotação qualquer feita por Manu, que terminou por esquecer no bolso. Ela se agacha para pegar o objeto e colocá-lo entre as coisas da ruiva. Todavia, ao se aproximar, consegue identificar as letras pequeninas com os dizeres: “Para a ruiva mais linda que eu já vi”.

Vicky prende a respiração e no exato segundo sente uma pontada de desconfiança invadi-la. Com as mãos tremulando, apanha o embrulho de papel e se esforça para desdobrá-lo, ao passo que se senta na beirada de sua cama, por sentir as pernas amolecerem. E, antes mesmo de ler o conteúdo da carta, inicia um choro lento e progressivo, sentindo-se desiludida, traída.

Respira fundo. Cria coragem e começa a ler:

“Querida Manu...

Desde a primeira vez em que a vi, eu logo soube que não teria como fugir da atração que senti. Agora você está em minha mente, ocupando a maior parte dos meus pensamentos. Você é o ânimo dos meus dias. A hora mais feliz para mim é quando estou na lanchonete, pois posso apreciá-la e sonhar que você é minha namorada e que me invejam por isso. Sim, eu sou lésbica, não escondo de ninguém a minha orientação sexual. Tenho orgulho de ser quem sou e ficaria honrada, se a tivesse do meu lado. Ah, como seria bom! Não quero ser abusada ou precipitada, mas eu percebo que, de alguma forma, não lhe sou indiferente. Deixe-me, então, guia-la por um caminho novo e eu garanto que não se arrependerá, dê-me uma chance e eu sei que posso lhe mostrar a felicidade do amor livre, sem preconceitos.

Com amor e carinho...

Dayse”

Vicky segura o bilhete em suas duas mãos com uma fúria reprimida, querendo rasgá-lo em mil pedaços, mas sem conseguir fazê-lo, pois há nele palavras escancaradas, verdadeiras, que ela não tem como refutar. Trata-se de uma carta escrita por uma bela e charmosa garota, que se dispõe a desafiar Manu a deixar que a faça feliz aberta e livremente. Esta realidade que se apresenta é um martírio pesado demais para Vicky suportar. “Será que a Manu já leu? O que sentiu? Aposto como se sente tentada a ceder!” Vicky dá início a uma série de ponderações, imaginando que jamais poderia oferecer a Manu o que essa garota propõe, pelo menos não por um tempo que ela nem tem como calcular. “Ela nunca obrigaria Manu a mentir ou esconder o relacionamento delas. Elas andariam por aí de mãos dadas, sem ligar pra nada. E eu? Sou só um estorvo desnecessário!”. Vicky vai refletindo e se sentindo pior a cada conjectura, enquanto desaba em lágrimas. Joga-se de vez na cama, ficando de bruços, com a cabeça inserida no travesseiro, tentando abafar os soluços, fazendo, com isso, todo o seu corpo se sacudir e a carta em sua mão ficar mais amassada ainda. Permanece soluçando por uns longos minutos até que, aos poucos, acalma-se, revisa mentalmente sua relação com Manu. Encantaram-se uma pela outra desde o início, na sala de aula, fazendo o mesmo curso, convivendo na mesma república e, por fim, cederam, firmaram o namoro escondido de todos, menos das suas colegas de moradia. Contudo, ela supõe agora que, por certo, nem estariam juntas caso não houvesse tanta coincidência em suas atividades estudantis e no local escolhido para morarem. Obriga-se a ser honesta consigo mesma o suficiente para compreender que a ruiva nunca esteve de fato satisfeita com o pouco, ou quase nada, de promessas que ela lhe pode oferecer. Sendo assim, é aceitável que surja uma pessoa mais adequada para atender aos seus anseios. É até uma situação que poderia ser prevista facilmente.

Vicky seca as lágrimas e volta a se sentar na cama. Ergue a cabeça e respira fundo, pois acaba de tomar uma decisão muito difícil e terá que reunir toda a coragem do mundo para pô-la em prática. Levanta-se da cama, redobra, com cuidado, o bilhete e o introduz na cômoda pertencente a Manu, entre suas demais vestes. Em seguida, prossegue na tarefa de separar as peças de roupas que iria lavar na máquina, tentando não mais chorar.

São dezesseis horas e quarenta minutos quando Louise chega à república, de volta de suas aulas da tarde na faculdade.

— Credo! Que casa silenciosa! Vicky, onde você está? Hum... Deve estar no quarto estudando. — Louise dialoga consigo mesma, assim que entra pela sala, achando a calmaria um horror.

Porém, resolve não perturbar os estudos da amiga. Ela demonstra pressa e um pouco de irritação, pois quanto aceitou o convite de Dico para irem ao shopping para assistirem a um filme, não se lembrou de que teria aulas práticas até às dezoito horas, justo no horário em que começa a sessão. Por isso, as opções eram cancelar o compromisso com ele ou faltar às últimas aulas do seu curso de educação física. Optou pela segunda alternativa, mas tal ato a intriga bastante. “O que, diabos, eu estou fazendo? Por que eu não afasto esse homem logo e evito mais transtornos?”, Louise pondera, estando já em seu quarto, despindo-se para tomar um banho rápido. Após, sai do banheiro enrolada na toalha, com pingos d’água a cair ali e acolá, pensando na roupa que poderia vestir, quando escuta o som da campainha tinir uma, duas e seguidas vezes. Espera para ver se Vicky tem a boa vontade de ir atender à porta, mas como o som persiste sem que isto ocorra, não vê opção a não ser ela mesma receber Dico. Corre até o portão e o abre, molhando-se mais, com os respingos da chuva.

— Não podia fazer o favor de chegar só um pouquinho atrasado? — Louise declara com ironia na voz e dá passagem a Dico, que entra apressadamente.

Ao estarem na sala, o moreno fixa os olhos em Louise, com um sorriso contido nos lábios.

— Olá! Tudo bem com você, gata molhada? — fala animadamente, exibindo os bonitos dentes.

— Pode ir tirando esse risinho bobo da cara, Dico... ou eu desisto desse nosso programa de índio! Onde já se viu sair numa segunda-feira à noite, com um tempo desses! — Louise solta, com afetação, somente para esconder como está deslumbrada com o visual do moço à sua frente. Ele se encontra elegante, trajando camisa marrom-clara de mangas longas, perfeitamente ajustada ao tórax, calça jeans em tom escuro e sapatênis acinzentado. Seu rosto está barbeado e os cabelos curtos estão um pouco espetados para cima, formando um estiloso topete.

— Ah! Louise, você não faria essa desfeita com um amigo, não é? Ainda mais se é um amigo que te traz flores. — falando de modo suave e cortês, Dico expõe o braço direito, que se escondia o tempo todo detrás de seu corpo e deixa ver o agrado que trouxe para ela.

— Oh! Uma rosa vermelha! Pra quê isso, hein, Dico? — enxuga as mãos na toalha, com cuidado para não cair, pega da mão dele a rosa natural e o olha desconfiada, ao passo que a aproxima de seu nariz para inalar o delicioso aroma.

— Veja melhor. Não é apenas a rosa. — Ele não se importa com a falta de delicadeza dela.

Só então Louise presta atenção ao retalho de pano que envolve o caule da flor. Ela desata o nó e fica admirada com a beleza do tecido de seda pura, tão macio que se amolece, deslizando sobre seus dedos e dá vontade de acariciar o tempo todo. Trata-se de um lenço azul-anil com ínfimas estrelas brancas, muito elegante e, provavelmente, caro.

— A rosa é linda e o lenço é tão... tão macio! Mas eu não posso aceitar. Não é certo isso. — Louise estica os braços querendo devolver a rosa e o lenço para ele, que não move um único músculo.

— Por que não? Qual é o problema? Por acaso amigos não podem dar presentes sem ter segundas intenções? Você tá me acusando de quê? — Dico a interroga prontamente.

— Não! Eu não quis dizer isso. É que... É que... — Louise sente-se confusa.

— Louise, é uma simples rosa vermelha e um lencinho de nada... A flor é para selar a nossa boa amizade e o lenço é para proteger o seu pescoço em dias frios, como hoje. Viu? Não há nenhum sentido pervertido aqui! Não precisa se sentir assediada. — Sua voz firme e tranquila deixa Louise sem argumentos.

— Tá! Tudo bem, eu aceito. Ai, eu hein! Então, senta aí no sofá e espera que eu vou me vestir. Se não percebeu, eu te aviso que o tempo está correndo, vamos acabar chegando não pra sessão das dezoito, mas para sessão da madrugada!

Louise vira-se e caminha de volta ao quarto, deixando Dico com um sorriso ainda maior que antes e um brilho adicional nos seus olhos castanhos.

Ao fim de quinze minutos, Louise está pronta. Tem os cabelos agora secos e escovados, com o auxílio do secador elétrico. O rosto com pouca maquiagem, como de costume, possui base e gloss labial. Traja camisa cinza, de tecido liso, por baixo de um blazer escuro, calça jeans e bota de couro, com salto mediano. Fica em dúvida por uns segundos entre colocar ou não o lenço que acabara de ganhar. Porém, depois de um suspiro largado, apreciando a rosa posta em um copo d’água, em cima da mesa de estudo, resolve amarrar o lenço na nuca, deixando a base ampla em formato de V duplo e meio franzido, rente ao pescoço, completando o visual. Sai do quarto, toma cuidado de não ser vista por Dico, antes de falar com Vicky. Bate levemente na porta do quarto, vai adentrando, mas logo se assusta um pouco por perceber que está às escuras e que ela se encontra deitada na cama.

— Vicky, por que tá deitada a esta hora? Tá se sentindo mal? — Louise acende a luz e espera por uma resposta da outra.

— Só tô com uma pontinha de dor de cabeça... Nada grave. — Vicky fala com voz fraca e baixa.

— Ah! Se precisar que eu lhe traga algum remédio ou chá... é só dizer. — Louise fica com pena de ver a amiga com fisionomia de doente, entretanto, não desconfia de nada mais sério.

— Obrigada, Louise, mas não precisa se preocupar. Logo isso vai passar.

— Tá bem. Hum... Olha, eu só vim aqui dizer que eu tô saindo, viu. O Dico me chamou pra gente assistir a um filme no shopping.

— É... tô vendo que caprichou no look. Você tá linda, Louise! Divirtam-se! — Há sinceridade nas palavras amigáveis.

— Oh, muito obrigada. Então, eu já vou... Torço pra que sua dor de cabeça passe o mais rápido possível... e que não tenha nada a ver com aquela ruiva azeda. Beijinhos... tchau!

Louise sai do quarto, fechando novamente a porta e não vê a expressão de amargor feita por Vicky, ao ouvir a menção de Manu.

Um tempo depois, Louise e Dico estão na sala de cinema.

— Vamos ficar nesta parte de atrás. É mais sossegado. — Dico sussurra para Louise, enquanto eles buscam, na penumbra, um ponto para ficar.

Estão atrasados e pegando o filme já tendo sido iniciado há alguns minutos. Quanto à película, é uma comédia romântica cujo casal protagonista vive, aos trancos e barrancos, numa relação complicada, repleta de situações cômicas. Eles brigam o tempo todo, mas se amam, embora nenhum dos dois queira admitir isso.

Louise atravessa umas duas poltronas, até achar duas vagas. Dico segue-a e acomoda-se também. Ela segura na mão um grande copo de refrigerante e ele, um maior ainda, de pipoca. Eles resolvem que aquele lanche deveria ser divido pelos dois, pois era comida e bebida suficiente para curtirem o filme fazendo uma boquinha.

Inicialmente, Louise fica um tanto cautelosa, supondo a todo instante que Dico iria aproveitar-se da escuridão do local para ser ousado com ela. Contudo, para sua completa surpresa, ele se mostra um cavalheiro digno de impressionar as damas mais acabrunhadas. Inclusive, é hábil e educado, atentando-se para não topar nela, quando pega de sua mão o refrigerante a fim tomar uns goles e quando lhe passa a vasilha para que encha as mãos com as pipocas, o que começa a incomodar a “amiga” ao seu lado. De vez em quando, ela afasta o olhar da enorme tela para analisar o rosto dele em meio à penumbra e sempre se admira por notá-lo tranquilo, sorridente, aparentemente concentrado assistindo ao filme. “Puxa vida! Será que agora ele só me vê como uma amiga assexuada? Ele não disse nada sobre a roupa que eu escolhi... nem um mísero elogio. Podia pelo menos ter reparado no maldito lenço, que ele mesmo me deu!” Louise acumula-se de queixas sobre o comportamento recatado em demasia dele. Mas conforma-se, ao concluir que ela não deve seguir com essa linha de pensamento, pois poderia acabar sendo tentada ainda mais. Passa o resto do tempo com a atenção voltada ao filme e termina por dar umas boas risadas vez por outra, não mais ligando se ele a observa ou não.

Quando tem fim o filme, que não ultrapassou o tempo de duas horas, Dico a convida para tomarem um chope geladinho, em um bar à beira da estrada, nas proximidades de fora do shopping. Lá chegando, Dico mostra-se outra vez um perfeito bom moço, escolhendo uma mesa longe das extremidades abertas, que recebem a friagem da chuva, conversando amenidades do seu curso de publicidade e propaganda, sobre o filme que acabaram de ver e sobre os seus colegas de república. Ela, no entanto, permanece mais tempo calada, tomando cerveja, ouvindo e concordando com tudo o que ele diz, parecendo um tanto reflexiva.

— O cara não tinha a menor noção de onde tava se enfiando, Louise. Bem no meio da festa ele faz aquela declaração de amor para a loira mais peituda e siliconada que você pode imaginar... aí a garota olha pra ele e diz. “Meu bem, na minha garagem só fica carro importado... só deixei o seu carrinho de segunda mão estacionar uns minutos por caridade!” — O moreno ri muito e bebe mais um pouco da sua caneca de chope.

— É. Ele foi mesmo um tolo. — Louise fala sem demonstrar, entusiasmo.

Eles ficam neste quase monólogo por pouco mais de meia hora, até que pedem a conta. Louise sugere que dividam os gastos e tem que conter a expressão de surpresa quando ele concorda. “Pois é, aposto como aceitou dividir pra deixar claro que amigos dividem as despesas de suas saídas, simples assim!”, pondera consigo mesma.

Voltam para o Fiat vermelho, que está parado a uns escassos metros dali, a passos rápidos, um ao lado do outro, para não se molharem muito com os persistentes pingos da chuva, que teima em cair. Ele entra e destrava a porta para ela poder fazer o mesmo. Assim que Louise entra e se senta ao lado dele. Dico não se contém e a olha com certa curiosidade.

— Hum... Parece que eu te deixei entediada com a minha conversa. Você ficou muito calada a maior parte da noite. — dá um novo riso, só que agora, anêmico e sem graça, como quem se desculpa por algo.

— Não. Olha, Dico... é que... — fica buscando na mente uma explicação convincente, mas não acha, resolve ser sincera. — Ah! Droga, Dico... Ou você é muito distraído ou muito insensível mesmo... porque parece que nem notou que eu tô usando o lenço que você me deu.

— É claro que eu notei, Louise. Só não quis ser indiscreto... ou inconveniente comentando sobre o que você está vestindo. — declara, com voz calma.

— Pois saiba que você pode sim ser indiscreto e inconveniente... às vezes. Talvez eu até goste disso.

— Bom, então se é pra ser mesmo desta forma... Eu tenho que te dizer que eu já sabia que este lenço ficaria muito bem em você, que iria ressaltar os seus olhos lindos e negros, a sua pele lisinha... — Dico vai falando e vendo Louise abrir um sorriso de satisfação por ter seu ego preenchido. Porém, ele a contempla detidamente, finge seriedade. — Mas o que não está combinando nada com o seu belo visual é essa casquinha de pipoca nos seus dentes... que está aí desde de que nós deixamos o shopping.

— Oh, Meu Deus! Pronto! Lá se foi embora o meu glamour! — Ela fica desconcertada, tapando a boca com a mão e passando a língua pelos dentes, tentando identificar onde está a indesejada casquinha de pipoca, enquanto ele prende o riso.

— Olha, Louise, talvez isso não sirva de consolo, mas... eu digo que, se você fosse a minha namorada, eu não ligaria para uma bobagem como esta. Pra mim, você continua beijável. — declara sem desviar os olhos dela.

Louise experimenta o sangue ferver nas veias, com a rápida alteração do pulso. Em segundos, o ato de respirar parece menos fácil. Ela solta um brado quase inaudível, com o rosto voltado para cima, mas sem ver nada em ponto algum, pois a sua já conhecida comichão no corpo passa a invadi-la, sem licença prévia.

— Eu juro que amanhã eu vou me arrepender muito de ter feito isso. — Ela diz aproximando o rosto do dele.

— Isso o quê? — A voz dele se torna grave, enquanto os olhos estão inteiramente voltados para a boca de Louise.

Ela segura, com as duas mãos, o rosto dele e o beija com gosto, sendo retribuída na mesma intensidade. Não demora e as línguas molhadas roçam-se uma na outra, promovendo um som delicioso, erótico, ecoando no interior do carro e em seus ouvidos, estimulando-os a querer executar mais gestos ousados. Dico acaricia os cabelos curtos e lisos de Louise, sentindo um arrepio subir por sua espinha, ao passo que busca intensificar o beijo. Por isso, no momento posterior, o esforço que ele faz para afastá-la e interromper o beijo é grande.

— Louise... Por que está fazendo isso? Não era para sermos só amigos? — exibe um tom de leve sarcasmo escondido por trás do interrogatório.

— Ah! Cala a boca... seu sedutor filho da mãe! Anda, me leva logo pra um motel porque... — Ela põe a boca no ouvido dele e sussurra: — Eu quero que você me foda a noite inteira.

Exultante, Dico mostra um largo sorriso, volta a prender os lábios dela, num beijo mais rápido desta vez, e se apressa em ligar o motor do carro a fim de levá-la para o primeiro motel que encontrarem no caminho.

[...]

Às vinte e uma horas e quinze minutos, Manu entra na república. Encontra-se cansada, mas ansiosa para ter a conversa elucidativa com Vicky. Encontra-a sentada no sofá, em frente à TV ligada, com o controle remoto na mão e, no rosto, um semblante sério e um pouco distraído. Ela veste blusa rósea de algodão folgada e calça-moletom escura.

— Oi! Até que enfim eu cheguei! Vim o mais rápido que pude. Eu bem que tentei sair mais cedo que isso, mas não deu. O movimento tava demais, apesar de ser segunda. É impressionante como aquela lanchonete lota de gente quase todos os dias! — Manu inicia a falar, ao passo que põe a sombrinha aberta a um canto no chão da sala, para escorrer a umidade proveniente da garoa. Ela está com aspecto alegre, sem ter menor noção de que a postura enfadada de Vicky esconde algo mais sério. Ela passou uma noite muito constrangedora em seu local de trabalho, com Dayse encarando-a, a cada instante, com olhos de menina carente e a fazendo sentir-se uma perversa por não ter coragem de cortá-la de forma definitiva.

— Uhum... Manu, é melhor você descansar primeiro. Coma algo. Eu fiz uma sopa e a esquentei agora há pouco... Se quiser, pode levar tudo porque a Louise saiu e acho que a única coisa que ela vai querer quando voltar é dormir. — anuncia com voz arrastada e desanimada.

— E você? Já comeu? — Manu começa a se incomodar com a expressão abatida de Vicky.

— Uhum... Já. — gesticula positivamente, sem tirar os olhos da televisão.

Manu somente suspira soltando o ar pela boca para criar energia. Vai para a cozinha. Faz o seu prato de sopa, volta com ele nas mãos e se senta ao lado dela no sofá, pega uma almofada e a coloca nas pernas, e o prato em cima de tudo.

— E aí... você colocou mesmo algumas roupas pra lavar na máquina, apesar desse tempo chuvoso? — tenta buscar um assunto qualquer para desanuviar o clima tenso, enquanto saboreia espaçadamente a sopa quente.

— Uhum... Coloquei sim. — responde, lacônica.

— E... o que tá passando de interessante nesse canal pra prender tanto a sua atenção? — A pergunta é feita em tom de chacota suave.

— Nada de mais. É só uma novela... com uma história triste que eu costumo acompanhar, de vez em quando. — Há tédio em sua voz.

— E por que você tá assistindo isso, ora? Eu pessoalmente detesto novelas... com os seus finaizinhos patéticos. É uma chatice mesmo, e uma mentira, pois na vida real os finais nem sempre são previsíveis ou com essa felicidade completa. Ao contrário, podem ser bem terríveis! — sorri, achando erroneamente que Vicky está começando a se soltar mais.

— Você que o diga, não é, Manu? Fala como quem tem muita experiência de vida. — dá-lhe uma olhada de viés e sua voz exibe acidez.

— Vicky! Eu não tô te entendendo. Por que tá tão grossa assim comigo? Eu pensei que a gente tinha combinado de conversar civilizadamente... e que você deixaria eu me explicar. Caramba! Mas com esse mau humor aí tá difícil, né? — irritada, Manu levanta-se, joga a almofada para longe, caminha de novo à cozinha, despreza o que ainda há no prato, lava-o e volta no mesmo rastro. Fica parada, em pé, encarando Vicky, aborrecida demais por conta do tratamento recebido desde que chegou. — Olha pra mim, Vicky! Me diz logo que porra tá acontecendo aqui! O que você tem? — cruza os braços e fica em postura ereta, exigindo uma resposta.

— Sabe o que eu tenho? Não? Então eu vou dizer pra você o que eu tenho. Eu tenho asco de gente traidora! — Vicky lança a acusação sobre a ruiva, sem dó nem piedade, ao passo que se levanta, ficando cara a cara com ela.

— Nossa! Vicky... Você tá sendo maldosa. Precipitada! Eu nunca traí você! Tá certo que não tem como negar que a Dayse está obviamente interessada por mim. Você mesma viu o modo atrevido como ela se comportou lá no meio de todo mundo, durante o show, mas isso não significa que eu tenha traído você... ou que eu vá trair.

— Ah... Quer saber mais? A verdade é que pra mim não importa se você me traiu ou não. Eu cansei de você! Cansei da sua mania de querer que eu seja como você... com a sua coragem... se assumindo pra todos. Você só me dá dor de cabeça. Fica me enchendo, me pressionando... Eu não quero mais isso! Pra mim chega! — A morena impõe um olhar de insensibilidade.

— Vicky... O que você quer dizer isso? — Manu pergunta, sentindo uma dor no peito e uma ligeira falta de ar.

— Que eu estou terminando... seja o que for que exista entre nós. Você está livre para ficar com quem quiser... inclusive com ela. — permanece com semblante hostil.

— Não! Você só pode tá de gozação com a minha cara... Vicky, eu passei o dia inteiro... me matando com essa vontade de me acertar com você. Eu fui paciente e concordei em esperar. E agora você me vem com esse papo de terminar? Fala a verdade! Diz que todo esse falatório idiota é porque você tá chateada por ter visto aquela garota me agarrar diante de todos! — Manu está incrédula e pensa que as palavras de Vicky são movidas somente por ciúme.

— Você tem o direito de pensar o que quiser, Manu. O que eu tinha pra dizer eu já disse. Entre nós duas restará só amizade... como deveria ser desde o começo. E isso é o máximo que eu posso te oferecer, a partir de hoje. — arremata, menos alterada, mas mais ríspida.

Manu fica boquiaberta um instante. Porém, de repente ela encara Vicky com uma amargura quase palpável.

— Quer dizer que se eu ficar com a Dayse você não vai se importar? — questiona para ver até onde Vicky seguirá com o seu discurso de fim de relação.

— Sinceramente... Não. Faça como achar melhor. Afinal, a vida é sua. — fala com uma excepcional frieza.

Tudo o que Vicky faz, a seguir, é ir para o quarto de Louise, onde já havia posto os seus pertences para passar a noite e dormir novamente na cama de Lavínia, abandonando Manu em pé no meio da sala, com cara de pasmo absoluto. Manu conclui que sua namorada, de fato, se cansou dela, pelos motivos que mencionou e não mais quer argumentar. Sente-se infeliz, desprezada.

[...]

Notas finais
Bom, é isso aí! Quanta coisa, não é? A vida desses meus personagens está complicando-se a cada nova fase. Lavínia está muito mal e não sei como lidará com esta situação de verdades dolorosas para ela. O senhor Gregory tem mesmo um passado obscuro e cheio de "pecados". Darlene nos surpreende mostrando que não é tão fútil e vazia. "Ela tem um bom coração, apesar de ser amargurada." Louise está em apuros novamente, sua atração inevitável por Dico a fez ceder mais uma vez. Hahaha... Puxa! E a linda relação entre Vicky e Manu foi verdadeiramente afetada. Uma pena! Resta-nos aguardar pelo que virá a seguir. Beijos a todos e muito obrigada aos que continuarem comigo. Até mais!!!