[HIATUS] Mudanças impuras
47 No impulso das adversidades
Notas iniciais
Assim que deixam Lavínia na casa dos pais dela, Dico e Louise seguem rumo à clínica odontológica em que ela trabalha como recepcionista. Quando o moreno estaciona o Fiat vermelho no local, sua namorada retira o cinto de segurança e se inclina ao lado para lhe dar um selinho de despedida, como de costume.
— Então tchauzinho... À tarde a gente conversa mais, na faculdade. — move-se para sair do carro. Dico, porém, segura-a pelo braço, interpelando sua saída.
— Louise, aquele seu mal-estar já passou mesmo? — lança a pergunta, pela terceira vez nesta manhã.
— Quantas vezes pretende me perguntar isso, Dico? — puxa o braço de forma meio brusca. Em seguida, exibe uma postura mais amena para confirmar que está realmente bem. — Sim, passou. Estou ótima, não foi nada de mais... Só não quero ver pizza na minha frente tão cedo.
— Ok... — Ele lhe olha, agora menos prevenido. — Eu me preocupo com você, Louise... Sei que está segurando a barra... tentando ajudar a Lavínia nesse momento difícil que a família dela está passando. E eu não quero que você fique doente, se pressionando demais por ser a melhor amiga, aquela que tem que dar amparo e ser forte.
Louise fica surpresa com esta declaração, pois em nenhum momento imaginou que Dico estivesse insistindo em lhe perguntar se havia se recuperado do mal-estar porque a enxerga como alguém que se sente afetada por causa dos problemas da sua melhor amiga, que inclusive está com a mesma visão que a dele.
— É... eu admito, você tem razão. Acho que não me senti mal apenas por causa da pizza, talvez eu esteja estressada... — suspira, cansada, e expõe um sorriso torto. — É lógico que os problemas que ocorrem na república afetam a todas nós, ou seja, os problemas das meninas me afetam também, principalmente os da Vivi... Ela é minha melhor amiga e está precisando de mim.
— Eu compreendo. Só não quero que você adoeça. — manifesta de novo a sua queixa, o que impacienta muito Louise.
— Ah...Dico, chega! Eu não estou doente, só passei mal, foi só isso! — exaspera-se um pouco, mas logo se recompõe e torna a olhá-lo com docilidade. — Eu fico grata pela sua preocupação, mas peço que não exagere, está bem? Olha, eu tô atrasada de novo... então melhor eu ir, antes que reclamem e descontem do meu salário.
Os namorados despendem-se. Contudo, assim que observa o carro de Dico distanciando-se, Louise respira pesadamente e, ao invés de entrar na clínica na qual trabalha, ela atravessa a rua e segue caminhando, pois seu destino agora é o laboratório de análises clínicas que fica a alguns quarteirões de onde está.
Ao chegar, dirige-se ao enorme balcão, olha para as duas atendentes que ali se encontram e escolhe uma delas para que lhe dê atenção.
— Olá... Por favor, eu quero falar com o doutor Klebert. Ele está? — fala com a gordinha bem maquiada e simpática.
O doutor Klebert Ortiga é um médico gineco-obstetra que atende em um hospital público e neste laboratório, intercalando seus horários ao longo da semana, sendo também um dos ex-amantes eventuais de Louise, e que hoje em dia é somente um amigo que não vê há um bom tempo.
— Ele ainda não chegou, mas o assunto é só com ele mesmo? Você não quer adiantar sobre o que se trata? Talvez eu possa ajudá-la... — mostrando-se receptiva e disposta, a gordinha vai falando, tentando auxiliar como pode.
— Não, obrigada... Eu quero falar com ele mesmo. — Louise anuncia, com o olhar meio inquieto, imaginando se teria que esperar muito. Entretanto, quando desvia o olhar para a porta de entrada do laboratório, dá um suspiro de alívio, pois avista o médico, que coincidentemente também já a distingue e vem em seu rumo.
— Louise! Há quanto tempo! Que prazer em revê-la! O que a traz aqui? Veio marcar alguma consulta? — manifesta alegremente o homem alto, muito alvo e meio careca, mas dotado de um charme no sorriso que lhe salva a carência de beleza física.
— Oi, Klebert! Realmente faz um tempão que não nos vemos, né... Também fico feliz por rever você... E... Bom, eu estou aqui porque preciso de um favor seu... — Louise anuncia, devolvendo o abraço amistoso que recebe e, cuidando em conferir que não são ouvidos, torna a falar, agora em tom de voz um pouco mais baixo: — Eu quero fazer um exame de gravidez o quanto antes e preciso desse resultado também o mais rápido possível. Você pode me ajudar?
Klebert olha-a por uns instantes e avalia que Louise está mesmo parecendo tensa, preocupada.
— Acalme-se, Louise... É claro que posso ajudá-la, mas antes venha comigo até meu consultório, assim poderemos conversar mais um pouco, pois careço que você me informe o que a faz supor que possa estar grávida... Às vezes, são só preocupações desnecessárias... — O doutor Klebert fala serenamente, ao passo que volta a andar, trazendo-a consigo, com um braço ao redor de seu ombro, gesto que não significa malícia alguma, apenas zelo de alguém que a tem em grande estima.
Com efeito, o doutor Klebert e Louise, num passado não muito distante, já tiveram seus encontros visando saciar suas vontades, suas carências físicas, porém, ambos sempre encararam tal união carnal como algo passageiro, sem real implicação afetiva, tanto que a amizade terminou falando mais alto, embora o homem tenha quase abandonado a noiva, – que hoje é sua esposa e mãe de um belo neném que tiveram – pois, na época, ele confundiu desejo sexual com amor e sofreu um bocadinho quando Louise esclareceu a situação e pôs fim ao affair, mostrando-se logo aborrecida, assim que ele se declarou para ela. Posteriormente, a relação voltou a ocorrer, mas somente no contexto de simples amizade.
Agora, como um prestativo amigo, o doutor conduz Louise para outra parte do laboratório e, antes de adentrar com ela pelo recinto característico à sala de atendimento aos clientes, ele se dirige à mesma moça gordinha com quem Louise falou instantes anteriores, dizendo a ela que não lhe encaminhe nenhuma cliente nos próximos minutos, pois iria atender primeiro a sua amiga. Ele a acomoda em sua sala e não demora em lhe fazer perguntas sobre as dúvidas que a assolam. Louise explica que fez sexo desprotegido com seu namorado, confiando no esquema da tabelinha, visto que seu ciclo menstrual sempre foi regular. Conta ainda que sua menstruação, porém, está atrasada há dias e tem sentido enjoos, que estão ficando constantes.
Após deixar o médico plenamente informado, Louise lança nele um olhar que denota toda a sua dúvida aflitiva.
— Ok, Louise... O que você está me dizendo pode ser, sim, os sintomas de uma gravidez, mas, por outro lado, pode ser um alarme falso, às vezes acontece. Então, para obtermos um diagnóstico mais preciso, faremos um exame de sangue chamado beta-HCG... — pausa, reflete uns segundos e volta a lhe olhar. — O ideal é que você esteja há, pelo menos, quatro horas em jejum...
Assim, o doutor e amigo de Louise vai elucidando sobre o procedimento para se fazer o exame que irá detectar, ou não, a sua gravidez e noticiando que o resultado do teste não irá demorar nem o intervalo de uma hora, porém, caso ela não possa ficar esperando no laboratório para recebê-lo, promete que ele mesmo irá ligar para o celular dela e lhe dará a resposta. E ela escuta tudo sentindo o coração apertar-se mais, apenas concordando com cada palavra dita e, desde já, rezando para que o teste dê negativo, que seus sintomas suspeitos sejam apenas provenientes de estresse e preocupação, e nada mais.
[...]
Na mansão Albuquerque...
Mesmo depois de ter conversado com sua mãe e com seu pai e de ter – por força de uma argumentação firme e emocionada – conseguido afastar de suas mentes a ideia do divórcio, Lavínia resolve permanecer ao lado deles a manhã toda desta quinta-feira, buscando reforçar a mensagem de que, unidos, conseguirão transpor este momento difícil.
Durante o almoço em família, continuam conversando, agora de modo bem mais ameno, enquanto Nena e Isabel, outra empregada contratada para auxiliar nos serviços diversos na mansão, que tem menos idade que a outra senhora e é mais recente ali, seguem pondo na mesa as jarras de sucos naturais geladinhos.
— Oh, fazia tanto tempo que não almoçávamos todos juntos! Estou realmente feliz que esteja aqui, Lavínia... Eu adoraria que você viesse mais vezes. — Darlene termina de mastigar e engolir uma garfada de arroz integral com salada para, em seguida, divulgar com sinceridade.
— Também estou feliz, mãe... e, sim, tentarei vir mais vezes, eu prometo. — devolve-lhe o sorriso amável. No entanto, Lavínia interiormente avalia que Darlene, que um dia a tratou com requintes de indiferença e má vontade, hoje parece alguém verdadeiramente arrependida e disposta a reconquistar o tempo perdido através do amor livre de mágoa, cheio de delicadeza e solicitude.
O senhor Gregory direciona seus olhos azul-acinzentados para as duas mulheres que tanto ama e sente novamente uma pontada de remorso comprimindo-lhe o peito. Entretanto, espanta o pensamento ruim, decide introduzir nova conversa à mesa.
— É, filha... Você tem estado mesmo muito distante de nós... e, por isso, eu nem sei exatamente o que tem feito, como está se mantendo, já que recusou a mesada que sempre lhe ofereci... Mas eu lembro que você disse, na vez passada, quando nos falamos por telefone, que está trabalhando... Conte para nós que tipo de trabalho é. — A voz dele parece tranquila, agradável, como se apenas puxasse um diálogo qualquer, mas há curiosidade em seu olhar.
Depressa, Lavínia fica nervosa, porém, puxa o ar para os pulmões, reflete um pouco e decide responder.
— Errr... Bom, não é assim um trabalho de verdade... É só uma o-ocupação de momento, até eu co-conseguir me estabelecer na área de artes... — começa a falar e vai, pouco a pouco, formulando a melhor saída para este impasse, pois não quer causar assombro em seus pais, dizendo que está atendendo mesas numa boate, mas também não lhe agrada ter que mentir. Só que não vê opção menos indigna no momento. — Estou trabalhando na bi-biblioteca da faculdade... co-como auxiliar, no turno da no-noite.
O fato de estar contando uma mentira deslavada deixa-a realmente apreensiva, mas tenta disfarçar o quanto pode e, para sua sorte, nem Darlene nem o senhor Gregory notam seus sinais de agitação. Eles simplesmente sorriem e se mostram contentes.
— É ótimo que esteja tendo a sua primeira experiência profissional, filha... Você está de parabéns! — Ele divulga cordialmente, todavia, volta a ficar um pouco mais sério. — Porém... trabalhando como uma auxiliar de biblioteca, certamente não está ganhando muito, não é? Ah, Lavínia, eu sei que você quer trabalhar, ser independente e acho isso muito bom, mas eu te peço, filha, volte na sua decisão... aceite continuar recebendo a ajuda em dinheiro que sempre lhe dei com prazer, porque não quero que nunca lhe falte nada.
— Não precisamos falar sobre isso agora, pai... vamos deixar isso para de-depois, para quando as coisas estiverem melhor. — refere-se à situação complicada que ele está vivenciando por causa do escândalo.
Ele entende a insinuação e fica ainda mais determinado.
— Não fui demitido, Lavínia, apenas rebaixado de função na Giant Solution e, além disso, continuarei ganhando praticamente o mesmo salário de antes.... Como vê, não há problemas em falarmos disso agora. Por favor, reveja esta sua postura e reabra a sua conta no banco. Você não precisa passar por carência financeira nenhuma tendo a mim para protegê-la desse tipo de contratempo... — empolga-se e termina por revelar sua preocupação com a filha, sobretudo, porque gosta de pensar que todo o seu esforço, a dedicação e as horas de trabalho na empresa representam a alegria de poder dar conforto e estabilidade financeira para as pessoas que lhe são queridas.
Lavínia demora uns segundos para responder novamente.
— Tudo bem, pai... Você venceu. — abre um belo sorriso conciliador. — Eu vou reabrir a conta e, sempre que precisar, recorrerei a ela... Satisfeito?
— Sim, estou. — apregoa. Logo a seguir, estica os braços e põe uma mão sobre a sua e, com a outra, busca a de Darlene, agarrando-a suavemente. — Eu quero compensá-las por esse momento ruim que estamos vivendo e eu garanto que irei dedicar o resto da minha vida nesta missão... porque eu amo vocês duas mais que tudo nesse mundo!
O enunciado comovente alegra Lavínia e faz Darlene emudecer-se, ficar pensativa. Em seu íntimo, ambas absorvem as palavras de Gregory e oram para que, de fato, o episódio do escândalo não ganhe novas proporções desastrosas e que, ao contrário disso, possa ser resolvido o mais rápido, já que ele contratou dois advogados reconhecidos e que costumam ganhar, sem grandes dificuldades, as causas que defendem, para atuarem à frente da acusação de estupro feita pela ex-participante de reality show, Isadora Abranches.
Minutos depois da refeição, Lavínia anuncia que precisa ir, pois embora antes estivesse achando que teria de faltar às aulas da faculdade, felizmente constatou não ser necessário porque está menos agoniada por ter passado um proveitoso momento com seus pais, que igualmente já podem aquietar suas almas e colher os frutos das promessas de que as coisas vão gradativamente se ajustando, se normalizando. Ademais, Lavínia escolhe por não fixar o pensamento às outras questões problemáticas, ao menos por enquanto, como a assombrosa história do passado que lhe foi revelada por Henry – assunto que não sente vontade de abordar outra vez mesmo sabendo que é impossível fugir disso por muito tempo – e o dedo podre do loiro vingativo por trás da acusação gravíssima atribuída ao seu pai.
Quando chega o exato minuto da sua saída, o senhor Gregory não insiste, como de hábito, a levá-la no carro, porém, oferece o pagamento do táxi, o que Lavínia consente para que não ache que ainda guarda em si ressentimentos por ele. Portanto, despede-se deles com abraços apertados, prometendo-lhes que passará a fazer visitas mais frequentes e dizendo que ela e Darlene irão marcar algum programa divertido para fazerem juntas, o que deixa a mulher imensamente contente.
Passados uns minutos, sentada na poltrona traseira do táxi, que se move pela avenida movimentada, Lavínia olha para fora, através da janela. Sente o calor da tarde, que lhe parece até agradável, pois o dia começou chuvoso e frio demais. Resolve conferir a hora no celular e assim que o tem em mãos, ativa-o ficando surpresa ao ver que há cinco chamadas perdidas oriundas do telefone de Pietro. Ela retorna a ligação.
— Puxa, Lavínia, o que houve? Desde que eu acordei que tento falar com você, sem conseguir... Sempre que eu te ligava caía na caixa postal. — expõe sua lamúria, assim que a atende.
A loira, então, se lembra de ter desligado seu celular na noite anterior, após a chamada perturbadora que recebeu de Henry. Ela, ainda por falta de coragem para falar a verdade, trata logo de formular um pretexto qualquer.
— Oh, eu peço mil desculpas... É que o celular estava de-descarregado... Mas assim que percebi, eu o pus para carregar. — tenta impor verdade à sua fala.
— Ah, tá certo... Ei, como você está? Ou melhor, como está a sua família? Eu soube hoje cedo do que estão falando sobre o seu pai, da denúncia que aquela mulher do reality show está fazendo. — fica óbvio que ele já está ciente de toda a confusão em que seu pai está metido e supõe que ela também esteja.
— Pietro, as co-coisas não são e-exatamente como estão anunciando, eu te asseguro que... o meu pai não violentou essa mulher. — quer rapidamente esclarecer o mal-entendido e termina por mostrar-se agoniada.
— Por favor, Lavínia, você não precisa ficar assim. Eu não sou de dar créditos a boatos maldosos, sou um estudante do direito, lembra? Eu preciso de fatos e provas mais específicas antes de tirar conclusões. — fala com voz amistosa. — Além disso, pelo que você sempre fala do seu pai e o que dá pra saber pela exposição dele enquanto figura pública, ligada ao meio empresarial de alta qualidade, como um homem íntegro, um expert em sua profissão, é mais fácil eu confiar na inocência dele do que na história contada por uma pessoa que se mostra querendo ser vista como uma vítima inocente, uma garotinha que caiu na lábia de um velho pervertido, o que não cola muito, né? Ainda mais se levarmos em conta o currículo dela. Mas eu sei que essa situação é bem chata e eu quero que você saiba que pode contar comigo, seja com uma palavra de apoio ou o que for.
— Nossa! Eu amei o que você disse... Que gentil da sua parte! Eu fi-fico muito agradecida e feliz que pense assim... mas não precisa se preocupar. Nós tivemos uma pequena reunião em família, di-discutimos alguns pontos importantes e está tudo se conduzindo melhor do que eu pensava. Eu acredito que esse problema será resolvido o mais rapidamente possível... porque o meu pai já tem dois advogados para defendê-lo. — explica, sucintamente.
— Que bom! Tomara mesmo que tudo se resolva bem e rápido... Então, onde você está agora? Ainda na casa dos seus pais? Vai para a faculdade hoje? — Pietro questiona, ansioso, certamente querendo vê-la.
— Estou num táxi, quase chegando na república. E, sim, eu vou pra faculdade... só que, antes, vou dar uma passada em casa pra tomar banho, me trocar e pegar o meu material... Eu realmente pensei que não teria condições emocionais para ir à aula hoje, mas eu percebi que estou mais calma, então não há por que faltar. — anuncia, em tom sossegado.
Lavínia encerra a ligação deixando Pietro super contente por saber que irá, mais tarde, encontrar-se com sua doce namorada e ele poderá finalmente lhe dar um abraço reconfortante, para que ela saiba que pode encontrar em si afeto sincero e muito apoio.
Ao chegar na república, Lavínia encontra somente Manu e Vicky, fica sabendo pelas meninas que Louise não veio para almoçar e nem ligou avisando que não viria. Fica preocupada, sobretudo, por saber que Louise esteve sentindo-se mal, desde a noite anterior – a loira não tem conhecimento que esse mal-estar tem ocorrido desde o início da semana, uma vez que ela manteve escondido isso de todos. Decide enviar uma mensagem e Louise responde-lhe dizendo que fez a refeição num restaurante perto da clínica porque está resolvendo um problema que surgiu de repente, que não irá para a faculdade hoje e que depois lhe explica tudo. A loira estranha um pouco tal circunstância, mas não vê outro jeito a não ser aguardar.
O tempo decorre razoavelmente sem grandes perturbações e no fim do seu dia letivo, Lavínia por fim se encontra com Pietro, eles conversam mais um pouco, sentados num dos bancos sob árvores, entre os tantos que existem na instituição de ensino. Contudo, ela recusa o convite de Pâmela e de Jonas – que realmente já estão engatando um envolvimento amoroso – para irem lanchar no quiosque de costume e quando demonstra vontade de ir-se embora, Pietro depressa dispõe-se a lhe levar, sabendo que sua irmã não precisaria da sua carona hoje, pois retornará para casa na motocicleta do rapaz que está nitidamente encantado e alegre com a possibilidade de tê-la como namorada. Deste modo, Pietro deixa a loira em casa e, após lhe dar novos beijos e abraços cheios de expectativas, observa-a entrar na república para religar o carro e seguir seu caminho também.
Em questão de segundos, a loira está na sala observando Vicky sentada no sofá com um livro nas mãos, lendo e concentrada em seu estudo.
— Vicky, você está sozinha em casa? Onde estão as outras meninas? — inquire, permanecendo de pé e esperando a resposta.
— Bom, não estou sozinha, mas é como se estivesse, porque a Manu foi pra lanchonete e a Louise chegou com cara de poucos amigos e, sem puxar muito conversa, se enfiou no quarto e não saiu de lá até agora. — Vicky baixa o livro e olha para Lavínia, ao passo que anuncia o que sabe. Depois se recorda de tirar também a sua dúvida com a loira. — Amiga, e a reunião que você teve com a sua família? O que foi decidido sobre o caso do seu pai?
— Errr... Foi melhor do que eu esperava... — responde abreviadamente, pois agora está realmente mais preocupada com Louise. Contudo, não quer transparecer isso para não afetar também a morena, portanto, força um sorriso e torna a articular. — Olha, Vicky, depois eu te explico tudo direitinho... Agora eu vou ver como a Louise está, tudo bem?
Mal Lavínia termina de falar, já segue rumo ao quarto para se encontrar com a sua melhor amiga. E lá está Louise, deitada na cama, olhando para qualquer ponto do teto, com os olhos vagos e uma expressão muito séria.
Lavínia coloca seu material de estudo e a bolsa em algum canto da cômoda e logo se volta para ela.
— Oi, Lou... Então, agora po-pode me dizer o que houve? Por que não foi para a faculdade? Continua se sentindo mal? — questiona, apreensiva, sentando-se ao seu lado, na borda da cama, vendo-a fazer o mesmo.
Louise respira pesadamente.
— Antes de falarmos sobre mim, diga-me como ficaram as coisas com os seus pais... O que conversou com eles? Você não contou mesmo sobre a participação do Henry no escândalo? — É a vez de Louise lançar perguntas para a loira.
A partir daí, Lavínia segreda para a amiga que, felizmente, conseguiu convencer sua mãe a não se divorciar do seu pai, como ela parecia decidida a fazer e que, em razão de ver-se amparado pelo suporte incentivador da família, seu pai está enfrentando a conjuntura adversa de forma um tanto positiva, confiando que os advogados sejam eficientes para, sem demora, salvá-lo de tal transtorno. Ela admite que não mencionou, em momento algum, o nome de Henry, mas garante que o fará, caso a situação se complique e exija uma atitude mais enérgica.
— Eu confesso que tô menos aflita, Lou... porque, apesar de toda essa co-confusão parecer terrível, eu percebi... que a minha família está mais unida e forte do que nunca, ou melhor, como nunca fomos antes... Nós estamos descobrindo o quanto nos amamos e queremos preservar esse amor. — diz, com voz que mostra o seu contentamento, porém, volta a ficar reflexiva. — Por outro lado... eu também entendo que, mesmo depois que o caso estiver encerrado e o meu pai inocentado, ainda assim os boatos persistirão... Ele será apontado na rua, na empresa, onde quer que seja, o chamarão de traidor, de pervertido... por um bom tempo.
— Pior que você tem razão quanto a isso, Vivi. Mas você mesma acabou de dizer que vocês estão mais fortes, então, vocês conseguirão passar por isso, superar essa etapa ruim sem tanto esforço ou sofrimento... E, por isso, fico feliz por você e pela sua família... E eu vou ficar mais feliz ainda quando souber que você conseguiu provar pra aquele loiro filho da mãe, arrogante, louco... que ele não tem esse poder todo sobre você, pra te agoniar e chamar a sua atenção por meio de atitudes tão ardilosas, traiçoeiras... — Louise vai falando e se mostrando tão furiosa e agitada que Lavínia é obrigada a colocar sua mão sobre a dela e interromper o discurso embravecido. Ela nota que Louise está terrivelmente alterada e pressente que tal descontrole e irritação, na realidade, é provocado por outro fator que não tem nada a ver com o assunto que estão abordando agora.
— Lou... amiga, o que foi? Por que tá assim? Parece que você está muito chateada com algo... Na mensagem que você me enviou, dizia que estava resolvendo um problema que surgiu de repente. Me diz, que problema é esse? — investiga, enquanto franze o cenho e lhe olha detidamente.
Louise ergue-se da cama, dá dois passos e se volta de novo para a loira, exibindo uma expressão muito séria.
— Eu tô grávida. — divulga, sem entonação alguma na voz.
Lavínia também se levanta e fica atônita, não sabe se a abraça, se lhe dá os parabéns ou se simplesmente continua calada. Afinal, está escrito no rosto de Louise que a notícia não lhe causa regozijo algum. Por isso, resolve apenas confirmar o que ela disse.
— Você te-tem... certeza disso? — pergunta, avaliando o comportamento enigmático da amiga, com o coração já apertado no peito, não vê isso como bom sinal.
— Eu vou fazer um aborto. — Ao invés de responder a pergunta, Louise apregoa outra afirmativa, com igual frieza na voz.
O quarto adquire um clima muito tenso e o coração de Lavínia se comprime mais ainda dentro do peito, pois ela sabe, através da postura resoluta de Louise, que sua amiga está totalmente decepcionada com a possibilidade de ser mãe.
[...]
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